A fase predatória do capitalismo
por Jorge Figueiredo
Já houve tempo em que o capitalismo era uma força progressista,
na medida em que avançava o nível de desenvolvimento das
forças produtivas. As empresas então produziam novos bens e
serviços que acrescentavam riqueza às sociedades,
desenvolvendo-as. Era a fase da ascensão do capitalismo, uma outra era,
antes de a queda inexorável das taxas de lucros começar a
manifestar-se.
Hoje isso não é mais assim. Actualmente estamos na fase
predatória do capitalismo, que é comandada pelo capital
financeiro. O objectivo agora é a apropriação da riqueza
existente, criada por outros. Daí a catadupa de fusões e
aquisições, OPAs amistosas ou hostis,
leverage buy-outs
(LBOs)
[1]
, engenharias financeiras, etc. Nada disso pode aumentar a riqueza de um
país. Tais operações significam apenas
transferências de riquezas de uns (geralmente muitos) para outros
(poucos). É assim que hoje mais de 80% da riqueza mundial é
apropriada por 1% da população do planeta. Essa realidade
é reconhecida mesmo por entidades que não põem em causa o
capitalismo, como a Oxfam
[2]
. Assim, estamos em meio a um processo de pauperização numa
escala quase universal. Pode-se dizer que se trata da fase autofágica do
capitalismo pois ele já pouco desenvolve as forças produtivas e
começa a predar as existentes. Será isto um modo de
produção? Ou um modo de destruição?
Como se processa este processo de expropriação de riquezas?
Há poucos estudos empíricos acerca dos mecanismos actuais e reais
de concentração
[3]
e centralização do capital
[4]
(tudo indica que na fase actual do capitalismo a última tende a
predominar sobre a primeira). Uma das razões para esta ausência
é a opacidade com que tais processos se realizam, o que é
compreensível pois geralmente estão associados à
corrupção em larga escala com conluios encobertos entre
vendedores e compradores. Por isso, torna-se extremamente difícil
detectar os processos reais pelos quais se verifica este autêntico roubo
legal (pois sacramentado pelos poderes públicos e batalhões de
juristas e contabilistas ao serviço do capital).
Este é o grande o mérito do livro recente de Catherine Le Gall e
Denis Robert,
Les prédateurs: Des milliardaires contre les États
[5]
trata-se de uma investigação empírica. Para
fazê-la eles examinaram três casos de vigarices: a venda da Quick,
cadeia belga de hamburguers, ao banco estatal francês; a venda da
refinaria de Pasadena à Petrobrás; e a venda de uma obscura
empresa mineira à Areva, poderosa empresa francesa da energia nuclear.
Para isso os autores deram-se ao trabalho de examinar milhares de
relatórios, balanços, demonstrações de resultados,
artigos em publicações e efectuar inúmeras entrevistas com
intervenientes nas referidas operações.
Uma característica comum a todos os três casos é que foram
lesadas empresas estatais através de maquinações
cuidadosamente conduzidas. No primeiro deles, o da cadeia Quick, o lesado foi a
Caisse,
o banco do Estado francês. O preço de venda que os donos haviam
proposto em 2004 fora de 300 milhões de euros e não encontrara
comprador. Mas em 2006 a
Caisse
comprou-a pela quantia de 760 milhões de euros (p.156). Também
caberia perguntar porque é que o maior banco estatal da França
precisaria de uma cadeia de
fast-food,
mas ninguém respondeu a essa pergunta. O livro contém uma
insinuação clara de que a operação serviu para
ajudar a financiar a campanha eleitoral de Nicolas Sarkozy (p.119).
O segundo caso, muito maior, foi o da refinaria de Pasadena, na
Califórnia, vendida à Petrobrás em 2012 (com
aprovação de Dilma Rousseff). A refinaria era uma verdadeira
sucata que o seu proprietário, a Astra Oil, vendera a um grupo belga por
42,5 milhões de dólares. Mas o montante que a Petrobrás
acabou por pagar foram uns incríveis 1,18 mil milhões de
dólares, ou seja, um salto mortal de 1600%. A operação
contou com conivências internas dentro da Petrobrás (um tal
Nestor Cervero) e com pelo menos um ex alto funcionário da
Petrobrás (Alberto Feilhaber) que passou a trabalhar para o outro lado.
O contrato foi feito com tal habilidade e cláusulas tão
diabólicas que a Petrobrás acabou por ficar presa, sem qualquer
saída razoável. Para poupar pormenores, bem descritos no livro,
os autores resumem assim a situação:
"A Petrobrás está de pés e mãos amarrados com
um parceiro de que ela não pode se livrar a menos que pague um
preço delirante. A refinaria está obsoleta, os trabalhos
estão em ponto morto, as discussões com a Astra Oil são
tensas. Os dirigentes da Petrobrás (enfim, aqueles que não
são corrompidos) descobrem a amplitude do desastre e acreditam que ainda
é tempo de encontrar uma porta de saída. Mas todas as
soluções são piores umas que as outras: manter a refinaria
no estado em que está provoca perdas colossais, começar
trabalhos para produzir 100 mil barris por dia como previsto relançaria
o conflito com a Astra, subir para 200 mil barris equivaleria a conceder uma
enorme prenda à Astra. Finalmente, comprar a parte da Astra para se
desembaraçar do parceiro recalcitrante custaria uma fortuna. A armadilha
imaginada pela equipe belga e por Albert [Frère]? se fecha
sobre o dinossauro Petrobrás. Não há meio de escapar. Em
frente, a equipe dos belgas vê a sua presa entrar em pânico.
