O regresso do imperialismo sindicalista?:
A política externa da AFL-CIO desde 1995
Ao longo de grande parte da sua história, a AFL-CIO efectuou um
programa de sindicalismo reaccionário em todo o mundo. Está
estabelecido sem qualquer dúvida que a AFL-CIO trabalhou para derrubar
governos democraticamente eleitos, colaborou com ditadores contra movimentos
sindicais progressistas, e apoiou movimentos sindicais reaccionários
contra governos progressistas.
[1]
Em resumo, a AFL-CIO praticou o que podemos chamar com rigor um
"imperialismo sindicalista". A alcunha de "AFL-CIA"
representa exactamente a realidade e não é uma paranóia da
esquerda.
O "imperialismo sindicalista" não começou com a
fusão da AFL-CIO em 1955. Na realidade começou com a
Federação Americana de Sindicatos (
American Federation of Labor
- AFL) no princípio do século vinte, antes da Primeira Guerra
Mundial, sob a presidência de Samuel Gompers. A AFL envolveu-se no
contra-ataque das forças revolucionárias no México durante
a revolução neste país, trabalhou activamente para apoiar
e defender a participação do governo dos EUA na Primeira Guerra
Mundial, e depois encabeçou o ataque no interior dos círculos da
política externa americana contra a Revolução Bolchevique
na Rússia. Embora sem ter tido êxito, a AFL encabeçou uma
tentativa para criar uma Federação Pan-Americana de Sindicatos (
Pan-American Federation of Labor
PAFL) depois da Primeira Guerra Mundial, para controlar os movimentos
dos trabalhadores em todo o hemisfério ocidental, e acima de tudo, no
México. Como Sinclair Snow nos mostra no seu estudo de 1964 sobre a
PAFL, a tentativa de criar a PAFL foi financiada por uma doação
de 50 mil dólares à AFL da administração Wilson.
[2]
Embora a maior parte dos esforços no exterior tenham acabado com a morte
de Gompers em 1924, estes foram ressuscitados durante a Segunda Guerra Mundial.
A AFL esteve particularmente activa na Europa, a princípio contra os
nazis, mas depois contra os comunistas, que tinham sido forças
importantes nos diversos movimentos de resistência contra os fascistas.
Depois da Segunda Guerra Mundial, durante a "Guerra Fria", os
operacionais da AFL desencadearam amplos esforços para sabotar os
esforços comunistas em Itália e em França nos finais dos
anos 40, e depois esforços a longo-prazo para favorecer os interesses
dos EUA em detrimento da União Soviética no continente. Estes
esforços foram financiados por intermédio da CIA (Central
Intelligence Agency) do governo americano, e levaram à
participação no tráfico de droga, inclusive a famosa
"French connection", quando a CIA acabou com o financiamento.
[3]
As operações da AFL na América latina também
recomeçaram após a Segunda Guerra Mundial. Inicialmente
funcionaram através da ORIT a organização regional
latino-americana da anti-comunista Confederação Internacional dos
Sindicatos Livres (ICTU -
International Confederation of Free Trade Unions
) e ajudaram a derrubar o governo da Guatemala em 1954. Depois do
êxito da revolução cubana, no entanto, a sua sucessora, a
AFL-CIO, criou a sua própria operação latino-americana em
1962, o Instituto Americano para o Desenvolvimento dos Sindicatos Livres ou
AIFLD (
American Institute for Free Labor Development
), para poder responder melhor aos "desafios" no interior da
região. Entre outras actividades, o AIFLD ajudou a estabelecer os
fundamentos para os golpes militares contra os governos democraticamente
eleitos no Brasil em 1964 e no Chile em 1973, ao mesmo tempo que interferia na
República Dominicana e na Guiné Britânica.
Estes esforços na América Latina tiveram o seu paralelo em
África e na Ásia. O Centro dos Sindicatos Afro-Americanos (AALC -
African-American Labor Center
) foi criado em 1964 e posteriormente envolveu-se em acções
contra as forças anti-apartheid na África do Sul. Em 1982, a
AFL-CIO atribuiu o seu Prémio dos Direitos Humanos George Meany ao
colaborador do apartheid Gatsha Buthelezi, que criara um centro sindical
(Trabalhadores Unidos da África do Sul -
United Workers of South Africa
) com o propósito de sabotar o Congresso dos Sindicatos Sul-Africanos
(COSATU - Congress of South African Trade Unions) e o resto do movimento de
libertação.
Em 1967, foi criado o Instituto Asiático-Americano dos Sindicatos Livres
(AAFLI -
Asian-American Free Labor Institute
). O AAFLI esteve especialmente activo na Coreia do Sul, e depois enviou fundos
maciços para as Filipinas para ajudar o governo de Ferdinand Marcos na
sua batalha contra as forças que contestavam a sua ditadura. Entre 1983
e 1989, a AFL-CIO forneceu mais dinheiro ao Congresso dos Sindicatos das
Filipinas (TUCP -
Trade Union Congress of the Philippines
) criado por Marcos, para ser utilizado contra a organização
operária progressista
Kilusang Mayo Uno
(KMU), do que jamais dera a qualquer outro movimento operário no mundo,
incluindo o
Solidarnosc
da Polónia. Estes esforços contra os sindicatos progressistas
nas Filipinas incluíram o apoio à principal afiliada do TUCP nos
seus esforços contra uma afiliada da KMU em Atlas Mine, incluindo uma
colaboração activa com um esquadrão da morte.
[4]
Estas operações continuaram pelo menos durante os anos 80. A
AAFLI também entregou dinheiro a um dirigente do TUCP que prestava
serviço no Senado, para o levar a votar a favor da
manutenção de bases americanas quando essa questão estava
a ser discutida no seu Congresso. A AAFLI também esteve em actividade na
Indonésia.
Em resumo, as operações sindicalistas reaccionárias foram
levadas a efeito pela AFL-CIO durante os mandatos dos presidentes George Meany
e Lane Kirkland na época da Guerra Fria.
[5]
Nos meados dos anos 80 surgiu uma enorme oposição a estas
operações no interior do movimento sindical, e esta
oposição foi pelo menos um dos factores nos acontecimentos
posteriores que levaram à eleição de John Sweeney para a
presidência da AFL-CIO em 1995.
Quando John Sweeney foi eleito para a presidência da AFL-CIO em Outubro
de 1995, surgiram esperanças entre os activistas sindicais de que ele
fosse reformar radicalmente a política externa da AFL-CIO. Os
esforços iniciais de Sweeney foram encorajadores. Em 1997, desmantelara
os "institutos" sindicais regionais semi-autónomos o
AAFLI, o AALC, o AIFLD, e o Instituto dos Sindicatos Livres (FTUI -
Free Trade Union Institute
) que funcionavam na Europa e substituíra-os por uma
organização centralizada, dirigida por um progressista de longa
data, com um nome encorajador: o Centro Americano para a Solidariedade Sindical
Internacional (ACILS - American Center for International Labor Solidarity),
mais conhecida hoje em dia como "Centro de Solidariedade". Sweeney
também afastou muitos dos veteranos da guerra fria do Departamento dos
Assuntos Internacionais. E estas mudanças, em conjunto com alguns
esforços positivos para apoiar as lutas dos trabalhadores em
vários países em desenvolvimento, foram uma melhoria qualitativa
em relação aos regimes anteriores de George Meany e de Lane
Kirkland.
