Obama pretende reescrever a história da Guerra do Vietname
por
Monthly Review
Em Maio último o presidente Obama assinou uma proclamação
que estabelecia a "Comemoração do 50º
Aniversário da Guerra do Vietname", destinada a perdurar durante
treze anos, desde Dia da Memória de 2012 até o Dia dos Veteranos
em 2025, e a ser dirigida pelo Departamento da Defesa dos EUA. Poucos dias
depois, no Dia da Memória, Obama pronunciou um discurso no Monumento
à Guerra do Vietname sobre a Comemoração da mesma. Ele
observou que embora "conselheiros" militares dos EUA tivesse morrido
no Vietname já nos "meados da década de 50", os
combates abertos das forças dos EUA pode-se dizer que começaram
apenas em Janeiro de 1962 o que faz com que 1962 seja o ano mais
adequado para datar o desencadeamento da guerra, e 2012 o quinquagésimo
aniversário do seu início.
Obama declarou abertamente que a Guerra do Vietname representou uma
"vergonha nacional, uma desgraça que nunca deveria ter
acontecido". Mas a "vergonha nacional" a que se referiu
não se deve às mortes de vários milhões de pessoas,
nem a atrocidades como o Massacre de My Lai, o desencadeamento de armas
químicas (o Agente Laranja, o mais notório) e a
utilização pela máquina de guerra dos EUA de mais do dobro
da potência explosiva no Vietname do que a utilizada por todas as partes
na Segunda Guerra Mundial numa tentativa de derrotar um povo a combater
para libertar-se primeiro do colonialismo francês e a seguir do
neocolonialismo dos EUA. Nada destes factos com a excepção
de uma referência indirecta aos efeitos do Agente Laranja sobre veteranos
retornados do Vietname mereceu sequer menção. Ao
invés, para Obama, a "vergonha nacional" foi que o retorno das
tropas estado-unidenses nem sempre foi "saudada em casa", elas muitas
vezes foram "culpadas pelas malfeitorias de uns poucos" e foram
"por vezes... denegridas" apesar do facto de terem feito
enormes sacrifícios numa guerra que "não
começaram".
A comemoração de treze anos está portanto destinada a
aplacar a culpa do país por ter supostamente deixado de honrar
plenamente aquelas tropas dos EUA que combateram na guerra, incluindo os 58.282
americanos que morreram. Além disso, a intenção, como
indicou Obama, é comemorar cada batalha da guerra e aqueles americanos
que nelas combateram "em Hue e Khe Sanh, em Tan Son Nhut e Saigon, da
Colina Hamburger até Trovoada Rolante". Referindo-se frequentemente
ao que ele chamou um "tempo de divisão entre americanos"
internamente durante a Guerra do Vietname, Obama chamou a atenção
explicitamente em certa altura para aqueles que "combateram contra" a
guerra, isto é, movimento anti-guerra embora não tenha
havido implicação de que isto foi uma posição
"honrosa". Hoje o objectivo, declarou ele, é reunir todos os
americanos em torno de uma comemoração da guerra todo o bem que
finalmente fez para o país uma vez "curadas" as feridas
ao tornar a "América ainda mais forte do que antes".
Deveria ser óbvio a partir de tudo isto que os planos actuais para uma
Comemoração prolongada do 50º Aniversário da Guerra
do Vietname destinam-se a muito mais do que meramente honrar veteranos e
aqueles americanos que morreram na guerra. É ao invés uma
tentativa de reescrever a história e de apagar da memória
nacional os factos básicos acerca da mais horrenda guerra imperialista
(Norte-Sul) do século XX, bem como a guerra mais impopular da
história dos EUA. Durante cerca de uma década e meia, desde
meados da década de 1970 até a Guerra do Golfo, a capacidade dos
EUA para empenhar-se em grandes intervenções militares directas
no terceiro mundo foi prejudicada pelo que os conservadores etiquetaram como
Síndrome do Vietname, isto é, a relutância da
população estado-unidense a apoiar tais
intervenções directas fortes no Sul global. Finalmente, contudo,
uma série de eventos históricos a queda da União
Soviética e a correspondente ascensão dos Estados Unidos como a
superpotência única, a Guerra do Golfo, os ataques do 11 de
Setembro de 2001 e as invasões do Afeganistão e do Iraque
levaram a uma nova era de apoio difuso (entusiasticamente promovido pelos
órgãos de poder) à guerra imperial pelos Estados Unidos
naquilo que pode ser chamado uma era de "imperialismo nu". A
máquina de guerra imperial encara muito claramente a
Comemoração do 50º Aniversário da Guerra do Vietname
como uma oportunidade para apagar para sempre quaisquer visões
públicas negativas que perdurem da Guerra do Vietname, obscurecendo
assim as lições reais da guerra. Mesmo a derrota sofrida pelos
Estados Unidos frente à forças vietnamitas está agora a
ser minimizada ou negada. "Frequentemente também é esquecido
que vocês, nossas tropas no Vietname", proclamou Obama
patrioticamente, "venceram toda grande batalha que combateram".
Entre o princípio da década de 1950 e o fim oficial da guerra em
1975, a MR publicou cerca de cinquenta artigos sobre o envolvimento directo dos
EUA na Indochina, bem como numerosos artigos que tratavam a guerra menos
centralmente no contexto da crítica do capitalismo e do imperialismo.
Artigos adicionais relativos à Guerra do Vietname foram publicados na
revista nos anos posteriores até o presente. Pretendemos, ao longo dos
próximos treze anos (entre este momento e o quinquagésimo
aniversário do fim da guerra), referirmo-nos quando necessário
neste espaço a alguns destes artigos e aos eventos que eles registam;
reimprimir artigos chave; corrigir erros decorrentes da actual propaganda
oficial da Comemoração da Guerra do Vietname; e publicar algumas
novas análises críticas da guerra. Deste modo esperamos tanto
recordar aos nossos leitores mais velho e transmitir aos mais jovens as
importantes lições sobre militarismo e imperialismo que a Guerra
do Vietname realçou. Se a Comemoração oficial do 50º
Aniversário da Guerra do Vietname conduzida pelo Departamento da Defesa
destina-se a gerar apoio dentro do corpo político dos EUA à
guerra imperial renovada, a rememoração da guerra pela MR tem o
objectivo precisamente oposto: reforçar oposição, tanto
dentro dos Estados Unidos como por todo o mundo, a intervenções
militares presentes e futuras por parte dos EUA e de outras potências
imperiais.
(...)
O original encontra-se em
Monthly Review
, Volume 64, Number 4, Setembro/2012
Este editorial encontra-se em
http://resistir.info/
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