A crise irreversível do capitalismo
por
Monthly Review
No editorial do número de Setembro da
Monthly Review
(escrito em fins de Julho) perguntámos porque, com os Estados Unidos a
salvarem o sector financeiro da economia ao custo considerável de
centenas de milhares de milhões de dólares, não havia
indignação pública. Como observámos naquele
momento, "Afinal de contas parece não haver
explicação satisfatória para a falta de protesto popular
sobre uma série de doações
ad hoc
a derramar centenas de milhares de milhões de dólares de
dinheiro público sobre os mestre das finanças, colectivamente o
grupo mais rico de capitalistas sobre o planeta. E isto levanta a
questão: Estará esta actual indignação, no
entanto, a crescer subterraneamente, não ouvida e não vista?
Será que ela arrebentará subitamente, como uma velha toupeira, de
forma imprevista e de modos não imaginados?" O colapso do Lehman
Brothers em 15 de Setembro, o resultante congelamento dos mercados de
crédito, o plano de emergência do secretário do Tesouro
Henry Paulson para um salvamento de US$700 mil milhões de firmas
financeiras, a oferecer "dinheiro por lixo", isto é, propondo
comprar os resíduos tóxicos de títulos apoiados por
hipotecas virtualmente sem qualquer valor a expensas do contribuinte
respondeu rapidamente à nossa pergunta. Quando o Tesouro dos EUA
envolveu-se no acto com a sua proposta de salvamento, requerendo
autorização do Congresso (anteriormente a Reserva Federal
conduzira os salvamentos, ao ponto de os títulos do Tesouro terem afundado
para apenas cerca da metade dos activos do Fed, como explicámos em
Setembro), desencadeou-se o inferno. Subitamente, a
indignação pública que estivera a crescer abaixo da
superfície explodiu. A classe capitalista estado-unidense foi
abruptamente confrontada com uma grande crise política, assim como
económica.
A ira visível da população quanto ao plano de salvamento
não impediu o Departamento do Tesouro, a liderança do Congresso,
o presidente, e os dois candidatos presidenciais juntamente com o capital
financeiro de avançarem e remendarem em conjunto um acordo
baseado em grande medida na proposta original de Paulson. O que era
completamente inesperado, contudo, foi a revolta na Câmara dos Deputados
em 29 de Setembro, com 133 republicanos e 95 democratas a votarem contra o
pacote de salvamento dos US$700 mil milhões, levando à maior
queda pontual na história do mercado de acções dos EUA.
Não há dúvida, os detentores do poder logo abriram o seu
caminho, e uma versão da proposta do Departamento do Tesouro, com
elementos acrescentados destinados a dar cobertura política aos
representantes que alteraram os seus votos, foi logo aprovada. Mas a revolta
inicial na Câmara mudou para sempre a natureza da pior crise financeira
desde a Grande Depressão, tornando-a pela primeira vez abertamente
política, deixando uma herança de discordância popular. A
politização da questão do salvamento e as cada vez mais
desesperadoras condições económicas garantem que as
consequências a longo prazo para o capitalismo estado-unidense
serão imensas.
Ninguém tem uma bola de cristal para olhar o futuro, e a natureza desta
crise torna impossível prever o que acontecerá a seguir. Mas
umas poucas coisas parecem óbvias. Primeiro, o salvamento a ser
executado pelo Departamento do Tesouro, apesar de maciço, na melhor das
hipóteses apenas impedirá um colapso imediato. Ele não
porá fim à crise financeira. O génio da
financiarização está fora da garrafa e vai levar tempo
para enfiá-lo ali outra vez. A crise dos empréstimos
habitacional e hipotecário de qualquer forma não foi debelada. A
Reserva Federal e outros agentes do governo federal já despejaram mais
do que os US$700 mil milhões do pacote do salvamento (incluindo resgate
de hipotecas de casas) no sistema financeiro ao longo do ano passado na forma
de empréstimos, garantias, swaps, dádivas e tomadas de controle
("A Tally of Federal Rescues",
New York Times,
September 28, 2008; "Treasury and Fed Looking at Options",
New York Times,
September 29, 2008). Ao mover-se rapidamente da condição de
prestamista de último recurso para a de investidor de último
recurso, o governo federal esticou enormemente o seus recursos já
sob tensão devido às guerras do Iraque e do Afeganistão.
Segundo, o declínio rápido da hegemonia económica dos EUA
agora é óbvio para todo o mundo e é provável que
prejudique a vontade de investidores e governos estrangeiros de tomarem
dólares o que é necessário para financiar a
dívida crescente dos EUA. Está a crescer a pressão
internacional para impedir Washington de exportar a sua crise para fora. O
presidente brasileiro Luís Inácio Lula da Silva pediu que os
estados latino-americanos, africanos e asiáticos não fossem
tornados "vítimas do casino erguido pela economia americana"
("U.S. Crisis Deepens Divisions in S. America,"
Washington Post,
October 1, 2008). Na verdade, o imperialismo estado-unidense está a
enfraquecer-se visivelmente por toda a parte apesar do US$ 1
milhão de milhões
(trillion)
de despesas militares reais só em 2007 (ver "The U.S. Imperial
Triangle and Military Spending,"
Monthly Review,
October 2008).
