Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque
Segunda Audiência, em Lisboa aos 18 de Abril de 2008
Acusação formulada pelo Dr. Eduardo Maia Costa, magistrado
1.
Desencadeada há cinco anos com fundamento geral na luta contra o
terrorismo e mais concretamente com fundamento na posse pelo Iraque de armas de
destruição maciça, a agressão norte-americana
contra este País, secundada pelo fiel aliado inglês e por alguns
outros que entretanto foram desertando, afundou-se completamente no terreno e
também no plano das justificações e das estratégias.
Desmentida a existência
das ditas armas, passou-se a justificar a agressão com a
"libertação" e "democratização"
do Iraque e posteriormente anunciou-se a estratégia, dita
"ambiciosa", de fazer do Iraque o ponto de irradiação
da "democracia" em toda a região. E, de uma forma geral,
passou-se a justificar a eternização da ocupação
com a necessidade de combater o terrorismo.
A permanente expansão da
resistência popular no Iraque inviabilizou os projectos
"pacificadores" dos ocupantes. As instituições criadas,
as eleições realizadas e o poder instalado não têm
legitimidade nem credibilidade junto da população. O caos tomou
conta do país.
O governo instalado, que sobrevive devido exclusivamente à
protecção do ocupante norte-americano, segue uma política
sectária, vingativa, que aumenta as divisões e as tensões
internas, de que é exemplo flagrante a execução de Saddam
Hussein e outros dirigentes do seu regime em condições
degradantes e indignas.
Os objectivos dos invasores
são cada vez mais incertos e problemáticos. Tanto reconhecem que
não estão a ganhar a guerra, forma eufemística de
reconhecer que a estão de facto a perder, como dizem que há
"progressos" na "pacificação do Iraque. Mas logo
acrescentam que esses progressos são lentos e que a retirada é
impossível nos próximos anos.
A força da resistência popular baralhou todos os planos e impede a
definição de objectivos claros, ainda que a curto prazo. Mas
tentam, num último esforço, não perder tudo, preparando a
retirada a prazo, ao mesmo tempo que vão organizando a partilha/saque do
petróleo.
Mas terão forças e tempo para o fazer? Irá o povo
iraquiano consenti-lo? Irá a opinião pública mundial ficar
calada?
2.
Na "guerra contra o terrorismo" e na agressão ao Iraque todos
os
meios têm sido utilizados pelos EUA e seus mais estreitos aliados.
A violação do direito internacional tornou-se uma prática
normal. Os EUA não aceitam qualquer lei que esteja acima dos seus
interesses e dos seus objectivos. A invocação de um direito de
"guerra preventiva", onde, quando e como for entendido
necessário pela Casa Branca, sem qualquer
"autorização" da ONU e contra o sentimento da
comunidade internacional, passou a ser a linha-mestra da política
internacional americana. Uma guerra por vezes conduzida directamente, como no
caso do Iraque, outras vezes delegada na NATO, como acontece actualmente no
Afeganistão, acompanhada sempre por ameaças mais ou menos veladas
de ataques a outros países, como o Irão e a Síria. Ou
ainda contando com a acção fora-da-lei de Israel para tentar
abater as resistências do mundo árabe, como foi o caso do ataque
ao Líbano em 2006 e como é o permanente massacre exercido contra
a população palestiniana. A mensagem constantemente transmitida
pelo governo americano é que nenhum país, nomeadamente no extenso
arco islâmico, desde o Afeganistão até Marrocos, como
declarou o vice-presidente Dick Cheney em Janeiro de 2007, está ao
abrigo de uma intervenção ou de simples
retaliações, se se opuser frontalmente aos interesses americanos.
Também na condução da(s) guerra(s) é visível
o desprezo pelo direito, com o recurso a armas proibidas (fósforo
branco, armas de fragmentação, urânio empobrecido), ataques
sistemáticos e premeditados a alvos civis (iniciados com o
célebre "Choque e pavor"), pelo desdém pelas
populações adversárias, pelos seus direitos, valores e
património económicos e culturais.
