Mais do que para a eleição,
os iraquianos preparam-se para a guerra

por Robert Fisk

BAGDAD, 29/Jan — Supunha-se que neste sábado, aqui em Bagdad, estivessem todos a preparar-se para uma eleição. Mas estavam a preparar-se para a guerra.

Veículos blindados Bradley circulavam pelas ruas, assim como patrulhas a pé e velhos veículos russos de transporte que Saddam Hussein comprara à União Soviética, agora disfarçados com a pintura opaca de camuflagem que distingue o novo exército iraquiano, levando os seus polícias encapuçados.

Tudo isto não parece o prelúdio de um experimento de democracia. Estão à espera dos rios de sangue de que advertiram os insurgentes. Mas haverá democracia no Iraque.

Choveram morteiros esta manhã na Zona Verde, onde estão as embaixadas estadunidense e britânica. Com ruído estrepitoso, em menos de 30 segundos chegaram os helicópteros Apache para sobrevoar todos os caminhos vizinhos, mas os rebeldes haviam desaparecido.

A seguir desencadeou-se um feroz tiroteio no centro de Bagdad entre estadunidenses e insurgentes. Também aqui chegaram demasiado tarde e os homens armados escaparam.

ELEIÇÕES DE FANTASIA

Ataques de fantasia antes de eleições de fantasia. Muitos não sabem os nomes dos candidatos, para não dizer as suas políticas. Mas haverá democracia no Iraque.

Espera-se que os rapazes dos media participem no jogo. "Transição no poder", diz o logotipo que aparece na cobertura ao vivo das eleições feita pela CNN, apesar de serem para eleger um Parlamento que redigirá uma Constituição. Seja quem for que tenha maioria nesse corpo, não terá poder algum.

Não terão controle sobre o seu petróleo nem autoridade nas ruas de Bagdad, para não dizer no resto do país. Não disporão de um exército operacional nem de uma polícia leal. O único poder real que existe é detido pelo exército estadunidense e os seus 150 mil soldados, os quais estavam hoje nos principais cruzamentos de Bagdad.

As grandes cadeia de televisão receberão uma lista de cinco colégios eleitorais onde lhe será "permitido" filmar. Uma análise minuciosa da lista mostra que quatro dos cinco colégios encontram-se em zonas de população xiita, onde seguramente a participação será elevada. O quinto centro eleitoral está numa zona sunita da classe alta, e a participação será moderada.

Todas as urnas localizadas em zonas sunitas da classe trabalhadora estarão vedadas à imprensa. Pergunto-me se os rapazes da televisão nos contarão isto quando, no domingo, mostrarem os eleitores a chegarem às urnas "em bandos".

Neste sábado, no distrito de Karada, havia três camiões cheios de jovens que agitavam bandeiras iraquianas; todo eles a soldo de Bagdad para "promover" a eleição, tal como os desempregados que estiveram a colar cartazes nas paredes. Isto foi filmado por um operador de câmara da televisão estatal iraquiana, controlada pelo governo "interino" de Iyad Allawi.

A verdadeira "nota" encontra-se fora de Bagdad, e verifica-se nas dezenas de milhares de quilómetros quadrados que estão fora do controle governamental e do campo visual dos jornalistas independentes, sobretudo nas quatro províncias sunitas onde está o coração da insurreição iraquiana.

Até a hora da abertura das urnas, os jactos estadunidenses continuarão a bombardear "posições terroristas". Os mais recentes destes ataques foram contra a cidade de Ramadi, a qual — ainda que George W. Bush e Tony Blair não o admitam — está em poder dos insurgentes, tal como esteve Faluja antes de os soldados estadunidenses a destruírem.

BOMBARDEAMENTOS

Os bombardeamentos aéreos estadunidenses aumentaram mês a mês desde que Allawi, ex-agente da CIA, foi nomeado por Bush como primeiro-ministro interino. Não há repórters "embebidos" na gigantesca base aérea dos Estados Unidos em Qatar ou a bordo dos porta-aviões estadunidenses posicionados no Pérsico, a partir dos quais lançam-se esta missões cada vez mais numerosas e mortais.

Elas são executadas sem que ninguém as noticie ou as registe nos media; são parte da guerra de "fantasia" que é muito real para as vítimas, mas que se mantem oculta para nós, os jornalistas que se escondem, acovardados, em Bagdad.

A realidade é que boa parte do Iraque converteu-se numa zona de fogo livre — para mais referências, veja-se o caso do Vietnam — e os estadunidenses estão a executar uma guerra secreta de maneira tão eficiente e desapiedada como o foi a sua anterior campanha de bombardeamentos contra o Iraque, em 1991 e 2003: com um ataque aéreo por dia, ou dois, ou três.

Diziam então atacar as "posições militares" de Saddam no Iraque. Agora, as "posições de terroristas estrangeiros" ou as "forças anti-iraquianas". Esta última agrada-me especialmente pois os estrangeiros envolvidos nesta violência são, na realidade, estadunidenses que atacam, sobretudo, iraquianos.

Isto não acontece apenas nas áreas sunitas. Só este mês, por exemplo, um avião estadunidense disparou mísseis contra um dormitório de estudantes da Universidade de Erbil, na zona curda, no norte do país.

Entre os curdos feridos está um sobrevivente do ataque com gás venenoso que Saddam lançou sobre Halajba, e que foi uma das razões porque Bush e Blair supostamente invadiram este lugar infeliz. Os estadunidenses não deram explicação.

Por que decidiram bombardear os curdos? Para avisá-los de que não se lhes dará a independência? Ou, antes, para que deixem de reclamar a cidade de Mossul, que o "novo" Iraque quer conservar como parte do seu território nacional e não entregá-la a um futuro "Curdistão"?

Sim. Já sei como se manobrará tudo. Os iraquianos comparecerão valentemente para votar apesar das assombrosas ameaças dos inimigos da democracia. No fim, as políticas estadunidenses e britânicas chegarão ao final feliz com a instauração de uma democracia funcional para que possamos ir embora logo. No próximo ano. Ou na próxima década, talvez. O simples facto de celebrar eleições — insensatez, na opinião de muitos iraquianos — será um "êxito".

Os xiitas votarão maciçamente, o sunitas abster-se-ão na maioria. O poder xiita tomará posse pela primeira vez num país árabe. A seguir começará a manipulação, com acusações de fraude e admissões de que as eleições poderão ter sido "imperfeitas" em algumas zonas.

Mas continuaremos a falar de "democracia" e "liberdade" cada vez mais, a insurgência continuará a crescer e a tornar-se mais violenta, e os iraquianos continuarão a morrer. Mas haverá democracia no Iraque.

© The Independent
O original em castelhano encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2005/ene05/050130/026n1mun.php .

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

30/Jan/05