A mitologia do imperialismo

por Jonah-Raskins [*]

Clique a imagem para encomendar o livro. Capítulo II – Os contrastes de Kipling

Poema atrás de poema, conto atrás de conto, e romance atrás de romance, Kipling traçou repetida e incansavelmente áreas de contraste, amplas e bem vincadas. Kipling insiste nas distinções entre homem e animal, entre o primitivo e o civilizado, o integrado e o marginal, o patrício e o plebeu, o oriente e o ocidente, a Inglaterra e a Índia, o preto e o branco, o céu e o inferno. Existe aqui a possibilidade para antagonismos violentos, mas isso não acontece no mundo de Kipling, apesar de os seus personagens serem quase sempre sanguinários e marcados por cicatrizes. Nas suas obras iniciais – Plain Tales from the Hills, Life's Handicap, e The Phantom Rickshaw – apresenta o contraste entre o vulgar e o extraordinário, os fantasmas e as realidades, o limitado e o poderoso; compara a anglo-India provinciana com a Inglaterra, a sociedade de conforto com as forças anárquicas que jazem sob a superfície e para além das suas fronteiras. Comanda as forças da ordem e da desordem, a estabilidade e a fragmentação, no palco indiano. Em Captains Courageous, compara Harvey Cheene, o rapaz rico, com Dan Troop, o rapaz pobre, o noviço com o iniciado; a vida de ócio com a vida do trabalho. Em The Naulahka, "Uma História do Oriente e do Ocidente", escrita em colaboração com Wolcott Balestier, compara o ocidente americano com as planícies indianas; a escorreita rapariga americana com a escura princesa indiana; o esplendor aristocrático da Índia com a simplicidade e a persistência do Colorado. Em The Light That Failed compara o campo de batalha egípcio e Tommy Atkins, o soldado britânico, com Londres, o mundo literário e o artista. Compara o mundo de respeitabilidade, amor e casamento com a paixão, o sexo e a má reputação. Compara as exigências da arte com as necessidades da acção. Em O Livro da Selva compara a tribo com o forasteiro, a aldeia do homem com o agrupamento de animais, a lei com a anarquia.

Os contrastes são estabelecidos solidamente mas as situações dramáticas resolvem-se sem luta dura. Não dão azo a conflitos dialécticos. Os heróis de Kipling vivem num mundo que está dividido entre oriente e ocidente, pretos e brancos, ricos e pobres. São formados por partículas atómicas, que os empurram para o oriente e os puxam de nova para o ocidente, em direcção ao homem negro e de volta ao homem branco. Mas os puxões e empurrões são ténues. As partículas não colidem e portanto não produzem novas partículas nem antipartículas. Kipling mantém sob controlo os impulsos opostos dos seus heróis e dos exércitos rivais na sociedade. É ele quem manobra a máquina, empurrando alavancas e carregando nos botões. Os contrastes de Kipling são imutáveis; cataloga e compartimenta as suas personagens. Permite aos seus homens que passeiem com uma trela, mas exige que eles se mantenham perto de casa. E eles obedecem sempre. O Inferno, o Oriente, a Selva – estas palavras são vistas e exploradas pelos seus heróis. Mas são vistas em espelhos côncavos ou convexos, e são mais patrulhadas do que exploradas. Os mundos subterrâneo e exterior são rejeitados. As personagens de Kipling regressam rapidamente ao céu, ao ocidente e à civilização. Logo no início do jogo, torna-se evidente o resultado das expedições ao exterior. Em The Naulahka ficamos a saber que Tarvin não vai ficar na Índia; não vai casar com a princesa indiana. Tem que regressar ao Colorado com a escorreita rapariga americana. Há alturas em que fica apavorado e fascinado com os extraordinários horrores e belezas da Índia, mas regressa à América mediana. Em Captains Courageous ficamos a saber que Kipling vai libertar Harvey Cheene do barco pesqueiro We're Here tão rápida e decididamente como o vai deixar cair do paquete luxuoso no Oceano Atlântico.