Terceiro, o problema real ainda não está a ser tratado: a
estagnação da economia dos EUA (e de países capitalistas
avançados). Isto não é tanto um efeito da crise
financeira, como habitualmente se supõe, e sim em primeiro lugar a causa
do vasto crescimento da superestrutura financeira e a razão
porque a explosão da bolha financeira é um desastre tão
imenso e actualmente inultrapassável (ver "The Financialization of
Capital and the Crisis,"
MR,
April 2008). A estagnação da produção,
simbolizada pelos recentes US$25 mil milhões em garantias federais a
empréstimos aos grandes fabricantes de automóveis, recebeu
relativamente pouca atenção face à crise financeira
astronómica, mas continua no cerne do mal-estar económico.
Finalmente, agora está a penetrar profundamente na consciência
pública nos Estados Unidos que a questão mais importante no fim
das contas é: Quem pagará? O acordo do salvamento evadiu-se
à questão ao deixar para o próximo presidente sugerir um
caminho para compensar o público pelas perdas com a compra de lixo
financeiro tóxico pelo Tesouro. O que isto significa é que a
batalha política real apenas começou.
CRISE IRREVERSÍVEL
Se são estas as dimensões principais do problema, o que deveria a
esquerda estado-unidense fazer nesta altura? Não é uma pergunta
de resposta fácil. Não é nossa tarefa consertar o seu
sistema. Nem é ele de facto consertável. Como Harry Magdoff e
Paul Sweezy argumentaram em 1988, no rescaldo na crise do mercado de
acções de 1987, isto é, julgado a partir de uma
visão mais ampla, uma Crise Irreversível. Não há
portanto soluções visíveis. Sob tais circunstâncias,
a ênfase deveria ser sobre a redução da desigualdade, o
fortalecimento da posição dos trabalhadores, proporcionar
empregos decentes para pessoas efectuarem o trabalho para o qual estão
preparadas, e garantir bens sociais essenciais como: cuidados de saúde
adequados, alimentação, habitação,
educação, Segurança Social, pensões de reforma e
protecção ambiental. Os gastos militares deveriam ser cortados
drasticamente e utilizados para financiar programas sociais necessários.
Deveria ser aplicado um imposto sobre o comércio de títulos e
idealmente também um imposto sobre a riqueza. Tais coisas só
podem ser alcançadas, contudo, se a população se levantar
e exigir controle sobre a política económica. Mais uma vez,
não deveríamos pretender nem por um momento que qualquer destas
coisas repararia o que há de errado com o sistema capitalista.
Não o faria. Mas algumas destas medidas são necessárias
para criar uma vida melhor para a vasta maioria da população, e
como um passo de afastamento do capitalismo e em direcção a uma
melhor alternativa socioeconómica.
Certamente há algo a dizer quanto à visão do deputado
Peter DeFazio (D-OR) quando, em resposta ao salvamento de Paulson, escreveu
("Wall Street Bailout Won't Help Main Street,"
Eugene Register-Guard,
September 29, 2008): "Na Workds Progress Administration, do presidente
Franklin Roosevelt, investimos em construção de estradas, pontes,
barragens hidroeléctricas e outros projectos de obras públicas
para reconstruir a economia quebrada do nosso país". DeFazio
avançava para argumentar que se um plano de salvamento deveria ser
adoptada este deveria ser pago por uma transferência fiscal de
títulos, tal como realmente existiu nos Estados Unidos de 1914 a 1966.
O senador Bernie Sanders, de Vermont, propôs um [plano] de cinco anos,
com uma sobretaxa de 10 por cento sobre indivíduos com rendimentos de
mais de US$500 mil por ano e sobre famílias com rendimentos de mais de
US$1 milhão por ano. Nada disto resolveria as
contradições nucleares do sistema. Mas tais acções
representariam um arranque na direcção correcta. É mais
do que tempo de que na implacável guerra de classe que tem sido travada
pela classe capitalista contra a classe trabalhadora, desde o princípio
da década de 1970, o povo estado-unidense pelo menos comece a
defender-se em massa, insistindo para que as suas necessidades sejam atendidas.
Em grande parte do resto do mundo a existência contínua da ordem
do capital monopolista-financeiro dominado pelos EUA, habitualmente
identificada como neoliberalismo, já está ou estará
em breve a ser desafiada.
Estes problemas serão discutidos mais completamente na revisão do
mês de Dezembro e num livro de John Bellamy Foster e Fred Magdoff,
The Great Financial Crisis: Causes and Consequences,
a ser publicado em Janeiro pela Monthly Review Press.
Não precisamos recordar aos leitores da
MR
que o actual desastre económico é apenas parte de um fracasso
mais geral do sistema capitalista, e que há outras razões
igualmente prementes para a revolta: mais notavelmente, as crescentes
catástrofes da guerra e da destruição ambiental. O que
estamos a enfrentar muito claramente é um novo momento histórico,
no qual uma política genuinamente radical pode voltar a ser
possível nos próprios Estados Unidos.
03/Outubro/2008
O original encontra-se em
http://monthlyreview.org/nfte081101.php
. Tradução de JF.
Este editorial encontra-se em
http://resistir.info/
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