Sinais de derrota na aventura americana no Iraque

por John Catalinotto

Campanha anti-recrutamento. Esta semana as notícias vindas do Iraque foram mais do mesmo; e os sinais vindos desde Fort Monmouth, N.J. até Sydney, Austrália, desde o Pentágono até Roma, foram de que os povos do mundo, incluindo os alistados nas forças armadas dos EUA, estão fartos da ocupação.

Em 11 de Julho uma bomba matou 20 iraquianos no lado ocidental de Bagdad que esperavam obter um emprego no exército pró-ocupação. Os combatentes da Resistência mataram outros 10 soldados iraquianos no exterior de Baquba, num combate. Segundo o Graduate Institute of International Studies, com sede em Genebra, Suíça, cerca de 40 mil iraquianos foram mortos como resultado directo de combates ou de violência armada desde a invasão conduzida pelos EUA. As mortes militares na coligação de forças dirigida pelos EUA totalizaram 1.937 em 11 de Julho. ( The Age, 13 de Julho)

No sul do Iraque, o grupo de Muqtada al-Sadr começou uma campanha entre os seus seguidores xiitas para colectar 1 milhão de assinaturas exigindo que as tropas de ocupação deixem o Iraque. As indicações anteriores eram de que este movimento teria êxito. Enquanto isso, operações armadas de resistência nas principais áreas sunitas e em Bagdad atingiram um pico de 700 em Maio, com uma contagem semelhante previsível para Junho.

Com os grupos sunitas e xiitas a trabalharem para acabar com a ocupação, uma nova espécie de batalha era relatada a partir do Iraque. Era entre tropas de ocupação americanas — Marines, neste caso, e tropas de mercenários contratados pelos EUA, os "contractors". Dezasseis empregados da Zapata Engineering, uma firma de segurança que obteve grandes contratos do governo americano, foram presos pelos U.S. Marines e acusados de dispararem sobre civis e sobre os Marines em Faluja.

RUMO AO COLAPSO?

Os sinais vindos de fora do Iraque apontam mesmo para um potencial colapso da agressiva aventura do imperialismo americano. George W. Bush e Tony Blair da Grã-Bretanha continuam a proclamar que a única coisa que derrotaria a resolução dos EUA-GB para "permanecer na rota" no Iraque seria a perda de vontade interna. A sua declaração tem um toque profético.

Em 6 de Julho notícias de jornais relatavam que altos oficiais do Pentágono pensavam abandonar a estratégia americana de ser "capaz de combater duas guerras ao mesmo tempo". Esta mudança de atitude foi imposta sobre eles pela resistência iraquiana, a qual está a mostrar que o U.S. Army não pode vencer nem mesmo uma guerra contra uma guerrilha apoiada pela população, mesmo sob as difíceis condições que existem para os iraquianos.

A isto seguiu-se um anúncio do primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, de que começaria a retirar 300 homens do contingente italiano da "coligação das vontades" a partir de Setembro. A população italiana opôs-se à participação do governo na guerra do Iraque e este magnata dos media de extrema-direita, que enfrenta uma árdua batalha pela reeleição, está dilacerado entre a sua fidelidade da Bush e o seu desejo de permanecer no gabinete.

PORMENORES DO 'MEMORANDO SECRETO' REVELADO

Em 10 de Julho o Washington Post publicou um artigo sobre um "memorando secreto escrito para o primeiro-ministro britânico Tony Blair pelo secretário da Defesa John Reid", o qual pormenoriza planos americanos e britânicos para retirar a maior parte das suas tropas do Iraque dentro de um ano. "O documento, o qual está marcado com 'Secreto — Só para olhos britânicos', diz que planos americanos que estão a emergir assumem que 14 das 18 províncias poderiam entregues ao controle iraquiano no princípio de 2006, permitindo uma redução geral das forças dirigidas pelos EUA no Iraque para 66 mil soldados".

O Pentágono não confirmou nem mesmo que tais planos existiam, muito menos que esta é a política que fora decidida. Mas quem quer que seja que tenha deixado escapar esta estória estava a dar um outro sinal de que alguns elementos entre os círculos governantes americanos-britânicos podem pensar que "permanecer na rota" não seria uma ideia tão boa assim e que dentro em breve pode haver uma luta aguda acerca da política a ser seguida.

Naquele mesmo dia o New York Times emitiu outro sinal de socorro com um editorial a sugerir o plano do próprio Times sobre que estratégia o Pentágono deveria seguir nos próximos quatro anos. O Times quer que o Pentágono cancele dois esquadrões de voo da Força Aérea e um grupo de transporte de Armada, corte alguns desenvolvimentos de alta tecnologia e utilize o dinheiro poupado para recrutar mais 100 mil soldados para o exército activo. O Times receia que os planos do secretário da Defesa Donald Rumsfeld sejam completamente diferentes.