O trabalho é atraente para um verão mas não como modo de vida; Cheene regressa à sua família rica e poderosa. Não achamos, como o autor pretende que achemos, que ele vai ser um capitalista melhor só porque foi um trabalhador. Kipling descreve o homem da organização no isolamento, o puritano na Boémia, o homem branco no meio dos pretos. Os seus homens são definidos, os seus espíritos tornam-se flexíveis, os seus músculos ficam tensos, ao contacto com os tipos seus opostos. Observam os movimentos dos adversários num espelho mágico e ajustam-se a si mesmos em conformidade. Raramente há um conflito aberto entre as personagens de Kipling. Em Captains Courageous não há conflito entre trabalhadores e patrões. Nos contos da anglo-India não há uma relação dialéctica entre oriente e ocidente, pretos e brancos. Kipling cria a harmonia entre classes e culturas. Na sua escala, o movimento tem uma única direcção: o puritano desce no meio dos boémios, mas o boémio não consegue subir no meio dos puritanos; o homem branco vive entre os negros, mas o negro não consegue viver entre os brancos. O rapaz rico faz de rapaz pobre, mas o rapaz pobre não pode fazer de rapaz rico. Harvey Cheene troca o seu fato de tweed pela roupa do pescador, aprende o calão do pescador, mas não passa de um rapaz rico a imitar um pescador. Mowgli é o protótipo de todos os heróis de Kipling. Define a sua situação difícil quando, depois da caçada, canta num ritual na selva:

Danço no esconderijo de Shere Khan, mas o meu coração está oprimido. A minha boca está rasgada e ferida com as pedras da aldeia, mas o meu coração está leve porque voltei para a selva. Porquê? Estas duas coisas encaixam-se em mim como as cobras lutam na primavera. A água escorre dos meus olhos; mas eu rio-me enquanto ela cai. Porquê? Eu sou dois Mowglies…

Mowgli, o filho do homem é um estranho na selva, e Mowgli, um irmão da tribo da selva é rejeitado pelos homens. Tem família na aldeia indiana e na selva indiana. É um homem-menino na selva. Kipling cria um contraste entre o homem e o animal, mas isso é uma manobra de diversão. O contraste vital em O Livro da Selva não é entre o homem e o animal mas entre a lei e a anarquia, o império e os indianos. Quando Mowgli opta por um dos lados abandona o mundo dos animais para se juntar ao mundo dos homens; mas os homens são homens brancos, não são morenos. Troca o jugo da lei da selva pelo jugo do império; rejeita a populaça sem lei e adere aos funcionários austeros. Mowgli abandona o mundo dos animais para se tornar num homem, mas sobe um degrau na escada imperial no Departamento dos Bosques, trocando a tribo por uma burocracia. Os contrastes de Kipling dão um aspecto de objectividade, mas não há história mais parcial. Por detrás dos contrastes habilidosamente montados residem os valores de um ditador.

A primeira história que Kipling escreveu sobre Mowgli, "In the Rukh", descreve o último incidente, cronologicamente falando, da sua saga – a chegada à maturidade. O herói casa-se com uma indiana e é nomeado para um cargo no Império. Desde o início que Mowgli é um ser respeitável. Nas histórias que se seguiram, Kipling reconstitui a sua carreira inicial; descreve Mowgli menino. Mas Kipling não rejeita o Império Britânico, conforme se podia esperar, quando descreve a juventude de Mowgli. Celebra a lei, a hierarquia e o império de diversos modos. Na conclusão de O Livro da Selva o porta-voz de Kipling afirma:

Mula, cavalo, elefante ou boi, todos obedecem ao seu tratador, e o tratador ao seu sargento, e o sargento ao seu tenente, e o tenente ao seu capitão, e o capitão ao seu major, e o major ao seu coronel, e o coronel ao seu brigadeiro que comanda três regimentos, e o brigadeiro ao seu general, que obedece ao vice-rei, que é servidor da Imperatriz

Os contos sobre homens e animais contêm uma mensagem: o Império. O Livro da Selva culmina numa visão da hierarquia imperial. O pequeno mundo da selva forma um pequeno círculo no interior de outros círculos no interior do círculo do império. O círculo do império de Kipling contém todos os outros círculos. Em The Naulahka, Captains Courageous, e Plain Tales from the Hills, mantêm-se os contrastes e toleram-se as diferenças porque todos os indivíduos, classes, raças, e grupos estão incorporados sob o Império ou na hierarquia imperial. Na sociedade modelo de Kipling, o urso, o lobo, a cobra aceitam a lei. Na sociedade anglo-indiana da sua época os homens juravam fidelidade a Vitória, imperatriz da Índia. As espécies são diferentes umas das outras, os homens são distintos uns dos outros, mas todos eles estão inseridos numa estrutura superior abrangente. As divisões do herói estão incluídas sob o seu próprio patriotismo. Os dois Mowgli fundem-se num único Mowgli, que aceita a lei tanto no mundo do homem como no dos animais.

