Bagdade e as "info guerras" (I)
por Malcom Lagauche
Tem havido sempre algumas coisas que vão acontecendo na actual guerra
dos EUA contra o Iraque que me deixam com a sensação de
não ter aprofundado totalmente certos incidentes. Muitas vezes, a
pesquisa fornece respostas, mas algumas coisas sobressaem como questões
por resolver.
Uma destas dúvidas foi a tomada do Aeroporto Internacional Saddam (mais
tarde chamado pelos EUA de Aeroporto Internacional de Bagdade), no
início de Abril de 2003. Leio a maioria das notícias da imprensa
de referência de vários países. A maioria disse que o
aeroporto foi facilmente dominado e com poucas baixas norte-americanas.
No entanto, havia falhas nos relatos, bem como declarações
contraditórias. Inicialmente, a maioria das agências de
informação ou publicações relataram duros
confrontos à chegada das tropas dos EUA ao aeroporto. Depois fez-se
silêncio. Cerca de quatro dias depois, ouvimos falar na tomada do
aeroporto pelos EUA. Mas, foi assim tão fácil como disse a
imprensa?
Agências da Rússia divulgaram reportagens de violentos embates nos
quais teriam morrido muitos soldados dos EUA. Algumas agências
árabes falavam de uma batalha sangrenta com pesadas baixas de ambos os
lados. Estes relatos eram totalmente contrários aos que vinham dos
Estados Unidos e da Grã-Bretanha.
Para mim, foi fácil acreditar que as pessoas tinham sido iludidas, mas a
experiência em jornalismo ensinou-me a ser prudente em
relação a alguma informação que pareça
estranha e tentar investigar antes de fazer um julgamento. Todos nós
vimos as alegações absurdas feitas nalguns sítios da
Internet, por pessoas que se opunham, e outras que apoiavam a invasão
ilegal do Iraque em Março de 2003: Saddam estava por trás dos
ataques de 11 de Setembro; Saddam e a CIA planearam a invasão do Iraque;
a Bíblia previa a invasão, etc.
Em 1991, ouvi uma gravação de uma batalha na qual os EUA tinham
perdido milhares de militares. Era grande o barulho de fundo, com disparos e
explosões. O narrador (supostamente no local) falava em árabe e
dizia que os americanos caíam como moscas. Esta gravação
foi largamente distribuída depois do cessar-fogo da Guerra do Golfo em
1991. Supostamente, mostrava que os meios de comunicação
não tinham relatado as dezenas de milhares de mortos norte-americanos.
Era uma fraude, realizada por um cidadão da Arábia Saudita.
Mais tarde, uma enfermeira dos EUA que costumava visitar o Iraque com ursos de
peluche para as crianças, durante o embargo, falou de uma pequena ilha
no Pacífico, na qual teriam sido sepultados secretamente, 20 mil
soldados dos Estados Unidos, mortos na Guerra do Golfo. Ele repreendeu-me por
eu não saber isso. Mais uma vez, fraude.
Há umas semanas atrás, li um artigo escrito pelo Capitão
Eric May, um veterano com 14 anos de experiência no Exército dos
EUA. Ele alega que a Batalha de Bagdade, que começou no Aeroporto
Internacional de Bagdade, foi bastante mais devastadora, para as forças
dos EUA, do que aquilo que foi relatado. Fui a vários sítios na
Internet que publicavam as suas declarações e fiquei
impressionado. Ele não era nenhum teórico da
conspiração à procura de notoriedade. Para além
disso, ele tinha melhores conhecimentos do que muitos que escrevem sobre o
Iraque (incluindo eu próprio): forte especialista na área de
tácticas militares e informações militares secretas dos
EUA. Pareceu-me que valia a pena contactá-lo para uma entrevista. Nesse
mesmo dia, falamos durante mais de uma hora e eu vou publicar a nossa conversa,
em duas partes.
Antes de passarmos à entrevista, vou dar-vos uma pequena biografia do
Capitão May. Ele entrou no Exército dos EUA em 1977 e prestou
serviço durante 14 anos. Eventualmente, recebeu formação
avançada em espionagem e passou vários anos a decifrar mensagens,
principalmente da antiga União Soviética.
Em 1990, voltou à vida civil e ensinou línguas (latim, grego e
russo) na Escola Secundária Mt. Carmel, em Houston, onde uma vez foi
eleito professor do ano. Em 1995 mudou de carreira, tornando-se um escritor,
por conta própria, de discursos de executivos, para muitas empresas
proeminentes, tais como a Texaco, Compaq, Hill & Knowlton, etc. Ao mesmo tempo,
fez artigos para a KPRC-TV de Houston, uma subsidiária da
televisão NBC. Para além disso, escreveu para dois jornais
diários de Houston: o
Houston Post
e o
Houston Chronicle.
