A frente do marketing:
A essência real da publicidade

por Michael Dawson [*]

Nas últimas décadas, muitos pensadores e activistas bem intencionados têm difundido ou aceite a ideia de que o conflito de classe de certa forma desvaneceu-se ou foi "descentrado" nas nações-estado mais ricas. Como os trabalhadores nestes países têm perdido cada vez mais poder, e como vastas ondas de riqueza espalharam-se em torno na forma de automóveis, centros comerciais e um universo de mercadorias acessíveis inimaginado, muita gente que em outros aspectos é bastante simpática levantou os braços diante da insistência marxiana de que a luta de classe continua sempre a ser o problema central num mundo capitalista. Quando os sindicatos asfixiam-se e os trabalhadores compram e rezam e vêem a "reality TV" ao invés de combaterem o poder, quem poderia ainda apostar naquele velho cavalo morto?

Naturalmente, nós marxianos — e mesmo o próprio Marx — somos parcialmente culpados pela ampla atractividade deste erro político superficial mas muitíssimo danoso em termos intelectuais. Ao permanecermos fixados "no que Marx disse" em grande medida deixamos de ver e de explicar um facto muito simples: os capitalistas nunca cessaram a sua luta-de-classe-a-partir-de-cima e, na nossa época da corporação capitalista, um grande número de fenómenos "populares" e de "tempos livres" no primeiro mundo estão imersos em elaborados esforços empresariais concebidos para alcançar o objectivo final de toda a dominação da classe alta: fazer com que os pensamentos e comportamentos das pessoas comuns reforcem o poder e o privilégio da classe dominante.

Hoje, o exemplo fundamental desta aplicação da luta-de-classe-a-partir-de-cima na vida fora do emprego é a profissão e a prática do marketing dos grandes negócios. Só nos Estados Unidos, é agora um esforço da ordem dos 2 milhões de milhões (trillion) de dólares por ano. Isto equivale aproximadamente a todos os gastos do governo federal dos EUA.

A premissa principal do marketing dos grandes negócios é a percepção (insight), articulada claramente pela primeira na década de 1920, de que a perspectiva dos utilizadores de produtos (também conhecidos como "consumidores") são, nas suas horas fora do emprego, susceptíveis de serem influenciadas pela administração científica racional e voltada para a busca do lucro.

Cronómetro. Não por acaso, um dos primeiros líderes corporativos que reconheceram e principiaram a publicitar este facto não foi outro senão Frederick Winslow Taylor , o "pai da administração científica". Isto não deveria ser surpreendente, uma vez que agora sabemos como o marketing corporativo nada menos que uma tentativa de estender as técnicas de trabalho taylorianas às esferas em que os utilizadores em perspectiva dos produtos tomam as suas decisões de compra e desenvolvem os seus hábitos de utilização de produtos.

Tanto no lugar de trabalho como sob a forma de marketing, a moderna administração corporativa faz estas três coisas:

  • Especialistas coleccionam exaustivamente dados pormenorizados acerca de comportamentos existentes.
  • Especialistas e administradores analisam muito cuidadosamente dados comportamentais e a seguir formulam estratégias para usar comandos, imagens e reconcepção de lugares e espaços a fim de alterar lucrativamente comportamentos futuros.
  • Repetem este processo ad infinitum .

    Na profissão do marketing, a prossecução deste núcleo de actividades tayloristas é directamente análoga ao que durante longo tempo os engenheiros fizeram no local de trabalho com as tarefas rotineiras dos empregados corporativos. Assim como os engenheiros industriais cronometram e fotografam os pormenores dos desempenhos físicos e mentais dos trabalhadores nas suas tarefas, o marketing dos grandes negócios desdobra exércitos de peritos para efectuar "marketing de investigação" ("marketing research"), cujo propósito é registar os desempenhos físicos e mentais dos compradores de produtos em perspectiva. Tal como os engenheiros industriais e os administradores de pessoal corporativos verificam então como mudar lucrativamente instruções e ambientes de trabalho existentes, da mesma forma peritos em marketing e administradores corporativos verificam a seguir como melhorar lucrativamente instruções e ambientes dos "consumidores". Finalmente, a vasta e cada vez mais rapidamente crescente universo dos eventos de marketing, promoções, publicidade, esforços de RP e pacotes de produtos representam, da perspectiva dos cidadãos comuns, exactamente a mesma coisa que o lugar de trabalho taylorizado: uma armadilha concebida pela classe dominante, na qual nós não-capitalistas não podemos deixar de entrar, se pretendermos viver.

    Uma queixa padrão na publicidade tem sido desde sempre o sarcasmo de John Wanamaker , o magnata das lojas de departamentos , de que "Eu sei que apenas a metade da minha publicidade funciona. O problema é que não sei qual das metades". A mesma verdade aplica-se ao marketing. Como as prospectiva dos utilizadores de produtos não é tão coagível como a de trabalhadores contratados, o marketing está longe de ser tão efectivo como a administração no local de trabalho. No entanto, mesmo que apenas a metade do marketing dos grandes negócios funcione, isto significa que os capitalistas corporativos estão a conseguir nos EUA um valor de milhões de milhões de dólares por ano com a modificação de comportamentos fora do local de trabalho!

