A nova guerra israelense contra o Líbano
por Marie Nassif-Debs
[*]
Introdução:
A nova guerra israelense contra o Líbano (12 de Julho a 14 de Agosto de
2006) constituiu um ponto de viragem na política de guerra adoptada
pelos Estados Unidos no seguimento do 11 de Setembro de 2001 e chamada de
"política das guerras preventivas"; essa política teve
por ponto de partida o Afeganistão, seguido do Iraque e depois a
Palestina, o Líbano e, enfim, o Sudão
Sem esquecer as
ameaças sérias proferidas contra a Síria e o Irão.
Apesar das guerras "preventivas" dos Estados Unidos terem a
"supressão do terrorismo" por palavra de ordem e apesar de os
seus instigadores terem sempre utilizado o "lobby" sionista americano
e o sectarismo religioso, que exprime na realidade uma posição
ultra-direitista, os objectivos reais das novas tendências agressivas da
administração americana (que alguns chamam de
"mundialização militar") residem, na verdade, na
vontade de dominar uma região de uma grande importância
estratégica, o mundo árabe: esse mundo é o ponto de
junção de três continentes; o seu solo esconde riquezas
naturais sem precedentes (petróleo e gás), além de imensa
água e sol, que, como se diz, são as duas fontes de energia do
futuro
A isso acrescenta-se um trunfo ainda maior: essa região
é facilmente "controlável" por conter, segundo os
teóricos americanos dos anos 60 do século passado, todos os
elementos que permitem a sua implosão em dezenas de pequenos Estados
antagónicos, seja por contradições étnicas e
tribais, sempre prontas a excitarem-se, seja por divisões confessionais
que, desde o século VII, continuam a causar estragos e dividem a
região em dois "crescentes" partindo do Afeganistão
para acabar na Palestina e no Líbano: o "crescente" xiita,
que começa no leste do Afeganistão, atravessa o Irão, o
sul do Iraque e as regiões "alauítas" da Síria
antes de acabar no Líbano, e o "crescente" sunita, quase
completamente de frente para o primeiro.
I. O "Novo Médio Oriente"
Esta imagem, mesmo que apenas esquemática, põe no entanto em
evidência os elementos essenciais que levaram os Estados Unidos, durante
as duas administrações de George W. Bush, a voltar ao projecto do
ministro dos Negócios Estrangeiros dos anos 70, o republicano Henry
Kissinger. Esse projecto baseava-se na reorganização do
Médio Oriente em geral, e dos países árabes em particular,
na base de novos pequenos Estados antagónicos, reunidos apenas à
volta do seu protector americano e do seu braço armado na região,
Israel. Principalmente que este último teria podido nos anos sessenta e
setenta do século passado enfraquecer e vencer os árabes
utilizando o regime árabe oficial e as suas posições
hesitantes quanto aos direitos do povo palestiniano ao regresso e a construir
um Estado independente no seu território nacional.
É preciso dizer também que o projecto do "Grande
Médio Oriente" (ou do Novo Médio Oriente) era, desde o
início, baseado na política do "passo a passo",
refinada por Henry Kissinger, e que dera já provas da sua
eficácia na divisão do mundo árabe, sobretudo quando levou
o presidente egípcio Anuar Sadate a assinar uma paz separada com os
israelenses. Ajunte-se a isso que os bons sucessos de tal política
induziram os Estados Unidos em erro, quando, após terem neutralizado o
Egipto, conseguiram no início empurrar o Iraque para uma guerra feroz
com o Irão e mais tarde dividir os Estados árabes que envolvem
Israel (a Jordânia, a Síria, o Líbano e a Palestina): com
efeito, na sequência do congresso de Madrid, a OLP
(Organização de Libertação da Palestina) foi
encaminhada para uma outra via, que nós chamámos
"Gaza-Jericó: o começo e o fim". Os conflitos
arabo-árabes puseram-se também na frente da cena, enquanto que os
poderes árabes instituídos praticavam uma repressão
exagerada contra os povos, os quais, uma vez mais, ficaram impossibilitados de
participar no combate contra as agressões israelenses. Também
à "Frente da Resistência Nacional Libanesa" contra a
ocupação israelense (criada em 1982) tentou-se-lhe dar uma imagem
confessional que facilitaria, pensava-se, o seu cerco. Tudo isso se passava com
o Líbano abatido por uma guerra civil mortífera que durou mais de
quinze anos e na qual os Estados Unidos, mesmo após a partida da OLP em
1982, tiveram um papel de primeiro plano, muito bem explicado por Henry
Kissinger no último volume das suas memórias.
