Movimentos operários: há esperança?

por Fernando E. Gapasin e Michael D. Yates [*]

Durante os últimos 30 anos a luta de classes tem mostrado o esforço constante do capital em fazer recuar a luta dos trabalhadores em todo o mundo. Quando a estagnação económica atingiu a maior parte das economias capitalistas avançadas, a partir do meio da década de 70, o capital passou à ofensiva, rapidamente percebendo que a melhor maneira de manter e aumentar as margens de lucro num período de lento e esporádico crescimento económico era cortar nos custos com o trabalho. Governos e agências de financiamento como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional começaram a implementar políticas que fizeram com que os trabalhadores se sentissem cada vez mais inseguros.

É deprimente, a lista das acções empreendidas pelos inimigos das classes trabalhadoras: redução drástica de salários e benefícios, condições de trabalho precárias (com o seu crescendo de acidentes e problemas de saúde, raramente atendidos pelas agências públicas), fábricas fechadas e comunidades arruinadas, guerra ideológica movida pela direita, desmantelamento do Estado social, privatização dos serviços públicos, desregulação, taxação regressiva, programas de ajustamento estrutural, outsourcing e deslocalizações, tratados comerciais contra os interesses dos trabalhadores e violência directa contra os trabalhadores. Uma menção especial deve ser feita à situação no antigo "Bloco do Leste". Estes países assistiram a um roubo em massa da anterior propriedade social e sua conversão em propriedade privada. Isto, a par da eliminação de quase todas as formas de consumo socializado, resultou no desemprego de dezenas de milhões de pessoas, no emprego marginal de outras dezenas de milhões de pessoas, e na morte prematura de dezenas de milhões de trabalhadores e pensionistas. E na China assistiu-se a drásticos recuos nos direitos dos trabalhadores e ao crescimento da exploração mais grosseira.

Para além dos danos directos aos trabalhadores, a guerra de classes movida pelos empregadores também reestruturou radicalmente o emprego. Em todo o mundo, há muitas centenas de milhões de pessoas que são completamente desempregadas ou que têm formas extremamente marginais de emprego informal. Este grupo inclui milhões de camponeses deslocados vivendo em bairros de lata miseráveis ao redor das grandes cidades do Sul. Vários tipos de emprego precário se espalharam rapidamente – trabalhadores em casa, trabalhadores temporários, trabalhadores contratados, trabalhadores auto-empregados (e auto-explorados). Mesmo nos países ricos, o emprego a tempo inteiro ao longo de todo o ano é hoje muito menos comum do que era na geração que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. Mais do que isso, os trabalhadores têm hoje de encarar a possibilidade de serem forçados a sair dos seus locais de origem e terem de ir para outros locais, dentro e fora dos seus países, para encontrar trabalho, fazendo com que a classe trabalhadora de cada país se torne mais diversificada, étnica e racialmente. Por toda a parte aumentam o stress e os riscos do trabalho. Como se compreende, todas estas mudanças criam dificuldades para os trabalhadores que tentam organizar-se em sindicatos e organizações políticas. Acrescente-se ainda que, em todo o mundo, as mulheres são cada vez mais forçadas a carregar o fardo do trabalho assalariado em condições de severa exploração.

As organizações da classe trabalhadora reagiram lentamente à ofensiva do capital, especialmente as dos países ricos. Nos Estados Unidos, os sindicatos foram amarrados ao "labor accord" produzido nos anos 40 e 50 pelo qual os empregadores toleravam os sindicatos e os sindicatos respeitavam o controlo de gestão dos locais de trabalho. Este acordo era o produto da cooperação entre o que podemos chamar de líderes sindicais "tradicionais" e de líderes sindicais "pragmáticos". O primeiro grupo, virulentamente anti-comunista e apoiante do imperialismo U.S., liderado por reaccionários como George Meany, queria ver a esquerda progressista afastada do movimento operário. O segundo grupo, dirigido por gente como Walter Reuther, da United Auto Workers, acreditava que os seus membros seriam capazes de adquirir um nível de vida semelhante ao da classe média e que eles próprios ganhariam poder nos seus sindicatos. Realmente, os trabalhadores tiveram ganhos significativos nas décadas de 50, 60 e 70, mas quando os empregadores deitaram o acordo para o cesto do lixo, os sindicatos ficaram sem saber o que fazer. E a maior parte deles não fez nada.