No entanto, alguns acontecimentos nos últimos anos puseram em
dúvida a profundidade das reformas da política externa da
AFL-CIO. Há três acontecimentos desses que se destacam: a recusa
da AFL-CIO em abrir os arquivos e limpar o ar no que diz respeito às
suas operações passadas; o envolvimento do ACILS na Venezuela no
que se refere às tentativas de derrubar o governo do radical Hugo
Chavez; e o apoio e a participação da federação
numa nova Guerra Fria como organismo sindical do governo federal. Vamos
olhar para cada um destes em separado, sem descurar que é importante
entender as suas múltiplas interligações.
Os activistas sindicais têm combatido desde o início a
política externa reaccionária da AFL-CIO e de alguns sindicatos
membros (que tiveram as suas próprias operações de
política externa). Essas contestações recuaram e
avançaram ao longo do tempo. De importância especial foi a
publicação de análises da política externa sindical
nos anos 60, e depois vigorosamente dentro do próprio movimento sindical
nos anos 80, quando activistas sindicais conseguiram com êxito impedir os
trabalhadores de apoiar uma possível invasão da Nicarágua
iniciada por Reagan.
Estas primeiras análises pretendiam demonstrar que as actividades da
AFL-CIO tinham sido formuladas fora do movimento sindical, pela CIA, pela Casa
Branca, e/ou pelo Departamento de Estado. Por outras palavras, explicavam os
esforços da política externa sindicalista como uma
consequência de factores externos ao movimento sindical.
No entanto, a começar por um artigo publicado em 1989 por este autor no
Newsletter International Labour Studies
(Estudos Sindicais Internacionais), os investigadores que trabalhavam
independentemente e se apoiavam em sólidas provas
começaram a afirmar que a política externa era desenvolvida
no seio
do movimento sindical, com base em factores
internos.
Embora não contestando as provas consideráveis de que as
operações externas da AFL-CIO tinham andado de mãos dadas
com a CIA, ou de que as operações externas da AFL-CIO tinham
beneficiado a política externa americana como um todo ou tinham apoiado
iniciativas da Casa Branca ou do Departamento de Estado, esta nova perspectiva
assentou que a política externa sindicalista e as
operações externas dela resultantes, embora financiadas na maior
parte pelo governo, têm sido desenvolvidas a partir do seu interior e
são controladas pelos funcionários da AFL-CIO ao mais alto
nível.
[6]
Estas operações externas não foram transmitidas aos
membros de base para ratificação mas, pelo contrário,
foram ocultadas conscientemente quer porque não eram transmitidas
de todo, quer porque, se eram transmitidas, eram-no duma forma que as
distorcia. Assim, os dirigentes sindicais têm estado a operar
internacionalmente em nome dos trabalhadores americanos, dos seus membros,
embora mantenham propositadamente esses membros na ignorância. A maioria
dos membros da AFL-CIO nos dias de hoje não fazem ideia do que é
que a AFL-CIO fez e continua a fazer além-mar, nem de que as suas
acções têm sido financiadas enormemente pelo governo
americano.
Os esforços dos activistas sindicais, assim, têm sido quer para
propagar as pesquisas académicas sobre as operações da
AFL-CIO entre os membros de base, à medida que vão desenvolvendo
a sua própria pesquisa e investigações, quer para
disseminar as suas descobertas pelos membros de base. Por último, os
esforços têm sido dirigidos para educar os sindicatos membros e
encorajá-los a reclamar o seu bom nome no movimento sindical
internacional, ao mesmo tempo que para retardar ou fazer parar o empenho dos
dirigentes da AFL-CIO na continuação dos seus esforços
anti-sindicalistas.
Estes esforços de oposição no seio do movimento sindical
intensificaram-se a partir de 1998. Fred Hirsch, uma das primeiras pessoas a
revelar as operações externas dos sindicatos, e alguns colegas
seus tentaram fazer aprovar uma resolução "Limpeza do
Ar" no Conselho Sindical de South Bay (em San José,
Califórnia) para comemorar o vigésimo quinto aniversário
do golpe no Chile em 11 de Setembro de 1973, golpe apoiado pelos EUA e pelo
AIFLD, e para festejar a aprovação formal duma
resolução no Conselho Sindical em 1974 (com a
oposição do então dirigente do AIFLD, William Doherty),
baseada no trabalho de Hirsch, que revelou e condenou as actividades do AIFLD
no Chile. No entanto, os acontecimentos locais desviaram a tentativa de
"Limpeza do Ar" nessa época, a qual não chegou a ser
apresentada formalmente.
Em 2000, a prisão e deportação para o Chile do ex-ditador
chileno Augusto Pinochet, pelo governo britânico, proporcionou aos
sindicalistas americanos a possibilidade de reflectir sobre a
direcção futura da política externa da AFL-CIO.
[7]
A AFL-CIO não aproveitou a oportunidade para fazer o mesmo, mas como o
activistas voltaram a criticar de novo o papel da federação no
golpe chileno, Fred Hirsch e os seus colegas renovaram esforços para
avançar com a resolução "Limpeza do Ar".
Conseguiram a aprovação da resolução no Conselho
Sindical de South Bay, que foi enviada para a Federação Sindical
da Califórnia, a organização AFL-CIO a nível
estatal, para apreciação na sua convenção bianual
em 2002.
A resolução apresentada era sobre o que se tinha passado quando
foi proposto à Comissão Executiva da federação
californiana algo que parecia ser um "acordo": arranjava-se um
encontro de activistas sindicais da Califórnia com dirigentes da
política externa da AFL-CIO para discutir novas questões numa
modalidade mais deliberativa, se a resolução sob
consideração fosse "aligeirada". O arranjo foi aceite e
a resolução aligeirada foi aprovada pela convenção.
No entanto, ficou assente na altura que, se o encontro não fosse
satisfatório, os activistas voltariam ao ataque..
Passaram mais de quinze meses até que o prometido encontro se
concretizou, em Outubro de 2003. Quando finalmente se realizou, os dirigentes
da política externa da AFL-CIO limitaram-se praticamente a falar de
cátedra, em vez de interagir sobre questões concretas, o que
muito desagradou aos participantes de base. Não foi cumprida a promessa
feita aos activistas da Califórnia de reunir informações e
relatar quaisquer operações sindicais que estivessem a decorrer
em todo o mundo numa base de país a país.
[8]
Enquanto as tentativas para conseguir que a AFL-CIO reconhecesse o seu passado
continuavam a enfrentar resistência, começaram a circular boatos
inquietantes que implicavam a AFL-CIO em tentativas de derrubar o governo de
esquerda de Hugo Chavez na Venezuela.
