A crise na Islândia, a recuperação e os actuais desafios
por Már Guðmundsson
[*]
O caso da Islândia encerra lições para Portugal e os demais países do Sul da Europa. A primeira é que a resistência popular é decisiva; a segunda é que é importante ter gente digna entre os governantes; a terceira é que é imperioso libertar o país dos grilhões do euro. resistir.info
Sr. Presidente da Islândia, Srs. Embaixadores, Senhoras e Senhores
Hoje não vou falar sobre a acumulação destes
acontecimentos, e pouco terei a dizer sobre o segundo ponto. Já me
alarguei sobre ambos em diversas publicações e discursos que vos
posso indicar. Em vez disso, vou falar sobre o que aconteceu à economia
da Islândia depois disso a sua profunda recessão e a sua
recuperação posterior e depois reflectir sobre alguns dos
desafios políticos que ainda enfrentamos.
Em terceiro lugar, a economia recuperou realmente, conforme se pode ver na
Figura 1a. A economia tem vindo a crescer desde o segundo trimestre de 2010, e
o desemprego caiu de um pico de cerca de 9% para cerca de 5,5 %. E conforme
mostra a Figura 1b, prevê-se que a Islândia se encontre este ano
entre as cinco economias avançadas de crescimento mais rápido do
mundo, com um crescimento estimado de 2,1%, embora isso se deva em parte ao
recente abrandamento em muitos outros países avançados. E a
previsão é que a Islândia cresça ainda mais
rapidamente durante os próximos dois anos, ou seja na escala dos 3,5-4%
por ano, fazendo com que a economia saia da estagnação e com que
a taxa de desemprego caia para cerca de 4%.
Então como é que chegámos aqui?
As respostas políticas mitigaram a recessão mas não
puderam impedi-la de se tornar a mais grave na história da
Islândia do pós-guerra e muito profunda se a compararmos
internacionalmente conforme se pode ver na Figura 2. Contudo, a Islândia
não foi o país mais duramente atingido, como se pode ver neste
diapositivo. Além do mais, os desenvolvimentos estavam mais ou menos em
linha com as previsões do Banco Central da Islândia (ver Figura
3). O resultado foi que a Islândia caiu significativamente na Liga das
Nações.
A divisa desempenhou um papel significativo, tanto na formação da
crise como durante a sua subsequente estabilização e
recuperação. A crise da divisa materializou-se numa
depreciação da coroa islandesa de cerca de 50% durante o ano de
2008. Atingiu os sectores empresariais e as famílias profundamente
endividados, em que uma grande parte dessas dívidas era denominada ou
estava directamente ligada a divisas estrangeiras, ou a elas ligada
indirectamente através da indexação de preços numa
época de variação forte e rápida das taxas de
câmbio. A depreciação da divisa comprimiu assim os
balanços substancialmente. Daí a necessidade de estabilizar a
taxa de câmbio, o que foi conseguido em meados de 2009.
Um elemento muito importante, bastante inovador e que explica o êxito da
nossa política foi a interacção da
consolidação fiscal, da política monetária e dos
controlos de capitais. A crise desferiu um rude golpe às finanças
públicas islandesas, conforme se pode ver na Figura 5. O défice
resultante 10% do PIB em 2009 teria sido muito mais
difícil de financiar na ausência dos controlos de capitais que
impediram a fuga de capitais estrangeiros e captaram novas poupanças
internas. No entanto, não havia alternativa para escapar à
consolidação fiscal necessária para colocar as
finanças do governo numa via sustentável, visto que a
Islândia perdera a confiança externa e o acesso ao mercado. Foi um
grande esforço, conforme se pode ver na Figura 6a, e começou no
meio de uma crise económica, que está longe de optimizada. Mas a
política monetária tem sido progressivamente capaz de apoiar a
economia depois de a taxa de câmbio ter estabilizado e a
inflação ter descido (ver Figura 6b). E o âmbito da
política monetária para apoiar a economia interna apesar da crise
da balança de pagamentos foi, por sua vez, reforçada pelos
controlos de capitais, conforme se pode ver neste diapositivo, que compara as
taxas de juros reais a curto prazo durante a recente crise financeira na
Islândia com as taxas reais a curto prazo na Coreia durante a crise
financeira asiática.