A ocupação do Iraque tem sido de uma violência extrema. Ao
longo dos cinco anos que a ocupação já leva, centenas de
milhares de iraquianos têm sido detidos e encerrados em
condições desumanas em prisões, de que Abu Ghraib é
apenas a mais "emblemática", submetidos aos piores
tratamentos. Contam-se por muitos milhares as vítimas iraquianas desde o
início do conflito: 655 000 pessoas na estimativa divulgada em 2006 pela
revista
The Lancet,
151 000, no cálculo da OMS, até Junho de 2006, mais de um
mihão até meados de 2007, segundo as contas da agência
britânica Opinion Research Business. O próprio Bush reconheceu, em
Dezembro de 2005, que as vítimas iraquianas directamente resultantes da
guerra poderiam ascender a 30.000. Os números não coincidem, mas
todos eles revelam a catástrofe que se abateu sobre o povo iraquiano.
Mas há mais.
As condições de vida degradaram-se a um ponto inaceitável.
Não funcionam os bens mínimos essenciais à
subsistência de uma comunidade organizada. Os refugiados em países
vizinhos serão cerca de 2,2 milhões de pessoas e os deslocados
dentro o Iraque 2,5 milhões de pessoas, enquanto quatro milhões
"não têm garantias de que terão comida na sua mesa
amanhã", como disse recentemente o coordenador da ONU para o
Iraque. Quase um quinto dos iraquianos são refugiados ou deslocados.
É este o Iraque "libertado" pelos EUA.
Mas certamente que um dos aspectos mais chocantes da política da
presidência Bush consiste na violação total dos direitos
dos prisioneiros e inimigos, tratados como seres infra-humanos, enjaulados em
prisões como Abu Ghraib e em campos de concentração
espalhados em várias partes do mundo, com destaque para
Guantánamo, submetidos a torturas físicas e psíquicas que
recordam as praticadas pelos mais sanguinários regimes políticos
do sec. XX, privados de quaisquer direitos civis, nomeadamente o de acesso aos
tribunais, e das mais elementares garantias processuais, como o conhecimento da
acusação e do termo do prazo da detenção.
A prática da tortura não constitui, ao contrário do que o
próprio Bush tentou inicialmente justificar, um "abuso"
ocasional da responsabilidade de alguns soldados perturbados, mas sim um
instrumento central para a recolha de informações no combate ao
"terrorismo", conforme o próprio Bush abertamente reconheceu,
chegando mesmo a louvar a eficácia de alguns métodos na
obtenção de informações. Aliás, esses mesmos
métodos foram integrados num catálogo dos procedimentos a seguir
nos interrogatórios de prisioneiros pelos agentes da CIA, que permite
inúmeros actos que recaem sob o conceito de tortura tal como é
definido pela Convenção Internacional contra a Tortura,
catálogo esse que tem variado um pouco, mas que se mantém
basicamente o mesmo, e em que sobressai a simulação de
afogamento. Inclusivamente, Bush vetou no início de Março passado
uma proposta de lei aprovada pelo Senado que proibia o uso de tortura nos
interrogatórios da CIA, com o argumento de que tais métodos
são "instrumentos indispensáveis" na luta contra o
terrorismo.
O destino dos prisioneiros de Guantánamo, detidos em várias
partes do mundo e muitas vezes de forma completamente arbitrária ou
mesmo sem ligações a quaisquer actividades "suspeitas",
conforme reconheceu um antigo comandante do campo, e para ali transportados nos
célebres "voos da CIA" que tiveram a cumplicidade de muitos
países europeus, continua incerto. O presidente Bush começou por
criar uma jurisdição militar especial (comissões militares
constituídas por militares por ele nomeados, regendo-se por um estatuto
também por ele estabelecido) para julgar aqueles que entendesse levar a
"julgamento". Porém essa legislação foi
declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal dos EUA, por sentença
de 29.6.2006, por o Presidente não ter competência constitucional
ou delegada pelo Congresso para criar as ditas comissões e ainda por o
estatuto das mesmas não conceder aos detidos as garantias mínimas
estabelecidas pelas Convenções de Genebra. A mesma decisão
considerou ainda inconstitucionais as técnicas mais agressivas de
interrogatório praticadas.
