O povo dispensável do Líbano
por Mike Whitney
O mais chocante no assalto de Israel ao Líbano é a
precisão desapaixonada com que o bombardeamento foi executado. De ponte
para silo, de silo para central eléctrica, de central eléctrica
para fábrica, de fábrica para mesquita, de mesquita para
hospital, de hospital para edifício de apartamentos, cada um dizimado
com a calma desdenhosa de um cirurgião a remover um tumor
cancerígeno. Não sentimos qualquer sentido de raiva no
comportamento de Israel, apenas a selvageria calculada de homens que encaram
como seu dever decapitar sistematicamente toda uma civilização e
deixá-la em ruínas.
A destruição do Líbano é o trabalho de robots,
não de homens. Insensíveis, sem remorsos, feixes de pele e osso.
Ninguém poderia ter feito o que estes homens fizeram em apenas sete dias
e continuar a fazer parte da família humana a que você e eu
pertencemos.
Até agora, não há indicação de que os
soldados israelenses capturados tenham sido agredidos ou maltratados. O
arrasamento de uma metrópole outrora agitada e próspera foi
executado enquanto as vítimas certamente ainda estão enfiadas em
algum desconhecido lugar escondido. Não há objectivo para a
turbulência de Israel, os termos da libertação podiam ter
sido negociados numa "troca de prisioneiros" como fizeram muitas
vezes antes. O bombardeamento é puramente um acto de violência
gratuita destinado a destruir uma nação que mal se recuperou de
18 anos de ocupação israelense. Agora o Líbano retornou
à Idade da Pedra.
Por que?
Terão os soldados sido torturados ou abusados como teriam sido sob a
custódia americana ou israelense?
Espero que não. Espero que estejam a ser bem tratados. Espero que
sejam soltos e possam passear em direcção ao sul através
dos escombros e das partes de corpos esparramados de modo a que eles possam
apreciar o que o seus líderes fizeram em seus nomes. Espero que sejam
libertados de modo que o Hezbollah possa clamar por uma vitória moral
sobre as forças da desumanidade e do cinismo que infectam as poltronas
do governo em Tel Aviv e Washington.
Seja qual for a oportunidade que possa ter havido para a paz, ela se foi agora.
Temos de ser realistas. A próxima geração de
muçulmanos desprezará a nós e a tudo o que representamos.
Nenhuma capital ou cidade estará segura. Os EUA e Israel estão a
semear dentes de dragão por todo o Médio Oriente e a sua colheita
sangrenta virá nas décadas pela frente. Cheney estava certo,
esta guerra poderia perdurar por 50 anos e não acabar no nosso tempo de
vida.
O Líbano foi a última gota. Ele prova que era verdade tudo o que
disse Bin Laden: "Eles vieram tomar sua terra e seus recursos; eles
vieram desonrar suas mulheres e desgraçar sua cultura; eles vieram
humilhá-lo em frente aos seus filhos e amontoar ignomínia sobre
sua religião".
Onde é que ele estava errado?
O escritor Pepe Escobar disse isto melhor: "O efeito da barragem bombista
israelense será atrair ondas mais novas e mais caudalosas de
muçulmanos moderados para o Islão político e radical. A
percepção da rua árabe assim como para a maior
parte dos 1,4 mil milhões de muçulmanos do mundo foi
reforçada: o eixo EUA-Israel parece ter uma licença para matar
árabes com impunidade" (Pepe Escobar,
"Leviathan Run Amok"
,
Asia Times).
Escobar está certo. As vidas de muçulmanos nada significam.
Eles tornaram-se o povo "dispensável" cuja segurança
simplesmente não importa. A sua carnificina maciça aparece
regularmente no noticiário da noite enquanto estórias de cortar o
coração são desfiadas acerca do sofrimento de pais e
mães israelenses que perderam seres amados em ataques
retaliatórios.
Os muçulmanos não têm mães e pais? Será
tão importante demonizá-los que devem ser despojados de todo
traço de humanidade, incluindo pais?
Para onde irão estas pessoas "dispensáveis" quando os
recursos do mundo continuam a secar e as suas pátrias são cada
vez mais assediadas?
Indonésia, Somália, Arábia Saudita, Irão,
Síria, Líbia, Sudão, Afeganistão; para onde
irão todos eles? Serão eles colocados em campos de refugiados ou
viverão como prisioneiros na sua própria terra; serão
alvejados como cães ou levantar-se-ão e combaterão
até o fim?
Quantos escolherão aderir às fileiras crescentes de jihadis e
grupos de resistência a conspirar e planear represálias do modo
que puderem? Quantos considerarão que é melhor morrer de
pé do que viver de joelhos?
O Líbano preparou o caminho para um século de guerra. Foi
arrasado e o seu povo evacuado para ajustar contas com o Hezbollah e criar uma
zona tampão no flanco norte de Israel. As vidas arruinadas não
têm consequência. A cidade será reconstruída com
empréstimos do Banco Mundial e do FMI e o trabalho será
contratado pela Halliburton e pela Bechtel. Já vimos tudo isto antes;
a destruição absoluta de uma sociedade de modo a que possa ser
colocada nas mãos dos empreiteiros globais. O Líbano não
será excepção.
Agora que o flanco norte de Israel foi "pacificado" Olmert pode
voltar seus olhos para leste, em direcção a Damasco onde o
oftalmologista Bashar Al-Assad terá de ser derrubado a fim de assegurar
caminhos para oleodutos do norte do Iraque até Haifa. Deste modo Israel
tornar-se-á um grande jogador nas guerras por recursos deste
século e um líder na região.
O jogo do xadrez geopolítico está a desdobrar-se tal como fora
escrito anos atrás pelos neoconservadores que na altura haviam sido
considerados como radicais e lunáticos. Ninguém está a
rir agora. Os 12 aldeões que foram massacrados ontem em Srifa pelas
bombas israelenses não estão a rir-se nem os pais das 11
crianças que foram vaporizadas por um míssil israelense enquanto
tomavam banho num canal no campo de refugiados de Oasmia.
Isto é o cálculo da miséria humana; a matança
deliberada de pessoas inocentes para alcançar objectivos
políticos. Não é diferente do terrorismo. Bush e Olmert
são dois homens que têm confiança absoluta na capacidade da
violência para modelar o comportamento. Eles não estão
preocupados com os rios de sangue que alimentam seus sonhos. Afinal de contas,
trata-se de pessoas "dispensáveis".
19/Julho/2006
O original encontra-se em
http://www.uruknet.info/?p=m24811&hd=0&size=1&l=e
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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