"Bolívar e a campanha da Venezuela"
por Miguel Urbano Rodrigues
PREFÁCIO À EDIÇÃO PORTUGUESA
[*]
Simón Bolívar continua a ser quase um desconhecido para os
portugueses. São escassas as obras editadas no país sobre a sua
vida, e o pensamento do revolucionário não mereceu a
atenção dos nossos historiadores e cientistas políticos.
Na opinião do autor deste livro "o pensamento de Bolívar,
tal como acontece com o de Karl Marx, transcende os tempos. Tem e terá
continuadores. Por isso se fala do pensamento bolivariano como se fala do
pensamento marxista. Cada qual naturalmente com os seus próprios
esquemas e estilos. Um e outro, partindo de mundos e realidades diferentes,
fizeram a crítica fulminante da opressão existente e
traçaram caminhos aos povos".
[1]
A actualidade e importância do ensaio agora apresentado pela
Campo das Letras
é tanto maior quanto na Venezuela, pátria do Libertador, se
desenvolve impetuosamente uma revolução que se assume como
bolivariana.
Que significa exactamente hoje ser bolivariano?
A leitura da
Campanha Admirável de Bolívar
responde parcialmente a essa pergunta formulada na Europa por milhões
de pessoas, não obstante a obra incidir sobre um acontecimento da
juventude do herói.
Juvenal Herrera Torres é um colombiano de Medellin, tratado no seu
país como historiador maldito pelos intelectuais da oligarquia.
Não lhe perdoam o esforço realizado como universitário e
escritor para "recuperar" Bolívar e reflectir sobre a
modernidade do seu pensamento político.
Conheci-o em Havana, ali nos tornamos amigos, e tive a oportunidade de o ouvir
falar durante muitas horas de Bolívar e da teia de calunias que as
forças mais reaccionárias do Continente continuam a tecer em
torno do homem, do ideólogo, do soldado, do revolucionário.
É natural. Desde o levantamento que na Venezuela abriu caminho à
efémera I República, a vida de Bolívar foi um batalhar
permanente pela independência e unidade dos povos da América
Latina.
Por ter sido um revolucionário autentico, o Libertador adquiriu o perfil
de um inimigo para aqueles que tudo fizeram para lhe destruir a obra.
Não podendo ignorar a sua intervenção na Historia, criaram
o mito dos dois Bolívares: enaltecem o general vitorioso, mas satanizam
o estadista, o pensador político e o reformador social
revolucionário.
Juvenal Herrera desmonta essa tese fantasista. Neste livro, um dos muitos em
que estuda Bolívar, usa como instrumento para atingir o objectivo uma
das suas campanhas menos conhecidas.
O discurso do historiador permite ao leitor, colocado no cenário dos
acontecimentos, acompanhar a historia em movimento. É dos actos e das
palavras que nasce a evidência. Entre o militar e o político
não há contradição, mas, pelo contrário,
harmonia. São complementares.
É compreensível que a memória da campanha de
Bolívar em 1812/13 seja muito incómoda para as oligarquias
colombiana e venezuelana. Ela ficou a assinalar uma prodigiosa façanha
militar, com implicações políticas continentais e chamou a
atenção dos povos da América para o génio do jovem
que a concebeu e concretizou.
Bolívar tinha 29 anos quando em Cartagena de Índias um dos
últimos redutos no Caribe da rebelião contra a coroa espanhola
ofereceu os seus serviços ao Congresso da Nova Granada.
[2]
O coronel Manuel Castillo e Labatut, que exerciam então o comando
militar naquele bastião independentista, não levaram a
sério o pedido do jovem caraquenho, que regressava derrotado de Puerto
Cabello, na Venezuela. Mas, perante a insistência, Camilo Torres,
presidente do Congresso da Nova Granada, tomou a iniciativa de lhe atribuir uma
tarefa irrelevante: instalar-se com 70 homens em Barranca, um vilarejo
insalubre no baixo Magdalena. Ficou transparente que a sua missão seria
de simples vigilância. Estava-lhe vedado tomar a iniciativa de qualquer
operação militar.
As tropas espanholas ocupavam então as principais cidades da Nova
Granada, incluindo a capital, Santa Fé de Bogotá.
Pela audácia, imaginação e concepção
estratégica, aquilo que Bolívar fez nas semanas seguintes traz
à memória guardadas as proporções, pois eram
insignificantes os recursos humanos e materiais de que dispunha
campanhas de Alexandre, Aníbal, César e Bonaparte.
