Hillary Clinton em Ancara: arrogância & realidades duras
por Louis Denghien
A visita de Hillary Clinton ao seu fiel Erdogan deu ocasião para um novo
conjunto de ameaças e esperanças formuladas de modo muito
ambicioso: trata-se nada menos do que o "pós Assad" ou, mais precisamente,
"o dia seguinte após a queda de Assad" que a chefe da
diplomacia americana veio preparar com o seu agente de poder regional.
Diplomacia, humanismo & lucidez com geometria hiper-variável
Para acelerar esta perspectiva, que se faz esperar desde há uns 500 dias
até o presente, a secretária de Estado encara nomeadamente a
extensão das sanções americanas e aliadas contra a
Síria também ao Irão e ao Hezbollah, pois a sra. Clinton
acredita detectar "ligações" entre estas três
entidades.
Mas a patroa da diplomacia americana foi à Turquia: ela portanto ligou a
questão síria à questão turca, via PKK, movimento
separatista curdo que ela associou à al-Qaida. À parte o facto de
que o PKK e o nacionalismo curdo em geral ter sido encorajado outrora pelos
mesmos americanos contra Saddam Hussein e o Irão, a vinda e o
desenvolvimento da al-Qaida na Síria é a consequência
directa do apoio dos ocidentais americanos e turcos em primeiro lugar
aos grupos armados do Exército Sírio de
Libertação (ESL), militarmente e ideologicamente
permeáveis ao radicalismo jihadista. Mas ouçamos o que foi dito
por Clinton a respeito: ela se inquieta em "que terroristas do PKK, da
al-Qaida ou outros aproveitem a luta legítima do povo sírio pela
liberdade para promover seus próprios interesses".
Nós nos inquietaríamos antes em que os Estados Unidos procurem
promover o caos e a guerra no Síria, no Líbano e no Irão
para "promover seus próprios interesses"
geoestratégicos. Interesses de vistas curtas pois tudo o que
conseguirão fazer os americanos é reforçar o islão
radical
salafista
, que já vem fazer cócegas na fronteira Sul de Israel. Mas isso
é o seu problema e a sua inconsequência diplomática.
Poder-se-ia perguntar também à secretária de Estado, se se
for ingénuo e tiver tempo a perder, o que ela pensa do nível de
legitimidade da luta dos curdos, ou dos xiitas do Bahrein e da Arábia
Saudita, sem falar sequer dos palestinos.
A sra. Clinton aproveitou a sua estadia turca para recordar que a
política do seu país em relação à
Síria repousava sobre "três pilares". A saber: apoio
à oposição armada, através de uma ajuda
"não letal"; ajuda humanitária e
preparação de uma transição política.
"Palavras, sempre palavras, as mesmas palavras" desde há
meses, e pelo menos uma mentira: mesmo a imprensa americana diz a CIA na
Turquia supervisiona a distribuição ao ESL das armas pagas pelo
Golfo. Quanto ao aspecto humanitário, trata-se de comprar uma clientela
local e, para o país que mais bombardeou povos nestes últimos
vinte ano e que sempre apoio potentados absolutos no mundo árabe
de Mubarak ao Abdallah da Arábia posar como defensor dos fracos e
perseguidos.
É verdade que esta visita é também um gesto para com o
fiel, ainda que não eficaz e fiável, Erdogan. O qual certamente
bem precisa. A Reuters dedicou-lhe em 7 de Agosto um artigo bastante pertinente
sobre a viragem de pesadelo que o conflito sírio assume para Ancara:
além de uma instabilidade na fronteira Sul, com o desenvolvimento de
correntes radicais islamistas que desafiam Ancara até à sua
fronteira síria, a Turquia nestas últimas semanas viu delinear-se
uma ampliação militar e política da frente curda
até a Síria, enquanto no extremo Sudeste do seu território
um ou dois distritos caíram muito recentemente sob o controle do PKK.
Acrescentemos a isto tensões vivas com a Rússia e o Irão.
E ainda, mesmo que o artigo da Reuters não menciona, dificuldades
económicas e políticas internas para o governo Erdogan.
Interrogado pela Reuters, um investigador anglo-saxónico instalado em
Ancara, Gareth Jenkins, resume assim o impasse ao qual Erdogan e sua equipe
conduziram o seu país em apenas doze meses: "Eles realmente
não reflectiram. Disseram: "Desembaracemo-nos de Assad", sem
realmente pensar naquilo que viria depois". E esta impulsividade, este
amadorismo da direcção turca, teve o seguinte resultado,
implacavelmente resumido por Jenkins: "Agora os seus dois cenários
de pesadelos estão em vias de concretizar-se: a emergência de uma
espécie de entidade curda no Norte da Síria que será
claramente um trunfo para o PKK e reforçará os curdos da Turquia
no seu desejo de autonomia; e uma libanização da Síria com
uma longa guerra civil étnica e religiosa com diferentes grupos
controlando diferentes regiões".
Sobre este último ponto, digamos que ainda não se chegou
lá e que o único meio de conjurar este pesadelo turco seria
precisamente uma vitória total e rápida de Bachar! De facto,
quando, para o bem dos turcos e dos sírios, o "dia
após" Erdogan?
Mais uma vez, poder-se-ia dizer que este é o seu problema
"Júpiter torna loucos aqueles que quer perder" mas a
conduta política dos dirigentes turcos teve as consequências
dramáticas que se sabe para os sírios. Mas os turcos, por sua
vez, arriscam-se a ter de pagar.
O autismo "holandês"
Da grande patroa ocidental, passemos ao seu "brilhante segundo"
ou terceiro: ao falar nas exéquias da 88ª vítimas
militar da absurda guerra ocidental no Afeganistão, François
Holland teve de fazer um desvio pela Síria, precisamente a fronteira
sírio-jordana onde chegou uma missão sanitária e militar
francesa para cuidar não só dos refugiados como também,
teve de precisar o sucessor e seguidor de Sarkozy, os "combatentes
feridos". François Hollande passa geralmente por homem inteligente,
calmo e dotado de humor, mas é forçoso constatar que estas
qualidades se evaporam quanto à questão da Síria e da
política externa em geral: aí, com o uniforme atlantista e
sionista o sr. presidente da República Francesa sai-se
invariavelmente com os lugares comuns e as mentiras da "linha"
americana. Isto é assim e aí está o seu problema: com os
seus amigos euro-ocidentais, Hollande, por preguiça e conformismo
intelectuais e também por preocupações de política
interna, faz uma análise falsa da situação na Síria
e na região. Ele prefere errar com Clinton e Cameron do que
acertar com Putine. Má escolha.
11/Agosto/2012
Ver também a sátira
Hillary Clinton on the Syria No-Fly Zone
O original encontra-se em
http://www.infosyrie.fr/actualite/hillary-clinton-a-ankara-jactance-realites/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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