Erros militares crassos
por Jorge Figueiredo
Military Blunders The how and why of military failure (Erros militares
crassos O como e o porque do fracasso militar)
[1]
é um livro elucidativo. O seu autor, Saul David, é um
historiador britânico especializado em questões militares. Ele
não pretende chegar às causas profundas das guerras, conforme a
tradição da análise marxista. A sua análise
é do ponto de vista factual e das estratégias e tácticas
militares adoptadas. Assim, conseguiu coligir cerca de uma trintena de grandes
fracassos militares ao longo da história, analisados em pormenor. Os
casos de estudo que apresenta vão desde o tempo do Império Romano
até os dias de hoje. Entretanto, talvez o mais interessante e inovador
no seu estudo seja a
tipologia
destes fracassos. Saul David classifica-os em cinco tipos:
Inaptidão para o comando.
Aqui, o fracasso pode ser atribuído inequivocamente à estupidez
de quem comanda as tropas. Foi o caso, por exemplo, da fracassada campanha
britânica de ocupação do Afeganistão, em 1842, que
levou ao extermínio total de um exército de mais de 10 mil homens
por bandos tribais que mal conheciam as técnicas militares. Foi o caso
igualmente, bem conhecido, de Galipoli durante a I Guerra Mundial. E foi ainda
o caso flagrante da invasão e ocupação de Singapura pelas
tropas japonesas em 1942. Nesta ilha-fortaleza, o seu comandante, general
Percival, não acreditava que o exército japonês pudesse
atravessar as selvas (supostamente impenetráveis) da península
malaia para invadir a península com tanques. Assim, apesar dos conselhos
recebidos, recusou a preparação de defesas a norte da ilha e
concentrou-se exclusivamente numa invasão pela linha da costa, com
anfíbios. Dessa forma, apesar de dispor de mais de 85 mil homens para a
defesa de Singapura, o general Percival teve de hastear a bandeira branca
diante de uma força japonesa com apenas 35 mil homens.
Mau planeamento.
Neste tipo de fracasso pode-se dizer que a derrota fica garantida antes mesmo
de começar a batalha o que pode nos deixar dubitativos quanto
à qualidade de certos cursos de estado-maior, ou quanto ao
aproveitamento dos que os assistem. O título deste capítulo
é, significativamente, "Planning for Trouble". Saul David
menciona exemplos como o do "dia da mais negra carnificina da
história do Exército britânico", a batalha de Somme
(1916), quando metade da força atacante de 120 mil homens sofreu baixas
e um em cada seis soldados foi morto. "O plano final tinha pouca
possibilidade de alcançar seus objectivos", afirma o autor. E
acrescenta: "Na verdade, a Batalha de Somme estava perdida antes de
começar. Alcançar uma vitória decisiva contra tropas que
detinham uma forte posição defensiva era pedir demais a qualquer
exército durante a I Guerra Mundial". Assim, conclui: "O que a
tornou uma tarefa sem esperança para os britânicos em Somme foi o
facto de que o plano de batalha estava super-dependente da eficácia do
fogo de artilharia. Quando o bombardeamento preliminar falhou em destruir o
arame farpado do inimigo, e muito menos as suas casamatas profundas, os
alemães tiveram todo o tempo do mundo para operar suas defesas
avançadas antes que os britânicos pudessem fazer qualquer
coisa".
Outro caso de mau planeamento foi a incursão a Dieppe, em 1942. Neste
porto francês, ocupado pelos nazis, foi planeado um raid de 5000
canadianos e britânicos mas mais de 70 por cento deles foram
mortos, feridos ou capturados. O principal responsável foi o
capitão Mountbatten, um oficial incompetente da Marinha e primo distante
do rei. Para avançar a sua carreira ele enviou à morte milhares
dos seus compatriotas. "Só um comandante aventureiro lança
um ataque frontal com tropas não treinadas, não apoiadas,
à luz do dia, contra veteranos entrincheirados e preparados por
trás de casamatas de betão, arame farpado e acessos
minados", afirmou Lord Lovat.