Na Europa Ocidental, os trabalhadores estavam envolvidos num complexo sistema corporativista no qual os partidos políticos da social democracia participavam activamente nos governos e no qual os sindicatos, normalmente filiados naqueles partidos, tinham considerável poder nos locais de trabalho. Este arranjo era em geral benéfico para os trabalhadores, que em alguns casos conseguiram impor o "Estado de bem-estar social" (social welfare state) e salários e benefícios que eram a inveja dos trabalhadores de outros países. A robustez deste modelo era variável de Estado para Estado, mais fraco na Grã-bretanha, onde os trabalhadores sofreram derrotas sucessivas durante os anos de Thatcher, e mais forte nos países escandinavos. Em geral, os trabalhadores da Europa Ocidental foram capazes de preservar uma maior porção das conquistas obtidas antes da estagnação do meio da década de 70 do que os trabalhadores dos Estados Unidos, Grã-bretanha, Nova Zelândia e Austrália. Mas o modelo corporativista europeu deveu uma boa parte da atracção que exercia sobre os empregadores ao receio destes em relação ao exemplo da União Soviética e ao reforço dos comunistas que se verificou em cada país, no período do pós-guerra. Com o colapso da União Soviética, os patrões levaram mais a sério a luta de classes e hoje os trabalhadores estão debaixo do fogo neoliberal na Alemanha e mesmo na Suécia, Finlândia e Noruega.

É claro que os trabalhadores resistem sempre ao poder do capital, de uma forma ou de outra, e as últimas três décadas não foram excepção. Alguns acontecimentos marcantes tiveram lugar durante os anos 90, e houve esperança de que uma grande vaga de agitação e acções de protesto iria surgir. Os funcionários públicos franceses virtualmente paralisaram o país em protesto contra os cortes decididos pelo governo. Operários canadianos do ramo automóvel ocuparam as fábricas e estiveram à beira de radicalizar todo o movimento operário do Canadá. Nos Estados Unidos, reformadores tomaram conta da AFL-CIO, e os trabalhadores da United Parcel Services fizeram uma greve a nível de todo o país que poderia ter inspirado várias outras greves similares. Os trabalhadores fizeram causa comum com as várias tendências do movimento anti-globalização, nomeadamente em Seattle, e fizeram aliança com o crescente movimento anti-extorsão, centrado em grupos estudantis. Várias formas novas de organização foram tentadas – alianças entre comunidades, campanhas baseadas na questão de género e na questão racial, campanhas transfronteiriças – algumas delas com sucesso.

Nos países pobres, a devastação provocada pelo neoliberalismo foi alvo de grandes protestos. Trabalhadores desempregados na Argentina forjaram um forte movimento que propunha a acção directa, especialmente o bloqueio das estradas do país, para forçar o governo a ter em consideração as suas reclamações por empregos e serviços públicos. Na África do Sul, um movimento de "os pobres", operando maioritariamente à margem da corrente principal do movimento dos trabalhadores, galvanizou as comunidades para lutar por tudo desde habitação, água e electricidade até à anulação da dívida dos países pobres. No México, os Zapatistas começaram a sua luta pela autonomia camponesa no próprio dia em que entrou e vigor o Tratado Norte-americano para o Comércio Livre. No Brasil, o movimento de camponeses sem terra aliou-se ao Partido dos Trabalhadores não só para dar terra aos que a não têm mas também para impulsionar Lula da Silva para o mais alto cargo político do país.