Em Barranca, Bolívar reforçou o seu destacamento de soldados
esfarrapados com 130 voluntários locais e construiu dez balsas para,
desafiando as instruções recebidas, navegar rio acima.
No dia 23 de Dezembro atacou Tenerife, defendida por uma
guarnição de 500 homens. Venceu.
Informou Cartagena da sua vitória, mas não esperou pela resposta.
Seguiu para o Norte pelo Magdalena e derrotou os espanhóis em
Mempós. Encontrou ali 15 barcos e obteve a adesão de mais 300
voluntários.
Ao saberem da sua aproximação, as guarnições
realistas milhares de soldados começaram a abandonar as
praças que ocupavam. Entrou assim quase sem combater em El Banco,
Chiriguá, Tamalameque e Puerto Real. Em apenas 17 dias limpou de tropas
espanholas o vale do baixo Magdalena.
No inicio de Janeiro de 1813 dispunha já de um pequeno exército
de 700 homens. Para financiar a campanha expropriou os bens dos inimigos da
independência e estabeleceu o
empréstimo obrigatório
para os moradores abastados.
Antes de iniciar as operações militares, Bolívar tornara
pública, em 15 de Dezembro, uma proclamação que ficou
conhecida como o Manifesto de Cartagena, que antecipou, pelo rumo
traçado e pela opção ideológica, a Carta da
Jamaica, o discurso ao Congresso de Angostura e o projecto do Congresso
Anfictiónico do Panamá.
O Manifesto de Cartagena é simultaneamente uma reflexão sobre a
História e a síntese da sua futura estratégia
revolucionária. Segundo o filósofo Fernando Gonzalez,
"está ali a história da Revolução até
1813 e é e será sempre um ensinamento para a América do
Sul".
Bolívar deixa entrever o seu próximo objectivo:
"A Nova Granada viu sucumbir a Venezuela; por conseguinte, deve evitar os
escolhos que destroçaram aquela. Para esse efeito apresento como medida
indispensável para a segurança da Nova Granada a reconquista de
Caracas".
Em Cartagena de Índias e Tunja, onde se instalara o Congresso, as
notícias das vitórias de Bolívar provocaram
reacções contraditórias. O povo recebeu-as com
entusiasmo. Mas os políticos, com poucas excepções, e os
comandos militares concluiriam que Bolívar violara as
instruções recebidas e actuava de maneira irresponsável.
O coronel Manuel Castillo afirmou que era
um demente
que nada entendia da arte da guerra.
Quanto aos comandos espanhóis, admitiram que o jovem venezuelano iria
permanecer onde estava para consolidar as áreas reconquistadas.
Enganaram-se. Depois de simular que iria subir pelo Magdalena para atacar
Bogotá, Bolívar abandonou o vale do grande rio e, numa manobra
rapidíssima, tomou a 8 de Janeiro a praça de Ocaña, ponto
estratégico que domina a passagem da Cordilheira oriental dos Andes.
Em Tunja e Cartagena recrudesceu o clamor dos politiqueiros contra o
caudilho venezuelano.
Bolívar não rompeu, mas não recuou. Pediu
autorização para avançar sobre Cucuta e Mérida,
rumo a Caracas.
Castillo, indignado, qualificou de
aventura quimérica
o projecto, próprio de uma
cabeça delirante.
A desproporção era efectivamente enorme. Enquanto
Bolívar dispunha então de 1600 soldados mal armados, mal vestidos
e pior alimentados, as forças realistas, sob o comando do general
Monteverde, contavam com 16 000 homens e uma excelente artilharia.
Entretanto, os inimigos de Bolívar foram derrotados militarmente na
Costa pelos realistas, o que alterou a relação de forças
no Congresso. Camilo Torres, com o apoio de Nariño o grande
prócer da independência conseguiu que Bolívar fosse
nomeado comandante-chefe. Mais importante ainda, foi-lhe dada a
autorização para avançar sobre Caracas.
A segunda fase da campanha foi o complemento da primeira.
O génio estratégico e táctico do general venezuelano
impôs-se. O Libertador conseguiu confundir e desorientar um
adversário que tinha uma superioridade de dez para um.
Cartas suas com planos falsos foram apreendidas a mensageiros. Nunca estava
onde os peninsulares o imaginavam e caía sobre eles quando e onde
não o esperavam.
Em 23 de Maio entrou em Mérida e no fim de Julho destroçou os
realistas em Taguanes, depois de os expulsar de Trujillo. Dali avançou
sobre Valência e ocupou a cidade sem combate. Finalmente, no dia 6 de
Agosto entrou triunfalmente em Caracas, abandonada pelos espanhóis.