[9]
Um dos opositores de Chavez era a Confederação dos Trabalhadores
da Venezuela (CTV), conservadora e frequentemente a favor dos patrões. A
CTV desempenhou um papel chave na tentativa do golpe de Abril de 2002 contra
Chavez. Como assinalei num artigo em Abril de 2004 sobre a
situação na Venezuela:
Segundo uma notícia
de Robert Collier do
Newspaper Guild/Communications Workers of America
(CWA) em Maio de 2004, a CTV trabalhou com a FEDECAMERAS, a
associação empresarial nacional, para levar a efeito greves e
lockouts gerais em Dezembro de 2001, Março-Abril de 2002, e Dezembro
2002-Fevereiro 2003. Collier relata que segundo muitas notícias
publicadas e entrevistas que ele realizou no país,
a CTV esteve
directamente envolvida no planeamento e organização do golpe [de
Abril de 2002] ".
O professor Hector Lucena, outro observador sindicalista, noticia que estas
acções de Abril foram conduzidas pela CTV em conjunto com a
FEDECAMERAS. Christopher Marquis do
The New York Times
noticiou em 25 de Abril de 2002, "
a Confederação
Venezuelana dos Trabalhadores encabeçou as paragens de trabalho que
galvanizaram a oposição a Chavez. O dirigente do sindicato,
Carlos Ortega, trabalhou estreitamente com Pedro Carmona Estanga, o
empresário que atirou sumariamente a responsabilidade para cima de
Chavez, ao desafiar o governo". Collier continua a notícia:
"Já há alguns meses que o secretário-geral da CTV
Carlos Ortega criou uma estreita aliança política com o dirigente
Pedro Carmona da FEDERCAMARAS, e ambos têm repetidas vezes reclamado a
queda de Chavez". "Em resumo", conclui Collier"
na
Venezuela, a AFL-CIO tem
apoiado uma situação sindical
reaccionária na medida em que tem tentado repetidamente derrubar o
presidente Hugo Chavez e, para isso, arruinado a economia do país".
[10]
No seguimento da investigação, os activistas sindicalistas e
solidários encontraram numerosas ligações entre a AFL-CIO,
em especial o Centro Solidário da federação (ACILS) e a
CTV. Dirigentes da AFL-CIO tinham arrebanhado funcionários da CTV perto
de Washington, D.C. mesmo antes do golpe. Activistas, em conjunto com o Centro
de Solidariedade Venezuelano, e ao abrigo da Lei da Liberdade de
Informação, desenterraram documentos e relatórios
dirigidos à Doação Nacional para a Democracia (NED -
National Endowment for Democracy
) uma operação financiada pelo Departamento de Estado
americano que é ostensivamente independente embora chefiada por pessoas
com um envolvimento de longa data nos esforços de política
externa dos EUA os quais detalhavam os esforços do ACILS na
Venezuela entre 1997-2002.
Alguns dos documentos incluíam especificamente relatórios dos
operacionais sindicalistas americanos detalhando o seu envolvimento
específico na unificação da comunidade empresarial (sob a
FEDECAMARAS) com a Igreja Católica e a CTV, e na sua ajuda para que
ambos desenvolvessem um programa comum contra o regime democraticamente eleito
do presidente Hugo Chavez. Por exemplo, no relatório trimestral da ACILS
de Janeiro-Março de 2002, para a NED, encontramos:
"A CTV e a Fedecamaras, com o apoio da Igreja Católica, realizaram
uma conferência nacional em 5 de Março, para discutir as suas
preocupações, perspectivas e prioridades no que se refere ao
desenvolvimento nacional e para identificar objectivos comuns assim como
áreas de cooperação". A conferência foi o
acontecimento culminante de reuniões e planeamentos entre estas duas
organizações durante cerca de dois meses. "A
acção conjunta [emitir um "Acordo Nacional" para evitar
uma suposta "crise política e económica mais profunda"]
assentou também que a CTV e a Fedecamaras são as
organizações bandeira que encabeçam a crescente
oposição ao governo de Chavez".
"O Centro de Solidariedade ajudou a apoiar o acontecimento nas fases de
planeamento, organizando os encontros iniciais com o governador do estado de
Miranda e a organização empresarial FEDECAMARAS, para discutir e
estabelecer uma agenda para tal cooperação em meados de
Janeiro". O relatório continua a detalhar mais dos seus
esforços, concluindo com o comentário que "A própria
conferência nacional de 5 de Março foi financiada basicamente com
fundos correlativos".
[11]
Menos de trinta dias após a conferência de 5 de Março, a
CTV e a FEDECAMARAS lançaram uma greve geral nacional para protestar
contra o despedimento da administração da companhia
petrolífera, e deu-se o golpe de estado no qual a CTV e os
dirigentes empresariais desempenharam papeis centrais.
Concluir que o ACILS não desempenhou nenhum papel nos tumultos que
abalaram o país seria exigir que ignorássemos o papel principal
desempenhado pelos dirigentes da CTV e da FEDECAMARAS nesses tumultos
dirigentes com quem os representantes do Centro de Solidariedade tinham
contactos regulares. Também seria exigir que ignorássemos os 587
926 dólares que foram fornecidos pela NED ao ACILS entre 1997 e 2001
só em 2001 foram 154 377 dólares para pagar o
trabalho com a CTV. Juntamente com outra doação da NED em
Setembro de 2002 de 116 001 dólares para trabalhar com a CTV por mais
seis meses posteriormente prolongados por mais um ano verificamos
que, segundo os próprios dados da NED, entre 1997 e 2002, a NED forneceu
mais de 700 000 para o trabalho do ACILS na Venezuela.
[12]
A crescente evidência do envolvimento da AFL-CIO no golpe venezuelano
estimulou os activistas a aliarem-se e a mobilizarem os seus esforços
para condenar as operações externas da AFL-CIO. Surgiu uma
resolução, intitulada "Construir a Unidade e a
Confiança Entre os Trabalhadores de Todo o Mundo" saída da
Comissão de Resoluções da Convenção AFL-CIO
na Califórnia em 2004. A resolução "Construir a
Unidade e a Confiança" aliava a resolução original
"Limpeza do Ar" do Conselho Sindical de South Bay com outras
resoluções aprovadas pelos Conselhos Sindicais de San Francisco e
Monterrey Bay, e com resoluções apresentadas pela
Federação Americana de Professores (AFT -
American Federation of Teachers
) local 1493 (San Mateo), pela Federação de Professores da
Califórnia (CFT -
California Federation of Teachers
) a nível de todo o estado, e pelo Conselho Sindical de San Francisco
sobre a transparência dos fundos da Doação Nacional para a
Democracia (NED). A resolução "Construir a Unidade e a
Confiança" foi aprovada por unanimidade dos delegados na
Convenção do Estado da Califórnia em Julho de 2004. As
acções dos dirigentes a nível nacional da política
externa da AFL-CIO foram reprovadas pelo maior estado afiliado da AFL-CIO,
cujos membros englobam um sexto do total de associados de toda a AFL-CIO.