O tema de Kipling é simultaneamente a separação de raças, classes e territórios, e os elos entre dois homens de locais de origem opostos. As sociedades opõem-se, mas os homens individualmente unem-se. Kipling escreve sobre a diversidade na unidade e sobre a unidade na diversidade. Ricos e pobres são diferentes, mas Harvey Cheene e Dan Troop são camaradas; o homem e o animal são diferentes, mas Mowgli é amigo do lobo e do urso. O contraste no cerne da obra de Kipling é entre culturas que se situam em extremidades opostas do espectro e entre indivíduos dessas culturas que estão lado a lado. A afirmação clássica de Kipling sobre este tema provém da "The Ballad of East and West":

Oh, o Oriente é o Oriente e o Ocidente é o Ocidente, e os dois nunca se encontrarão,
Até que a Terra e o Sol se encontrem por fim diante do Trono de Deus no juízo final,
Mas não há Oriente nem Ocidente, nem Fronteira nem Geração nem Nascimento,
Quando dois homens fortes se olham olhos nos olhos embora provenham dos confins da terra!

Kipling preocupa-se igualmente com os hemisférios irreconciliáveis e os homens reconciliados. É o poeta da desigualdade que simultaneamente celebra a amizade entre o moreno e o branco, o homem rico e o homem pobre. O poeta da desigualdade engana-nos; aparece disfarçado de poeta da democracia e enaltece os homens negros, os homens morenos, os homens pobres. Na obra de Kipling, o soldado comum ama o seu superior e enaltece o povo colonial. "O melhor homem que conheci", diz o soldado saloio num dos poemas mais conhecidos de Kipling, "era o nosso bhisti regimental Gunga Din". Mas quando dois homens fortes dos confins da terra se olham olhos nos olhos e se abraçam no mundo de Kipling, isso não é uma celebração da fraternidade humana. As amizades entre os ricos e os pobres, os negros e os brancos, a tribo e o forasteiro, em Captains Courageous, O Livro da Selva , "The Ballad of East and West" e "Gunga Din" é diferente dos momentos genuínos de fraternidade humana reflectidos na literatura. Quando Melville descreve Ishmael e Queequeg abraçados um ao outro, apresenta um ideal de fraternidade humana num mundo de ódio violento. Quando Tolstoi descreve um velho camponês russo repartindo pão com Levin, oferece uma visão utópica num mundo em que os amos e os camponeses estão em conflito. À primeira vista, as cenas de Kipling têm o mesmo aspecto destas situações em Tolstoi e Melville. Mas, ao contrário de Melville e de Tolstoi, Kipling esquece os conflitos reais entre ricos e pobres, negros e brancos. Kipling pretende cativar-nos. Quer que recordemos a amizade entre Kim e o lama, Cheene e Troop, e esqueçamos a exploração dos negros pelos brancos, dos oprimidos pelos seus opressores. Quando os seus heróis, Mowgli e o lobo, Cheene e Troop se juntam num objectivo comum, fazem-no em contraste com as divisões entre os homens – mas não as contestam . As imagens de unidade de Kipling definem oposições e contrastes. A excepção confirma a regra. As suas personagens oferecem amizade umas às outras porque conhecem o seu lugar, aceitam a hierarquia social. No mundo de Kipling só há fraternidade entre parceiros desiguais, e isso não é fraternidade nenhuma. A expressão coerente mais antiga desta ideia de Kipling é o conto "Oriente e Ocidente". Dois passageiros, um deles Kipling e o outro um elegante e educado afegão, estão sentados num comboio, um em frente do outro. Conversam cordialmente. Nunca discutem, mas nunca se sentam de braço dado nem se abraçam. São máquinas rígidas cujas maxilas se abrem e fecham, e cujos braços se movem para cima e para baixo. Kipling, a máquina branca, diz ao afegão que "Deus fez-nos diferentes". O oráculo falou. As diferenças neste caso significam a superioridade britânica e a inferioridade afegã. Kipling pede-nos que imaginemos "linhas paralelas" que, "prolongadas até ao infinito nunca se encontram". Enquanto o comboio avança, transportando Kipling e um afegão no mesmo compartimento, os trilhos do caminho-de-ferro mantêm-se afastados eternamente, um lembrete para Kipling da divisão inevitável e necessária entre pretos e brancos. O apartheid é a lei da natureza.

