Bagdade e as "info guerras" (II)
por Malcom Lagauche
Na
primeira parte desta entrevista
, o Capitão Eric May, um antigo
oficial do Exército dos EUA, deu-nos uma visão daquilo que ele
considera ser um dos mais manhosos encobrimentos de todos os tempos: a Batalha
de Bagdade, principalmente a batalha pelo aeroporto. Também referiu que
estamos, neste momento, num processo de condução de uma
"info guerra", que irá eventualmente alterar o modo como os
principais meios de comunicação podem ser manipulados, pelo
governo dos EUA. O artigo de hoje entra em mais detalhe sobre os pontos focados
pelo Capitão May, na primeira parte da entrevista.
ML: Explique detalhadamente, por favor, aquilo que entende por "info
guerra" e em que tipo de campo de batalha irá ela ser travada.
CM: É óbvio que estamos numa "info guerra". Quando
Eisenhower avisou sobre o complexo militar/industrial, podia ter dito, em
termos orwellianos, o complexo militar/industrial/media.
As "info guerras" são produzidas por coisas como a
manipulação da captura de Saddam. Lembro-me de várias
companhias de comunicação resmungarem, porque a história
contada pela administração dos EUA estava a cair por terra.
Em todas as histórias que discutimos, a informação foi
manipulada. Se ouvirem o Rumsfeld, ele diz sempre, "Nós precisamos
vencer a guerra da propaganda e também a guerra informativa".
Guerra informativa não é mais do que "info guerra". No
entanto, ninguém quer admitir que está a decorrer uma "info
guerra", pois desse modo, torna-se claro que temos aqui uma
situação de deslealdade.
ML: Como é que pode ser encoberto o número de baixas dos EUA, na
Batalha de Bagdade? Como é que poderiam fazer desaparecer quatro ou
cinco centenas de soldados?
CM: Esse constituiu o primeiro nível da minha investigação
sobre a Batalha de Bagdade. Depois de assistir à CNN a 4 de Abril de
2003, eu passei um par de semanas a fazer análise televisiva. Depois,
decidi que iria a Fort Stewart, na Georgia, onde é a base da Terceira de
Infantaria e do 3/7 de Cavalaria.
Quando lá cheguei, confirmei imediatamente a existência da Batalha
de Bagdade, com o capelão, que também me disse que a
Constituição está no tanque de guerra. Estavam a encobrir
o que queriam. Controlam o que as pessoas sentem, vêm e fazem.
Apercebi-me também que decorria um encobrimento na base militar. No
final do Verão, soube-se que as viúvas estavam a sentir-se
incomodadas e foram-lhes dados cocktails de fármacos
psicotrópicos. Havia um bloqueio às notícias. Quando eles
(Terceira Divisão de Infantaria) finalmente voltaram, vieram numa
espécie de comboio da meia-noite.
Havia muitos mais feridos do que os que o hospital conseguia acomodar. Dormiam
em campo aberto. A razão para isso, acredito eu, era manter todos os que
tinham estado na Batalha de Bagdade, no mesmo quartel, para conseguirem
controlar toda a informação.
Entre os sobreviventes e seus próximos, havia uma tentativa de
forçar o silêncio. Eu costumo dizer que foram amordaçados e
drogados.
Em Janeiro de 2004, consegui que uma jornalista "freelance", vinda de
Nova Iorque, me viesse ajudar a completar a história. Ela descobriu que
houve cerca de 100 visitas "pela porta das traseiras", o que
significa que o oficial responsável por comunicar as baixas, aparecia e
informava a viúva do que tinha acontecido. Estavam a pegar nas mulheres
e tirá-las da cidade, a partir do quartel.
Calculou que houvessem cerca de 100 viúvas de guerra: É sabido
que um em cada três soldados, é casado. Isso batia certo com o que
eu imaginava: entre 300 e 500 mortos em combate. Pouco tempo depois de ela
começar a investigação, foi ameaçada de morte.
Talvez tenhamos 500 baixas. Parece uma enorme quantidade. O que acontece
é que temos 500 caixões a irem para 500 diferentes
estações de comboio, em 500 diferentes cidades e pequenas vilas.
Ninguém envia um cartão a dizer que há mais 499. Quem
recebe um, sabe que tem um militar morto. Mas ninguém pensa que o seu
militar é apenas uma parte de uma grande batalha. É o elefante da
verdade. Cada pessoa tem uma sensação. Toda a gente recebe um
pedaço do elefante, sem perceber que é uma parte de um grande
animal.
Esconder a contagem de mortos não é nada difícil de fazer.
O que é preciso é não relatar que houve uma grande
batalha. Fizeram o mesmo na batalha de Fallujah, ambas foram encobertas.
É fácil de perceber o que aconteceu em Fallujah. O mesmo que na
Batalha de Bagdade. O que disseram às pessoas não teve nada a ver
com a carnificina que estava a acontecer. Pararam a contagem de mortos dos EUA.
Não é possível ter combates urbanos, rua-a-rua, e ter
apenas dois mortos por dia. As coisas não se passam assim. Houve grandes
operações militares em Fallujah.
ML: Se George Bush declarou a vitória a 1 de Maio de 2003, porque
é que ainda há combates em Bagdade?
CM: Uma coisa que temos de perceber é que está a decorrer, neste
momento, uma Batalha de Bagdade. Está a ser encoberta. Está
escondida por baixo da história maior, que é a guerra israelense
no Líbano.