    Existe uma mini-indústria dedicada a ensinar às pessoas como "ler" os significados dos anúncios dos grandes negócios. Isto certamente é uma qualificação vital para a cidadania. Ver a verdadeira intenção e o método de um criador de publicidade permite-lhe fazer melhores escolhas pessoais e políticas. Infelizmente, muitos dos académicos e activistas que se especializam no "conhecimento dos media" ("media literacy") tendem a obscurecer, ao invés de clarificar, a finalidade ulterior das imagens que tentam criticar. Os pretensos críticos remexem lamaçais de palavreado acerca da "cultura do consumidor", "fábulas de abundância", "mapas metafóricos" e assemelhados nas suas infindáveis exegeses de publicidades, mas o único e exclusivo propósito de qualquer publicidade do capitalismo corporativo é alterar o comportamento da audiência "alvo" ("target") em favor do resultado final do anunciador — isto é, em favor da riqueza dos accionistas da firma. [1] A publicidade não é nada mais nada menos do que uma nova forma de um empreendimento com 6000 anos de antiguidade: a coerção de classe a partir de cima.

    O primeiro e o melhor pensador a reconhecer este facto crucial foi o subestimado e quase sempre aflitivamente mal interpretado Thorstein Veblen . Escritor agreste mas poderoso, muitas vezes divertido, Veblen analisou os modos pelos quais — apesar das afirmações dos capitalistas que o eventual destronamento da sua classe redundaria em regimes de poder arbitrário — na verdade os investidores das modernas corporações derivam os seus poderes e privilégios dos mesmos velhos fundamentos dos seus antecessores: a aplicação "da força e da fraude" . Por trás dos seus contratos formalmente livres e das ofertas de tempos livre, insistiu Veblen, os capitalistas modernos e e seus agentes administrativos de topo orquestram um "um regime cada vez mais dissimulado" que difere das velhas tácticas de classe na forma, mas não na finalidade: modificação do comportamento dos subordinados. Uma vez compreendido este ponto simples mas extraordinariamente importante de Veblen, podemos ver que todo o anúncio de qualquer corporação capitalista é um veículo de uma ou mais das seguintes formas clássicas de "força e fraude" aplicadas:

  • uma ameaça
  • uma falsa promessa
  • um truque
  • um implante mental

    Michelin. O clássico e mais óbvio caso de um anúncio ameaça é este:

    A mensagem aqui, naturalmente, é "se você não der dinheiro extra pelos pneus Michelin está a caminho de matar os seus próprios filhos". Demasiado óbvio e bruto para enganar alguém? Nada disso. "Estamos assim orgulhosos do impacto que a campanha dos bebés tem tido ao longo dos anos", nota um "gerente de marca" ("brand manager") da Michelin. "É raro uma campanha publicitária ter esta espécie de longevidade e influência sobre uma indústria".

    As falsas promessas são tão abundantes em publicidade que é quase tolo seleccionar um exemplo único. Anúncios de cerveja prometem festas arrebatadoras. Anúncios de ténis dizem-lhe que você será uma celebridade se usar Air Jordans. Os cosméticos certos tornarão toda a mulher uma beldade. Anúncios de carros prometem-lhe a inveja dos seus vizinhos e invariavelmente mostram os veículos a deslizarem ao longo de rodovias florestadas e vazias ou a escalarem espectaculares mesetas do sudoeste, não a perderem tempo em meio a congestionamentos de tráfego nas horas de ponta.

    Por vezes o exagero torna-se claramente ridículo. Anúncios médicos e quase médicos muitas vezes sugerem que uma única pílula é tudo o que falta para uma saúde perfeita ou mesmo milagres tais como este:

    Enzyte.

    A "intensificação natural do macho" significa, naturalmente, o Santo Graal de todos eles: um grande pénis. Não importa que todo urologista competente diga que nenhuma pílula poderia faze-lo disparar sempre, tal como num sonho de adolescente.

    Os truques são outro método comum de publicidade. Anúncios de seguros prometem salvar pessoas "até" a quantia X de dinheiro, ao passo que a questão das suas probabilidades de realmente chegar "até" tal nível nunca é levantada. Nas manhãs de sábado, meu filho e eu resmungamos constantemente sobre como todos os pequenos-almoços com cereais bombados a açúcar são sempre "uma parte deliciosa de um pequeno-almoço equilibrado".

