A investigação

por Carlos Fazio

Um. A propaganda moderna é uma hábil combinação de informação, verdades a meias, juízos de valor e uma variedade de exageros e distorções da realidade, que procura influenciar as massas. Em geral, através de manipulações psicológicas, a propaganda tende a confirmar ideias populares e agudizar os preconceitos; tenta mobilizar a população através das suas emoções, em particular o medo e o ódio. Para tratar de convencer e modificar opções e juízos da população, o propagandista vale-se de todos os meios de difusão, oficiais ou comerciais, e lança mão, também, de métodos inabituais como o rumor e as teorias conspirativas.

Segundo Heidegger, ex-membro do partido nazi, a multidão é portadora de uma "psicologia irracional gregária". A conotação negativa do termo propaganda, utilizado como sinónimo de mentira, desinformação e manipulação dirigida às massas ignorantes, cria a ilusão de que a elite, a população "educada" e "informada" é imune às mensagens propagandísticas. Nada mais longe da realidade.

Para construir a verdade "oficial" utilizam-se genericamente três tipos de propaganda: branca, cinzenta e negra. A mais daninha, a propaganda negra, é aquela que apresenta outra fonte e não a verdadeira. Para encobrir sua origem e suas intenções rodeia-se de ambiguidades, segredos e mistérios. É a mais utilizada nas operações clandestinas (ou encobertas) dos serviços de inteligência e, por isso, é principalmente subversiva. Geralmente é canalizada aos media através de "fugas"; uma fonte "oficial" declara de forma "anónima", ou o media assinala que não pode divulgar a origem da informação. Ou seja, afirma algo que não é possível corroborar com certeza e, dessa maneira, a "informação" (propaganda) fica plantada como se fosse uma "notícia". Nos bons romances, a propaganda negra tem a vantagem da irresponsabilidade, uma vez que permite difundir escândalos e rumores sem desacreditar o governo.

Uma das técnicas da propaganda é destinada a "obter desaprovação". Essa técnica utiliza-se para tentar persuadir a audiência alvo da propaganda a desaprovar uma acção ou ideia popular, sugerindo que é promovida por um grupo temido ou subversivo. Se se martelar na população que as políticas que apoia são próprias de gente indesejável ou subversiva, então os membros da audiência alvo da propaganda poderão decidir mudar a sua posição original.

Dois. A "investigação" promovida pelas bancadas dos partidos Acción Nacional e Revolucionario Institucional da Câmara dos Deputados sobre "a suposta ingerência do governo da Venezuela no México em favor da candidatura de André s Manuel López Obrador e sua vinculação com grupos subversivos" é parte de uma campanha de propaganda negra promovida pelo foxismo-salinismo que, por sua vez, serve os interesses e a diplomacia de guerra da administração Bush.

A conjura diversionista, denunciada no nosso artigo anterior ("Preparando o voto do medo", La Jornada, 13/03/06) seguiu um guião predeterminado. Primeiro, informação falsa semeada em vários media mexicanos pelos especialistas em "truques sujos" do Pentágono e da Agência Central de Inteligência (CIA) através dos seus agentes locais foi recolhida e ampliada pelo jornal salinista Crónica. Depois vieram vá rios pronunciamentos nos Estados Unidos dos ex presidentes Carlos Salinas e Ernesto Zedillo sobre riscos de "populismo" e "demagogia" no México, complementados quase diariamente com a propaganda foxista sobre o assunto. A 19 de Março o PAN lançou um novo spot televisivo que utiliza uma imagem de Hugo Chávez e ouve-se o mesmo dizer: "Presidente Fox: não se meta comigo, cavalheiro, porque sai escarmentado (espinao) ", seguido de López Obrador a dizer: "Cale-se, cidadão Presidente! Cala-te papagaio!

Na quarta-feira 22 continuou a ofensiva da direita da Acción Nacional e do PRI na Câmara dos Deputados. O panista Rodrigo Iván Cortés voltou a meter medo com o fantasma das "células bolivarianas" que supostamente "assolam" o paí s, apoiado pelos seus correligionários Germán Martínez, Patricia Garduño y Pablo Alejo López, todos alinhados com as diretrizes e as operações clandestinas de Washington contra Cuba e a Venezuela. Enquanto, no Senado, César Já urgui (PAN) identificou a AMLO e Chávez como "duas almas gémeas" e o priísta Enrique Jackson insistiu na "ingerência chavista". O fogo da artilharia panista foi reforçado pelo capo do partido, Manuel Espino, o qual assustou com o perigo de que "um governo do México estivesse a servir os interesses de Hugo Chávez". Perante tanto fervor patriótico, o mais lindo foi a confissão do deputado Martí nez quando disse que as únicas "provas" apresentadas para pedir a investigação... "são recortes de jornais". Ergo: a informação falsa plantada no diário Crónica.

Assistimos, pois, a uma acção de propaganda negra, própria da guerra psicológica, com suas caracterizações simplistas e maniquéias (bom-mau, branco-negro) para descrever o inimigo, com Chávez no papel de "diabo" e AMLO, "sua alma g émea", a percorrer o seu mesmo caminho "subversivo". Além disso, ambos encarnariam o "populismo radical", assinalado pelo chefe do Comando Sul dos Estados Unidos e pela secretária de Estado, Condoleezza Rice, como o "novo inimigo" a vencer. Ou seja, os "patriotas" do PAN e do PRI, definitivamente, servem Washington. Nada de novo.

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2006/03/27/029a1pol.php .
Tradução de JF.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
30/Mar/06