"Expulsar o embaixador americano no Líbano"

por Khaled Hedadeh [*]
entrevistado por Sawt el Shaab (Voz do Povo) [**]

Khaled Hdade. Tem havido muita conversa acerca do "Novo Médio Oriente" proposto pela administração americana. Quais são os seus comentários?

A forma do novo Médio Oriente que os Estados Unidos querem começou a perfilar-se sobretudo a partir da guerra do Iraque e do bloqueio de Gaza. É um Médio Oriente baseado na anulação do acordo Sykes-Picot, mas naturalmente não para substituí-lo por maior cooperação, coesão e unidade, mas sim pela fragmentação. Eles querem transformar esta região através da criação de entidades sectárias hostis, a mais forte das quais seria a entidade sionista, que é baseada fundamentalmente sobre dois conceitos: o exército invencível e o tribalismo racista judeu. Nesta base eles seriam capazes de dominar directamente todos os mini estados na região e pilhar todos os seus recursos. Acredito que este plano recebeu golpes no Iraque e está agora a ser batido principalmente no Líbano e na Palestina. Acreditamos que um "Novo Médio Oriente" nascerá dos sofrimentos dos povos libanês e palestino, mas será um Médio Oriente que se oporá e resistirá ao plano que os Estados Unidos querem impor com aço, fogo, ocupação e invasão. Não acreditamos que este mundo árabe permanecerá silencioso ou que este subserviente sistema de estados árabes permanecerá de pé por muito tempo devido à sua cumplicidade e ao seu abandono da causa árabe e da causa palestina. Acreditamos que o povo árabe se levantará para confrontar o inimigo sionista e americano e para proteger seus recursos, embarcar no desenvolvimento e na democracia, e mudar seus sistemas políticos. Assim, acreditamos que novas formas nascerão no mundo árabe na base da vitória da resistência e da firmeza do povo libanês — formas para cuja criação o povo desempenhará um papel fundamental. Enquanto isso estamos a esforçar-nos para que as forças da democracia e do progresso na sociedade árabe venham a tomar o seu lugar no comboio da construção que está por vir no mundo árabe.

Qual é a sua posição em relação à última declaração do primeiro-ministro libanês?

De facto, antes da conferência de imprensa dada pelo primeiro ministro Fu'ad Siniora e pelo porta-voz do Parlamento, Nabih Berri, apelámos a ambos para darem passos rápidos depois de saberem do bárbaro massacre em Qana. O primeiro passo era não receber Condoleezza Rice, que é a decisora e que, parece, está prestes a propor uma nova resolução dando outras duas semanas como período de graça para a máquina militar israelense cometer mais massacres e provocar mais destruição. E também lhes pedimos para expulsar o embaixador americano Jeffrey Feltman. Este embaixador desempenhou um papel feio desde a sua chegada ao Líbano, tentando trabalhar em parceria com a agressão israelense através da criação de uma atmosfera desagregadora dentro do Líbano que facilitaria a difusão da luta interna em conjunto com a agressão. Mas a firmeza da resistência frustrou este primeiro plano. O plano da agressão pelo menos até agora foi frustrado e esperamos que será frustrado no futuro pela completude da vitória alcançada pelos herois da resistência pela firmeza do sul. Além disso, acreditamos que ao abraçar o povo do sul, o povo libanês foi capaz de frustrar assim o segundo plano. De modo que acreditamos que a posição mais recente do governo pode ser aproveitada construtivamente, mas também tememos que possa haver um recuo desta posição. Portanto, o governo libanês deve desenvolver mais a sua posição rumo a uma maior firmeza contra a política americana, pondo em movimento o seu poder diplomático e os verdadeiros amigos do Líbano por todo o mundo na base de que a agressão é não contra o Hezbollah, não contra a resistência, mas uma agressão israelense-americana contra o povo libanês e o exército libanês. E queremos aproveitar esta oportunidade para saudar o exército no Dia do Exército, e saudar seus mártires e a firmeza patriótica que tem adoptado. Acreditamos que o governo libanês deve elevar-se nesta direcção, elevar-se para assegurar os factores para a firmeza continuada do povo libanês, ser mais activo na sua política de firmeza, e não em políticas de contenção, proporcionando [apenas] caridade e ajuda no sentido tradicional destes termos. Uma vez que o inimigo sionista não foi capaz de fazer qualquer grande progresso em todo este tempo, ele irá em crescendo na sua agressividade. Isto foi o que o primeiro ministro inimigo indicou ontem quando disse que ainda precisava de 10 dias ou duas semanas, que é o que ele precisava destruir durante duas semanas ou mais 10 dias.

Qual a significância da declaração do inimigo de suspender seus ataques aéreos por 48 horas?

Acredito que a suspensão das operações por 48 horas é um plano muito sujo através do qual Israel pensa que pode atingir dois objectivos. O primeiro é evadir-se à sua responsabilidade moral, legal e internacional — apesar de já estar a evadir-se das mesmas em relação aos civis e à opinião pública internacional — dizendo que demos um período de graça de 48 horas durante os quais as Nações Unidas podem esvaziar a área dos civis. Segundo, o inimigo quer utilizar aquele período para preparar-se novamente, recuperar o sentimento de coesão nas suas fileiras e das suas forças militares, cujo moral foi sacudida pela corajosa firmeza dos herois da nossa resistência todas as vezes que o inimigo tentou fazer um avanço no terreno. Por outras palavras, eles querem tentar outra vez, mas desta vez sobre terra queimada, onde possam contar não com o seu poder, o seu exército e a sua vontade mas sim com armas inteligentes da máquina de guerra militarista americana que foram colocadas à sua disposição para o próximo período. Portanto acreditamos, uma vez que as forças da resistência estão a resistir firmemente como é o seu dever, que o governo libanês deve erguer-se ao nível desta espécie de sacrifício, efectuar o maior esforço junto à comunidade internacional a fim de exercer pressão e expor este criminoso plano israelense sob o qual pretendem forçar o país à submeter-se a novas provas por mais outra semana.

Ontem a forças patrióticas de esquerda emitiram uma declaração apelando à confrontação com o imigo. Qual é a sua posição agora?

Nós somos uma parte básica destas forças de esquerda que emitiram aquele apelo e a declaração, e portanto acreditamos que assim como todos os cidadãos do sul lançaram a resistência patriótica eles podem também lançá-la para todo o Líbano a fim de confrontar o ocupante no sul e em qualquer região atingida pela agressão. Começámos a preparar-nos para tomar parte no caso de o inimigo fazer qualquer avanço e ocupar aldeias libanesas, de modo que estaríamos entre os primeiros a enfrentá-los cara a cara. Como sabe, ao manter esta política temos os nossos próprios mártires heróicos que caíram, particularmente na cidade de Sarifa, onde estavam a cumprir com firmeza seu dever frente ao avanço militar inimigo. Se hoje sentimos uma certa dor porque não podemos fazer mais devido às mudanças verificadas na natureza da resistência nos últimos 10 anos, estamos no entanto determinados a confrontar o inimigo de qualquer maneira e com os meios que temos e a todo o nível da luta.

31/Julho/2006

[*] secretário-geral do Partido Comunista Libanês.
[**] Estação de rádio libanesa.

O original encontra-se em http://www.lcparty.org/010806_4.html


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
02/Ago/06