O inferno de Guantanamo
por
La Jornada
Em 10 de Junho as autoridades da base naval estadunidense de Guantanamo
informaram que três prisioneiros, suspeitos de terrorismo, suicidaram-se
nas suas celas. Dadas as terríveis condições e os tratos
desumanos que têm de suportar as centenas de pessoas que ali permanecem,
vários organismos defensores dos direitos humanos já haviam
advertido sobre a possibilidade de que algo assim viesse a suceder. O
exército estadunidense reconheceu que desde que o cárcere de
Guantanamo entrou em funcionamento, pouco após os atentados terroristas
de Setembro de 2001, pelo menos 23 detidos cometeram 41 tentativas de
suicídio.
Desde a abertura da prisão de Guantanamo, inúmeras vozes
protestaram contra as irregularidades que cercaram o processo contra os
suspeitos e pelos abusos cometidos contra eles ali dentro. O governo de
Washington ignorou todas as críticas contra si e impôs um regime
de terror nessa e em outras prisões localizadas em diferentes partes do
mundo. Basta recordar as atrocidades cometidas por soldados estadunidenses e
britânicos em prisões localizadas no Iraque.
Para a organização humanitária Amnistia Internacional
(AI), a Casa Branca recusa cinicamente "as normas cuja cumprimento espera
tão amiúde de outros. As violações direitos
humanos, que o governo dos Estados Unidos é tão avesso a chamar
tortura quando são cometidas pelos seus próprios agentes,
são assim qualificadas quando se produzem em outros países".
A AI destacou que "as políticas da guerra dos Estados Unidos
contra o terrorismo mostram que a proibição da tortura e dos maus
tratos não é tão 'não negociável' para esta
administração". Estas considerações
são compartilhadas por dezenas de organizações
humanitárias mais, a ONU e a União Europeia.
Apesar dos factos e dos inúmeros protestos da comunidade internacional,
umas 460 pessoas de quase 35 nacionalidades diferentes continuam recolhidas em
Guantanamo, muitas delas sem acesso a nenhum tribunal, nem a advogados nem a
visitas familiares. Como se fosse pouco, os prisioneiros são submetidos
a intermináveis torturas que os levam a tomar decisões
desesperadas. Como serão as condições para que até
aqueles curtidos pela guerra tomem uma alternativa extrema. Assim, não
é estranho que os prisioneiros optem por declarar-se em greve de fome
para protestar pelas condições em que se encontram e que se hajam
registado dezenas de tentativas de suicídio.
Neste contexto, é vergonhoso que funcionários estadunidenses
façam vista gorda quando interrogados sobre Guantanamo e as flagrantes
violações de direitos humanos que ali se cometem. É o
caso de declarações como a vertida recentemente por Emilio
González, director de Cidadania e Imigração dos Estados
Unidos, de que essa prisão "é o único lugar de Cuba
onde se respeitam os direitos humanos", ou a profunda
"preocupação" manifestadas pelo presidente George W.
Bush ao saber a notícia dos suicídios na base naval.
À medida que vêem à luz mais provas dos abusos contra os
detidos em Guantanamo, e que se manifestam as consequências desses maus
tratos, cresce a urgência de exigir o encerramento dessa e de outra
prisões estadunidenses que contrariam os mais elementares
princípios de humanidade. Para isso, é fundamental que a
comunidade internacional continue a pressionar a Casa Branca para encerrar
Guantanamo. Perante este panorama, as autoridades estadunidenses deveriam
actuar em consequência como exige meio mundo e por todos os detidos
à disposição dos tribunais de justiça, cumprindo
plenamente o direito e normas internacionais de justiça processual ou
pô-los em liberdade de forma imediata e incondicional. Pedir menos seria
continuar a consentir os abusos cometidos por Washington na sua [chamada]
guerra contra o terrorismo.
11/Junho/2006
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2006/06/11/edito.php
Este editorial encontra-se em
http://resistir.info/
.
|