    Bacardi. Um dos meus exemplos favoritos de anúncios com truque é esta peça:

    "0 de carbohidratos" e "0 de açúcar". Que novidades fantásticas! O rum agora é uma bebida saudável e própria para dieta, segundo a corporação Bacardi! Nada como uns 5 ou 6 Cuba Libres para queimar aqueles quilos indesejados! Mas, naturalmente, isto é simplesmente um truque que explora a ignorância popular da bioquímica humana. Na realidade, o corpo humano armazena energia (e fabrica gordura) primeiramente de acetatos, a seguir de açúcares, então de gorduras e finalmente, se necessário, de proteínas. Os acetados, por outras palavras, são a matéria-prima preferida do corpo para a produção mais rápida de gordura. E no que se transforma o álcool ingerido no metabolismo do fígado? Adivinhou: em acetato! Assim, se quiser ganhar peso tão rápida e eficientemente quanto possível, beba grandes porções de álcool.

    A outra táctica principal na publicidade das corporações capitalistas é a programação mental. Através da ubiquidade, repetição, estimulação e surpresa, os comercializadores (marketers) dos grandes negócios pretendem "alterar as agendas mentais" dos seus "alvos". Se duvidar da importância deste método dê uma olhadela aos inquéritos que comparam o conhecimento dos escolares americanos dos ícones corporativos com o seu conhecimento de outras coisas. Isto não é uma competição fechada.

    Na maior parte dos casos com êxito, a investigação demonstrou que a repetição da publicidade pode mesmo treinar o cérebro humano a associar meras cores e formas a marcas corporativas específicas. Os comercializadores dos cigarros Marlboro, por exemplo, sabem que a sua colocação em áreas de desporto e corridas por todo o mundo estimula mudanças de lealdade semi-conscientes em favor da sua marca de cilindros da morte. Eles também sabem que, mesmo quando uma região proíbe publicidade explícita, os seus êxitos passados fazem com que simplesmente pintar num carro de corridas "Marlboro red" provavelmente será um empreendimento lucrativo.

    Marlboro.

    Quando, apesar da proibição da União Europeia de publicidade ao tabaco, a Marlboro pagou à Ferrari Formula 1 Racing para repintar nos seus carros de corrida "Marlboro red" isto resultou na aparência acima. Funcionou?

    Os expectadores de televisão vão certamente responder aos desenhos de carros que reflectem as embalagens vermelho vivo da Marlboro e do círculo da Lucky Strike, afirma Jez Frampton, executive chefe da firma de consultoria Interbrand com sede em Londres. A firma classifica a Marlboro entre as 10 mais conhecidas marcas do mundo.

    "As pessoas reconhecerão isso, sem dúvida", diz Frampton, 40. "O design é poderoso. É por isso que as companhias gastam um bocado de dinheiro na identidade corporativa". (Alex Duff, "Formula One Races Past EU Tobacco Ad Ban Using Familiar Colors" , Bloomberg, 29/Julho/2005).

    Se você memorizar estas quatro tácticas — ameaças, falsas promessas, truques e implantes mentais — terá 95 por cento do que precisa para dissecar e explicar cabalmente qualquer publicidade corporativa.

    Isto confirma a importância da visão histórica materialista. Nos dias de outrora, os senhores feudais e os padres ameaçavam os servos com os ardores do Inferno. Os patrícios romanos asseguram os plebeus de pão-e-circo e "romanidade" conduziriam ao melhor de todos os mundos possíveis. Imperadores e senhores espalhavam por toda a parte o total absurdo acerca do sangue "nobre". As religiões imperiais de Estado incessantemente arengavam às massas oprimidas para que aprendessem e pensassem as ideias "correctas". Agora, embora a mão dos mestres esteja, como notou Veblen, "cada vez mais oculta", ver aquilo que mostra esta mão mostra que não mudou nada de essencial. Então como agora, a classe rica intimida-nos e fisgam-nos para gastarmos as nossas vidas a executar rotinas que existem para alimentar os seus prazeres arbitrários, injustos e destrutivos. Portanto, quando para perceber isso, a sua TV e revistas e a sua experiências banais de "tempos livros" estão a tentar subjugar suas energias ao poder assim como certamente o fizeram os chicotes e seus sequazes, mais cruamente, de antigamente. Ao educarmos a nós próprios e aos outros acerca da natureza e da lógica dos esforços das elites nesta frente do marketing podemos, assim, começar a restaurar a esperança de finalmente vencer os seus mestres. Utilizadores de produtos de todos os países, uni-vos! Não temos nada a perder senão as nossas cadeias!

    1- Alfred D. Chandler , o mais proeminente historiador de negócios do país, observou que, apesar da muita propaganda em contrário, uma elite numericamente pequena de "as famílias estabelecidas ... permanecem as beneficiárias primárias" do capitalismo corporativo" .

    [*] Michael Dawson trabalha como assistente jurídico e professor de sociologia em Portland, Oregon.   Actualmente está a escrever um livro, Automobiles Ueber Alles: Corporate Capitalism and Transportation in America, a ser publicado pela Monthly Review Press .

    O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/dawson141105.html


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 22/Nov/05