A este caso acrescenta-se o da ponte de Arhem (1944), no norte da Holanda. Foi
um empreendimento suicida e o principal responsável foi o marechal
Montgomery. Ao empreender a operação ele desobedeceu as
instruções do general Eisenhower, que não a considerava
prioritária. A ponte estava defendida por uma divisão Panzer
alemã, os paraquedistas britânicos foram lançados em
lugares mal escolhidos e para coroar tudo um dos planadores que os
transportaram foi capturado pelos alemães e, incrivelmente, continha o
plano completo da operação! "Começou a parecer-me que
os generais nos colocaram em algo de que não tinham
noção", escreveu um dos paraquedistas.
Intromissão de ministros.
A intromissão de ministros em operações militares é
outra praga que pode afligir uma guerra. Mesmo com bom planeamento e comandantes
competentes, a intervenção de políticos distantes em
questões estritamente técnicas de operações
militares pode arruinar tudo. Muitos políticos não resistem a
interferir, sobretudo aqueles que endossam a crença de Talleyrand de que
"a guerra é uma coisa demasiado séria para ser deixada aos
militares". Saul David descreve, dentre outros exemplos, a
rendição do principal corpo do exército francês em
Sedan (1870), que culminou na própria captura do imperador
Napoleão III e de facto terminou a Guerra Franco-Prussiana. O principal
responsável pelo desastre foi o amadorismo do comandante-em-chefe das
tropas francesas, o próprio Napoleão III. "Mas você
não é adequado para tomar conta disto, você não sabe
sequer montar a cavalo!", disse uma prima sua quando soube que ele ia
assumir pessoalmente o comando das operações.
A batalha que devastou o Norte de África em 1940-41 constitui outro bom
exemplo da intromissão indevida do poder político. Neste caso,
tratou-se de uma dupla intromissão, tanto de Mussolini como de
Churchill. Os italianos tinham mais de 300 mil homens na Líbia, frente a
36 mil britânicos no Egipto. Mas Mussolini queria a todo custo suplantar
o poder britânico no Egipto, controlar o canal de Suez e capturar
despojos de guerra. Assim, considerando que a Grã-Bretanha estava
debilitada após a fuga de Dunquerque, Mussolini ordenou ao comandante da
tropa italiana que atacasse o Egipto. O seu comandante, marechal Graziani,
tinha pouco entusiasmo pois considerava que a tropa italiana não estava
preparada para essa aventura até que recebeu uma ordem do alto
comando italiano para preparar uma ofensiva. Durante semanas tentou
procrastinar o início das operações, até receber um
ultimato: que atacasse num prazo de dois dias ou renunciasse ao comando.
Relutantemente, ele atacou. Mas "nunca uma operação
militar foi empreendida contra tanta má vontade do seu comandante",
escreveu Ciano, ministro italiano dos Negócios Estrangeiros. A campanha
foi um desastre completo. Apesar da inferioridade numérica, as tropas
britânicas/ australianas /indianas conseguiram infligir uma derrota
esmagadora aos italianos. "Nunca tantos renderam-se a tão
poucos", disse Eden. Elas capturaram 130 mil italianos, tomaram ou
destruíram cerca de 400 tanques e mais de 800 peças de
artilharia. Devido a esta aniquilação Mussolini teve de recorrer
à intervenção das tropas alemãs, o Africa Korps de
Rommel. No entanto, o comandante britânico não pôde explorar
a sua vitória a fundo e expulsar os italianos de Tripoli e do Norte de
África. E aqui a culpa coube mais uma vez ao poder político.
Churchill exigiu-lhe que transferisse tropas para a Grécia, apesar de
elas serem escassas ali (mas a campanha inglesa na Grécia foi um
desastre).