Reagindo a essa decisão, o Presidente Bush propôs nova
legislação ao Congresso que acabou por ser aprovada em 28.9.2006
e que mantém essencialmente o sistema anterior, nomeadamente a
competência das comissões militares para o julgamento dos detidos
e a proibição de recurso ao
habeas corpus,
limitando apenas as técnicas de interrogatório (foram banidas
apenas as que produzam sofrimento ou lesões
graves
) e excluindo a validade das provas obtidas sob tortura, e garantindo o acesso
a informação classificada que conste da acusação
formulada.
Um tribunal federal de recurso de Washington já decidiu que os
prisioneiros de Guantánamo não poderão recorrer aos
tribunais judiciais norte-americanos, o que constituiu uma
"vitória" para Bush.
O Supremo Tribunal dos EUA foi chamado a pronunciar-se sobre essa medida, mas a
sua decisão está marcada para Junho próximo. Resta saber
se resistirá à pressão enorme que sobre ele
incidirá seguramente. Parece, no entanto, óbvio que se
mantêm pertinentes as críticas que o tribunal formulou
anteriormente e que, em coerência, deveria manter.
Entretanto seis prisioneiros de Guantánamo foram formalmente acusados de
envolvimento em actos terroristas e a acusação vai pedir para
eles a pena de morte. As comissões militares que os vão julgar,
quer pela composição do tribunal (exclusivamente formados por
militares escolhidos pelo Presidente dos EUA), quer pelas regras referentes
às provas (que permitem aceitar as confissões obtidas sob tortura
antes de 30.12.2005, data da lei que as ilegalizou, e que nega o direito de
acesso do acusado às fontes das provas quando esteja em causa a
"segurança nacional"), quer ainda pelo funcionamento quase
secreto das comissões (que funcionarão no próprio campo de
Guantánamo), estamos perante um arremedo de tribunais, que não
conferem as garantias mínimas de um processo justo.
Mas em Guantánamo encontram-se ainda 275 prisioneiros que continuam a
aguardar indefinidamente o seu destino, que não têm direito a
saber quando, ou mesmo se, alguma vez serão acusados, e de que crimes,
que estão privados de defesa e de acesso a um tribunal, que é a
garantia mínima de qualquer detido, segundo os padrões
internacionais.
Porém, Guantánamo é apenas uma peça de um vasto
sistema repressivo e punitivo à escala mundial, de que não se
conhecem os contornos exactos, porque uma parte substancial é secreta.
Sabe-se, contudo, depois do relatório do Conselho da Europa (Dick Marty)
e do, mais recente, do Parlamento Europeu, que outros campos de prisioneiros
existem em várias partes do mundo (Bagram, no Afeganistão, e
Diego Garcia, uma ilha do Índico "cedida" pelas autoridades
inglesas à CIA) e quase certamente que também existiram na Europa
(Polónia e Roménia); e que um permanente vaivém de voos
secretos transportou, pelo menos até há pouco, "passageiros
clandestinos" (algumas vezes inclusivamente raptados por agentes da CIA em
países europeus, por vezes com a cumplicidade dos serviços
secretos desses países) de um para outro campo, de um para outro
país, para serem interrogados por agentes da CIA ou para serem
entregues, para tortura "delegada" ou para apodrecerem nas
prisões, a países "amigos", onde não
poderão socorrer-se de quaisquer garantias processuais.
São as "entregas extraordinárias", que constituem
transferências ilegais de prisioneiros, porque à margem dos
tratados de extradição (existissem ou não), do controlo
judicial, das próprias regras de cooperação bilateral ou
internacional entre os estados.
A União Europeia, incluindo Portugal, foi intensamente cruzada por estes
aviões "fantasmas" (1245 voos, em 14 países, foram
identificados pelo PE), sem que as autoridades europeias, e particularmente as
portuguesas, tivessem exercido qualquer controlo sobre eles, como era imposto
pelas normas internacionais sobre o tráfego aéreo. O PE
considerou "improvável" que os governos europeus
desconhecessem o que se passava.