Tais são as medidas preliminares tomadas com o objectivo de realizar o
projecto qualificado mais tarde por vários adjectivos diferentes, tais
como: o "grande" Médio Oriente, "alargado" e
"novo", enfim
Quanto ao seu mapa geopolítico, não
difere muito do planeado por Kissinger, sobretudo porque, desta vez
também, as duas condições que guiaram o seu traçado
foram as divisões étnicas e confessionais.
Esse mapa começa pelas divisões das repúblicas
islâmicas da ex União Soviética. Em seguida divide o
Iraque em três pequenos Estados e duas regiões
"independentes" (o primeiro passo já está dado com a
nova constituição e na atitude "independentista" tomada
pelos curdos). A etapa seguinte deveria, segundo o plano, passar-se no
Líbano, depois na Síria, no Egipto e no Sudão; os Estados
do golfo arábico são também ameaçados por uma
retraçagem das suas fronteiras
Tudo isto prepara-se ao mesmo tempo
que os Estados Unidos concluem o seu "papel" na região dos
Balcãs por eles dividida e cujos novos Estados criados foram postos
debaixo da batuta da OTAN.
Podemos portanto afirmar que os Estados Unidos, desde a queda da União
Soviética e o fim da "bipolaridade", têm-se aproveitado
da sua nova situação para levar os seus aliados europeus em
aventuras militares que não dão a ganhar economicamente
senão a Washington, e estender a presença das suas tropas e das
suas bases militares no mundo inteiro, fazendo da administração
americana, e sobretudo as dos Bush, pai e filho, a dona incontestada do
planeta, diante da qual todos dobram a espinha, inclusivé o Conselho de
Segurança das Nações Unidas. Aliás, este
último já não tem qualquer eficácia, uma vez que o
seu novo papel não consiste senão em ratificar os ditados e as
decisões dos Estados Unidos, o que lhes permite dirigir melhor o seu
domínio incontestado sobre os pontos de tomada de decisões, os
mercados, as fontes de energia e todas as riquezas naturais que o nosso planeta
esconde.
Tudo isto é bem visível nas resoluções e
decisões tomadas pelo Conselho de Segurança, ou mesmo pelas
Nações Unidas, mas também nas formas que tomou cada
intervenção, nos meios utilizados e no número de cada uma
das forças de intervenção (ou outra) a operar no terreno.
Chamamos a atenção, a título de exemplo neste assunto,
para algumas das resoluções tomadas desde 1993 e relativas
às intervenções na Somália, Bósnia,
Afeganistão, Líbano e Iraque, e, há alguns dias
atrás, no Darfour (Sudão), e às tentativas de cercar o
Irão (sobre esse plano referimo-nos à resolução que
os Estado Unidos preparam conjuntamente com as outras grandes potências e
também ao que foi dito sobre os raides aéreos alargados sobre
alvos essenciais e nem todos de carácter militar).
É preciso notar neste caso que, com a excepção da guerra
na Bósnia, todas as intervenções das Nações
Unidas foram elaboradas na sequência de campanhas políticas
intensas (acompanhadas de outras feitas pela CIA e por outros serviços
de segurança ocidentais "aliados") cuja palavra de ordem foi a
"luta contra o Eixo do Mal", representado, como afirma a nova
terminologia, pelo "terrorismo islâmico", ou ainda "o
fascismo islâmico", a que George W. Bush acrescentou nos
últimos tempos o "comunismo", termo em desuso desde o
princípio dos anos noventa.
