O inimigo principal

por Carlos Fazio

'Paisagem zapatista', de Diego Rivera, 1915. Clique para ampliar. Quanto à polémica entre o Exército Zapatista de Libertação Nacional e o Partido da Revolução Democrática, existem alguns elementos que são fundamentais para definir uma proposta de mudança de esquerda. Um é definir o inimigo principal, encarnado pelo imperialismo, que não só é uma forma de dominação económica como também, cada vez mais, estrutura-se, desenvolve-se e fortalece-se a partir da dominação política, militar e cultural dos países desenvolvidos no mundo, com os Estados Unidos com papel hegemónico. Portanto, a "questão nacional" e a viabilidade dos estados nacionais continua a ser um tema chave. Para poder dominar, o imperialismo — expresso pelo predomínio mundial do capital financeiro, especulativo e transnacional — necessita submeter os povos dos seus respectivos estados centrais e contar com aliados em cada um dos estados submetidos. No México, o sócio nativo do imperialismo é a oligarquia financeira e a maquinaria política, burocrática e mediática que serve os seus interesses.

Actuar no seio de um Estado submetido como o México coloca a "questão nacional" na estratégia de uma força revolucionária, que além disso deve enfrentar o inimigo principal: os Estados Unidos, seus sócios nativos e o conjunto dos aliados possíveis. Para enfrentá-los exige-se uma grande unidade popular, uma grande aliança com todos os sectores golpeados pelo imperialismo e pela oligarquia: o proletariado, o conjunto dos trabalhadores da cidade e do campo, o mal chamados marginalizados, intelectuais patriotas, estudantes, mulheres, aposentados, pequenos e médios burgueses e ainda burgueses cujos interesses se choquem com os do imperialismo seja qual for a razão.

A "força motriz" da revolução historicamente possível no México é o povo. Não cremos na existência estrategicamente operante de uma "burguesia nacional", ainda que existam sectores burgueses que desenvolvam actividades vinculadas à produção de bens reais, à criação de fontes de trabalho e empreendimentos de valor estratégico para o povo, que são golpeados nos seus interesses concretos pelas políticas imperiais e se vejam confrontados com um acumular de actividades burguesas puramente especulativas, parasitárias e/ou francamente delinquentes e mafiosas, que fincam os seus "investimentos" na área da intermediação, da usura, dos roubos, das negociatas sujas e do crime organizado.

Na história as mudanças foram protagonizadas por grandes maiorias sociais, e produziram-se a partir de insurreições populares, guerrilhas triunfantes ou processos eleitorais. Trata-se, pois, de aglutinar as forças que integram a "força motriz" (povo), para a libertação nacional. Mas a construção dessas maiorias políticas ou sociais constitui uma verdadeira arte: a arte da flexibilidade, da paciência e da tolerância. Sem essas qualidades é muito difícil construir maiorias. Por sua vez, isso está em conflito com o hegemonismo típico das esquerdas (legal ou armada), a avidez pelos cargos e a intolerância perante as diferenças, elementos que abastardam os processos de unidade.

A libertação nacional deve ser sustentada num princípio: todo aliado e toda aliança baseia-se na lealdade sem restrições. O inimigo é o inimigo e os aliados são os aliados. No campo popular, o pluralismo e a democracia devem ser questões de princípio. Ninguém é dono da verdade absoluta. E isto tem a ver com os procedimentos. É muito importante a lealdade na discrepância e no acordo. Por convicção estratégica, a confiança política e pessoal é de fundamental importância. De nada valem papéis assinados nem palavras quando os factos mostram outra coisa. O empreendimento de construir uma força motriz tão vasta faz com que a questão da pureza nos procedimentos e a lealdade nas alianças adquira valor estratégico decisivo.

O passado recente e uma razoável previsão do futuro indicam que tanto o imperialismo como a oligarquia não vacilaram nem vacilarão em recorrer à violência (militar) quando sintam ameaçados os seus interessantes diante do avanço das maiorias populares. Portanto, o que um revolucionário põe na sua organização e nas suas alianças é a vida. A sua, a dos seus seres queridos, a dos seus aliados. E quando o que se põe nisso é a vida, a confiança é a base de tudo. O revolucionário pode equivocar-se e pagar altos preços pelos seus erros. A história — os povos — compreende e perdoa esses erros quando foram cometidos no altar da luta. Muitos erros de luta e pela luta enalteceram a confiança popular nas suas forças sociais e políticas.

Para as forças de esquerda, o objectivo central, hoje, no México, é a mudança da correlação de forças entre a oligarquia e o povo. Essa correlação não se muda centrando a luta na institucionalidade. Muda-se na medida em que se desenvolva um tecido social que pressione o institucional e que actue com independência, que desenvolva embriões de pode popular.

Cremos que isto está na base daqueles que, dentro do PRD, impulsionam a criação de uma Frente Ampla. E que outras forças, como a Frente Sindical Mexicana e aquelas reunidas pela Promotora contra o Neoliberalismo, apontam na mesma direcção. Por sua vez, a outra campanha, a do EZLN, tentará organizar e mobilizar de maneira pacífica os sem partido em torno de um programa anti-capitalista e anti-oligárquico para a libertação nacional. Seria desejável que, para além das diferenças, todos apontassem as suas forças contra o inimigo principal. O eixo da acumulação está no enfrentamento do inimigo principal. Em momentos de tensão como o actual, essa luta obriga às fórmulas conciliatórias a participar ou resignar posições. Mas não há que errar na caracterização de quem é o inimigo principal: o imperialismo e, no plano interno, o sector financeiro e seus aliados.

15/Agosto/2005

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2005/ago05/050815/023a2pol.php


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16/Ago/05