Segundo o Times, "os recrutas deveriam ser atraídos pela permissão aos alistados para cumprirem toda a sua obrigação de serviço ao longo de quatro anos de dever activo e acabando com as restrições sem sentido e ofensiva em relação a pessoas abertamente gay a servirem na instituição militar e com a actuação de mulheres em combate". O Times, por outras palavras, está a oferecer à juventude da classe operária, e especialmente às mulheres e aos gays, igual oportunidade para matar e serem mortos pelos combatentes da resistência iraquiana, algo que o Exército já oferece às pessoas de cor.

RESISTÊNCIA ANTI-GUERRA NO TERRENO

Enquanto é óbvio que o plano de Rumsfeld para uma guerra rápida e mecanizada afundou-se nas areias do Iraque, o plano do Times deixa de levar em conta a crescente resistência não só da juventude da classe trabalhadora americana como também a dos seus pais, em tudo o que tenha a ver com as Forças Armadas americanas.

Neste mês de Julho o Pentágono tentou dar uma volta favorável no seu desastre do recrutamento. De Janeiro a Maio os generais estabeleceram quotas de cerca de 8000 por mês e recrutaram apenas cerca de 6000 por mês. Num golpe de génio de relações públicas, eles estabeleceram a quota de Junho em 5600, recrutaram 6100, e chamaram a isto um êxito retumbante. É difícil dizer a quem eles estavam a enganar. Por outro lado, a quota da Army National Guard era de 5032 novos recrutas em Junho, mas ela alistou apenas 4337.

Outro sinal da frente interna chegado ao Workers World veio de Al Strasburge, em Fort Monmouth, N.J. Entre 10 e 20 activistas locais anti-guerra têm estado a manter uma vigília junto ao portão principal do forte todos os sábados desde que Bush explorou o ataque de 11/Setembro/2001 para declarar a guerra sem fim.

As palavras-de-ordem eram "EUA fora do Médio Oriente", "Israel fora da Palestina", "Trazer as tropas para casa já" e "Não sangue por petróleo". "Os nossos sinais de buzina têm sido particularmente efectivos nos últimos meses, uma a vasta maioria das respostas a serem favoráveis para nos", escreve Strasburger. "Na verdade, temos visto a resposta do público evoluir de insultos vis e patrióticos em 2001 para a situação actual de óbvia apreciação dos nossos piquetes".

MARINHEIROS AMERICANOS CONFRATERNIZAM COM ACTIVISTAS DA PAZ

O sinal mais forte veio de Sydney, Austrália, com um dos primeiros exemplos de confraternização generalizada entre o movimento anti-guerra e marinheiros americanos. Três grandes vasos de guerra americanos estavam no porto: o porta-aviões USS Kitty Hawk e os destroyers com mísseis guiados USS John Paul Jones e USS Cowpens, com um total de cerca de 6000 oficiais e marinheiros.

Em 7 de Julho, quando "um pequeno grupo de activistas da paz efectuou uma vigília à luz de velas junto aos portões principais da base naval através dos quais passava todo o pessoal de serviço e visto totalmente da ponte do Kitty Hawk, acendemos velas a desenharem o símbolo da paz", escreve James Courtney do Greenpeace da Austrália.

"A resposta foi emocionante e inspiradora. Tivemos o pessoal da base naval a ajudar a acender as velhas e a tirar fotos. Muitas palavras de agradecimentos das tripulações dos navios, alguns com lágrimas nos olhos. Não tivemos senão sentimentos positivos da tripulação dos navios que falou connosco. Conseguimos distribuir cerca de 200 exemplares do Traveling Soldier", um jornal de GIs anti-guerra com sede nos EUA ( www.traveling-soldier.org ).

Os manifestantes montaram um projector de dados e de som e exibiram o documentário de David Zeiger sobre a resistência dos GI na Guerra do Vietnam, "Sir! No Sir!", sobre o lado de um contentor do navio junto ao Kitty Hawk. "Estimamos que pelo menos 700 pessoas viram algo do filme", escreve Courtney, e "cerca de 200 ou mais viram-no durante 10-15 minutos".

"Sentimo-nos comovidos com o empenho dos homens e mulheres jovens que encontramos. Havia uma linha que ouvimos de muitos dele: 'Por vezes sinto que estamos a combater pela razão errada'".

12/Julho/2005

O original encontra-se em http://www.workers.org/2005/world/iraq-0721/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
14/Jul/05