A justiça dos EUA protege o terrorismo

por La Jornada

A recusa do um juiz migratório estadunidense a conceder a extradição para a Venezuela do terrorista cubano-venezuelano Luís Posada Carriles ilustra de forma inequívoca a dupla moral e a hipocrisia das esferas públicas dos EUA em matéria de terrorismo. A máxima potência mundial, arrastada pelo seu grupo governante a uma cruzada mundial contra o fundamentalismo islámico, alguns de cujos sectores recorrem ao terrorismo, resiste em contra-partida a permitir que outros países submetam a julgamento Posada Carriles, um dos autores do atentado contra uma aeronave civil da Cubana de Aviación que fez mais de 70 mortos, promotor de ataques com explosivos em diversos pontos da ilha e participante numa falhada conspiração para assassinar Fidel Castro no Panamá quando ali esteve no contexto de uma Cimeira Iberoamericana realizada há cinco anos.

Cabe recordar que este protegido da justiça estadunidense não é um mero suspeito de terrorismo. Ele foi considerado culpado pela explosão da aeronave por um tribunal de Caracas. Purgou nove anos da sua condenação na Venezuela e, quando se encontrava em regime de liberdade condicional, fugiu desse país. Posteriormente, depois de prestar serviços às forças irregulares que os Estados Unidos organizaram na América Central para combater o governo sandinista da Nicarágua e a guerrilha salvadorenha, Posada Carriles foi encarcerado no Panamá, depois de o próprio Castro ter dado às autoridades desse país o sinal de alerta do atentado que se preparava contra si. Em suma, as actividades terroristas de Posada Carriles estão melhor documentadas e comprovadas do que as de Osama Bin Laden.

Torna-se manifesto, pois, que o poder público estadunidense continua a medir este fenómeno condenável em todas as suas expressões, como sempre fez, com um duplo padrão: para Washington há terroristas bons (habitualmente trabalham em coordenação com o Pentágono e a Agência Central de Inteligência) que desestabilizam governos, assassinam civis e põem bombas em aviões, hotéis e restaurantes, e terroristas maus, como os integristas da Al Qaeda e as organizações guerrilheiras colombianas.

Em outro sentido, surpreende, pelo cinismo, a alegação do magistrado de que Posada Carriles não será entregue à justiça cubana nem à venezuelana porque poderia correr o risco de ser torturado, pois o país que enfrenta acusações da Amnistia Internacional (AI) e de outros organismos humanitários por violar a Convenção da ONU contra a Tortura não se chama Cuba nem Venezuela e sim Estados Unidos.

Num documento recente da AI (2005) registam-se as mortes sob custódia e maus tratos perpetrados pela forças estadunidenses no Iraque, assim como no Afeganistão e em Guantánamo, e indica-se que "vieram à luz provas de que o governo dos Estados Unidos havia autorizado técnicas de interrogatório que violavam a Convenção da ONU contra a Tortura": os sequestrados de nacionalidade kuwaitiana retidos em Guantánamo, por exemplo, coincidiram, em entrevistas conseguidas por um advogado estadunidense, em que haviam recebido espancamentos terríveis, que os penduraram pelos pulsos e os golpearam, lhes tiraram a roupa, encapuzaram-nos e os expuseram nus ao frio extremo. "Todos confirmaram que estes tratos eram infligidos por estadunidenses [...] Vários mencionaram a utilização de descargas eléctricas [...] alguns receberam-nas; muitos viram como se aplicavam".

Para não ir mais longe, ontem, enquanto um tribunal migratório estadunidense concedia protecção ao terrorista cubano, um tribunal militar condenava a três anos de prisão a soldado Lynndie England, participante menor, mas famosa, da barbárie cometida pela tropa estadunidense na prisão de Abu Ghraib (Iraque), onde os invasores torturaram e assassinaram integrantes da resistência iraquiana ou meros suspeitos de sê-lo. Após as indignantes revelações do ano passado sobre essas atrocidades, a justiça castrense da potência ocupante aplicou uma política de controle de avarias e levou a conselhos de guerra alguns dos soldados e suboficiais, mais nenhum oficial de alta patente foi conduzida perante os juizes, apesar de que era evidente que os maus tratos faziam e continuam a fazer parte de uma estratégia geral.

Depois da recusa em extraditar Posada Carriles, ao governo de Washington e às instâncias judiciais estadunidenses não resta nenhuma autoridade moral para condenar o terrorismo nem para fingir que o combate.

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2005/09/28/edito.php .

Este editorial encontra-se em http://resistir.info/ .

29/Set/05