II. A guerra americano-israelense contra o Líbano
Estas razões e objectivos, essenciais para os Estados Unidos, sobretudo
a supressão de todas as formas de resistência (armada, em
particular) contra o novo regime mundial e o seu homólogo sobre o plano
árabe, o "Grande Médio Oriente", estão na base
da agressão levada a cabo pela administração de George
Bush contra o Líbano, por intermédio de Israel. Dizemos "por
intermédio", porque, de tudo o que se disse e se escreveu,
conclui-se que o governo presidido por Ehud Olmert limitou-se a executar um
projecto planeado há mais de três anos pelos responsáveis
da "segurança nacional" americana sob a direcção
de Donald Rumsfeld e do vice-presidente dos Estados Unidos. Aliás, o
governo israelense afirmou abertamente que foi a administração
americana, representada pela ministra dos Negócios Estrangeiros,
Condoleeza Rice, que impôs a continuação das hostilidades,
mesmo após as derrotas dolorosas do exército israelense. Mais,
foi a mesma administração que fixou o cessar-fogo, depois de ter
imposto ao Conselho de Segurança o seu ponto de vista relativo ao
conteúdo e execução da resolução 1701, a
qual aceitou a continuação do bloqueio aéreo e
marítimo do Líbano
até aplicação, por
parte deste, do conteúdo dos parágrafos 11 e 14 relativos
à instalação de novas forças internacionais nos
portos e aeroporto internacional de Beirute. E estamos convencidos que os
Estados Unidos continuariam a criar problemas ao Líbano até que o
governo libanês cedesse na questão da "necessidade de
instalar forças multinacionais na fronteira com a Síria",
assim como a sua participação no desarmamento do Hezbollah. Por
isso, John Bolton, representante dos Estados Unidos na ONU, pôde afirmar:
ganhámos com a diplomacia o que perdêramos em combate
Quanto às causas da agressão contra o Líbano, elas
são numerosas. Algumas têm relação com a
situação libanesa interna; outras estão ligadas ao que se
passa na Palestina e em alguns países árabes, no Iraque, em
particular, ou então causas regionais, como o Irão.
1. Pode-se resumir as "causas libanesas" da maneira seguinte:
Destruir a Resistência Islâmica (e requisitar as armas na
sua posse) e, sobretudo, pôr fim a qualquer acto de resistência no
presente e no futuro
Sem esquecer o objectivo de deitar a mão
às armas dos palestinianos residentes no Líbano (não
apenas no exterior, mas também no interior dos campos).
"Limpar" a região libanesa ao sul do Litani de todas as
armas pesadas e de longo alcance. Isto deve de ser acompanhado por um regresso
ao Armistício (1949), que especificava a presença, nessa
região, de um efectivo militar reduzido e de posse de armas ligeiras
apenas; o que permitiria a Israel executar raides e incursões no
Líbano sem se ter que se preocupar com a situação das
"colónias" do norte. É preciso dizer que o que achamos
estranho nisto tudo é o facto de algumas facções do
reagrupamento chamado "14 de Fevereiro" insistam sobre o mesmo
ponto
Acabar com a reivindicação relativa à
"libanidade" das quintas de Chebaa e dos picos de Kfarchuba, visto
que são zonas de importância estratégica e economicamente
vitais para os israelenses que, para se assegurarem a ocupação,
aproveitam-se, duma parte, da posição ambígua da
Síria e, doutra parte, das alegações de algumas figuras
políticas da "maioria" que afirmam que essas quintas
são sírias.
