Meditação descontínua sobre o envelhecimento

por Jorge Seabra

Capa: 'Retrato do Dr. Gachet', Van Gogh. Caros amigos:

Ultimamente tenho sido mais solicitado para a apresentação de livros. Isso tem acontecido não só por iniciativa do meu editor, aqui presente, o Adelino Castro, cuja competência e gosto não posso por em causa sem ameaçar o meu próprio ego literário, mas também por parceiros de outras lutas e idades. Provavelmente haverá nesses convites a partilha de um conceito comum. O de que, muitas vezes, estas cerimónias se transformam numa incomensurável seca sem paixão nem compaixão pelos presentes, que, por amizade ou delicadeza, não têm a coragem de fugir quando as coisas começam a descambar para a chatice.

Essa questão, hoje, nem sequer se põe quanto ao autor. Quem já o ouviu sabe que por aí não corre qualquer risco.

Trata-se, pois, para o apresentador, de atingir um único objectivo: falar de Miguel Urbano Rodrigues e do livro, sem estragar tudo. É essa a minha missão. É essa a minha ambição.

Miguel Urbano Rodrigues é já, de quase todos os presentes, conhecido. Poderia acrescentar aos dados que estão na badana, mais cargos e obras, sublinhando em particular a sua invulgar carreira de jornalista. Mas curiosamente, para mim, que só hoje o vi em carne e osso, a memória fez-me recordar que ele me apareceu em finais dos anos sessenta, no ambiente das lutas estudantis, chegado num livro passado por baixo do balcão da Unitas, a nossa cooperativa livreira, ou arranjado noutro lado, numa edição brasileira como tantas que circulavam num circuito feito de cumplicidades escondidas.

Era um tempo de sombra, encerrado no dia que hoje comemoramos, mas era também o tempo da Revolução Cubana, de Fidel e de Guevara e o escritor do livro, dizia tudo o que era preciso saber sobre a América Latina.

Por qualquer razão que não recordo, talvez por ter perdido a capa nas voltas e reviravoltas dadas pelos leitores, ninguém, na minha República – o "Kimbo dos Sobas" – de sabor e cheiros africanos, sabia que o autor era português e menos ainda, que era irmão de Urbano Tavares Rodrigues.

Para nós transformou-se rapidamente num clássico passado de mão em mão, usado na discussão das teorias da revolução transportadas da Sierra Maestra para a Serra da Estrela, do planalto dos Macondes para o deserto do Namibe, como fonte de argumentação para contrariar os defensores do romantismo admirável mas ineficaz do "Che". Foi, na altura, uma muleta na defesa da luta de massas, da mobilização colectiva, paciente, rigorosa, arrastada mas incisiva, que agarra o Povo como um só todo.

Com Miguel Urbano Rodrigues percebemos que não basta uma imensa generosidade ou uma indómita vontade de mudança, se transplantada mecanicamente de lugar, sem a percepção das raízes e especificidades sociais, económicas e históricas de cada país e de cada povo.

Possivelmente, provavelmente, nunca terá passado pela cabeça do homem agora aqui sentado a meu lado, a forma gulosa como foi lido, bebido, mastigado e arremessado, nas discussões desse círculo de estudantes portugueses e africanos que uma amizade cruzada pelo regime e pela guerra ainda mais unia, numa Coimbra pacóvia e abafada, quase a despertar para a Crise estudantil de 69, há quase meio século.

Também a quem aqui vos fala, nunca passaria pela cabeça que um dia iria apresentar um livro desse autor das Opções da Revolução na América Latina [1] , um marco na sua formação e no seu imaginário, que tantas vezes usou como fonte de uma autoridade honesta e vivida, citada na juventude.

Imaginava-o então, como a todos os sábios, estranho, distante e velho. Pelo menos com a idade que agora tenho ou que ele tem, o que é ser muito velho para um jovem a sulcar a casa dos vinte.

De qualquer maneira via-o de uma forma bem diferente da que redescobri mais tarde, já identificado como português alargado a cidadão do mundo, ao ler o Alva [2] , um livro também diverso mas com o mesmo sabor profundo.

Por isso, entre cirurgias e consultas dos meus ossos do ofício, agarrei-me a esta Meditação descontínua sobre o envelhecimento [3] , que, se apenas se levasse em conta o título e tivesse tido a desventura de lhe arrancarem a capa e as badanas como aconteceu ao primeiro, poderia passar por ter sido escrito por um colega meu de Psiquiatria.

Este, felizmente, tem capa. Bem bonita, por sinal. E bem escolhida. Com manchas de azul nocturno, sem contudo esquecer o vermelho vivo.