[13]
A posição da Federação do Estado da
Califórnia foi a mesma da Federação do Estado de
Washington, do grupo constituinte "Orgulho no Trabalho" de
gays/lésbicas/transgénicos da AFL-CIO e da União Nacional
de Escritores, que já tinham previamente condenado, um por um, as
operações externas da AFL-CIO.
[14]
A falta de resposta da AFL-CIO para os pedidos de "limpeza do ar" e
as provas relativas às operações venezuelanas não
são sinais muito auspiciosos para os que tinham esperanças de que
a federação tinha abandonado os seus velhos hábitos. Mas
será que estes acontecimentos assinalam um regresso ao imperialismo
sindical ou serão apenas aberrações do novo caminho
escolhido por John Sweeney e seus aliados? Para tentar responder a esta
pergunta, será útil considerar um terceiro acontecimento: a
participação dos sindicatos na Comissão Consultiva para a
Diplomacia Sindical (ACLD -
Advisory Committee on Labor Diplomacy
) do Departamento de Estado Americano.
A ACLD é uma iniciativa do Departamento de Estado Americano.
[15]
Uma parte daquilo que ela faz pode ser encontrado no seu sítio web, onde
estão publicadas as actas das reuniões e dois relatórios
formais. Uma leitura cuidadosa deste material estabelece diversas coisas:
1- A ACLD é uma iniciativa do Departamento de Estado Americano, criada
com os objectivos de proteger a política externa dos EU. Iniciou-se com
a administração Clinton, mas continuou com a
administração Bush.
2- Os dirigentes a alto nível da política externa sindical,
incluindo o presidente e o secretário executivo da AFL-CIO (John Sweeney
e Linda Chavez Thompson), o chefe da Comissão de Assuntos Internacionais
do Conselho Executivo da AFL-CIO (William Lucy), o chefe do Departamento dos
Assuntos Internacionais e um assistente (Barbara Shailor e Phil Fishman), e o
director executivo do Centro Solidário (Harry Kamberis), participaram
todos eles activamente em reuniões e no trabalho da ACLD, assim como
aconteceu com pessoas que anteriormente desempenharam altos cargos no movimento
sindical americano mas que agora estão a trabalhar num outro cargo
qualquer (como é o caso do antigo funcionário Thomas R. Donahue,
membro do conselho da NED durante longo tempo e antigo
secretário-tesoureiro e presidente da AFL-CIO que concorreu contra
Sweeney nas eleições de 1995).
3- Estes dirigentes sindicais eram agentes independentes no processo e
defenderam uma abordagem diferente da da administração,
principalmente a da administração Bush.
4- Este trabalho não foi relatado em nenhuma publicação
sindical, tanto quanto eu saiba, nem foi posto no sítio web da AFL-CIO.
A ACLD foi criada em 20 de Maio de 1999, quando o seu organigrama foi aprovado
pelo subsecretário de estado para a administração, Bonnie
R. Cohen. O objectivo da comissão é claro:
O objectivo da Comissão Consultiva para a Diplomacia Sindical
será servir o Secretário de Estado
com uma capacidade
consultiva relativa aos programas de diplomacia sindical do Governo dos EU,
administrados pelo Departamento de Estado. A Comissão fornecerá
conselhos ao Secretário e ao Presidente. O Departamento de Estado
trabalhará em estreita parceria com o Departamento do Trabalho, para
intensificar o trabalho da Comissão e as actividades americanas de
diplomacia sindical. Mais concretamente, a Comissão aconselhará o
Secretário sobre os recursos e políticas necessárias para
implementar eficazmente os programas de diplomacia sindical, de forma efectiva
e de modo a garantir a liderança dos EUA perante a comunidade
internacional na promoção dos objectivos e ideais das
políticas sindicais dos EUA no presente e no século XXI.
Embora não seja claro de onde é que surgiu a ideia da iniciativa
para desenvolver a ACLD, a verdade é que quem defendeu fortemente o
argumento da revitalização da diplomacia sindical foi Edmund
McWilliams, o director do sindicalismo internacional no Gabinete da Democracia,
Direitos Humanos e Sindicalismo do Departamento de Estado.
[16]
McWilliams, reconhecendo o serviço vital prestado pelo movimento
sindicalista ao governo americano durante a Guerra Fria, disse que:
A diplomacia sindical, essa faceta das relações externas
americanas que se relacionam com a promoção dos direitos dos
trabalhadores e, de forma mais lata, da sociedade democrática,
foi um elemento vital duma política externa americana bem sucedida
durante a Guerra Fria. Nessa época, os sindicatos deram um apoio
político significativo ao Governo dos EUA, na sua tentativa de conter e
derrotar o comunismo.
Nos anos a seguir à Guerra Fria, a diplomacia sindical foi relegada
para segundo plano pelos estrategas da política externa;
simultaneamente, a luta pelos direitos dos trabalhadores tornou-se ainda mais
importante na medida em que a globalização trouxe novos desafios
para os trabalhadores. É altura de uma
diplomacia sindical vibrante voltar a ser um componente valioso da
política externa americana
(ênfase nossa)
McWilliams assinala que "Durante a Guerra Fria, uma diplomacia sindical
vigorosa
implementada pelos funcionários sindicais do Departamento
de Estado, pela USAID e pela USIA
foi vital para a política externa
dos EU". Faz notar que os sindicatos "se uniram" sob o apelo do
governo para uma luta contra o comunismo, "e prestaram apoio
político para manter de pé os governos ocidentais". No
entanto, "o papel dos sindicatos americanos na política externa dos
EUA e na diplomacia sindical americana duma forma mais geral perdeu grande
parte dos seus objectivos com o colapso do comunismo".
A ideia de uma política de diplomacia sindical revitalizada, contudo,
é encarada como uma forma de aliviar os piores aspectos da
globalização, que "criou novos desafios aos
trabalhadores". McWilliams faz notar que, "A Declaração
Universal dos Direitos Humanos de 1948 estabeleceu que os direitos dos
trabalhadores são direitos humanos", embora ele também
reconheça que estas metas ainda não foram atingidas quer nos
países desenvolvidos quer nos países em desenvolvimento.
Reconhece que os problemas tais como os mercados de trabalho
"flexível", a privatização, e a
redução de pessoal esta última "encorajada
pelas instituições financeiras internacionais e pelos nossos
próprios programas de assistência bilateral" levam a
que os trabalhadores tenham que "se ajustar às novas
condições económicas sem o benefício de redes de
segurança social ou de formação profissional". Em
resumo, McWilliams reconhece pelo menos alguns dos graves impactos que a
globalização está a ter nos países desenvolvidos e
nos seus trabalhadores, e quer voltar a convidar a voz sindical dos EUA para
discussão da política externa a fim de que possa expor estas
preocupações.
E argumenta:
hoje em dia, os sindicatos podem desempenhar um papel tão
significativo na formulação e implementação da
política externa dos EUA
como aconteceu durante a Guerra Fria.
Muitas das metas que a política externa americana procura promover
a democracia, os direitos humanos, a estabilidade política, e o
desenvolvimento social e económico são as mesmas que o
sindicalismo também defende.
