Na segunda-feira, 8 de Junho, ao meio dia, o ministro libanês do Interior
publicou os resultados oficiais das eleições legislativas,
anunciando a vitória da maioria cessante, aliada dos Estados Unidos e
conhecida sob o nome de "Forças do 14 de Março", sobre
a oposição, aliada da Síria e do Irão e conhecida
sob o nome de "Forças do 8 de Março". A
diferença foi de 14 cadeiras: 71 a 57.
Este anúncio pôs fim a um período de escalada confessional
que durava há mais de dez meses e cuja consequência foi a
exacerbação das divisões que se seguiram à
agressão israelense de Julho de 2006 e que se repercutiram em
afrontamentos populares e armados generalizados. O ponto culminante foi, sem
qualquer dúvida, a batalha de 7 de Maio de 2008 deu lugar ao Acordo de
Doha e, a seguir, à lei sob a qual se desenrolaram as
eleições de 7 de Junho de 2009.
O Acordo de Doha e a lei de 1960
Este acordo, assinado em 16 de Maio de 2008, é constituído por
três pontos essenciais;
1- A eleição de um presidente de consenso, pondo fim assim a mais
de oito meses de vazio constitucional.
2- A formação de um governo dito "de unidade nacional"
no qual o grupo do 8 de Março seria representado por um terço, o
que constituiria uma garantia para este grupo e lhe daria o direito de veto
caso a maioria tentasse fazer aprovar projectos acerca dos quais ele não
estivesse de acordo.
3- O retorno à lei de 1960, baseada no voto maioritário e
dividindo o país em 28 pequenas circunscrições, tendo cada
uma um cor confessional dominante. Uma única mudança: uma nova
divisão das circunscrições da capital, a fim de permitir
ao movimento de Saad Hariri apropriar-se de todas as sedes sunitas.
E, se bem que os líderes presentes em Doha houvessem, na sua maioria
esmagadora, repudiado, desde o seu retorno ao país, a lei de 1960,
contudo eles nada fizeram para dela se demarcar. Bem pelo contrário:
todos confirmaram sem resmungar as cláusulas do acordo e inclusive
aquela que se referia à formação de uma lista comum entre
o "Movimento do futuro" (14 de Março), o Hezbollah e o
"Movimento AMAL" (8 de Março) na segunda
circunscrição de Beirute. Acrescentemos que, dadas as cores
confessionais das circunscrições, era fácil saber, bem
antes das eleições, os resultados de umas 100 cadeiras das 128 de
constituem o parlamento. O que significa que o povo libanês não
votou e que a maioria esmagadora dos deputados foi nomeada e não eleita.
Esta situação fez com que fosse quase impossível cuidar
bem da democraticidade das eleições, uma vez que a própria
lei falseava os sufrágios. A isto é preciso acrescentar o
dinheiro, o abuso de poder e, desta vez, as centenas de milhares de emigrados
libaneses (alguns dos quais não sabem uma palavra de árabe)
chamados em socorro (com a ajuda de bilhetes pagos antecipadamente) das
circunscrições em que as forças eram iguais.
Todos os meios são bons
Além de todas as formas de ingerências, deveríamos notar os
apoios internacionais aos dois campos, nomeadamente ao do "14 de
Março".
Citemos a título de exemplos:
1- Os Estados Unidos não se contentaram com a actividade da sua
embaixadora e do seu antecessor, Jeffry Feltman, tornado, desde então, o
responsável do Médio Oriente. Eles, ao contrário,
supervisionaram a participação da emigração
libanesa nas eleições. E, sobretudo, triplicaram a
interferência, a começar pela visita da ministro dos
Negócios Estrangeiros Hillary Clinton seguida pela do vice-presidente
Bayden, que reuniu toda a equipe do "14 de Março", e, enfim,
do próprio presidente que teve de falar da minoria maronita do
Líbano no discurso pronunciado na universidade do Cairo.
2- Israel utilizou todas as armas políticas e militares que
detém. Assim, durante mais de um mês os seus editorialistas e
outras personalidades mediáticas "alertaram" a opinião
pública libanesa acerca dos perigos que poderia implicar a
vitória do Hezbollah. Chegaram até a recorrer a manobras cujo fim
real era dizer que Tel Aviv se sentia pronta a intervir directamente na batalha.
3- Quase todos os governos europeu exprimiram a sua ansiedade quanto à
evolução da situação no Líbano, a tal ponto
que esqueceram as eleições europeias que tiveram lugar a 7 de
Junho... Daí, todos terem exprimido o seu alívio a seguir
à "vitória" dos amigos dos Estados Unidos e da
Arábia Saudita.
4- O envio pelos governos do Golfo, árabes e outros, de
delegações cujo papel consistir em convencer, por diferentes
meios, tal ou tal responsável (ou partido) político a mudar de
rumo (como aconteceu com a Jamaa islamiya em Sa¿da.
5- As visitas ininterruptas de certos responsáveis do "Grupo do 8
de Março" a Damasco, a fim de discutir listas.
6- O apelo do patriarca maronita a votar por forças políticas
específics.
