Capitalismo monopolista:
Da estagnação económica à depressão
por
Monthly Review
Quando confrontados na década de 1980 com o fracasso da
geração mais jovem de economistas (tanto os da corrente
convencional como os radicais) em considerarem seriamente a questão da
saída da estagnação económica, Harry Magdoff e Paul
Sweezy declararam no livro
Stagnation and the Financial Explosion
(Monthly Review Press, 1987, 12): "Há uma tentação
de dizer: simplesmente espere e veja, em breve encontrará bastante
disso... Mas isto seria uma escapatória para abandonar o assunto nesse
ponto. Temos o dever para com os nossos leitores de pelo menos tentar tornar
mais claro o que queremos dizer por estagnação e porque pensamos
que ela é tão importante". Eles trataram de fazer
exactamente isso, produzindo um trabalho que em termos das tendências do
último quarto século tem sido encarado como presciente.
Hoje, décadas depois, podemos ver a profundidade da tendência da
estagnação do capitalismo monopolista a anunciar-se finalmente em
alguns dos economistas mais realistas e competentes da corrente convencional.
Exemplo: em 5 de Julho de 2013 Paul Krugman escreveu um artigo curto intitulado
"On the Political Economy of Permanent Stagnation"
(http://krugman.blogs.nytimes.com), argumentando que os Estados Unidos, a
Europa e o Japão poderiam estar a enfrentar crescimento lento e alto
subemprego/desemprego "por um período muito longo". Empregando
argumentos com os quais os leitores da MR serão familiares, acrescentou:
"Na verdade, alguma coisa podia surgir uma nova tecnologia que
induzisse muito investimento, uma guerra, ou talvez apenas uma
acumulação suficiente de "uso, decadência e
obsolescência", nas palavras de Keynes. Mas neste ponto tenho
dúvidas reais sobre se haverá eventos que forcem
acção política".
Uma avaliação ainda mais espantosa foi apresentada recentemente
por J. Bradford DeLonge, professor de teoria económica na Universidade
da Califórnia Berkeley, num artigo intitulado "The Second
Great Depression". DeLong escrevia no número de Julho-Agosto de
2013 de
Foreign Affairs,
a revista do Council on Foreign Relations. Ele explicou: "Parece como se
a economia dos EUA, quando tudo está dito e feito, terá
certamente enfrentado uma década perdida e talvez mesmo duas... A
economia dos EUA não está a recuperar-se mas sim a morrer
(flatlining)
" (159) Do ponto de vista de DeLong é necessário um novo
Keynes, "mas nenhum economista vivo é bastante inteligente,
atrevido e arrogante para tentar ser Keynes". Pior ainda, o aparelho
político está sob o controle de "financeiros" os quais
estão empenhados em "auto-regulação" e que
"simplesmente esperam fazer a sua fortuna e então dizer,
"Après moi, le déluge"
(162-63).
Estes argumentos sobrepõem-se à análise apresentada em
John Bellamy Foster e Robert W. McChesney,
The Endless Crisis: How Monopoly-Finance Capital Produces Stagnation and Upheaval from the USA to China
(Monthly Review Press, 2012). Contudo, enquanto Krugman e DeLong ainda colocam
suas esperanças decrescentes numa mudança política nos
Estados Unidos e em outras economias avançadas, Foster e McChesney
argumentam que o sistema entrou numa nova fase de capital
monopolista-financeiro no qual a estagnação e a
financiarização estão trancadas numa espécie de
abraço simbiótico. Isto é ainda mais complicado pelo
crescimento de uma elite do poder financeiro a principal
beneficiária do neoliberalismo, representando a antítese da
"eutanásia do rentista" keynesiana. O que é exigido
nesta situação é claramente algo muito mais radical do que
o contemplado por Keynes: uma drástica ruptura com o actual sistema de
poder e uma longa revolução. (A crise de ambiente
planetária e os limites da acumulação de capital
relacionadas fazem isto ainda mais necessário.)
Mas e a China? Não é ela a locomotiva para salvar o capitalismo
em crise? Cada vez mais, os economistas mais realistas, mesmo na corrente
convencional, estão a dizer: Não. Do ponto de vista de Michael
Pettis, professor de finanças na Universidade de Pequim, em "The
Urbanization Fallacy, China Financial Markets blog, July 10, 2013 (resumo
em
globaleconomicanalysis.blogspot.com/...
, a China está num grave período de transtorno económico, o
qual explica o seu crescimento em desaceleração e a crescente
instabilidade financeira. "A China escreve Pettis não
pode reequilibrar a economia e não pode reduzir o seu crescente risco de
crédito até que faça uma revisão geral a fundo do
modelo de crescimento e do processo de distribuição do capital, e
ela simplesmente não pode fazê-los a taxas de crescimento
económico muito acima dos 3-4%", o que significaria uma queda nas
taxas de crescimento de 50 por cento ou mais. Para Pettis, a China está
a sofrer dos muitos anos de "super-investimento". Como afirmado em
The Endless Crisis: "O super-investimento foi acompanhado pela crescente
fragilidade financeira o que levanta a questão de uma "Bolha da
China" (162). Estas e outras contradições do processo de
acumulação chinês estão agora a vir à tona.
Na verdade, em sociedades por todo o mundo Brasil, Turquia, China,
Grécia, Espanha a recente crise estrutural do capital está
a gerar um novo espírito de protesto em massa. É
improvável que mesmo os Estados Unidos fiquem imunes. Isto não
teria surpreendido Magdoff e Sweezy na década de 1980. "A teoria da
estagnação", escrevem eles em
Stagnation and the Financial Explosion,
"diz-nos" que os sistema do capital monopolista "está
sempre a tender a atolar-se sob o peso das suas próprias
contradições, e as condições que promovem uma nova
oportunidade, como grandes guerras e manias especulativas, fazem danos enormes
e em breve perdem sua eficácia. A teoria da estagnação, em
suma, ensina-nos que o que precisamos não é a reforma do
capitalismo monopolista mas sim a sua substituição por um sistema
que organize a actividade económica não para a maior
glória do capital mas sim para atender às necessidades dos povos
de terem vidas decentes, seguras e, na medida do possível,
criativas" (24-25).
O original encontra-se em
monthlyreview.org/2013/09/01/monthly-review-volume-65-number-4-september-2013
Este editorial encontra-se em
http://resistir.info/
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