"Comecei a envelhecer desde que nasci". É assim que começa o texto, numa evidência exacta mas quase provocadora, explicativa de muito do que vem a seguir. E depois da aventura da infância, quando a morte significava "a impossibilidade de comer coelho guisado com miolos", passadas as primárias ideias de Deus e do Diabo – que lhe despertou mais interesse por não perceber porque não ardia –, após a descoberta da sexualidade e do primeiro casamento, surge uma das linhas condutoras do resto da sua vida. A condenação do rame-rame quotidiano, a recusa da rotina que, como diz, " encurta a vida ao repeti-la", o residir sempre na mesma casa, o mesmo caminho para o trabalho, os mesmos restaurantes, a mesma praia, a redutora ambição da reforma a que chama " super-rotina da velhice".

Não deseja "gastar a vida sem viver", com "o tempo imóvel", segundo as suas palavras.

Não é isso que quer, e não vai ser esse, portanto, o seu trajecto. Quer gastá-la bem. Intensamente. Atravessando doenças e paixões e conhecendo o mundo. Da América Latina à Índia, de África ao Afeganistão, das terras altas do Hindo-Kuch ao gélido Árctico Siberiano. Vivendo a festa e a felicidade da revolução de Abril e do PREC, voltando a mergulhar na Amazónia colombiana já depois dos 70, adaptando-se à temperatura e à altitude, estudando a História dos homens e das religiões e viajando nela com as personagens e as gentes que a marcam ou a marcaram.

Usa, como utensílio, uma memória privilegiada para integrar toda essa cultura na horizontal e na vertical, dando-lhe maior fundura, aí estruturando a sua militância na luta dos justos, percebendo que, como diz, "a política, na sua acepção mais elevada é inseparável da aventura humana".

E, a par disso, primeiro ao de leve, depois mais marcado, o diálogo cada vez mais constante com o corpo, as marcas físicas do passar do tempo, esse animal rastejante que nos ataca a todos desde a nascença, é certo, mas parecendo mais rápido na velhice, porque, como alguém disse um dia, ele só falta no fim.

É ele, o tempo, também o sujeito de outras reflexões, sobre a complexidade da transição do capitalismo para o socialismo, o desfasado reflexo das mudanças na superestrutura social, a luta de classes que permanece e se desenvolve após a revolução, a oposição do Velho ao Homem Novo, as contradições temporais da perspectiva individual e social na História, a tensão das convulsões sociais que desenvolvem as melhores potencialidades humanas e a dificuldade de transmissão dessa dinâmica às gerações seguintes já num ambiente de normalidade, o afastamento e abandono de ideais de outrora, de velhos amigos companheiros de trincheira.

O livro passa por tudo isso numa análise fundada na dialéctica materialista, fugindo a álibis simplistas para explicar o colapso dos países onde a tentativa de construção do Socialismo desembocou num caos e num desastre.

E, nesse caminho, relembra encontros com Luís Carlos Prestes, Ortega e Gasset, Volodia Teitelboim, com o húngaro Meszáros, Domenico Losurdo e outros.

"Paradoxalmente, sinto-me mais comunista do que então", diz. Talvez o alegado paradoxo seja só uma forma de expressão, porque, para muitos de nós, nunca, como hoje, foi tão fácil encontrar a razão e a actualidade de Marx nas contradições e desenvolvimentos da realidade que nos cerca. Um mundo de riqueza e de miséria, que se exprime através de distorções ideológicas obscenas, em que a Miss Universo de visita a Guantánamo acha tudo "muuuito divertido" e em que se ousa defender que o encher de água os pulmões de um preso não constitui qualquer forma de tortura.

O livro, não tem, contudo, como objectivo, a análise aprofundada destes temas, que afloram apenas como partes de um trajecto, pontos de passagem no caminho palmilhado por Miguel Urbano Rodrigues.

Mas nem por isso eles nos deixam de tocar de forma marcante, fazendo-nos pensar, largando um rasto de ideias que nos interrogam.

Enfim, o mais interessante será, sem dúvida, ouvir o autor – a minha vontade seria a de passar horas a ouvi-lo num qualquer café ou esplanada – agradecendo-lhe esta prenda que nos deixa, e dar os parabéns à Calendário por ter ajudado a que ela nos chegue às mãos num suporte tão bonito e bem cuidado.

25/Abril/2009

[1] Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1968.
[2] Editora Campo das Letras , Porto, 2001, 392 pgs., ISBN 9726104297
[3] Editora Calendário , Coimbra, Abril de 2009, 224 pgs., ISBN 978-972-8985-32-5


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