Trasfegar novamente a água dos rios libaneses que se encontram a
sul do Litani, visto ela ser vital para o desenvolvimento da agricultura
israelense, em particular a das árvores de fruto. E podemos mesmo
acrescentar que é a competição entre produtos
agrícolas libaneses e israelenses em certos mercados que levou Israel a
queimar grandes superfícies de terras cultivadas, não apenas no
sul e em Bekaa Oeste, mas também nas regiões de Bekaa do centro e
do norte (onde teve lugar o massacre de Al-Qaa)
Mais, a
aviação israelense fez raides contra os canais de
irrigação ao longo do rio Litani, destruindo mesmo as
canalizações no interior dos campos irrigados, sobretudo em Bekaa
Oeste. O objectivo: destruir as colheitas e, também, impedir os
libaneses de, durante um certo tempo, utilizar a água do Litani, o que
reforçaria as "justificações" avançadas
segundo as quais: Israel trasfega água do Líbano porque ela
não é utilizada e despeja-se
no mar.
Ajudar certas forças "aliadas" de Israel no meio
político libanês a fim de que possam levar a cabo as
alterações que não foram capazes aquando da guerra de
1982; o que permitiria o regresso do Líbano ao regaço
norte-americano, do qual saíra nos anos sessenta do século XX na
sequência de vários acontecimentos árabes e internacionais,
entre outros, os mais importantes: o papel representado por Jamal Abdul-Nasser,
após a Revolução de 4 de Julho de 1952, a
Resistência palestiniana e também a mudança positiva que se
deu nas relações entre o movimento nacionalista árabe e o
movimento comunista, seja por causa do papel do Partido Comunista Libanês
na Resistência contra a ocupação (a criação
da "Guarda Nacional" em 1969 e a participação activa na
criação das "Forças Guerrilheiras" em 1970),
seja pelo apoio dado pela União Soviética à causa dos
povos árabes
Levar o Líbano a assinar acordos com Israel segundo os quais
aceitaria à sua guarda uma parte dos palestinianos que vivem no seu
território
Sobretudo quando o projecto americano, acordado pelos
responsáveis da segunda administração de George W. Bush,
consiste em aplicar a política de "transferência" de 70
mil famílias palestinianas para a Jordânia e para o Iraque,
à razão de 7000 famílias por ano durante dez anos, pondo
em prática um novo "Plano Marshall" para efectuar essa
"transferência" com toda a tranquilidade.
2. Quanto às causas "regionais" da agressão, pode-se
resumi-las da seguinte maneira:
A causa mais importante é a relacionada com a
situação na Palestina. Com efeito, a tentativa israelense de
pôr fim a qualquer resistência armada no Líbano, e à
do Hezbollah em particular, poderia ter repercussões
"positivas" na realização do plano israelense relativo
à liquidação a ferro e fogo da Intifada. Note-se que a
guerra contra o Líbano atraiu todas as atenções (os media,
em particular); o que facilitou ao governo israelense as suas
acções mortíferas contra o povo palestiniano, sobretudo em
Gaza, onde centenas de pessoas foram mortas ou feridas, casas destruídas
e personalidades políticas aprisionadas sem que isso levantasse
quaisquer reacções no plano internacional.
A segunda causa reside na guerra levada a cabo no Iraque, onde a
escalada no Líbano foi acompanhada da recrudescência das
violências em todas as regiões, mas sobretudo nas regiões
"xiitas", tomando cada vez mais o aspecto duma guerra civil. Sem
esquecer as práticas violentas dos soldados americanos e as
prisões aos centos de pessoas civis que se fazem pelos pretextos mais
fúteis.
A isso acrescenta-se todas as razões dadas por George Bush nos
seus discursos, e também as declarações dos membros da sua
equipa, sobre que a guerra contra o Líbano é o prefácio de
uma outra, mais generalizada, contra aqueles que na região "ajudam
o terrorismo". Dois Estados foram nomeados mais que uma vez: o
Irão e a Síria. Nessa perspectiva a equipa de Bush e os seus
apoiantes no Líbano argumentaram, para explicar o ataque contra o
Líbano, com uma "agenda" do Irão, usando da sua
influência sobre o Hezbollah, para desestabilizar a região.