(ênfase nossa)
McWilliams continua a explorar as contribuições que os sindicatos
dão para as sociedades em todo o mundo. Argumenta que "em muitos
países os sindicatos estão colocados de forma ímpar para
articularem as preocupações sociais e sindicais duma forma
responsável e coerente" e, dessa forma, "
os sindicatos e
os trabalhadores podem ser aliados valiosos para a diplomacia dos EUA".
McWilliams acaba por reconhecer que a política externa dos EUA tem
pontos fracos que têm que ser colmatados. Neste caso, argumenta que a
globalização está a prejudicar os trabalhadores de todo o
mundo, que é um erro ignorar estes problemas crescentes, que o
sindicalismo americano principalmente por causa das suas
relações com o sindicalismo mundial é o
único capaz de apresentar as preocupações do mundo do
trabalho aos estrategas da política externa, e que o movimento sindical
deve ser reincorporado nos procedimentos da política externa do governo:
Os EUA beneficiariam com o envolvimento do movimento sindicalista para atingir
metas comuns tais como a democratização, a estabilidade
política e um desenvolvimento social e económico equitativo. Uma
aliança entre os EUA e o sindicalismo hoje em dia centrar-se-ia nos
direitos dos trabalhadores, incluindo o de assegurar que o desenvolvimento
económico não seja baseado na exploração do
trabalho infantil, no trabalho forçado ou no emprego que discrimine as
mulheres e as minorias, mas sim na justiça económica, garantindo
que os benefícios da globalização atinjam toda a gente e
não apenas os mais bem colocados para lucrarem com eles. Uma diplomacia
sindical revitalizada hoje em dia patrocinaria as liberdades
democráticas apoiando as democracias frágeis,
tal como aconteceu com a aliança sindical dos EUA no tempo da Guerra
Fria.
(ênfase nossa)
A secretária de Estado Madeleine Albright reconheceu a força
destes argumentos, mesmo antes de McWilliams os publicar. Depois de receber o
primeiro relatório da ACLD "Um Mundo de Trabalho Decente:
Diplomacia Sindical para o Novo Século" e de gastar alguns
meses a avaliar as suas recomendações, a secretária
Albright declarou em 8 de Novembro de 2000, num encontro com a ACLD,
"Estou absolutamente convencida, após quatro anos neste cargo que
não podemos ter uma política externa americana sem uma verdadeira
diplomacia sindical". Também acrescentou: "
E passar a fazer parte do Governo dos EUA pode ser uma coisa que vocês
não tivessem previsto desta maneira,
mas creio que tem sido uma parceria muito importante.
(ênfase nossa)
[17]
A ACLD, embora inicialmente prevista para durar dois anos, continuou com a
administração Bush. No entanto, enquanto que no primeiro
relatório durante a administração Clinton se
acentuava "a importância da diplomacia sindical na política
externa dos EUA e a promoção dos direitos dos trabalhadores no
contexto da globalização económica" no seu
segundo relatório no final de 2001 (isto é, após o 11 de
Setembro), o foco tinha mudado para "o papel e a importância da
diplomacia sindical
na defesa da segurança nacional dos EUA e no combate às
condições sociais, económicas e políticas globais
que minam os nossos interesses de segurança". (ênfase nossa)
Nota-se melhor esta ênfase no título do segundo relatório
da ACLD, "Diplomacia Sindical: Ao Serviço da Democracia e da
Segurança".
Há uma data de conversa no segundo relatório, tal como no
primeiro, acerca da importância dos direitos dos trabalhadores e da
democracia. No entanto, basta ler um pouco do segundo relatório para ver
que os direitos dos trabalhadores são importantes
apenas se
ajudarem a defender a segurança dos EUA:
A guerra contra o terrorismo fornece mais um exemplo do porquê da
importância das funções da diplomacia sindical. As
condições de trabalho que conduzem à miséria,
à alienação e ao desespero são extremamente
importantes no conjunto das forças responsáveis pelo terrorismo,
em especial quando os demagogos culpam os Estados Unidos, a
globalização ou outras forças exteriores.
As políticas para melhorar estas condições são
componentes necessárias das estratégias que evitem e contenham as
actividades terroristas. Uma efectiva diplomacia sindical é importante
para informar a análise americana e para modelar a sua política
com o fim de combater as condições que alimentam o terrorismo em
todo o mundo.
(ênfase nossa)
O relatório de 2001 continua a argumentação, "
a
promoção da democracia tem que fazer parte de um esforço
sustentado, conduzido pelos EUA para combater o terrorismo, promover a
estabilidade e assegurar a segurança nacional".
O relatório discute os "Sindicatos nos Países
Muçulmanos". E faz notar que "estes sindicatos são um
campo de batalha político porque são representações
de instituições políticas e
instrumentos para controlar os corações, os espíritos e os
empregos dos trabalhadores nesses países". (ênfase nossa).
E continua, realçando o trabalho da ACILS nesses sindicatos:
Como os programas apoiados pelo Governo Americano do Centro Americano para a
Solidariedade Sindical Internacional (Centro de Solidariedade)
já demonstraram
, uma política que pretenda cultivar a liderança sindical ao
nível dos sectores empresariais e industriais,
representa a abordagem mais promissora para inculcar o pensamento
económico moderno e os valores políticos democráticos no
meio dos trabalhadores dos países muçulmanos.
(ênfase nossa).
Assim, sem condenar à morte os objectivos, é visível que,
no segundo relatório da ACLD, os membros da ACLD consideram a diplomacia
sindical como uma parte vital da política externa dos EUA e dos
esforços de segurança nacional, e encorajam a
administração Bush a dar atenção às
áreas de preocupações que identificaram.
[18]
Isto inclui evidentemente as condições que acham que facilitam o
terrorismo, em especial dentro do mundo muçulmano. E afirmam mesmo que o
sindicalismo já começou a trabalhar no meio do mundo
muçulmano, tentando ganhar "os corações e os
espíritos" dos trabalhadores nesses países. Mas conquanto
esteja expressa vezes sem conta no relatório uma grande
preocupação pela segurança nacional americana, primam pela
ausência a preocupação pelo bem-estar dos trabalhadores
mundiais e quaisquer expressões possíveis de acções
da AFL-CIO mutuamente benéficas baseadas na solidariedade.
Agora, há obviamente uma contradição que se pode verificar
na argumentação de McWilliams, e que aparece em quase todos os
documentos públicos da política externa do governo. As provas
apresentadas neste escrito mostraram que o papel dos sindicatos na Guerra Fria
foi extremamente reaccionário. Agiu contra a democracia numa
série de sociedades e de movimentos de trabalhadores assim como
a nível interno no próprio seio do movimento sindical americano
conforme achava necessário para manter a hegemonia americana no mundo.
McWilliams reconhece e saúda mesmo as estreitas ligações
entre os sindicatos e o governo durante esse período, e defende o seu
restabelecimento. E contudo afirma que o interesse comum do sindicalismo e do
governo é "espalhar a democracia". Como é que podem ser
conciliadas estas afirmações/realidades contraditórias?