ML: Diga-nos, por favor, o que o levou a questionar a Batalha de Bagdade,
principalmente a batalha pelo aeroporto.
CM: Tinha acabado de dar uma aula de artes marciais na sexta-feira, 4 de Abril
de 2003, e regressei a casa. Isso seria a manhã de 5 de Abril, em
Bagdade. O que vi imediatamente na CNN, por volta das 9 da noite (TMG -6) foi
que Bagdade estava cercada. Tínhamos empenhado as forças
militares no cerco e em fazer com que sucumbisse, pouco a pouco, talvez
enviando a 101ª Aero-Transportada.
Depois, de repente, houve relatos de explosões e a CNN começou a
agir como se eles estivessem confusos e não estivessem a contar com
isto. Dado que eu já tinha sido um oficial de informações
e relações públicas, sabia muito bem que isso significava
um contacto não esperado. Rapidamente, passaram a dizer que havia
enormes explosões no aeroporto, e em pouco tempo passaram para o
incorporado Walter Rogers da CNN. Com ele a emitir a partir do Aeroporto de
Bagdade, podia ouvir-se artilharia a cair perto do seu veículo militar e
conseguia ouvir-se o som disparos de armas menores: um distinto ping, ping,
ping. Isso indicou-me que estavam debaixo de fogo.
Nessa altura ainda não tinha nascido o sol em Bagdade. Na alvorada, o
Tenente Coronel Terry Ferrel, comandante do Grupo de Cavalaria 3/7, apareceu na
televisão durante a cobertura nocturna da CNN, e desatou a chorar quando
tentava dizer que estava tudo bem no Aeroporto de Bagdade. Isso bastou-me para
perceber que a 3/7, uma unidade avançada, o esquadrão de
cavalaria que pertence à 3ª Divisão de Infantaria, a
divisão do Exército dos EUA que cercou Bagdade, se tinha
envolvido num combate cerrado, no Aeroporto de Bagdade. Foi o que me pareceu na
altura.
No dia seguinte, a CNN dizia que havia contradições substanciais
nos factos relatados por vários meios de comunicação. Os
media árabes contavam 200 mortos norte-americanos, no aeroporto. Fontes
russas diziam que havia dúzias de mortos e que tinha havido uma grande
batalha. Os media dos EUA estavam a contar que Jessica Lynch tinha sido
resgatada.
ML: Como explica que os media estrangeiros falem de uma batalha sangrenta e os
media dos EUA a não dizerem nada sobre o aeroporto e a focarem o resgate
de
Jessica Lynch
?
CM: Para mim, nesta altura, era um dado certo. A Batalha de Bagdade foi
essencialmente apagada desde 5 até 8 Abril. A 9 de Abril, tivemos o
derrube da estátua de Saddam, que representa um final eficaz da Batalha
de Bagdade. Mas, no fundo, foi um final para propaganda. O derrube foi um
acontecimento encenado e já ouvi dizer que os poucos iraquianos que
lá apareceram, nem iraquianos eram.
ML: Por que razão se interessou tanto sobre a Batalha de Bagdade?
CM: O encobrimento propagandístico da Batalha de Bagdade, a que chamamos
BOBCUP [sigla de Encobrimento da Batalha de Bagdade, em inglês], foi
tão obviamente contrário aos princípios da
informação dos EUA, que é o que temos seguido nas
operações do Departamento de Relações
Públicas da Defesa. Foi tão notoriamente fora do normal que foi
aí que eu me mobilizei, na minha missão de consciência,
porque basicamente me apercebi que estávamos sob uma ditadura. Omitir os
acontecimentos de uma batalha inteira e não os mencionar muito depois da
batalha ter terminado
claro que se pode dizer, "Bem, nós
não queríamos dizer aos iraquianos onde estavam as nossas
tropas", ou algo semelhante. Mas não se pode dizer o mesmo, meses e
meses e anos depois do acontecimento.
Bagdade foi o começo. Terminei uma carreira de sucesso, dentro e fora do
Exército e da reserva. O meu último serviço foi de oficial
de um general. Tenho andado por aí. Bagdade trouxe-me da
observação e análise desta guerra para a
participação naquilo que podemos chamar a "info
guerra". A guerra para obter informação real para as pessoas.
ML: Descreva, por favor, as condições que fazem uma "info
guerra".