Pensavam assim matar dois coelhos duma só cajadada: o primeiro, a
Resistência, à qual se dá, não a imagem de um
movimento de libertação, mas duma tropa mercenária a soldo
duma potência regional; o segundo, demonstrar que o Irão é
um país que apoia o "terrorismo" e que portanto seria perigoso
não lhe cortar as pernas que o levem à bomba atómica,
já possuída por Israel.
À luz destas evidências internas e externas, podemos
apercebermo-nos melhor como o Líbano foi campo de experiências do
objectivo maior de lançar a segunda fase do projecto do "Grande
Médio Oriente", correspondente ao prosseguimento da primeira, e que
se deverá expandir para fora do Iraque em direcção
à Arábia Saudita e ao Irão. Assim compreende-se as
palavras da ministra dos Negócios Estrangeiros dos Estados Unidos,
Condoleeza Rice, que afirmou, respondendo àqueles que lhe referiam os
sofrimentos do povo libanês e os massacres perpetrados contra civis,
sobretudo crianças: São as dores de parto dum novo Médio
Oriente
Uma posição como esta não precisa duma longa
explicação para se lhe ver o conteúdo criminoso.
III. Os resultados e as conclusões
A agressão israelense falhou nos seus objectivos "libaneses",
com o reagrupamento do povo à volta da Resistência. Mesmo que
tenham sido feitas tentativas políticas de tornar essa Resistência
responsável por todos os males causados a Israel. Essas tentativas foram
principalmente resumidas em "declarações" que faziam da
agressão uma "reacção" em resposta a
"acções", sendo a última o rapto de dois
soldados israelenses, cujo objectivo era de facto libertar alguns dos libaneses
presos em prisões israelenses
É certo que numerosos jornais
americanos falaram da preparação dessa guerra como sendo um
preparação de longa duração, devido à
escolha dos seus objectivos e ao seu desenrolar (fixado em três semanas).
O que alterou a situação foi o fracasso do exército
israelense em aplicar o plano e a sua derrota diante de algumas centenas de
resistentes
Não falaremos aqui dos bombardeamentos (que fizeram lembrar o que se
passou na Bósnia), nem das bombas proibidas, nem mesmo da morte de mais
de 1300 pessoas, entre as quais 900 mulheres e crianças que os
aviões israelenses perseguiram até ao interior dos abrigos e
também nas ambulâncias e todos os meios de transporte.
Contentar-nos-emos em dizer que esse pesado preço pago pelo
Líbano acabou também, pela resistência do seu povo, por
desestabilizar a sociedade israelense, que se encontrou, pela primeira vez, no
olho do furacão com a resposta do Hezbollah. Da mesma forma essa
resistência fez fracassar os planos americanos de abrir uma nova frente
além do Iraque no seu Projecto do Novo Médio Oriente (mesmo se a
intenção dos separatistas curdos de declarar a
"independência" ameaça novas hostilidades na
região). Essa frente é claramente o Líbano, que no
projecto de Kissinger adoptado pela equipa de Bush seria dividido em quatro
cantões, após se lhe acrescentar alguns territórios
roubados à Síria e uma pequena parte do norte da Palestina
ocupada.
Afirmamos portanto que a guerra americano-israelense contra o Líbano
não atingiu os seus objectivos. No entanto, esse fracasso não
constitui obstáculo diante das pretensões dos Estados Unidos e de
Israel que procurarão todos os meios de executar o seu projecto
já com mais de trinta anos. Sobretudo porque têm o apoio total e
incondicional de todas as grandes potências ocidentais que são
unânimes quanto à ajuda que se deve dar ao agressor (Israel)
contra a vítima (o Líbano). Essa ajuda transparece no
conteúdo da resolução 1701 que torna o Hezbollah
responsável por tudo quanto se passou entre 12 de Julho e 13 de Agosto
de 2006, e que, pela ambiguidade do seu conteúdo, permite a Israel
recorrer ao bloqueio e levar a cabo "acções defensivas"
(o parágrafo 1 da resolução estipula a
cessação das acções "ofensivas"), o que
é entendido pelo seu governo como a possibilidade de "novos raides
contra o Líbano" até que o governo libanês aceite,
à custa da sua soberania, a instalação de forças
internacionais em todo o seu território, que controlem, não
só a fronteira com a Síria, mas também o resto do
Líbano, contrariamente ao mandato que lhes foi dado.
