À espera de ser paga
Tenho vários tarefas. Sou tutora de uma criança com necessidades
especiais e tenho dois trabalhos a meio tempo, um num abrigo para gatos e outro
no nosso negócio familiar, um escritório de contabilidade. Meu
marido trabalha 100 horas por semana no nosso negócio. O último
dia de folga que tirou foi há oito anos atrás. Não
gozamos férias há mais de uma década.
Dirigir um pequeno negócio no nosso caso, um escritório de
CPA
[1]
significou conhecer de perto a situação financeira de uma
ampla variedade de pessoas. Nossos clientes fiscais têm uma grande
variedade de atividades e rendimentos, mas a maioria dos nossos clientes
empresariais têm seus próprios pequenos negócios, tal como
o nosso. Alguns dos nossos clientes estão prosperando, mas a maioria
mal consegue manter-se solvente. E muitos, como nós, estão
perdendo esta luta. A área onde vivo vem sofrendo uma recessão
econômica desde há bastante tempo; os salários estão
estagnados, os preços estão em disparada, e as pessoas
estão sofrendo. Temos perdido muitos bons clientes, negócios que
há muito sobrevivem à bancarrota, e tivemos que substitui-los por
outros clientes bem menores. Nós mesmos estamos lutando para permanecer
no negócio, tentando desesperadamente aguentar a estrutura de vida de
"classe média".
Já ouvi diversas vezes gente da direita argumentar que ser pobre na
América é melhor do que ser pobre em um outro lugar qualquer.
Bem, quer saber? Ser pobre onde quer que seja dói.
É uma dor visceral que permeia cada centímetro do corpo, a cada
hora do dia. Assim, não estou realmente interessada em ouvir a pobreza
nos Estados Unidos ser despachada só porque não vemos pessoas
pobres mortas nas ruas. Além disso, mesmo esse dúbio
parâmetro de avaliação não está mais
"operacional" após o furacão Katrina.
Não podemos pagar nossas contas até sermos pagos pelos nossos
clientes. E, não surpreendentemente, as pessoas não esperam
ansiosamente a chegada das contas dos seus contabilistas junto à caixa
do correio. Somos os últimos a serem pagos, porque, ao contrário
dos fornecedores, serviços públicos, bancos e governo, não
podemos causar dano àqueles que não nos pagam. Eles, na
realidade, não estão sendo deliberadamente negligentes. Tal como
nós, eles estão à espera de serem pagos por outros.
Por sermos trabalhadores autônomos, não nos qualificamos para
seguro saúde em grupo. Como tenho uma ligeira
"condição preexistente", fui "classificada"
pela Blue Cross e a seguir por todas as demais companhias seguradoras. A maior
parte virou-me as costas. A única que me aceitou tem a liberdade de
cobrar o quanto quiser pelo seguro. E eles querem cobrar-me US$ 1000 por
mês. Devo pagar isso ou morrer essa é aparentemente a minha
escolha. A liberdade, penso, apresenta-se de muitas formas nos Estados Unidos.
Assim é a vida quando se é um dos "inesperadamente
pobres". Você vai finalmente ao dentista quando até mesmo os
analgésicos mais fortes pararam de fazer efeito contra a sua dor de
dentes, e ali ralham consigo por não ter vindo antes. Você tem
vergonha de dizer porque não pôde vir antes. O seu lixo
não é recolhido já há cerca de um mês, porque
essa é simplesmente uma conta que terá de esperar. Você
recusa todos os convites para ir a um café ou um almoço. Aquele
é o dinheiro que terá de ir para o gás ou para comprar
leite para a família.
A ameaça de uma conta inesperada é esmagadora. Se o gato
está letárgico, eu choro. Sei que deveria levá-lo ao
veterinário, mas não consigo imaginar como iria pagar. Se o
carro faz um barulho estranho, o teto tem goteiras (e ele tem mesmo, em muitos,
muitos lugares agora), ou o trilho do portão da garagem está
torto e precisa ser substituído, você tenta ignorar: você
dirige devagar, põe baldes debaixo das goteiras e estaciona o carro fora
da garagem. Ignorar coisas custa muita energia emocional, porque os problemas
não deixam a sua mente eles precisam ser enterrados dia a dia. E
então, como mortos-vivos, arranham continuamente para vir à
superfície, cada vez mais barulhentos e raivosos mais ainda sem
soluções.