3.
No mundo "ocidental", também se tem feito sentir a ofensiva
neoconservadora da administração Bush.
Desde logo, através da manipulação da opinião
pública interna, tentando mobilizá-la para a "cruzada"
contra o "perigo islâmico", fornecendo desde o princípio
informações totalmente falsas ou distorcidas e condicionando o
mais possível a liberdade de imprensa, muita da qual, inclusivè a
de "referência", alinhou de início abertamente com a
política bélica de Bush.
Tudo isso levou à criação de um clima de xenofobia e de
hostilidade para com as comunidades islâmicas e por vezes a atitudes de
histeria colectiva ou de descontrolo policial contra cidadãos que
alegadamente tomem atitudes "suspeitas" (como aconteceu em Londres
com o cidadão brasileiro Jean Charles Menezes). O clima de histeria
xenófoba leva por vezes a reacções
discriminatórias, se não mesmo racistas, por parte de
instituições privadas, como as companhias aéreas de
navegação.
Mas, a pretexto de "luta contra o terrorismo" toda uma
legislação especial tem vindo a ser criada, a partir do
Patriot Act,
de 2001, no sentido de conferir ao Presidente dos EUA
autorização para tomar medidas para restringir fortemente as
liberdades e permitir às autoridades policiais meios de
investigação sem controlo judicial. A seguir ao 11 de Setembro um
número elevadíssimo (nunca revelado pela autoridades) de pessoas
foram detidas nos EUA. Apenas uma, o francês Hosseini, acusado de
envolvimento na conspiração do 11 de Setembro de 2001, foi levada
a julgamento, vindo a ser condenada em condições estranhas,
já que aparentemente toda a prova se resumiu à sua
"confissão", que não pareceu verosímil.
Mas não só no plano estritamente legal se fazem sentir os efeitos
da ofensiva Bush. O recurso a meios secretos e ilegais, por eventuais
dificuldades em obter autorização do Congresso nesse sentido, faz
também parte do seu arsenal. Particularmente polémica foi a
revelação de um vasto programa de "espionagem interna",
nomeadamente através de escutas telefónicas e
intercepção de mensagens electrónicas, levado à
prática pela Agência Nacional de Segurança, sem
autorização ou controlo judicial, iniciado pouco depois do 11 de
Setembro, mas também um outro programa de vigilância de movimentos
bancários internacionais, conduzido pelo Departamento do Tesouro e que
assenta na recolha de registos de transacções internacionais de
uma entidade bancária internacional participada por milhares de bancos
em inúmeros países.
Afinal, e como Bush não se cansa de repetir, os EUA consideram que todos
os meios são válidos quando se trata da
"protecção da segurança do país". A
protecção dos EUA é, assim, elevada a supremo valor
universal, perante o qual todos os demais valores, mesmo aqueles que são
normalmente invocados como o património político norte-americano,
devem ceder. Raras vezes o interesse "imperial" terá sido
tão directamente reivindicado depois da queda dos impérios
tradicionais.
A tendência é para "exportar" a legislação
para os países "aliados", sendo o mais fiel aliado
político e militar, a Grã-Bretanha, aquele que efectivamente
também mais se tem destacado na adopção dessa linha
legislativa. Com efeito, desde o
Anti-terrorism, Crime and Security Act 2001
até ao
Terrorism Act 2006,
têm-se sucedido medidas legislativas, prevendo novas
infracções, como a punição dos actos
preparatórios do terrorismo, o incitamento ao terrorismo, a
distribuição de publicações terroristas, etc.
ou mesmo aquilo que, com larga margem de arbitrariedade, seja
considerado "glorificação" do terrorismo, como acontece
com a referida legislação antiterrorista promulgada no Reino
Unido, que considera crime a publicação de quaisquer textos que
"glorifiquem a execução ou a preparação"
de actos terroristas, "tanto no passado como no futuro em geral".