O caso da batalha de Estalinegrado (1943) é bem conhecido. O cerco do VI
Exército nazi, que levou à sua derrota e à captura do
marechal Von Paulus pelos soviéticos, também é
atribuível ao poder político. As tropas alemãs receberam
ordens estritas de Hitler para resistirem
in situ.
A ânsia pela captura dos campos de petróleo do Cáucaso fez
com que Hitler ignorasse os conselhos dos seus generais. Assim, os
alemães perderam a janela de oportunidade que tiveram para uma retirada.
O viés racista de Saul David pode ser apreciado nesta frase do
capítulo sobre Estalinegrado: "O exército russo, devido
às suas enormes perdas em 1941, era composta principalmente de
asiáticos de baixa inteligência
mas enorme tenacidade natural e resistência" (pg. 199). Estes
asiáticos de baixa inteligência (sic)
levaram à aniquilação do VI Exército: 110 mil
foram mortos; 34 mil feridos e doentes tiveram de ser evacuados por via
aérea; os remanescentes 91 mil soldados e 40 mil não combatentes
foram feitos prisioneiros. As perdas nazis incluíram 500 aviões
de transporte e o equivalente a seis meses de produção de tanques
e veículos, a três meses de produção de peças
de artilharia e a dois meses de produção de armas pequenas e
morteiros.
Confiança desmedida.
O excesso de confiança tem igualmente o seu papel nas grandes derrotas.
O autor dá exemplos que remontam a guerras das legiões romanas
(século IX) e vão até a campanhas no Médio Oriente,
Índia, África e Ásia. Caso notável foi o fiasco da
Segunda Cruzada (1147). O grande erro foi de uma assembleia dos cruzados em que
decidiram concentrar todos os esforços na tomada de Damasco o que
traz um paralelo insólito com tempos actuais: a nova
"cruzada"
trumpiana para a "mudança de regime" da República Árabe
Síria.
Outro episódio foi a morte do general Custer e de grande parte do seu
7º Regimento de Cavalaria (1876) às mãos dos índios
Cheyenne. A historiografia estado-unidense tem retratado o episódio como
uma "derrota heróica". Mas, diz Saul David, "De facto foi
um episódio sórdido do qual só os índios
emergem com algum crédito caracterizado pela
ambição crua de Custer, a falta de consideração
pelos seus homens e o desprezo pelo seu inimigo".
A batalha de Isandhlwana (1879), em que os zulus, infligiram uma pesada derrota
às tropas britânicas, abalou a Inglaterra vitoriana. Como é
que isso pôde acontecer? A resposta é simples: "longe de
serem selvagens sem treino, os zulus eram disciplinados e organizados e lord
Chelmsford, o comandante britânico, cometeu o erro crucial de não
dar o devido valor às suas capacidades", afirma o autor. A derrota
foi ainda mais vergonhosa porque os zulus sequer possuíam armas de fogo:
a sua arma principal era o
assegai,
uma espécie de lança curta.
Foi também o excesso de confiança que condenou o general
MacArthur quando, em 1950, resolveu avançou em direcção ao
Rio Yalu na fronteira entre a China e a Coreia do Norte. Repetidas
advertências diplomáticas dos chineses foram desprezadas tanto
pelo general como pelo governo estado-unidense. "Em 2 de Outubro, o
primeiro-ministro chinês, Chu En-lai, informou o embaixador indiano que a
China interviria se as Nações Unidas cruzassem o paralelo 38.
Truman ignorou a ameaça como uma tentativa tosca de chantagear a
ONU", afirma o autor. Assim, as tropas comandadas por MacArthur foram
atacadas por mais de 180 mil soldados chineses e em poucos dias sofreram uma
enorme derrota, escorraçadas centenas de quilómetros para sul.