Para tal, será útil voltarmo-nos para a
Promoting Polyarchy: Globalization, US Intervention and Hegemony
(O Fomento da Poliarquia: A Globalização, a
Intervenção e a Hegemonia dos EU) de William Robinson
[19]
Numa análise excelente da política externa americana, Robinson
argumenta que esta política começou a desviar-se, nos meados dos
anos 80, do apoio a qualquer ditador que prometesse fidelidade e o controlo do
"seu" povo para intervir activamente na "sociedade civil"
de nações, para o objectivo de conseguir apoio entre os
políticos mais conservadores (incluindo os dirigentes sindicais), e de
ligar os seus interesses com os Estados Unidos. Para tal são essenciais
as operações de "fomento da democracia". No entanto,
embora utilizando a retórica da democracia "popular" a
versão enraizada de 'uma pessoa, um voto' que nos ensinam nos cursos
cívicos e que supostamente existe aqui os Estados Unidos
estão, na realidade, a fomentar uma democracia poliarcal ou seja de cima
para baixo, dominada pela elite. Esta democracia poliarcal sugere que os
cidadãos escolhem os seus dirigentes quando, de facto, eles apenas podem
escolher entre os que lhe são apresentados pelas elites desse
país como escolhas possíveis. Para além disso, as
soluções viáveis para os problemas sociais só podem
surgir das possibilidades apresentadas pelas elites. Por outras palavras, a
democracia poliarcal apenas tem a aparência de ser democrática;
mas na realidade, não o é.
E, a nível institucional, os Estados Unidos lançam esta
democracia poliarcal por intermédio dos seus "programas de
construção da democracia", em especial através da
USAID e do Departamento de Estado. O Estado, por seu turno, canaliza o seu
dinheiro e os seus esforços através da Doação
Nacional para a Democracia, sobre a qual o relatório de 2001 comenta:
"A Doação Nacional para a Democracia (uma
organização independente mas apoiada pelo governo), financia as
suas quatro instituições essenciais,
incluindo o Centro de Solidariedade,
assim como um grande número de grupos beneficiários em todo o
mundo".
Este entendimento fornece um meio para "decifrar" os
relatórios governamentais. Quando fomentam a "democracia" e
afirmam que esta é uma das quatro metas inter-relacionadas da
política externa dos EUA juntamente com a estabilidade, a
segurança e a prosperidade na realidade, falam de uma forma
especial de democracia, de uma forma de democracia que nada tem a ver com a
democracia popular em que a maior parte dos americanos pensa quando ouve esta
palavra. Quando os dirigentes sindicais usam o termo "democracia"
desta maneira, estão a colaborar com o governo contra os trabalhadores
de todo o mundo, tanto nos Estados Unidos como fora deles.
Então onde é que tudo isto nos leva? A má vontade de a
AFL-CIO limpar o ar não parece ser uma omissão ou um engano.
Parece ser uma decisão consciente pois os dirigentes da política
externa temem um recuo dos sindicatos membros se a sua perfídia de
há muito se tornar amplamente conhecida, como é devido.
A AFL-CIO, através do seu Centro Americano para a Solidariedade Sindical
Internacional (ACILS - American
Center for International Labor Solidarity
) esteve envolvida activamente com a CTV e a FEDECAMARAS na Venezuela antes do
golpe de Abril de 2002, e estas duas organizações ajudaram a
encabeçar a tentativa de golpe. A ACILS recebeu mais de 700 000
dólares da Doação Nacional para a Democracia, para
trabalhar naquele país entre 1997 e 2002. Estes esforços e a
entrada do dinheiro não foram reportados aos membros da AFL-CIO e, de
facto, a AFL-CIO trabalhou activamente para evitar que estas
operações fossem conhecidas, apesar do número crescente de
organizações afiliadas na AFL-CIO que requereram formalmente
essas informações. Estas actividades e a entrada deste dinheiro
não foram reportadas em nenhuma imprensa sindical, nem mesmo no seu
sítio web, pela AFL-CIO. E esta recusa intencional de responder às
preocupações dos membros da organização
também foi condenada formalmente por uma série de afiliados da
AFL-CIO.
Como se um mal só não bastasse, os dirigentes sindicais
também participaram activamente na Comissão Consultiva para a
Diplomacia Sindical (ACLD -
Advisory Committee for Labor Diplomacy
) da iniciativa do Departamento de Estado, que foi concebida para defender os
esforços da diplomacia sindical dos Estados Unidos. Conquanto o governo
dos EUA tenha retirado benefícios consideráveis, poucos ou nenhuns
benefícios houve para os trabalhadores quer dos Estados Unidos quer do
resto do mundo. Mais uma vez, não houve transparência da parte dos
dirigentes da política externa da AFL-CIO. O envolvimento activo da ACLD
teve lugar não só com a administração Bush mas
também com a administração Bush. Em resumo, há boas
razões para acreditar que com o presidente John Sweeney da AFL-CIO, a
política externa do sindicalismo voltou a ser o "tradicional"
imperialismo sindical.
À luz destas descobertas, parece óbvio que quaisquer
esforços actuais para "reformar" a AFL-CIO estão
condenados a fracassar a não ser que explicitamente se dediquem ao
problema do regresso do imperialismo sindical aos mais altos níveis da
federação. Embora certamente não seja a única
questão importante, esta é uma das mais importantes, e não
pode ser posta de lado se se pretende uma mudança significativa. Se for
este o caso, então é claro que os activistas sindicais têm
que repensar as suas próprias acções futuras em
relação à política externa da AFL-CIO. O bem-estar
dos trabalhadores nos Estados Unidos e em todo o mundo e nossos aliados
--
será profundamente afectado pelas escolhas feitas.
Notas
[1]
Kim Scipes, "It's Time to Come Clean: Open the AFL-CIO Archives on
International Labor Operations." (É altura de Ficar Limpo: Abram os
Arquivos da AFL-CIO sobre as Operações Sindicais Internacionais).
Labor Studies Journal
25, no. 2, Summer 2000: 4-25. [Introduzido on-line em inglês por
LabourNet Germany em
www.labournet.de/diskussion/gewerkschaft/scipes2.html
.]
[2]
Kim Scipes, "Trade Union Imperialism in the US Yesterday: Business
Unionism, Samuel Gompers, and AFL Foreign Policy." (O Imperialismo
Sindicalista no Passado dos EU: Sindicalismo Empresarial, Samuel Gompers e a
Política Externa da AFL).
Newsletter of International Labour Studies
(The Hague), No. 40-41, January-April 1989: 4-20; Greg Andrews,
Shoulder to Shoulder? The American Federation of Labor, the United States, and
the Mexican Revolution 1910-1924
(De Braço Dado? A Federação Americana dos Sindicatos, os
Estados Unidos e a Revolução Mexicana), 1910-1924 (Berkeley and
Los Angeles: University of California Press, 1991); David Nack, "The
American Federation of Labor Confronts Revolution in Russia and Early Soviet
Government, 1905 to 1928: Origins of Labor's Cold War." (A
Federação Americana dos Sindicatos Enfrenta a
Revolução na Rússia e o Primeiro Governo Soviético,
1905 a 1928: Origens da Guerra Fria dos Sindicatos), Dissertação
Ph.D. não publicada, Department of History, Rutgers University, 1998;
Sinclair Snow,
The Pan-American Federation of Labor
(A Federação Pan-Americana de Sindicatos) (Durham, NC: Duke
University Press, 1964).
