O Iraque é o polo da cultura árabe
Considero muito preocupante que não seja concedida (nos EUA) qualquer
atenção ao facto de o Iraque ser o núcleo cultural central
de todo o mundo árabe e, na realidade, da civilização
muçulmana. Existe no Iraque uma civilização que, sem
ruptura de continuidade ao longo de milénios remonta até à
Suméria, à Assíria e à Babilónia. Mas tudo
isso é hoje reduzido a uma identificação do pais com
Sodom
(assim pronuncia Bush o nome de Sadam) como você referiu. Não
esqueçamos que o Iraque foi a sede do Califado Abássida,
representando o apogeu da civilização árabe. O
país continua hoje a ser de uma importância vital para a cultura
árabe. Diz-se que os egípcios escrevem, os libaneses publicam e
os iraquianos lêem. Bagdad é sem duvida a capital
artística do mundo árabe e, entre todos os países
árabes, o Iraque é o melhor dotado no tocante a recursos naturais
e humanos. Possui água e petróleo em abundância. Tem uma
classe média evoluída e profissionalmente competente, afectada
gravemente pelas sanções. Não se conhecem minimamente as
grandes figuras da cultura iraquiana os grandes escritores, artistas,
pintores, escultores e cientistas. O que é mais uma prova do abismo que
separa o mundo árabe e islâmico, por um lado, e o Ocidente, por
outro.
Alem disso, foi no Iraque que a invenção da escrita ocorreu e
esse facto está bem presente na consciência de todos os
árabes.
[*]
Extraído da entrevista a David Barsamian, concedida a 25 de Fevereiro
de 2003 pelo professor palestiniano Edward Said, publicada em «Cultura e
Resistência» pela Ed.
Campo das Letras
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