Simultaneamente são alargados os prazos de detenção sem
controlo judicial, que podem ir até 28 dias, não se devendo
esquecer que foi a resistência dos
law lords
da Câmara dos Lordes que impediu Blair de avançar com medidas
mais extremas. Há poucos dias, a Ministra do Interior voltou a insistir
na necessidade de aumentar esse prazo de 28 para 42 dias (!), agitando os
fantasmas de graves ameaças terroristas sobre a Grã-Bretanha.
Outros países europeus têm aprovado legislação
idêntica, embora atenuada nas soluções. Em Portugal, as
consequências foram, até à data, menos nefastas. A
nível das garantias processuais, não se registou qualquer
restrição. A denominada "Lei de Combate ao Terrorismo"
(Lei nº 52/2003, de 22 de Agosto), em cumprimento da Decisão-Quadro
do Conselho Europeu de 13.6.2002,
preocupou-se sobretudo com a reformulação, em sentido
mais abrangente, dos já existentes crimes de organização
terrorista e terrorismo. Mas, em Março deste ano, o Ministro da
Administração Interna anunciou, na esteira da referida
legislação britânica, que esperava pelas decisões da
União Europeia para transpor para a ordem jurídica portuguesa as
medidas de criminalização da "apologia do terrorismo".
Globalmente, podemos dizer, sem qualquer exagero, que as tradicionais
liberdades e garantias do cidadão, que se julgavam património
adquirido da nossa civilização, se encontram desde há anos
sob uma forte ofensiva que tem deixado marcas profundas na
legislação e na prática governativa de muitos
países, a começar pelos EUA, onde a governação
neoconservadora se reveste de características indubitavelmente
fascizantes. Embora tendo sofrido um travão com os insucessos eleitorais
do Partido Republicano, que lhe retiraram a maioria em ambas as câmaras
do Congresso norte-americano e com a crescente oposição popular
à guerra nos próprios EUA, este rumo só poderá
considerar-se invertido quando forem revogadas as medidas
antidemocráticas postas em vigor e restabelecidas
as garantias individuais.
4.
A agressão ao Iraque não foi uma mera aventura irreflectida
decidida por um presidente incompetente. Foi, sim, um passo, decidido já
antes dos atentados do 11 de Setembro, com os quais aliás não
existe nenhuma ligação, no sentido de cumprir uma
estratégia hegemónica mundial traçada nos escombros da
União Soviética e do seu espaço de influência.
Derrotado o inimigo de décadas, e único opositor militar
credível, os EUA viram-se sozinhos na arena internacional e o sonho
imperial, que aliás bem cedo surgira na história norte-americana,
com a expansão para o Oeste e para o Pacífico, e beneficiou de
uma extraordinária aceleração em 1945, inscreveu-se como
tarefa prioritária da política norte-americana, então nas
mãos de Bush pai. A Guerra do Golfo de 1991 é o primeiro ensaio.
Nesses anos é publicada uma nova Estratégia Nacional,
complementada pelo célebre
Defence Planning Guidance,
elaborado por Paul Wolfowitz, que vem sendo sucessivamente actualizada, mas
que marca os grandes objectivos imperiais dos novos senhores.
No centro dessa estratégia sobressai o conceito de
segurança global,
da qual os EUA, com a cooperação das outras áreas
"democráticas" (Europa e Japão), são os supremos
garantes, com a missão de realizar a tarefa global de pacificar e manter
a segurança colectiva, se necessário com a
intervenção militar, abandonando assim o velho princípio
da não ingerência, que datava da paz de Vestefália.
Assim, ao contrário dos impérios tradicionais, não
está em causa a anexação ou a expansão do
domínio territorial. Aos novos imperadores, como
garantes da segurança global e da nova ordem mundial,
interessa apenas o direito de intervir militarmente sempre e onde quer que
seja necessário para manter a "ordem global", que mais
não é do que a fiel garante do seu domínio a nível
mundial.