Você tenta pedir ajuda sem parecer desesperada. Você procura mais
trabalhos temporários e a tempo parcial, pede a outros para ficarem de
olhos abertos para novos clientes e novas oportunidades, e fica bastante tempo
questionando-se. Você está trabalhando duro. Você
está seguindo as regras. Mas continua perdendo. Por quê?
Você assiste filmes com refugiados, daqueles que vivem em tamanha pobreza
que estão literalmente a morrer de fome, e eles lhe dizem que você
está relativamente próspera. E naturalmente está, se
considerar esse padrão de medida. Mas será que ter os dentes em
ordem deve ser considerado um luxo nos Estados Unidos? Quão baixo
deveríamos aceitar que seja fixada a barra de aferição?
Vergonha, raiva, depressão, desespero. Esses são companheiros
constantes, e afloram constantemente à superfície em momentos
inesperados. Talvez quando o telefone é cortado de novo. Ou
então quando pregam na nossa porta a notificação de corte
de fornecimento de água. Ou talvez quando aquele cliente que lhe deve
US$ 4000 telefona mais uma vez dizendo que só no
próximo mês poderá efetuar o pagamento e você
não pode dizer ao seu banco que espere mais um mês pelo pagamento
da prestação do seu empréstimo.
O desespero vem à superfície quando você não avia
mais as receitas que o seu médico insiste que precisa porque necessita
mais da eletricidade. Ou quando você desliga a sua secretária
eletrônica ao receber amigos em casa, de forma a que eles não
ouçam os seus credores deixarem mensagens furiosas. E viver dessa forma
dá bastante trabalho, toma muito tempo, e também implica o fardo
de um segredo. A vergonha é frequentemente a parte pior. Há
milhares de humilhações e temores, ponderando, por exemplo, cada
viagem de carro porque você já não se pode permitir outro
galão de gasolina. É abastecer o carro com US$ 5 de gasolina de
cada vez, e imaginar quanto tempo consegue fazer durar uma caixa de
lenços ou um rolo de papel higiênico.
Desespero é ter vários títulos e 20 anos de
experiência como CPA e pensar se você deveria ter ido trabalhar
para o governo ao invés de tentar ter um negócio próprio.
Não sei quão piores as coisas irão ficar e nem por quanto
tempo poderemos aguentar trilhar este caminho. Estamos procurando ativamente
uma saída, e temos feito isso já há algum tempo.
Porém, como sabe qualquer um que tenha enfrentado essa longa espiral de
endividamento, encontrar uma saída não é algo simples.
Com a morte da Arthur Anderson
[2]
e a terceirização de diversos serviços de contabilidade,
como o tributário por exemplo, o contabilista já não
é um profissional bem pago como costumava ser e empregos de todo
tipo estão mais difíceis de encontrar.
Não sei muito acerca do "grande quadro" da economia, mas isto
eu sei: Se pessoas como nós estão perdendo esse jogo,
então há algo errado com as regras, pois nós as cumprimos
rigorosamente e mesmo assim acordamos todos os dias tensos e
amedrontados. E desejosos de um caminho melhor. Não sei o que isso
significa para o nosso negócio e para a nossa família, mas sei
que estamos cansados desta versão do sonho americano.
[1]
Contabilista público certificado
(Certified Public Accountant).
[2] Grande empresa de auditoria e contabilidade que foi conivente com as
falcatruas da Enron.
[*]
Kathy Young é um pseudônimo usado pela autora para proteger a
privacidade da sua família. Ensaio escrito em resposta ao pedido de
Michael D. Yates
por
textos acerca do trabalho
.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/young140905.html
.
Tradução de Rodrigo Vieira Miranda.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|