7- A não aplicação das cláusulas da lei sobre a
informação e a publicidade eleitorais. O que fez com que os
cabeças de listas, proprietários das cadeias de televisão,
tenham utilizado todas as suas armas confessionais diante dos libaneses, ao
passo que os candidatos independentes eram quase inexistentes.
8- As diferenças, de milhares de votos, existentes entre as listas de
votantes enviadas, alguns meses antes, às municipalidades e aquelas
entregues nas salas de voto no dia das eleições.
9- O papel que alguns quiseram endossar ao presidente da República nas
listas pró "14 de Março" em Jbeil e no Kesrouan. E,
isto, na previsão da formação do que se começou a
chamar "o grupo do centro".
O Partido Comunista Libanês
É verdade que o Partido Comunista Libanês foi o primeiro a recusar
a lei de 1960. Em primeiro lugar devido à sua posição de
princípio no que se refere à necessidade de criar no
Líbano uma sociedade civil não confessional. A seguir, porque ele
acredita que o ponto de partida para toda mudança democrática
real encontra-se numa lei eleitoral baseada na proporcionalidade, que constitui
a base da melhor representatividade.
É verdade também que o PCL afirmou diversas vezes que conduziria
uma batalha política contra a lei de 1960, a partir de cinco
princípios que são: a proporcionalidade, a supressão do
confessionalismo, o Líbano de uma única
circunscrição, a quota feminina temporária e o voto aos 18
anos.
É verdade, finalmente, que o PCL precisou que poderia fazer acordos com
certas forças políticas na base de um programa político
mínimo (a lei eleitoral) e sócio económico (a
supressão dos impostos novos e das medidas anti-sociais votadas aquando
da terceira conferência de Paris).
Entretanto, e tendo em vista que os seus apelos não encontraram
respostas concretas, os seus candidatos permaneceram isolados nas cinco
circunscrições em que se apresentaram. E, nesse caso,
deveríamos dizer que o PCL cometeu um erro táctico: ele deveria
ter-se retirado da batalha eleitoral prosseguindo sempre a batalha
política contra a lei. Porque, além da derrota, o partido
não pôde reagrupar todo o seu eleitorado pois uma parte preferiu
"o voto útil".
Os resultados e as previsões
Alguns pensam que os resultados das eleições legislativas foram
bem controlados pelos Grandes eleitores internacionais e regionais que
não se apressaram a romper com o status quo nascido do Acordo de Doha.
Contudo, estas eleições, assim como a campanha eleitoral que as
antecedeu, exacerbaram ainda mais a divisão vertical da sociedade
libanesa. O discurso confessional e as ingerências externas acentuaram os
problemas já existentes, de tal modo que não é falso dizer
que o país pode retomar o caminho da violência, num momento em que
dezenas de células da espionagem continuam a ser desmanteladas.
Acrescentar a isto as repercussões da crise capitalista mundial sobre um
país endividado e cujos sectores económicos produtivos batem as
asas, sem que a aliança de classe no poder tenha tentado encontrar
soluções válidas, contentando-se em seguir as directivas
do Fundo Monetário Internacional no que se refere à
supressão do sector público e dos serviços de base.
Igualmente, os dois grupos da burguesia, tanto o do "8 de
Março" como o do "14 de Março", proclamaram
diversas vezes o seu apego às privatizações ao extremo e
às cláusulas das três conferências de Paris: o
presidente da Câmara, Nabih Berri, o especificou claramente numa
entrevista apenas três dias antes das eleições. E
também proclamou que era candidato ao posto que acabava de deixar.
Alguns viram nas suas declarações sócio económicas
e políticas sinais precursores de um possível acordo que o
agruparia, junto com Saad Hariri e Walid Joumblatt, numa nova
formação política, o centro direita, cuja imagem de marca
seria "a moderação", a exemplo daquela preconizada e
depois realizada pela ex-ministra dos Negócios Estrangeiros
estado-unidense, Condoleeza Rice, entre o Egipto, a Arábia Saudita, os
Emirados Árabes Unidos e a Jordânia.
Eis porque a burguesia libanesa (sobre a das finanças e dos
negócios) e uma parte dos representantes do feudalismo político
pensam que uma tal formação renovaria a força do
cambaleante e prestes a afundar-se regime libanês. Eis porque,
aproveitando-se do retorno, precário, ao normal nas
relações entre Riad e Damasco, mas também do namoro entre
Washington e Damasco, e temendo não poder salvar o seu regime a tempo,
eles acreditam que esta solução, além de um pouco de
lastro "democrático" lançado aos jovens (o voto aos 18
anos), lhes pouparia as mudanças bruscas que haviam acreditado ter
enterrado para sempre quando liquidaram o movimento sindical, na primeira
metade dos anos noventa... Sobretudo porque os movimentos da esquerda libanesa
e os democratas, em geral, ainda não puderam emergir da crise
existencial que os abalou no fim da guerra civil: permanecem prisioneiros de
slogans reformistas bastante afastados dos apelos à mudança que
haviam lançado nos anos setenta do século passado.
09/Junho/2009/Beirute
[*]
Responsável das relações internacionais do PCL