CM: O que me pareceu evidente foi a vontade que eles têm em esconder
qualquer tipo de informação que não se encaixe no grande
plano. Parece que o sistema de governação que crescemos a
aprender nos livros os três sistemas que mantêm a
honestidade do governo se tornou, na realidade, um governo bipolar, em
que temos um executivo imperial nós chamamos-lhe o Rei George e a
Liga Bush que controla o país. Os media transcrevem tal como se
fossem um ministério da propaganda. As outras duas partes do
triângulo, os braços legislativo e judicial do governo, só
lá estão para disfarçar. Só permanecem lá
para parecer uma democracia, mas não é. (Nota: para os meus
leitores fora dos EUA, o termo "bush league" liga bush
representa nos EUA, uma entidade de classe inferior. O Capitão May usou
o termo com duplo sentido: Bush é o nome do presidente e encaixa bem na
"bush league". ML)
ML: Você, como outras pessoas que raciocinam, previu por escrito o
resultado da invasão. Desenvolva, por favor.
CM: Tenho publicado análises da guerra no jornal
Houston Chronicle,
desde 1992, prevendo este atoleiro. Em retrospectiva, agora que as coisas
chegaram onde chegaram, parece óbvio o que eu escrevi a 3 de Abril de
2003, quando nos aproximávamos de Bagdade. Escrevi no
Houston Chronicle
que esta se iria chamar "Guerra das Areias Movediças". Iria
transformar-se em areia movediça. Agora, isso parece claramente
óbvio. Mas lembro-me de quando submeti o texto ao meu editor, ele se ter
rido e dizer que eu ia arruinar a minha reputação, porque o
Exército dos EUA ia chegar a Bagdade no dia seguinte e provar que eu
estava enganado.
Como tantas outras pessoas que nunca vestiram o uniforme, ele pensou que assim
que se chega e se conquista a capital dos outros, automaticamente eles
desistem. Mas para alguém que tinha estado no exército até
essa altura, em três diferentes décadas e que estudou a arte da
guerra durante três décadas, a ideia de que a guerra termina
quando se domina a capital
Eu li Napoleão. Também li o que
as pessoas diziam a caminho de Moscovo.
ML: Qual é a sua opinião sobre a resistência iraquiana
nessa altura? Poucas pessoas sabiam que estava organizada antes da
invasão dos EUA.
CM: Quando aprofundámos o encobrimento da Batalha de Bagdade,
verificámos que era só uma parte do que estava a ser escondido.
Eu estava a receber relatos da resistência iraquiana de que estavam a
preparar um movimento de resistência e apercebi-me disso enquanto
decorria a Batalha de Bagdade. Grupos como os Fedayeen de Saddam estavam
envolvidos, não apenas os militares iraquianos.
Ensinar populações indígenas a fazerem uma guerra de
guerrilha é como dizer que é preciso ensinar os adolescentes que
têm um encontro íntimo a dois, como fazer sexo. Inevitavelmente,
eles vão descobrir como o fazer, se os deixarem a sós. Sempre que
se começa uma guerra de guerrilha, que nos envolvemos num ataque e
domínio de um país, o trabalho mais brilhante dessa campanha vai
ser feito pelas pessoas que estão a tentar vingar-se do ataque inicial.
A resistência estava planeada e, de acordo com a minha pesquisa, eles
estavam a publicar um jornal clandestino já na altura da Batalha de
Bagdade. Encobrir uma batalha e esconder a realidade militar são apenas
vantagens temporárias, mas trazem problemas a longo prazo. A
administração mostrou-se empenhada em dizer que tinha tido uma
guerra bem sucedida, com resultados conclusivos. Como resultado disso, todo o
paradigma estava distorcido. Em conjunto com a política errada no campo
militar. Quando se negam bastantes realidades militares, está-se a
tramar os seus militares.
Tenho ligações a Camp Casey. O filho de Cindy Sheehan, Casey, foi
morto a 4 de Abril de 2004. Aqui está a ironia. Ele foi morto no
primeiro aniversário da Batalha de Bagdade. Vamos fingir que acabamos de
sair da escola de Oficiais. No aniversário de uma grande batalha, onde
os iraquianos se empenharam bastante e deram grande luta, não seria de
esperar que aumentasse o perigo de ataques recorrentes nessa altura?
Esses rapazes que foram desperdiçados, como o Casey, no primeiro dia no
Iraque, acabados de sair do autocarro, foram enviados para uma cidade que
fervilhava com sentimentos renovados de nacionalismo porque era o primeiro
aniversário da batalha que os EUA encobriram, e esses rapazes não
sabiam. Os seus oficiais não sabiam. Os seus comandantes não
sabiam. Não lhes foi permitido saberem que era o primeiro
aniversário da Batalha de Bagdade, de Abril de 2003.
Na segunda parte, o Capitão May entra em mais detalhes sobre a Batalha
de Bagdade, bem como sobre a censura dos meios de comunicação)
20/Agosto/2006
O original encontra-se em
http://www.uruknet.info/?p=25921
. Tradução de AL.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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