O Iraque é o polo da cultura árabe

por Edward Said [*]

Universidade de Bagdad, uma das mais antigas do mundo. Considero muito preocupante que não seja concedida (nos EUA) qualquer atenção ao facto de o Iraque ser o núcleo cultural central de todo o mundo árabe e, na realidade, da civilização muçulmana. Existe no Iraque uma civilização que, sem ruptura de continuidade ao longo de milénios remonta até à Suméria, à Assíria e à Babilónia. Mas tudo isso é hoje reduzido a uma identificação do pais com Sodom (assim pronuncia Bush o nome de Sadam) como você referiu. Não esqueçamos que o Iraque foi a sede do Califado Abássida, representando o apogeu da civilização árabe. O país continua hoje a ser de uma importância vital para a cultura árabe. Diz-se que os egípcios escrevem, os libaneses publicam e os iraquianos lêem. Bagdad é sem duvida a capital artística do mundo árabe e, entre todos os países árabes, o Iraque é o melhor dotado no tocante a recursos naturais e humanos. Possui água e petróleo em abundância. Tem uma classe média evoluída e profissionalmente competente, afectada gravemente pelas sanções. Não se conhecem minimamente as grandes figuras da cultura iraquiana – os grandes escritores, artistas, pintores, escultores e cientistas. O que é mais uma prova do abismo que separa o mundo árabe e islâmico, por um lado, e o Ocidente, por outro.

Alem disso, foi no Iraque que a invenção da escrita ocorreu e esse facto está bem presente na consciência de todos os árabes.

[*] Extraído da entrevista a David Barsamian, concedida a 25 de Fevereiro de 2003 pelo professor palestiniano Edward Said, publicada em «Cultura e Resistência» pela Ed. Campo das Letras .

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26/Nov/04