A suposta morte do líder do Estado Islâmico perguntas que
permanecem
por
Strategic Culture Foundation
[*]
O Ministério da Defesa da Rússia declarou esta semana não
haver qualquer evidência confiável de que Abu Bakr al-Baghdadi,
líder do grupo terrorista do Estado Islâmico (EI), tenha sido
morto no norte da Síria no fim de semana passado, supostamente numa
ousada operação militar dos EUA.
O presidente dos EUA, Donald Trump, gabou-se domingo passado de que
Forças Especiais Americanas invadiram uma base na província de
Idlib, o que supostamente teria levado à morte de al-Baghdadi numa
explosão suicida. O Pentágono disse que outras seis pessoas
teriam sido mortas na operação. Além disso, dois dos
filhos de al-Baghdadi teriam sido mortos quando o líder do EI fez-se
explodir no momento em que se aproximavam as tropas americanas, segundo a
dramática narrativa de Trump acerca do evento.
Curiosamente, Trump agradeceu à Rússia por sua ajuda na
logística da realização do ataque.
No entanto, o porta-voz do Ministério da Defesa russo, major-general Igor Konashenkov,
afirmou
posteriormente que a Rússia não esteve envolvida no referido
ataque, como alegou Trump. Ele disse que de acordo com os dados russos de voos
não houve quaisquer ataques aéreos nos EUA nas proximidades do
local declarado. O porta-voz foi mais longe e observou que havia dúvidas
sobre se a missão de assassinato realmente teve lugar do modo que
Washington afirma publicamente.
Outra anomalia no relato oficial dos EUA é que a base onde Al-Baghdadi
supostamente estaria escondido é um local conhecido por ser a fortaleza
de outro afiliado da Al-Qaeda que é inimigo jurado dos jihadistas rivais
pertencentes ao Estado Islâmico. Então por que e como o
líder do EI foi capaz de manter uma base cercada por jihadistas inimigos?
Segundo o
New York Times,
afirma-se
que al-Baghdadi pagou US$67 mil ao grupo terrorista rival, Hurras al-Din, para
protecção. De certo modo, isso soa como uma
explicação dúbia.
Uma omissão flagrante na cobertura dos media norte-americanos sobre o
suposto assassinato de al-Baghdadi é o pano de fundo histórico de
quem era o indivíduo e de como seu ex-califado passou a ser abrangido
pelo Iraque e pela Síria.
Há evidências abundantes de que al-Baghdadi, nascido no Iraque,
foi recrutado pela inteligência americana enquanto esteve preso durante a
guerra dos EUA contra o Iraque em meados do final dos anos 2000. Ele foi
mantido na notória prisão das torturas de Abu Ghraib,
administrada pelos EUA, mas posteriormente foi libertado pelos americanos,
apesar do seu conhecido passado jihadista. Por volta de 2012, o governo Obama
mobilizava
e armava secretamente activos jihadistas a fim de realizar sua guerra
clandestina contra o governo sírio para uma mudança de regime.
Acredita-se que al-Baghdadi foi um activo essencial da CIA para a guerra suja
dos EUA na Síria, apesar de Washington proclamar que o seu envolvimento
na Síria seria para "derrotar o EI" e outros grupos
terroristas.
É inteiramente plausível que os activos de inteligência dos
EUA sejam "liquidados" sempre que for politicamente conveniente e a
sua utilidade tiver terminado.
Trump e os media de referência dos EUA quase certamente distorcem a
realidade e os factos quando descrevem um êxito espectacular no
extermínio de um temido chefe terrorista.
A maneira como Trump, em particular, se entusiasmou com a suposta
operação sugere que ele procura aumentar as probabilidades de
reeleição no próximo ano. A retórica estridente de
matar o líder do EI "como um cão" cheira a Trump a
tentar projectar uma imagem de presidente duro.
De maneira mais geral, o evento permitiu aos media americanos proclamarem a
virtude do poder militar americano ao aparentemente trazer "à
justiça"um notório renegado.
O momento não poderia ser mais importante. Os quase oito anos de guerra
na Síria expuseram a criminalidade de Washington e dos seus parceiros da
NATO na alimentação da carnificina. Em contraste, o governo
sírio e seus aliados russos e iranianos foram justificados nas suas
alegações de longa data de que fora frustrada uma agressão
criminosa apoiada pelos EUA com a utilização de proxies
terroristas.
Quando no mês passado Trump abandonou os militantes curdos, condenaram o
seu acto por lançar a Síria em ainda mais tumulto. Foi a
diplomacia hábil da Rússia que conseguiu conter a
situação. Nesse ponto, a credibilidade internacional de
Washington estava nas últimas devido à sua duplicidade e
responsabilidade maligna pelo conflito e caos na Síria.
Portanto, uma operação sensacional parecida com "um
filme" como disse Trump foi um remédio oportuno de
relações públicas a fim de remendar a imagem muito
empanada de Washington. Aparentemente, "apanhar" um líder
terrorista dá aos EUA os meios para renovar a sua propaganda de que
"combate contra o terrorismo" ao invés da realidade de que o
utiliza para suas guerras de mudança de regime e outros objectivos
imperialistas.
Será que Abu Bakr al-Baghdadi foi realmente morto neste último
fim-de-semana? Não é a primeira vez que sua "morte"
é relatada pelas forças americanas, as quais fizeram
afirmações semelhantes em anos passados. Existem demasiadas
perguntas e inconsistências para que se possa considerar a versão
dos eventos de Washington como exacta. Mais plausivelmente, foi um golpe de
propaganda cuidadosamente planeado a fim de polir a imagem execrada de
Washington.
Contudo, uma coisa é certa: é que os EUA continuarão a
utilizar proxies e activos terroristas no futuro a fim de atingirem seus
nefastos objectivos geopolíticos. Há uma grande quantidade mais
de outros "al-Baghdadis" a serem cultivados e orquestrados por
Washington quando semeia caos e destruição no Médio
Oriente e alhures em prol dos seus interesses egoístas.
01/Novembro/2019
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
Este editorial encontra-se em
http://resistir.info/
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