Pensamos que o futuro próximo, após a apresentação
do relatório do secretário geral da ONU sobre a
aplicação da resolução 1701 e as quintas de Chebaa
trará novas tentativas de desferir um golpe sobre a resistência e
todas as forças anti-americanas. Para fazê-lo os Estados Unidos
apoiar-se-ão em duas bases
A primeira, libanesa interna, aumentar a pressão sobre a
Resistência, para que entregue as armas e retorne à
posição "política".
A segunda, internacional, através de forças internacionais
no Líbano, às quais seria "pedido" que executassem
tarefas não estipuladas na resolução 1701, a qual poderia
ser emendada, ou até mesmo alterada, na sequência do
relatório do senhor Kofi Anan, no sentido dos interesses israelenses
apenas.
Conclusão
O Líbano e a região árabe (e médio-oriental)
encontram-se perante novos desenvolvimentos que, segundo o fracasso ou sucesso
do projecto americano, poderão trazer mudanças qualitativas
às próximas décadas. É portanto necessário,
senão mesmo obrigatório, para todas as forças
políticas libanesas que fazem frente desde 1982 ao projecto americano,
aproveitar o actual período de tréguas para estudar a
situação vindoura e preparar um plano que lhe possa fazer frente.
O primeiro passo nesse sentido consiste em fazer uma análise de todo o
período precedente, sobretudo a seguir à libertação
da faixa fronteiriça sul em 25 de Maio de 2000, e fazê-lo em todos
os planos: a situação socio-económica, a
participação das forças políticas na
resolução desses problemas, a oposição aos
projectos de reatar ao movimento popular as poucas conquistas que já
alcançou e, sobretudo, as ideias sobre a mudança
democrática e o plano que permita a sua realização.
Esta revisão precisa de um estudo rigoroso dos planos político e
socio-económico aplicados pelo governo de Fuad Saniura, e, em primeiro
lugar, das eleições legislativas e de todos os projectos
apresentados com o objectivo de alterar a lei eleitoral em vigor no
Líbano e de levar a cabo verdadeiras (para não dizer radicais)
reformas no seio do regime político libanês. Porque, o que
nós exigimos, é fazer avançar os "entendimentos"
que tiveram lugar até agora entre as diversas forças da
oposição no sentido dum programa comum que possa lucrar da
vitória da Resistência e de todos os sacrifícios do povo
libanês e construir a "pátria" libanesa libertada de
todas as facções e divisões, sobretudo no plano
confessional; divisões que, após 1975 (para não dizer:
após a Comuna de Antelias, em meados do século XIX),
enfraqueceram o Líbano e permitiram todo o tipo de tutelas sobre o seu
povo.
O que buscamos é um Líbano independente e soberano, livre de
todas as tutelas, recentes ou antigas. Um Líbano árabe, e
não apenas em palavras. Um Líbano para as massas trabalhadoras,
tanto das cidades como dos campos. Um Líbano dos Direitos do Homem, onde
a discriminação esteja ausente, sobretudo em
relação às mulheres. Enfim, um Líbano onde os
jovens, os intelectuais e os criadores possam produzir com toda a
liberdade
É assim que nós vemos a Resistência contra Israel e os seus
protectores nos Estados Unidos
É assim que nós aprendemos a
resistir, tanto na Resistência nacional como na islâmica. E se
usamos tais qualificações, não é para diferenciar
entre as resistências. Para nós não há nenhuma
diferença entre todos os que lutam pela liberdade, qualquer que seja a
ideologia que perfilhem.
Beirute, 05/Setembro/2006
[*]
Membro da Comissão Política do Partido Comunista Libanês
A versão em francês encontra-se em
http://www.lcparty.org/220906_5.html
Tradução de DF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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