[3]
Anthony Carew, "The American Labor Movement in Fizzland: The Free Trade
Union Committee and the CIA." (O movimento Sindical Americano em Fizzland:
A Comissão dos Sindicatos Livres e a CIA).
Labor History
39, no. 1, 1998: 25-42; e Douglas Valentine, "The French Connection
Revisited: The CIA, Irving Brown and Drug Smuggling as Political Warfare."
(O Regresso da 'French Connection': A CIA, Irving Brown e o Contrabando de
Drogas como Forma de Guerra Política)
Covert Action Quarterly,
No. 67, spring-summer, 1999: 61-74.
[4]
International Labour Reports,
"National Endowment for Democracy: Winning Friends?"
(Doação Nacional para a Democracia: À Procura de Amigos?)
May-June 1989: 7-13. Kim Scipes, Chapter 5 in
KMU: Building Genuine Trade Unionism in the Philippines 1980-1994
(Construir um Sindicalismo Genuíno nas Filipinas), 1980-1994 (Quezon
City, Metro Manila: New Day Publishers, 1996, e disponível on-line em
www.kabayancentral.com/book/newday/mb1009609.html
.
[5]
Paul Buhle,
Taking Care of Business: Samuel Gompers, George Meany, Lane Kirkland, and the
Tragedy of American Labor
(A Preocupação com o Negócio: Samuel Gompers, George
Meany, Lane Kirkland, e a Tragédia do Sindicalismo Americano), (New
York: Monthly Review Press, 1999).
[6]
Kim Scipes, 1989; Greg Andrews, 1991; David Nack, 1998; Anthony Carew, 1998.
[7]
Kim Scipes, 2000.
[8]
Kim Scipes, 2004a, "AFL-CIO Refuses to 'Clear the Air' on Foreign
Policy, Operations." (A AFL-CIO Recusa-se a 'Limpar o Ar' sobre as
Operações de Política Externa).
Labor Notes,
February. [Introduzido on-line em
www.labornotes.org/archives/2004/02/articles/b.html
.
[9]
Há hoje provas consideráveis do envolvimento do governo dos EU,
principalmente através da chamada National Endowment for Democracy
(NED), nos acontecimentos que levaram ao golpe na Venezuela. Para alguns dos
melhores artigos disponíveis, ver Karen Talbot, 2002, "Coup-making
in Venezuela: The Bush and Oil Factors" (Preparar um Golpe de Estado na
Venezuela: Os Factores Bush e Petróleo) (on-line em
www.globalresearch.org/view_article.php?aid=506926235
); Harley Sorenson, November 17, 2003, "National Endowment for Democracy's
Feel-good Name Belies Its Corrupt Intent" (O Nome Bem Sonante da
Doação Nacional para a Democracia Contradiz as Suas
Intenções Corruptas),
San Francisco Chronicle
(on-line em
www.commondreams.org/scriptfiles/views03/1117-06.htm
);Bart Jones, April 2, 2004, "US Funds Aid Chavez Opposition" (Fundos
Americanos Ajudam a Oposição a Chavez),
National Catholic Reporter
(on-line em
www.ncronline.org/NCR_Online/archives2/2004b/040204/040204a.php
); William Blum (sem data mas obviamente de 2004), "US Coup Against Hugo
Chavez of Venezuela, 2002" (Golpe Americano Contra Hugo Chavez da
Venezuela, 2002) (um excerto do seu livro,
Freeing the World to Death: Essays on the American Empire,
(Libertar o Mundo Até à Morte: Ensaio sobre o Império
Americano) on-line em
http://members.aol.com/essays6/venez.htm
); Eva Golinger, 2004, "The Proof Is in the Documents: The CIA Was
Involved in the Coup Against Venezuelan President Chavez" (A Prova
Está nos Documentos: A CIA Esteve Envolvida no Golpe Contra o Presidente
Venezuelano Chavez) (on-line em
www.venezuelafoia.info/english.html
); e Phillip Agee e Jonah Gindin, March 23, 2005, "The Nature of CIA
Intervention in Venezuela" (A Natureza da Intervenção da CIA
na Venezuela), Venezuela Analysis (on-line em
www.zmag.org/content/print_article.cfm?itemID=7513§ionID=45
).
[10]
Kim Scipes, 2004b, "AFL-CIO in Venezuela: Déja Vu All Over
Again" (A AFL-CIO na Venezuela: Déja Vu Mais Uma Vez)
Labor Notes,
April. [Introduzido on-line em
www.labornotes.org/archives/2004/04/articles/e.html
.]
Para uma peça do Director Adjunto do Departamento dos Assuntos
Internacionais da AFL-CIO, comparando a situação entre o Brasil e
a Venezuela, ver Stan Gacek, 2004, "Lula and Chavez: Differing Responses
to the Washington Consensus" (Lula e Chavez: Respostas Divergentes ao
Consenso de Washington), em New Labor Forum 13, no. 1, spring, e on-line em
http://forbin.qc.edu/newlaborforum/html/13_1article3.html
. Para uma resposta completa a Gacek, ver Robert Collier, 2004, "Old
Relationships Die Hard: A Response to Stan Gacek's Defense of the AFL-CIO
Position on Venezuela" (As Velhas Amizades Não Morrem: Uma Resposta
à Defesa de Stan Gacek Sobre a Posição da AFL-CIO na
Venezuela), em
New Labor Forum
13, no. 2, summer.
Para outros artigos sobre o possível envolvimento da AFL-CIO no golpe de
Abril de 2002 e sobre as actividades da AFL-CIO na Venezuela em geral, ver
Katherine Hoyt, 2002, "Concerns Over Possible AFL-CIO Involvement in
Venezuelan Coup Led to February Picket" (Suspeitas do Possível
Envolvimento da AFL-CIO no Golpe Venezuelano Levam a February Picket),
Labor Notes,
May (on-line em
www.labornotes.org/archives/2002/05/b.html
); Jamie Newman and Charles Walker, 2002, "Cloaks and Daggers: The
'AFL-CIA' and the Venezuelan Coup" (De Capa e Espada: A 'AFL-CIA' e o
Golpe Venezuelano),
Washington Free Press,
No. 58, July/August (on-line em
www.washingtonfreepress.org/58/cloaksDaggers.htm
); Global Women's Strike, February 26, 2003, "Appeal to US trade unionists
on behalf of workers in Venezuela/Open Letter to John Sweeney, President of
AFL-CIO" (Apelo aos sindicalistas americanos em nome dos trabalhadores da
Venezuela/Carta Aberta a John Sweeny, presidente da AFL-CIO), on-line em
www.globalwomenstrike.net/English/AppealtoUSUnionists.htm
; Tim Shorrock, "Labor's Cold War" (A Guerra Fria dos Sindicatos),
The Nation,
May 19, 2003,
www.thenation.com/doc.mhtml?i=20030519&s=shorrock
; "Letters" (respostas/comentários sobre o artigo de
Shorrock),
The Nation,
July 7, 2003: 2, 23; e Alberto Ruiz, 2004, "The Question Remains: What
Is the AFL-CIO Doing in Venezuela" (Mantém-se a Pergunta: O que
é que a AFL-CIO Está a Fazer na Venezuela?)