Globalizar o capitalismo, manter a (desigual) repartição de
riqueza a nível mundial, assegurar o acesso às fontes de energia
e a novos mercados por parte das economias dominantes, eis o programa
económico da "nova ordem mundial". Ou seja, os EUA reivindicam
o papel de definição da ordem mundial e das suas regras, nas
relações políticas internacionais, de
definição da ordem económica global e do acesso e
distribuição dos recursos mundiais, baseada no mercado livre, que
assegura a supremacia das economias ocidentais (e da sua, antes de mais) e na
abertura das fontes energéticas e outras riquezas a essas economias,
como ainda o papel de definição dos valores políticos e
económicos (os "direitos humanos", restritos aos direitos
civis) que devem nortear a acção interna dos governos
"locais" e cuja violação os sujeitará a eventual
sanção do poder imperial.
Quer como garantes da "ordem global", quer como protectores dos
"direitos humanos", os EUA e a NATO, por eles redimensionada como
aliança militar agressiva com intervenção a nível
mundial, e que é simultaneamente instrumento de cooperação
com os aliados europeus e de vigilância sobre os eventuais intentos
autonomistas destes, encabeçaram desde então diversas
intervenções armadas, agressões armadas, melhor dizendo,
ameaçando entretanto praticar outras, que foram a tradução
prática dos conceitos vertidos nos documentos estratégicos. Umas
vezes como "guerra humanitária" (ex-Jugoslávia), outras
vezes como "guerra ao terrorismo" (sucessiva ou preventiva), a guerra
tornou-se o modo normal de o novo império impor a sua ordem.
Os que se opõem à nova ordem são tratados, não
já como opositores ou sequer inimigos, como tradicionalmente, mas como
delinquentes, como criminosos, para os quais se criam tribunais "ad
hoc" (nacionais ou internacionais, conforme o país inimigo é
ou não directamente sujeito à tutela imperial) para os punir e
humilhar. A criminalização do inimigo tornou-se um dos pilares da
nova estratégia político-militar.
Quem esperava uma era de paz subsequente ao fim da Guerra Fria ficou
defraudado. Nenhumas expectativas de paz são credíveis nos
próximos tempos. Pelo contrário, quer pela
manutenção infindável da ocupação por Israel
dos territórios palestinianos, quer pelo arrastamento do conflito da
NATO no Afeganistão, em que as perspectivas de
"vitória" parecem ser cada vez mais longínquas, quer
pelas constantes ameaças de agressão por parte dos EUA ao
Irão invocando a existência de um programa secreto de
militarização nuclear que não está minimamente
provado,
quer sobretudo pela ocupação do Iraque, as perspectivas
são de um agravamento do fosso com o mundo árabe e
islâmico, em geral.
A questão está em que as contas saíram furadas no Iraque.
5.
As coisas correram realmente mal aos EUA no Iraque. Não faz parte da
estratégia do novo império a guerra terrestre, nem a
ocupação prolongada de qualquer território estrangeiro.
Quando muito, essas tarefas serão delegadas. Mas o envolvimento directo
de tropas terrestres, com o risco de baixas, é evitado o mais
possível.
O ataque ao Iraque foi programado dentro desses princípios: ataque
aéreo devastador a "abrir", aniquilando o arsenal e efectivos
militares o mais possível e "desmoralizando" a
população civil; subsequente ocupação rápida
do território, sua "pacificação", e entrega do
poder a um governo "amigo", retirada também rápida das
tropas terrestres e instalação de bases no território.
Tudo isto seguido, evidentemente, da abertura das torneiras das condutas
petrolíferas. Esta seria a vitória.
Mas a resistência popular, que surpreendeu tudo e todos, sobretudo os
agressores, que talvez fossem vítimas da sua própria propaganda
que os apresentava como "libertadores", inviabilizou completamente o
plano. A realidade tem sido bem amarga para os EUA e "aliados". Pondo
de parte os custos financeiros, exorbitantes mesmo para uma
superpotência, os custos humanos são desastrosos. Já com
mais de 4000 baixas mortais, e cerca de 30 mil estropiados e incapacitados,
esta é a guerra mais mortífera de sempre, depois da do Vietname.
