Vaticano: quem está no comando e quem se segue?

por La Jornada (editorial)

O mais recente debilitamento da saúde do papa João Paulo II tornou a desencadear nos meios informativos do mundo um fervilhar de especulações acerca da sucessão no trono de Pedro que parece próxima e suscita temores justificados pela possibilidade de alguém tão reaccionário e autoritário como o próprio Karol Wojtyla chegar à liderança máxima da Igreja católica. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as perguntas acerca de que pessoa ou pessoas detêm o comando real no Vaticano diante da evidente incapacidade do actual pontífice para exercê-lo.

Tais inquietações transcendem, em muito, o âmbito do catolicismo, da cristandade, e do mundo religioso em geral, e preocupam o conjunto da humanidade pelo facto evidente de que no mundo actual o Vaticano constitui um poder que vai muito além da esfera propriamente espiritual. Além disso a Igreja católica é um actor político de grande importância, bem como um formidável conglomerado ideológico, económico, cultural, educativo, mediático e propagandístico que transcende as fronteiras nacionais, as classes sociais e as singularidades regionais e que pode, em consequência, actuar como factor de desenvolvimento, paz e estabilidade em todo o planeta ou, em alternativa, representar um elemento de estancamento e obscurantismo, de alimentação de fobias e intolerâncias e de geração de novos conflitos.

Desta perspectiva, o rastro do actual pontífice nos mais de cinco lustros do seu papado é ambíguo e até contraditório. No primeiro trecho do seu percurso, João Paulo II tomou abertamente partido na guerra fria em favor dos promotores da revolução conservadora, Ronald Reagan e Margaret Thatcher, contra a então União Soviética e o bloco do leste da Europa. A partir dessa posição fustigou de forma sistemática os movimentos de libertação nacional no terceiro mundo e particularmente na América Latina que, seja disto de passagem, é a principal reserva demográfica do catolicismo. Wojtyla perseguiu e reprimiu os partidários da teologia da libertação e contribuiu de forma decisiva para o implacável cerco militar, político e ideológico estabelecido por Washington contra o regime sandinista na Nicarágua. Em tempos posteriores à queda do muro de Berlim, João Paulo II modificou de forma perceptível as suas posições políticas, enfocou suas críticas no capitalismo selvagem ainda imperante e advogou um modelo de economia menos desumano. Também se deve assinalar que, perante o alarmante militarismo estadunidense, em numerosas ocasiões Wojtyla manifestou-se em favor da paz, contra as ilegais incursões colonialistas de Washington e pela abolição da tortura e na pena de morte no mundo.

Ao mesmo tempo, o fundamentalismo pessoal do Papa exacerbou a tradicional intolerância da Igreja católica contra as minorias sexuais, a vigência dos direitos reprodutivos, os métodos de planificação familiar e as campanhas de prevenção da SIDA por meio da utilização do preservativo. Neste terreno, as contra-campanhas católicas auspiciadas pelo Vaticano aproximam-se do terreno criminal, na medida em que obstaculizam as acções sociais e governamentais para conter a epidemia. Sobre os escândalos já maciços por abusos sexuais nas próprias fileiras da Igreja ou por ministros dela contra leigos, a autoridade de Wojtyla preferiu o encobrimento ao esclarecimento e converteu-se em protectora de supostos pederastas.

Perante a enfermidade e o internamento hospitalar do pontífice, os elementos de juízo disponíveis indicam que o Vaticano se encontra nas mãos do punhado de hierarcas retrógrados e cavernícolas que coincidem com João Paulo II nos seus aspectos mais obscurantistas; por exemplo, o italiano Angelo Sodano, secretário de Estado; o espanhol Julián Herranz, membro da Opus Dei e titular do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos,; o alemão Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antes Santa Inquisição) e perseguidor dos partidários da teologia da libertação; o nigeriano Francis Arinze, do Conselho para o Culto Divino; e o mexicano Javier Lozano Barragán, titular da Pastoral de Saúde e que, a partir desse cargo, promoveu os mais virulentos ataques contra as campanhas governamentais e sociais de prevenção da SIDA.

À preocupação pelo poder actual de semelhante cúria romana há de acrescentar-se a inquietação quanto ao próximo pontífice, cuja designação não pode estar longe, e de cujas boas ou más decisões dependerá, em boa medida, que a Igreja católica, com todo o poder que detém no planeta, continua aferrada à intolerância anacrónica e ao autoritarismo obscurantista de Wojtyla ou, em alternativa, empreenda as rectificações necessárias, renuncie a suas pretensões de poder terreno e ao seu afã por controlar todos os aspectos da vida dos indivíduos, e se situe nas realidades do mundo contemporâneo.

03/Fev/2005

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2005/feb05/050203/edito.php

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
09/Fev/05