É tempo de apresentar o grande jogo para aterrorizá-la
totalmente". (p.236)
É então que a Petrobrás vai ser depenada. Num golpe de
poker, a parte belga propõe-se a comprar a parte da Petrobrás na
refinaria cuja gestão está paralisada devido aos diferendos entre
os sócios o que impede a empresa de se por de pé. O
contrato continha uma cláusula insidiosa, aparentemente anódina.
Dela se concluía que não era tanto a casa que valia caro e sim
quem possuía a chave: o contrato de comercialização. A
Petrobrás acaba por levar o caso à justiça americana, a
qual vem a condená-la a pagar uma soma vertiginosa. Fecha-se a
armadilha. As maravilhas do capitalismo actual permitem este género de
operações.
O terceiro caso é o da Uramin, uma empresa constituída em
paraísos fiscais que na verdade é uma concha vazia. As três
jazidas de urânio que ela afirma ter em África pouco ou nada valem
pois não são economicamente exploráveis. A Areva, uma
importante empresa estatal francesa dedicada ao nuclear, possui uma base de
dados com dados de minas de todo o mundo mas os seus geólogos e
peritos não foram achados nem ouvidos acerca da aquisição
desta Uramin. Mas o dossier desta casca vazia foi cuidadosamente manipulado
pelos seus proprietários, através de pareceres da consultora SRK e
por outros meios, a fim de dar a entender que valia muito. A presidente da
Areva, Anne Lauvergeon, fora reconduzida à testa da empresa após
a eleição de Nicolas Sarkozy à presidência da
República. A ligeireza com que ela procedeu a operação de
compra da Uramin foi estarrecedora. E mais estarrecedor ainda foi o
preço estratosférico que foi pago: 2,49 mil milhões de
dólares, sempre com a assistência do banco Rothschild, muito
ligado a Sarkozy. Uma consultora de negócios explica a regras do jogo
nos negócios de petróleo, gás e urânio: "Se eu
vendo caro, muito caro, demasiado caro, eu agradeço o comprador.
Sempre" (p. 263).
O que estes três casos recentes têm em comum é a
acção predatória do capital financeiro privado sobre
empresas públicas e estatais. Isto parece confirmar uma lei geral e
certamente é uma consequência da queda da taxa de lucro nas
actividades produtivas da economia capitalista. O capital já não
pode arrecadar os lucros "normais" a que estava habituado com a
produção de mercadorias. Assim, passou a nova fase e agora
dedica-se à actividade predatória de empresas produtivas
sobretudo daquelas no âmbito estatal.
Os autores afloram também o caso escandaloso da fusão da empresa
Gaz de France (GDF) com a privada Suez. A GDF, uma empresa pública
exemplar criada após a II Guerra Mundial, foi atacada pelos predadores
da Suez e acabou por fundir-se com ela. Nem a GDF nem o povo francês
foram beneficiados com tal fusão, bem pelo contrário. Agora a
lógica de funcionamento da empresa está voltada para o
máximo lucro e não mais para prestar um serviço
público e servir a população do país. É
outro caso exemplar que merece ser examinado.
Seria desejável que em Portugal houvesse estudos empíricos como
esse para as rapinas sofridas pelo Sector Empresarial do Estado. Exemplo
recente é a escandalosa privatização dos correios, a
seguir transformado também no Banco CTT, com a drástica perda de
qualidade de um serviço em que no passado Portugal já foi
exemplar. Esta privatização, feita quando o governo Passos Coelho
estava moribundo, não foi revertida pelo governo PS. As palavras
privatização e corrupção constituem rimas perfeitas.
[1] LBO: Aquisição de uma empresa essencialmente através
do recurso a fundos alheios, normalmente por parte de um grupo em que se
incluem alguns dos gestores da empresa-alvo.
[2] Oxfam:
oxfamilibrary.openrepository.com/...
[3] Concentração de capital: Acréscimo interno do capital
por acumulação e concentração da mais-valia.
[4] Centralização de capital: Um dos meios de
acumulação do capital representando um processo de
acréscimo do capital pelo agrupamento de vários capitais num
só, pela absorção de outros capitais já existentes.
[5]
Les prédateurs: Des milliardaires contre les Étas, leur rapacité face à nos lâchetés
,
ed. Le Cherche-Midi, 2018, 300 p., ISBN 978-2-7491-5593-7
Esta resenha encontra-se em
http://resistir.info/
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