Se bem que todas estas acções e movimentos tenham sido momentos importantes na luta de classes e em cada uma deles se tenha conseguido alguns ganhos para os trabalhadores e seus aliados, nem individualmente nem no seu conjunto eles marcam um ponto de viragem na luta de classes. A adesão aos sindicatos continuou a cair e a depredação causada pelo neoliberalismo não diminuiu. Sinistramente, o imperialismo americano tornou-se mais abertamente agressivo, usando os ataques do 11 de Setembro de 2001 como capa para o domínio militar e para ulteriores assaltos à segurança e aos direitos dos trabalhadores.

Porque as promissoras lutas dos anos 90 não conseguiram fazer abalar o domínio do capital, os movimentos dos trabalhadores experimentaram um sentimento de desânimo e, ao mesmo tempo, o início da compreensão de que havia que fazer mudanças. Os dirigentes sindicalistas mostraram tendência para culpar factores externos pelo declínio do movimento, tais factores sendo vistos como obstáculos quase intransponíveis. Os bastiões dos sindicatos nas manufacturas são dizimados pela inovação tecnológica e pela fuga de capitais, ambos parecendo ser forças imparáveis e impossíveis de vencer pelas organizações dos trabalhadores. As mudanças na composição da força de trabalho tornaram quase impossível organizar os trabalhadores. Nos Estados Unidos, ouvimos a cada passo que as leis do trabalho fazem com que nem sequer valha a pena tentar organizar os trabalhadores. Assim, quando novas iniciativas não produzem resultados, é fácil ficar desmoralizado e pensar que os caminhos estão todos barrados para os trabalhadores e que não vale a pena tentar fazer qualquer coisa.

Ao mesmo tempo, o insucesso gera a introspecção. Nós estamos muito familiarizados com os Estados Unidos e poderá ser útil examinar o que se está a passar por lá. Dado o estado lastimável do movimento dos trabalhadores nos Estados Unidos, acontece por vezes que alguns radicais dizem que não vale a pena falar sobre a possibilidade de revitalizar o movimento dos trabalhadores. Isto é um erro. Os sindicalistas europeus, por exemplo, são atentos observadores do movimento de trabalhadores nos Estados Unidos.

Quando John Sweeney venceu a presidência da AFL-CIO em 1995, algumas pessoas de esquerda no movimento sindicalista europeu acreditaram que o "New Voices" significava o fim dos regimes "Cold Warrior" que dominaram a política dos sindicatos nos Estados Unidos. Para alguns dirigentes sindicais europeus e para um significativo grupo de pessoas de esquerda na Europa, acções como o envio de representantes ao Fórum Social Global no Brasil e a participação em lutas anti-globalização pareciam ser passos para a esquerda. O programa "Union Cities" iniciado pela AFL-CIO parecia mover a federação para alianças mais amplas e para uma maior responsabilidade no seio das comunidades ao longo dos Estados Unidos. A AFL-CIO distanciou-se também da postura anti-imigrante que tinha sido uma constante desde a fundação da AFL em 1981, para uma nova postura que reclama a amnistia para trabalhadores não documentados e o direito de todos os trabalhadores imigrantes a organizarem-se. De uma perspectiva europeia, a AFL-CIO representa "a esquerda" nos Estados Unidos e, globalmente, um obstáculo às políticas neoliberais orientadas contra os trabalhadores. A liderança da New Voices eleita para liderar a AFL-CIO em 1995 criou a esperança de que o mais fraco movimento dos trabalhadores dos países capitalistas ricos ir-se-ia revitalizar.

Passados 10 anos esta esperança desvaneceu-se. Seguiu-se um vigoroso debate, centrado na questão de como evitar que o movimento dos trabalhadores seja completamente marginalizado. Porque o verdadeiro poder no movimento dos trabalhadores dos EUA está nos sindicatos individuais (a AFL-CIO controla apenas 1 porcento de todos os sindicatos), vários sindicatos e indivíduos apresentaram propostas para mudar o actual estado de coisas. Estas propostas situam-se maioritariamente em duas categorias: um grupo dirigido pelo Service Employees International Union (SEIU) e pela International Brotherhood of Teamsters (IBT) acredita que a crise pode ser enfrentada mudando a estrutura do movimento sindical. O segundo grupo é liderado pela própria direcção da AFL-CIO.