Finalmente, permiti que diga algo sobre os actuais desafios da Islândia.
Vou referir-me a três.
O segundo está ligado à desalavancagem, ou redução
dos níveis da dívida. Os níveis de endividamento
público e privado estão numa via de declínio, conforme se
pode ver na Figura 8. No caso dos negócios em especial, uma parte
significativa assume a forma da reestruturação da dívida e
de reduções. Isso, juntamente com o processo de
resolução dos bancos falidos, levará à
redução da dívida externa líquida da Islândia
a um nível sustentável (ver Figura 9). Claro que isso é
uma coisa boa, mas o processo de desalavancagem tem dois efeitos laterais a
curto e médio prazo que têm que ser geridos. O primeiro respeita
ao efeito negativo da desalavancagem sobre a procura interna. O segundo
respeita ao seu efeito negativo sobre a taxa de câmbio, visto que as
entidades económicas com dívida externa, com pouca ou nenhuma
receita de divisas estrangeiras e sem acesso ao crédito estrangeiro,
são forçadas a reembolsar a dívida externa mais depressa
do que seria ideal, para elas e para a economia. Esta é uma parte do
problema da nossa balança de pagamentos.
Isso leva-me ao terceiro desafio, que é acabar com a crise da
balança de pagamentos da Islândia e abandonar os controlos de
capital. Através da consolidação fiscal e do
reforço das suas reservas de divisas estrangeiras (ver Figura 10ª),
a Islândia tem assistido a uma profunda queda no risco da dívida
soberana conforme reflectido nos diferenciais CDS. Além disso, a
dívida soberana conseguiu aceder por duas vezes aos mercados de capital
externo, num total de 2 mil milhões de dólares, e usar parte dos
proveitos para reembolsar uma parte significativa dos empréstimos
associados ao programa do FMI antes do prazo marcado. As reservas de divisas
estrangeiras e outros activos de divisas estrangeiras do Banco Central cobrem
actualmente os reembolsos da dívida soberana externa para lá de
2022 (ver Figura 10b).
O problema da balança de pagamentos, que os actuais controlos sobre a
fuga de capitais pretendem assim controlar, reside noutra área.
Estão mais bem demonstrados na Figura 11, que mostra, por um lado, os
activos líquidos ISK na posse de não-residentes, que se elevam a
22% do PIB, e dos activos ISK dos antigos bancos, que, na ausência de
outra acção, cabem sobretudo a residentes estrangeiros e podem
ser adicionados às existências de possíveis coroas
islandesas líquidas ultramarinas. Dado que o excedente subjacente de
contas correntes se situa na região de 3-4% do PIB e dado que há
muitos outros reembolsos de dívida que o reclamam, é óbvio
que, se estas quantias fossem libertadas de um dia para o outro,
correríamos o risco de outra crise da divisa, com possíveis
implicações significativas numa estabilidade financeira. É
por isso que estes activos têm que ser libertados depois de
valorizações significativamente reduzidas em termos de divisa
estrangeira ou têm que se escoar durante um período muito maior.
Quanto mais se reduzir o seu valor em termos de divisa estrangeira, mais
depressa podem ser eliminados os controlos.
As autoridades islandesas têm uma estratégia montada para eliminar
gradualmente os controlos de capitais, logo que as condições o
permitirem, sem minar indevidamente a taxa de câmbio e a estabilidade
financeira. A estratégia está actualmente a ser revista. É
claro que o processo será significativamente afectado pela forma como
for tratado o problema da coroa associado à liquidação dos
antigos bancos, visto que uma solução amigável pode
acelerar muito a eliminação dos controlos.
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