Juvenal Herrera chama a atenção para o significado que assumiu na
Campanha Admirável
uma decisão tomada por Bolívar: o polémico decreto da
Guerra a Muerte.
Ao ocupar Trujillo, o general vencedor apercebera-se da indiferença da
população perante aqueles que chegavam para a libertar.
Na Venezuela, contrariamente ao que ocorrera em Nova Granada onde a
memória da rebelião dos
comuneros
no final do século XVIII permanecia viva na consciência das
massas o povo não se sentira representado no discurso e nos
actos dos políticos da I Republica. Esta fora obra de uma aristocracia
de brancos descendentes de espanhóis que, embora invocando ideais da
Revolução Francesa, mantinha a escravatura, desprezava
índios e mestiços e pretendia conservar os seus
privilégios. O próprio Bolívar pertencia pelo nascimento
a essa classe social.
Como bem sublinha Juvenal Herrera, "Bolívar não esquecia
que muito mais de metade das forças realistas era na Venezuela formada
por nativos que haviam adquirido o hábito da obediência ao
império, que nunca tinham sido livres, e portanto nada sabiam de
liberdade, e, assim, nessas circunstancias, a guerra de independência
tinha ao mesmo tempo certo caracter de confrontação civil".
Ao declarar, por decreto, uma guerra sem quartel aos ocupantes estrangeiros,
Bolívar pretendeu " divorciar a fidelidade a Cristo da fidelidade
ao Estado espanhol". O objectivo era a "substituição
do rei, como símbolo de fraternidade e justiça pela
América e a Republica".
Vale a pena recordar que Carlos IV, deposto por Napoleão, tinha
declarado publicamente que "os americanos não têm
necessidade de saber ler (...) basta que sejam reverentes para com deus e o seu
representante, o Rei de Espanha".
" Ao opor a
guerra a muerte
ao ódio de castas e raças comenta Juvenal Herrera
Bolívar indicou ao povo que a divisão não se faria de
acordo com o nível social ou a cor da pele, que a pátria era o
património comum de todos os nela nascidos".
A
Campanha Admirável
não visava a liquidar o domínio espanhol no Continente. A curto
prazo isso não seria possível. Bolívar estava consciente
disso. Meses depois da retomada de Caracas, finda a guerra contra a
França, a Espanha ficou com as mãos livres para combater a
rebelião das colónias americanas. Em breve o general Pablo
Morillo desembarcaria com um exercito de 15 000 veteranos das guerras contra
Napoleão. Mais de dez anos de luta iriam transcorrer até
à derrota e capitulação em Ayacucho, no Peru, do ultimo
exército da Espanha na América do Sul.
Mas a
Campanha
Admirável foi, alem de assombrosa façanha militar, uma
experiência que permitiu a Bolívar conhecer melhor os povos da
região, reflectir sobre o tipo de instituições importadas
que não serviriam para as colónias quando independentes.
Naqueles meses tomou forma também a sua concepção do
futuro exército libertador. Para o jovem general, o exército
deveria ser o braço armado do povo, um instrumento de garantia das
liberdades e dos direitos dos cidadãos.
Datam dessa época os primeiros atritos com Santander que, anos depois,
seria o seu maior adversário.
Finda a guerra, após anos de batalhas que o levaram das florestas
do Atlântico caribenho à travessia dos gigantes andinos e aos
desertos do Peru e às praias do Pacifico, Bolívar tratou de
aplicar na Grande Colômbia a Venezuela, a actual Colômbia, o
Panamá e o Equador as suas ideias libertárias. O projecto
chocou-se, era inevitável, com a ambição de muitos dos
seus generais e com os adeptos de um parlamentarismo caricatural, inspirado em
modelos europeus.
Bolívar libertou os escravos, defendeu a restituição das
terras às comunidades índias, instituiu a educação
gratuita, criou hospitais, e asilos para os veteranos da guerra, nacionalizou
a navegação no Magdalena, protegeu a produção
nacional da concorrência com as mercadorias estrangeiras, incentivou a
industria incipiente e o comercio, decretou o monopólio das riquezas do
subsolo, tentou moralizar a Justiça e defendeu a soberania nacional no
diálogo com os EUA e com a Inglaterra, a primeira potência
mundial.