ZNet,
on-line em
www.zmag.org/content/print_article.cfm?itemID=5074§ionID=45
.
Para as recentes análises da reacção dos trabalhadores e
dos seus sindicatos às políticas colaboracionistas de classe da
CTV, ver Jonah Gindin, 2005, "A Brief Recent History of Venezuela's Labor
Movement: Re-Organizing Venezuelan Labor" (Uma Breve História
Recente do Movimento Sindical na Venezuela: Reorganização do
Sindicalismo Venezuelano), on-line em
www.iisg.nl/labouragain/documents/gindin.pdf
; e Steve Ellner, 2005, "The Emergence of a New Trade Unionism in
Venezuela with Vestiges of the Past" (O Aparecimento dum Novo Sindicalismo
na Venezuela com Vestígios do Passado), em
Latin American Perspectives,
March-April. Para um relato pessoal do desenvolvimento do sindicalismo na
Venezuela, de uma mulher que prestou serviço formalmente no conselho
executivo da CTV e que se demitiu e trabalha agora no conselho executivo do
novo centro sindical pró-Chavez da UNT (Union Nacional de Trabajadores),
ver Marcela Maspero, 2004, "What Does the Union Nacional de Trabajadores
Stand For? New Trends in Venezuelan Labour" (O Que é que A Union
Nacional de Trabajadores Pretende? Novas Tendências no Sindicalismo
Venezuelano), November 28, on-line em
www.iisg.nl/labouragain/documents/maspero.pdf
.
[11]
Os documentos obtidos por força da Lei da Liberdade de
Informação foram introduzidos no sítio web da
Comissão de
Solidariedade Venezuelana em
www.venezuelafoia.info
. Para aceder a estes relatórios do ACILS para a NED, ir à caixa
da National Endowment for Democracy (NED) e clicar em "ACILS-CTV."
Aí encontram-se os Relatórios Trimestrais do Solidarity Center
para a NED, que se estendem desde Julho-Setembro de 2000 até
Julho-Setembro de 2003. As citações neste artigo são
retiradas do Relatório Trimestral de Janeiro-Março de 2002, e
estão identificados em CTV-02.jpg e CTV-03.jpg.
[12]
Os dois parágrafos precedentes apareceram originalmente em Scipes,
2004b.
[13]
Kim Scipes, 2004c. "California AFL-CIO Rebukes Labor's National Level
Foreign Policy Leaders" (A AFL-CIO da Califórnia Censura os
Dirigentes a Nível Nacional da Política Externa).
Labor Notes,
September: 14. (O artigo introduzido na newsletter, existe completo em
www.labornotes.org/archives/2004/09/articles/h.html
. Uma versão mais completa, não editada, deste artigo encontra-se
em
www.uslaboragainstwar.org/article.php?id=6394
.)
[14]
Tim Shorrock, 2003.
[15]
Está disponível on-line, documentação sobre a
ACLD em
www.state.gov/g/drl/lbr/c6732.htm
. Neste site, que diz respeito à ACLD sob a administração
Bush, estão as actas das reuniões de 4 de Outubro de 2001; 14 de
Novembro de 2001; 19 de Dezembro de 2001; 18 de Setembro de 2002; 2 de Maio de
2003; e 17 de Novembro de 2003, juntamente com o Segundo Relatório da
ACLD para o Secretário de Estado e para o Presidente dos Estados Unidos,
e o Organigrama da ACLD. Quando se clica no botão "Archive"
nesta página, vai-se ter à documentação ACLD
produzida durante a administração Clinton, em
www.state.gov/www/global/human_rights/labor/acld_index.html
. O envolvimento dos dirigentes sindicais na política externa foi
denunciado em primeira mão por Kim Scipes, "AFL-CIO Foreign Policy
Leaders Help Develop Bush's Foreign Policy, Target Foreign Unions for Political
Control" (Os Dirigentes da Política Externa da AFL-CIO Ajudam a
Implementar a Política Externa de Bush, o Alvo São os Sindicatos
Estrangeiros para Controlo Político),
Labor Notes,
March 2005,
www.labornotes.org/archives/2005/03/articles/e.html
. Como foi referido, a minha atenção foi atraída para a
ACLD por Chris Townsend, um membro da equipa a nível nacional dos
trabalhadores da United Electrical (UE) a quem agradeço mais uma vez.
[16]
Edmund McWilliams, "There's Still a Place for Labor Diplomacy"
(Ainda Há Lugar para uma Diplomacia Sindical), American Foreign Service
Association,
Foreign Service Journal,
July-August, 2001 (introduzido on-line em
www.afsa.org/fsj/julaug/mcwilliamsjulaug01.cfm
).
[17]
Madeleine K. Albright, "Remarks by Secretary of State Madeleine K.
Albright at Meeting of Advisory Committee on Labor Diplomacy" (Notas da
Secretária de Estado Madeleine K. Albright na Reunião da
Comissão Consultiva para a Diplomacia Sindical)
(transcrição), November 8, 2000 (introduzido online em
www.usembassy.it/file2000_11/alia/a011090q.htm
. Depois de sair do Departamento de Estado, Ms. Albright passou a chefe do
Instituto Democrata International, um dos quatro institutos
"essenciais" da NED (o Senador americano John McClain chefia o
Instituto Republicano International, outro instituto "essencial").
[18]
Para ver exemplos do seu trabalho, ver ACLD Minutes, May 2, 2003 (on-line em
www.state.gov/g/drl/rls/28922.htm
), e ACLD Minutes, November 17, 2003 (on-line em
www.state.gov/g/drl/rls/28877.htm
).
[19]
William I. Robinson, Promoting
Polyarchy: Globalization, US Intervention, and Hegemony
(A Promoção da Poliarquia: Globalização,
Intervenção dos EUA e Hegemonia) (Cambridge: Cambridge University
Press, 1996).
[*]
Antigo membro de base do Graphic Communications
International Union, da National Education Association, e da American
Federation of Teachers, e actualmente membro da National Writers
Union/UAW. Lecciona sociologia na Purdue University North Central em Westville,
Indiana. Mantém uma bibliografia on-line sobre questões sindicais
contemporâneas,
http://faculty.pnc.edu/kscipes/LaborBib.htm
, e pode ser contactado para
kscipes@pnc.edu
. Do mesmo autor:
Global Economic Crisis, Neoliberal Solutions, and the Philippines
.
O original encontra-se em
http://www.monthlyreview.org/0505scipes.htm
.
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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