No seu plano de 10 pontos para a mudança, "Unite to Win", a SEIU põe a ênfase na importância dos cuidados de saúde a nível nacional, o direito à organização, construção de um movimento global de trabalhadores, e o fortalecimento na arena política eleitoral. Subjacente ao plano da SEIU está a ideia de uma organização a uma escala suficientemente larga, dentro de um determinado mercado de trabalho, de tal forma que nenhum capitalista possa obter vantagem económica sobre os seus concorrentes do facto de cortar nos salários dos trabalhadores. De acordo com este plano, os sindicatos que se empenharem agressivamente na organização dos "não-organizados" serão premiados. Assim, o plano da SEIU põe a ênfase na fusão mais ou menos forçada da maioria dos sindicatos com os maiores e mais agressivos sindicatos em 15 diferentes sectores da economia. Esta proposta levaria à criação de mega-sindicatos semelhantes aos da Austrália e da Europa. A ideia é a de que os sindicatos que estiverem a promover acções organizativas deverão liderar estes sectores e providenciar mais recursos para as acções organizativas.

O IBT, no seu plano de sete pontos para a mudança "Que Caminhos para a AFL-CIO?", põe muito menos ênfase nas reformas e centra-se na importância do "streamlining" da AFL-CIO. Como o SEIU, o IBT propõe a aceleração das fusões dos sindicatos, a transferência de fundos da AFL-CIO para os sindicatos que promovem a organização, e a reforma dos mecanismos jurisdicionais da AFL-CIO. A IBT argumenta, e a SEIU concorda, que as disputas jurisdicionais devem ter em consideração a força dos sindicatos e pesar a diferença entre os contratos que eles foram capazes de obter, aquando da decisão sobre qual sindicato deve ter jurisdição.

Pelo seu lado, a AFL-CIO central emitiu o seu plano "Building a Unified Labor Movement: Creating Effective State and Local Labor Councils" em Março deste ano. No primeiro parágrafo do plano diz-se que "O movimento sindical americano está enfrentando o seu maior desafio – e a chave para vencer a crise – é expandir o nosso poder político grandemente e rapidamente, (...) melhorar dramaticamente o desempenho das nossas organizações locais e estaduais, as quais têm a responsabilidade principal de executar os programas da AFL-CIO central." Dois tópicos do plano evidenciam tanto os seus objectivos a sua natureza "de cima para baixo":

"A nossa meta deve ser um programa unificado, efectivo e dotado dos recursos necessários, com vista à mobilização de políticas, legislação e apoio à acção organizativa a níveis nacional, estadual e local, ligando os membros – onde vivem e onde trabalham – aos debates e campanhas locais, estaduais e nacionais.
As federações estaduais e os conselhos sindicais devem também ser responsabilizados pela execução efectiva dos planos aprovados a nível nacional. A AFL-CIO central deve providenciar suficiente apoio, treino, coordenação e recursos, de forma a assegurar que estes planos reflectem a coordenação entre as federações estaduais e os seus respectivos conselhos sindicais centrais e que são implementados. Mas, a AFL-CIO central deve ter a autoridade e a obrigação de assumir o controle sobre os assuntos dos organismos locais ou estaduais para assegurar a coordenação e o cumprimento daqueles planos, se necessário."

Nestas discussões há a insinuação de que poderá ser necessário formar uma federação sindical rival, tal como sucedeu aquando da formação da CIO nos anos 30, quando se tornou claro que a AFL não iria organizar os trabalhadores nas indústrias de produção em massa.

Simultaneamente com estes intensos e por vezes azedos debates acerca do futuro do movimento sindical, pessoas e grupos progressistas têm tomado algumas iniciativas. A mais significativa foi a formação do US Labor Against the War (USLAW) em 2003. Esta organização, composta por pessoas singulares, sindicatos e outras organizações progressistas não só opõe-se à guerra dos EUA no Iraque mas à própria política externa dos Estados Unidos. A sua declaração de princípios – uma política externa justa, o fim da ocupação de outros países pelos Estados Unidos, o re-direccionamento dos recursos da nação, a exigência do regresso imediato das tropas americanas, a protecção dos direitos civis e dos direitos dos trabalhadores e imigrantes, a solidariedade com os trabalhadores de todo o mundo e suas organizações – é notável, se vista à luz da história sórdida de apoio ao imperialismo americano pelo movimento operário organizado.