Como um exemplo do que acontece quando se transmite propaganda em vez da
história, a verdade perde-se. Disseram ao público americano que
tínhamos conquistado Bagdade de uma forma mais fácil do que
realmente tinha acontecido, como se fosse uma simples caminhada, mas na
realidade não foi. Agora o público americano foi enganado.
É como um truque de magia: quando seguimos o mágico, ficamos
perdidos. O mágico tem controlo sobre nós. Os media são um
truque de magia. Aquela televisão é uma caixa, e a artimanha que
sai dela, diz-nos que estamos a reforçar as tropas em redor de Bagdade,
de forma a reconquistarmos a cidade. A gritante questão deveria ser,
"Que diabo! Quer dizer que perdemos Bagdade?". Temos estado a perder
Bagdade desde que lá chegamos.
ML: Falou com algum iraquiano, participante na Batalha de Bagdade?
CM: Um par de jornalistas que esteve em Bagdade falou devidamente com pessoas
que regressavam da batalha. A coisa mais extrema que ouvi foi que a Batalha de
Bagdade começou no aeroporto, com as forças dos EUA e serem
esmagadas. Terá sido uma troca de fogo de seis horas, a curta
distância, e a minha ideia é que o nosso lado começou a
ficar sem munições e alguém decidiu passar ao nuclear.
Isto parece ser universalmente aceite por toda a gente, excepto pelos
americanos.
Evidentemente, o que se passou foi que os militares dos EUA se abrigaram nas
suas protecções, que impedem a transmissão de
radiação, e foi usado algum tipo de armamento nuclear no
aeroporto de Bagdade. Desde aí, a doutrina norte-americana em termos de
batalhas, foi revista, para permitir aos comandantes fazer exactamente aquele
tipo de coisas, que eu tenho deduzido a partir das minhas fontes, terem sido
feitas no aeroporto de Bagdade. Por outras palavras, reajustaram
retroactivamente a sua doutrina.
De qualquer forma, a questão nuclear é uma coisa bastante
peculiar, nesta guerra. Já passamos a usar o urânio empobrecido.
Isso, de algum modo, torna esta, uma guerra nuclear. Claro que se percebe
porque é que a Batalha de Bagdade tinha de ser encoberta. Como é
que se vai para uma guerra a dizer que vamos remover um perigoso louco, porque
ele tem armas de destruição em massa, e nós
próprios as levamos?
ML: Na sua opinião, os EUA fizeram algo de positivo ao derrubar Saddam
Hussein e o seu governo?
CM: Se se lembra do primeiro ano da guerra, os comentadores diziam aos que eram
contra, "Afinal, o que está a dizer? Está a querer dizer que
eles estariam melhor se o Saddam estivesse no poder?". Isso era algo que
calava qualquer um, porque um ano depois, ainda toda a gente acreditava no mito
de que nós libertámos os iraquianos. Neste momento, a
razão por que já não perguntam isso, é que
já ficou bem transparente a qualquer um, excepto a um clone Republicano,
que eles estavam muito melhor quando o Saddam estava no poder.
ML: Pensa que, algum dia, a verdade chegará aos media de
referência, sobre a Batalha de Bagdade?
CM: Os media de referência parecem ser irrelevantes. Condenaram-se a si
mesmos. Fazem parte de um pacto Faustiano quando se colocam por trás de
uma guerra que é sobre petróleo e Israel. Eles concordaram
tornar-se agentes infiltrados. O que pode ser mais vergonhoso do que um
infiltrado? Não são media que forneçam
informação relevante. São uma operação de
propaganda que fornece racionalização.
É isto que nos leva ao termo "info guerra". Agora, a
informação relevante e importante vem daquilo a que
poderíamos chamar, "media clandestinos". Chamem-lhes media
alternativos ou o que quiserem. O que significa é que dois rapazes, como
eu e tu, que ambos temos capacidade para estar em qualquer um dos programas
televisivos, a falar do que estamos a falar, não podemos ir à
televisão deles, por isso, fazemo-lo através deste meio
alternativo. As melhores entrevistas que se podem fazer estão
disponíveis fora do sistema dos grandes meios de
comunicação. O talento mostrado, pelas pessoas que não
estão ligadas a esse sistema, para fazerem um trabalho de qualidade,
indica que o sistema irá inevitavelmente falir.
Eu comparo com a hierarquia católica, depois da criação da
máquina de impressão. A Internet, para nós, tornou-se na
nossa máquina de impressão da "info guerra". A
informação não pode ser totalmente controlada. Se tu
dizes. "Eu sou o guardião e vou fechar esta grande porta", a
Internet faz com que a informação deslize pelas suas frinchas.
Aquilo a que chamamos media, eu chamo colaboracionistas. Todos os
colaboracionistas, ao longo da história, tiveram a mesma sorte. Eles
perderam toda a reputação e dignidade, depois da vitória
do lado certo.
Só nessa altura, quando os media forem expostos, é que a
verdadeira história do Iraque será escrita. Estás a
escrever uma agora. Eventualmente, surgirá o reconhecimento da Batalha
de Bagdade e da Batalha de Fallujah. Estes assuntos estão a ser abafados
neste momento, porque a muito frágil "Liga Bush" ainda tem
controlo sobre os igualmente frágeis, media infiltrados. Isso não
pode durar muito.
24/Agosto/2006
O original encontra-se em
http://www.uruknet.info/?p=m26054&hd=0&size=1&l=e
Tradução de AL.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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