Igualmente histórica foi a derrota francesa em Dien Bien Phu (1954)
quando, após um sítio de 55 dias, as tropas francesas de montanha
sofreram uma fragorosa derrota por parte do Viet Min. Mais uma vez, um
arrogante comandante ocidental subestimou as capacidades do seu inimigo
asiático. Era o general Henri Navarre, que passara a vida a combater
rebeldes na Síria, Marrocos e Argélia e habituara-se a desprezar
as capacidades das raças "inferiores". Navarre não
acreditava que o Viet Min pudesse transportar artilharia pesada através
de trilhas primitivas em selvas chuvosas. Os franceses sofreram cerca de 8000
baixas, das quais 2000 mil fatais. "Cerca de 8000 homens e mulheres
(incluindo algumas prostitutas norte-africanas) foram feitos
prisioneiros", conta Saul David.
Fracasso no desempenho.
Apesar das aparências, nem todos os fracassos devem-se a comandantes e
políticos. Alguns dos mais espectaculares podem ser atribuídos ao
incumprimento do dever por parte de soldados rasos e seus oficiais. Isto pode
ocorrer por indisciplina, falta de iniciativa e fraca resolução
para o combate. O autor descreve vários episódios como a derrota
francesa na batalha de Crécy (1346); a derrota italiana na batalha de
Caporetto (1917) frente às tropas autro-húngaras; a derrota
britânica na batalha do Kaiser (1918) frente às tropas
alemãs; a derrota espanhola em Anual (1921), localidade no nordeste do
Marrocos, frente às mal armadas e mal treinadas tribos do Rif.
Entretanto, um dos casos mais interessantes parece ser o de Creta (1941). Aqui,
o fracasso foi duplo: tanto dos atacantes como dos defensores. A ilha estava em
poder das tropas britânicas e foi atacada pelas tropas nazis. O
planeamento alemão foi pessimamente concebido: os paraquedistas
transportados em planadores foram lançados nos lugares errados, por
vezes no mar onde se afogaram; os bombardeamentos foram também
ineficazes. Contudo, o comandante britânico de Creta, o general de
divisão Freyberg, era pior ainda e absolutamente inepto. Ele conseguiu
perder a ilha apesar de ter superioridade de forças, de actuar a partir
de uma posição defensiva forte, de ser previamente informado do
ataque alemão e de contar com a simpatia da população
local! Os aeroportos de Creta foram fracamente defendidos, pois Freyberg estava
convencido que o ataque principal seria anfíbio quando na verdade foi
aéreo. Pior ainda, as defesas dos aeroportos da ilha estavam muito longe
dos
campos de pouso o que os deixava vulneráveis. Os britânicos
acabaram por ter de evacuar Creta, com grandes perdas. Os atacantes eram 8000
e os defensores ultrapassavam os 40 mil. Isso, só por si, deveria ter
assegurado a vitória britânica. Mas a preocupação
irracional de Freyberg com uma invasão anfíbia; assim como a
falha de oficiais britânicos em ordenarem um contra-ataque imediato no
aeroporto de Maleme e a retirada prematura dali provocaram uma derrota
humilhante.
Ao acabar de ler este livro fica-se com uma impressão penosa.
Verifica-se que as cinco características de incompetência militar
é mais generalizada do que deveria ser. A
displicência com que muitos planeiam, executam e comandam
acções que envolvem o destino de milhares de pessoas é
por vezes chocante. Mas, a bem da verdade e da honestidade, esta
displicência não é uma característica exclusiva de
militares. Basta ver, por exemplo, o desprezo com que economistas neoliberais
a ocuparem posições de comando em governos reaccionários
impõem medidas que condenam milhões dos seus
concidadãos à pauperização. Assim, nós civis
temos de ter humildade a crítica a militares incompetentes
não deve levar a um anti-militarismo grosseiro.
19/Junho/2019
[1]
Military Blunders
, Robinson, Londres, 1997, 374 p., ISBN 1-85487-918-9.
Esta resenha encontra-se em
http://resistir.info/
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