Trabalhadores de outros países têm estado também a dar alguns passos. Os trabalhadores mexicanos formaram uniões e federações inteiramente novas que estão agora firmemente posicionadas para mover o movimento sindical mexicano numa direcção mais para a esquerda. Na Venezuela, formou-se uma nova federação sindical, inspirada no radicalismo do governo de Hugo Chavez, para substituir a antiga e corrupta federação. No Brasil, ocorreu uma divisão no Partido dos Trabalhadores, com os elementos mais à esquerda quase em revolta contra a incapacidade do governo de Lula da Silva de se opor mais agressivamente ao neoliberalismo. No Zimbabwe, o principal desafio ao regime de Mugabe vem de novos agrupamentos sindicais. Verifica-se alguma discussão no seio do movimento sindical alemão, cujos membros se sentem atingidos pelo lento mas seguro desmantelamento do seu louvado sistema de segurança social pelo governo de coligação do Partido Social Democrata/Verdes. Os trabalhadores de França e da Itália continuaram a mostrar a sua capacidade para paralisar regiões inteiras dos seus países sempre que direitos e regalias dos trabalhadores são ameaçados. E nos países pobres (por exemplo, Equador e Bolívia), mais uma vez, operários, camponeses despojados e povos indígenas rebelaram-se abertamente contra a devastação neoliberalista.

No momento em que os trabalhadores se reagrupam e redefinem a sua estratégia, achamos que alguns aspectos devem ser tidos em conta. Primeiro, os trabalhadores habitam vários lugares: os locais de trabalho, a comunidade, a família, organizações cívicas e religiosas, etc.. Cada um destes locais pode ser usado para acções organizativas, e nenhum deveria ser esquecido. Em todos estes lugares existe já uma cultura de solidariedade e esta deverá ser central nas acções organizativas. As reivindicações podem variar de sítio para sítio, embora as reivindicações feitas por trabalhadores nos locais de trabalho possam complementar as reivindicações feitas nas comunidades, como acontece quando trabalhadores reclamam por melhores salários e por melhor habitação. As tácticas usadas para conseguir a satisfação das reivindicações serão também variáveis, embora também elas possam ter ligação; os trabalhadores podem montar piquetes aos seus locais de trabalho bem como aos escritórios de políticos. É importante recordar que o futuro do movimento sindical pode depender da habilidade dos sindicatos locais e das suas federações para se transformarem e tornarem-se o centro do poder do movimento sindical. Afinal, é no sindicato local que os trabalhadores e as comunidades interagem com o movimento sindical. Com isto não queremos dizer que fortes organizações nacionais e internacionais não são necessárias; obviamente que são. Mas quando o poder emana do topo, o resultado é a ditadura burocrática.

Uma forma de desenvolver a base local do movimento sindical é a criação de locais para acções organizativas como centros de trabalhadores. Aqui, trabalhadores podem-se juntar, independentemente dos seus locais de emprego. Tais centros podem ser específicos de uma certa indústria ou de uma certa área geográfica, de modo que os trabalhadores podem juntar-se, qualquer que seja a indústria em que estão empregados. Experiências com centros de trabalhadores estão-se a verificar em todo o mundo, especialmente entre trabalhadores vulneráveis e com baixos salários, incluindo trabalhadores imigrantes. Eles podem ter várias funções: dar aos trabalhadores uma oportunidade para conviver e partilhar os seus problemas, dar educação básica sobre direitos dos trabalhadores, desenvolver a consciência política através de acções de baixo risco, e promover um movimento sindical que possa obter conquistas significativas como o "salário de vida". Estes centros podem também constituir pontos de apoio para sindicatos que de outro modo não teriam acesso a certas comunidades, como por exemplo os imigrantes não falantes da língua inglesa.