A sua breve ditadura do ano 28 tão criticada pelos que o
hostilizaram e caluniaram foi um regime revolucionário
progressista que antecipou ideias da ditadura do proletariado, tal como a viria
a definir Lenine quase um século mais tarde.
As oligarquias locais, que já detinham o poder económico,
pretendiam garantir o poder político com a independência.
Opunham-se a reformas de fundo nas estruturas sociais e económicas das
antigas colónias.
Bolívar concluiu que a vitória militar seria inútil
socialmente se as novas republicas não adoptassem uma política
que permitisse ao Estado funcionar em beneficio das grandes maiorias. As suas
ideias universais não podiam, contudo, prevalecer na época
porque colidiam frontalmente com o regionalismo conservador, a arrogância
e a mesquinhez da nova aristocracia militar que se instalara no poder de
Caracas a Lima, de La Paz a Bogotá.
A Igreja excomungou Bolívar, identificou nele um satanás
americano. Na Venezuela retiraram-lhe a nacionalidade e confiscaram-lhe as
propriedades. Os inimigos colaram-lhe apodos como "caudilho dos
descamisados", "monstro do género humano" e "tirano
libertador de escravos".
Para o general Santander, vice-presidente da Grande Colômbia, a
vizinhança dos EUA era uma dádiva da Providência e o
exército deveria ser o instrumento de repressão do Estado
oligárquico, tal como o concebia. A propriedade privada aparecia-lhe
como sagrada e cimento da democracia. Daí a sua irredutível
oposição ao Bolívar revolucionário quando este, ao
regressar do Peru, após cinco anos de ausência, se mostrou
alarmado com a miséria dos povos oprimidos da Grande Colômbia.
De uma carta então dirigida a Santander consta o desabafo que o
incompatibilizaria com a nova classe dominante: "Não sei como
não se levantaram ainda todos estes povos e soldados ao
concluírem que os seus males não vêm da guerra, mas de
leis absurdas".
Santander acusou-o de pretender desencadear uma "uma guerra interior em
que ganhem os que nada possuem, que são muitos, e percam os que temos,
que somos poucos".
Não é de surpreender que o governo dos EUA, cuja
ambição crescia, condenasse com veemência o projecto
bolivariano de uma América Latina unida numa grande
confederação de Estados irmãos. Os governos de Monroe e
de John Quincy Adams viram nele "um déspota militar de
talento", "o louco da Colômbia", "o libertador de
negros". Os agentes consulares norte-americanos no Peru financiaram
conspirações contra o revolucionário cujas ideias e actos
eram incompatíveis com os projectos de Washington para o Sul do
Continente, a longo prazo, porque no momento a potência hegemónica
na região era a Inglaterra. Foi um desses diplomatas que incentivou a
invasão do Equador pelo exército peruano. Outros apoiaram o
general Ovando, responsável pelo assassínio do marechal Sucre, o
mais puro e talentoso dos soldados de Bolívar.
Juvenal Herrera recorda neste livro tão didáctico que se assistiu
naqueles anos a uma aliança de quantos se opunham à
concretização "do ideal bolivariano que identificava a
guerra de libertação com uma revolução social que
extinguisse os privilégios e eliminasse todas as formas de
opressão, elevando os habitantes ao nível de
cidadãos".
António José Sucre dizia que Bolívar diferia de todos os
seus contemporâneos porque tinha o dom de "ver o futuro". Foi
o primeiro latino-americano a apontar a ameaça que o nascente
imperialismo dos EUA iria representar para as republicas do Sul. Mas em 1830,
quando morreu amargurado, as classes dominantes festejaram em todo o Continente
o seu desaparecimento físico. O esfacelamento da Grande Colômbia
reforçou a sua convicção de que a obra do Libertador fora
definitivamente destruída.
Engano. As ideias de Bolívar iriam renascer. O seu exemplo, as suas
lições, o sonho da unidade latino-americana não foram
esquecidos. Hoje, transcorridos 174 anos, o projecto revolucionário
do herói de Carabobo e Junin é retomado na Venezuela e empolga
milhões de latino-americanos.
Notas
(1) Juvenal Herrera Torres,
Bolivar: La Libertad del Ser y del Pensar,
pág 119, Bogotá
(2) Nova Granada era o nome do antigo vice-reino cujo território
corresponde à actual Colômbia.
[*]
Juvenal Herrera Torres,
Bolívar e a Campanha da Venezuela
(título original:
Bolívar y su Campaña Admirable
),
Campo das Letras
, Porto, 2005, 133 pgs, ISBN 972-610-956-6.
Este prefácio encontra-se em
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