Em Life's Handicap descreve um mosteiro no norte da Índia que abriga homens de diferentes raças e religiões: "Islâmicos, siques, e hindus misturados em igualdade debaixo das árvores. Eram anciãos, e quando um homem chega ao portal da Noite todos os credos do mundo lhe parecem espantosamente parecidos e cinzentos". Parece internacionalista no espírito, mas esses homens, nenhum dos quais é branco, juntam-se na fraqueza e não na força, rejeitando as suas diferenças individuais em vez de as preservar. Aqui a unidade baseia-se na negação da diversidade. Enquanto maçon na Índia, Kipling gabava-se de conhecer muçulmanos, hindus, siques e judeus, mas aceitava-os porque o que era importante não era eles serem judeus ou hindus ou muçulmanos, mas porque eram membros da maçonaria. A sua visão do império era sobretudo maçónica. Apertaria a mão de qualquer homem – preto ou branco, rico ou pobre – se ele defendesse o império. Depois dos combates as diversas nações eram incorporadas num único corpo. Fazia notar que, na formação do Império, os zulus, os malaios, os maoris, os patãs, os árabes, e os sudaneses "jogavam na perfeição. Por isso devemos estar-lhes muito gratos". Tudo não passava de um bom desporto.

Os contrastes de Kipling, os seus elogios aos hábitos e às características individuais, estão incorporados num mundo de amos e de escravos, de ricos e pobres, de carrascos e de vítimas. O medo da miscigenação, da rebelião e da revolta social atingia fundo o cerne do seu ser. Nos seus pesadelos visionava o derrube dos brancos pelos negros, do ocidente pelo oriente. Para ele, esses pesadelos eram avisos de que as coisas que amava, as coisas tal como eram e como ele esperava que continuassem a ser, estavam ameaçadas. Acreditava na necessidade da separação racial, nas classes, na lei, na hierarquia social; mas sentia-se atraído pelas coisas que mais temia. Kipling defendia a instituição, o ocidente, o homem branco, o rico, e sentia-se fascinado com o mundo exterior para além desses limites – os pobres, o oriente, o homem negro. O seu fascínio por estes últimos não põe em causa nem nega o seu compromisso para com os primeiros. Kipling defende a ordem, o império e o homem branco, e defende-os precisamente passando para além deles para descrever a desordem, o homem negro, a solidão e o horror. Kipling cria os seus contrastes – situa-se no céu em oposição ao inferno, com os brancos em oposição aos negros, com os filisteus em oposição aos boémios, com a tribo em oposição ao forasteiro – mas desce até às regiões que teme. Quando descreve as suas expedições ao mundo para além e mais abaixo, a sua visão é mais significativa do que quando descreve o mundo protegido e seguro. Quando deixa de ver a selva como a lei, tal como acontece em O Livro da Selva, e começa a encará-la como uma ameaça, quando descreve os homens brancos como separados da sociedade branca e receosos dos homens negros e da natureza hostil, revela-se a si mesmo, o homem branco, e proporciona uma obra importante. A sua intenção era normalmente de reforçar a lei e a hierarquia imperial através da descida aos infernos mas, para além do seu objectivo consciente, a sensação de contraste que resulta dessa descida é importante. Quando escreve que "quando um homem está completamente sozinho numa qualquer situação corre riscos de seguir por maus caminhos", quando faz notar que "pouca gente se pode dar ao luxo de fazer de Robinson Crusoe onde quer que seja – e muito menos na Índia", isto soa a verdade. Este Kipling fechou o círculo sobre o cerne da realidade que Conrad tentou em Heart of Darkness. Embora não tenha confrontado a solidão como fez Conrad, apresenta material mais significativo e mais vital quando apresenta os horrores e os terrores do que quando escamoteia os factos e se refugia nos seus mundos exuberantes, exóticos e nostálgicos.

[*] Professor na Sonoma State University, Califórnia do Norte. Além de The Mythology of Imperialism , é autor de The Radical Jack London e Out of the whale , bem como de biografias de Abbie Hoffman e Allen Ginsberg .

O original encontra-se em www.scribd.com . Tradução de Margarida Ferreira.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
06/Ago/09