Segundo, em qualquer acção organizativa, os trabalhadores com mais alto nível de consciência de classe devem ter um papel central. Eles estão em melhor posição para explicar as coisas aos outros e para ver a ligação entre as circunstâncias locais e globais. Eles são também os mais capazes para ver as ligações entre as muitas formas de desigualdade que existem em todas as sociedades capitalistas. Dada a natureza do capitalismo moderno, as mulheres e as pessoas de cor com consciência de classe mais desenvolvida terão de ser os principais líderes de qualquer movimento operário. E ao mesmo tempo, grande esforço deverá ser feito para pôr a nu os pontos mais vulneráveis do capital; é aqui que os trabalhadores mais conscientes podem ser mais eficazes. Trabalhadores dos transportes, das comunicações, das cadeias de abastecimento de comida, trabalhadores do sector de alta tecnologia e outros em lugares chave devem ser organizados e devem exercer o seu poder por todos os meios ao seu alcance.

Terceiro, devem encontrar-se os meios para ligar os sectores estáveis e os sectores instáveis da classe trabalhadora, ou seja, aqueles com emprego relativamente seguro e o segmento dos que têm emprego inseguro e emprego informal. Serão necessárias amplas organizações de trabalhadores, mais amplas que os sindicatos, para abranger todo o movimento operário. Talvez as ocupações de fábricas pelas comunidades e por trabalhadores que ocorreram na Argentina e na Venezuela sejam, neste aspecto, um motivo de reflexão.

Quarto e mais importante, deveremos perguntar-nos qual o objectivo de um movimento operário. Queremos organizar os trabalhadores para quê? Por outras palavras, quais são os princípios de um movimento operário? Não faz sentido falar em reorganizar a AFL-CIO e os seus sindicatos, por exemplo, se não fizermos estas perguntas, porque os princípios de um movimento ditarão, em larga medida, a sua estrutura. Os planos da SEIU e da IBT não têm nada a dizer sobre estas questões e podemos por isso assumir que o que eles têm em mente é a continuação da aliança conservadores-pragmáticos e a esperança no regresso do "labor accord". Dito de outro modo, "business as usual", ou pelo menos como ele era há 40 anos.

Bill Fletcher Jr. evidencia eloquentemente o problema da seguinte forma:

"Assim, o movimento sindical norte-americano está confundido por um problema; um problema que não é possível resolver dentro do paradigma Gompersian. Se ele reconhece que o capital global está a fazer uma guerra de aniquilação contra o trabalho; se ele reconhece que o capitalismo norte-americano quer varrer os sindicatos da cena nos Estados Unidos; se ele reconhece que é cada vez mais difícil manter o padrão de vida de qualquer sector da economia sem adoptar uma abordagem internacionalista; se ele reconhece que a demografia da força de trabalho norte-americana está a mudar; se ele reconhece que a política externa dos EUA está ao serviço de duas facções dos círculos dominantes, ambas sem qualquer interesse em comum com as classes trabalhadoras, e ambas com interesse em uma forma ou outra de dominação global; se ele reconhece que a política externa norte-americana está gerando grande aversão contra os EUA entre os povos de todo o mundo, então o movimento organizado dos trabalhadores norte-americanos tem que se repensar, nos seus fundamentos.
Repensar-se significa que se deve iniciar um diálogo dentro do movimento sindical e entre o movimento sindical e outros movimentos. Este diálogo deve tender a re-conceptualizar o sindicalismo. Esta re-conceptualização deverá levar àquilo que eu e o meu colega Fernando Gapasin chamamos "sindicalismo da justiça social". Isto é algo mais do que organizar ou constituir alianças com outros sectores da população.
O sindicalismo da justiça social parte da assumpção de que o New Deal e o Estado do bem-estar social, tal como uma vez o conhecemos, já não voltam. Ao mesmo tempo, a tendência para a barbárie, a guerra interminável e o empobrecimento de um número crescente de pessoas devem parar. Ou seja, a questão do futuro do sindicalismo deve estar inteiramente associada a um realinhamento político neste país e à luta consciente pelo poder político. Ela deve também estar associada a um modo completamente diverso de ver os sindicatos e outras organizações de massa dos outros povos. Isto significa que temos que repudiar a tradicional arrogância dos EUA que assume que toda a luz e vida começam para dentro das fronteiras dos EUA."

Está implícito nos comentários de Fletcher que o movimento operário deve deslocar-se para a esquerda se quiser sobreviver. Se, por exemplo, um dos objectivos do movimento operário é diminuir o fosso entre ricos e pobres ou criar maior igualdade social, inevitavelmente virá a pergunta sobre se tal poderá alguma vez ser atingido no capitalismo ou se a classe trabalhadora (e o movimento sindical e operário) deverá fazer planos para desafiar as instituições capitalistas, incluindo o carácter fundamentalmente explorador do trabalho assalariado. De acordo com a nossa experiência, alguns líderes sindicais que se consideram de esquerda, radicais, ou mesmo socialistas, pensam que levantar questões de um ponto de um vista socialista é altamente idealista e impraticável. Eles deixam estas questões para um futuro longínquo e indefinido, acreditando que eles devem adquirir mais poder antes de as poderem levantar. Mas uma vez que vão perdendo poder a olhos vistos, a luta pela mera sobrevivência como organizações acaba por se tornar prioritária. Talvez uma pré-condição para eles adquirirem algum poder seja terem bem presentes os objectivos mais importantes. Enquanto aceitarem fazer o jogo estritamente dentro das regras do capitalismo, os sindicatos, tal como os conhecemos hoje, poderão ter os dias contados. A crise que enfrentamos deveria levar-nos, não a estreitar a nossa visão dos objectivos de luta, mas a alargá-la.

A História testemunha vigorosamente a necessidade de uma reorientação radical dos movimentos operários em todo o mundo, com base em princípios como aqueles enumerados pelo US Labor Against the War. Onde estariam os movimentos operários sem socialistas e comunistas, os mais comprometidos com a luta pela igualdade e mais disponíveis para aceitar os riscos necessários (e convencer outros a aceitar os riscos) à construção de fortes movimentos operários. Mesmo nos EUA, os sindicatos de orientação de esquerda da CIO não só dirigiram as lutas contra o imperialismo norte-americano e contra o racismo, mas também conseguiram os melhores acordos e eram os mais democráticos. Eles realmente fizeram o que o director para a organização da AFL-CIO, Stuart Acuff, diz que os sindicatos devem fazer agora: "Temos de definir uma agenda que tenha o potencial de mudar a vida das pessoas".

Notas
  • O programa da SEIU "Unite to Win" pode ser encontrado em http://www.unitetowin.org/ .
  • A proposta de Teamster para a reestruturação da AFL-CIO está em http://www.teamster.org/about/geb/resolutions/aflrestruucture.htm
  • A proposta da AFL-CIO está em http://www.aflcio.org/aboutaflcio/ecouncil/ec03032005k.cfm

    [*] Fernando E. Gapasin foi professor de relações industriais e Chicano/a Studies. Ele foi o investigador principal para o desenvolvimento do programa Union Cities da AFL-CIO. Tem 40 anos de activismo no movimento sindical americano e é presentemente presidente de um sindicato local e presidente de um Conselho Operário Central local.
    Michael D. Yates é editor associado da Monthly Review. Durante muitos anos leccionou economia na Universidade de Pittsburg em Johnstown. É o autor de Naming the System: Inequality and Work in the Global System (2004), Why Unions Matter (1998), e Longer Hours and Fewer Jobs: Employment and Unemployment in the United States (1994), todos publicados por "Monthly Review Press&#quot;.

    O original encontra-se em http://www.monthlyreview.org/0605gapasinyates.htm , Volume 57, Nº 2, Junho/2005.    Tradução de FLP.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 14/Jul/05