E o último ano (2007), apesar do aparente arrefecimento dos confrontos,
foi o pior de todos, em termos de baixas norte-americanas. O número
oficial de desertores é de 16 mil, mas poderão ser muitos mais, o
que é um indício seguro da
"desmoralização" das tropas ocupantes perante a
resistência encontrada. Os traumatizados e portadores de problemas de
saúde mental em consequência da guerra poderão ser mais de
120 mil, segundo estudos de associações de militares veteranos. A
opinião pública norte-americana condena, hoje, abertamente a
invasão do Iraque. Cerca de dois terços dos cidadãos
norte-americanos estão fartos da guerra e querem a retirada imediata das
tropas.
A tentativa de "iraquizar" a guerra não está a dar, nem
poderá dar, resultado. As "eleições" realizadas
e as instituições estabelecidas não têm
credibilidade junto do povo iraquiano. Todos sabem que, sem o suporte
norte-americano, tudo ruirá em pouco tempo. O arrastamento do impasse
funciona contra os EUA. Essa dependência ficou de novo expressa nas
afirmações recentes do presidente iraquiano, segundo as quais as
tropas norte-americanas terão de permanecer no Iraque, pelo menos,
até 2012 como forças de intervenção e até
2017 como forças de "apoio". A ocupação militar
é condição necessária da imposição do
protectorado norte-americano. É a consciência disso que tem levado
o presidente Bush a recusar-se a anunciar qualquer calendário de
retirada, que seria muito popular junto do eleitorado nas próximas
eleições presidenciais.
A desorientação perante o evoluir da situação
tornou-se patente com a aproximação das eleições
legislativas de Novembro de 2006, que constituíram um verdadeiro teste
à política Bush no Iraque e que traduziram uma frontal
condenação dessa política pelo povo americano. O principal
rosto da guerra (Donald Rumsfeld) foi forçado a partir; alguns já
o tinham precedido, outros seguiram depois o mesmo caminho. Desesperadamente,
Bush encomendou soluções. Elas vieram e as mais avisadas
propunham uma progressiva retirada norte-americana.
Contrariando esses estudos e o sentimento do povo norte-americano, e
expressamente dos democratas e parte dos republicanos, Bush decidiu-se por nova
escalada, mobilizando mais 21000 militares para o Iraque. A ideia foi
desencadear uma ofensiva brutal que permitisse depois retirar em ordem,
assegurando o fundamental: o petróleo.
A nova manobra posta em prática pelo general Petraeus consistiu em
comprar e armar uns quantos chefes tribais, assim transformados em
"senhores da guerra", numa tentativa de
contra-insurreição que visa retirar base social à
resistência. Na recentíssima "prestação de
contas" perante o Congresso norte-americano, o general proclamou a
conquista de "progressos reais" na "segurança" no
Iraque, mas logo acrescentou que tais "progressos" eram
"frágeis e reversíveis". Segundo ele, terão de
permanecer no Iraque, por tempo indefinido, 140 mil tropas, o que é uma
declaração implícita de derrota.
Apesar das dificuldades, as diversas organizações que constituem
a resistência patriótica iraquiana têm dado passos no
sentido de juntar forças, coordenar as acções militares e
dotar-se de um programa político comum. A importância decisiva da
resistência está aliás expressa num documento insuspeito: o
relatório Baker-Hamilton. Nele se aponta sem equívocos a
resistência popular (designada por "insurreição
árabe sunita") como o principal inimigo das tropas
norte-americanas, fortemente apoiada na população, armada e
financiada a partir do interior do país; e se remetem as
acções da Al-Qaida para plano claramente secundário,
apenas "responsável por uma pequena parte da violência no
Iraque" (capítulo I, A, 1.).
Afinal,
tudo vai depender, mais uma vez, do povo iraquiano, cuja resistência
heróica enterrou os planos imperiais nas areias da antiga
Mesopotâmia. Certamente que não é agora que a
resistência irá parar ou sequer diminuir. O que o povo iraquiano
demonstrou ao mundo foi a falência da força esmagadora e brutal da
superpotência perante uma resistência armada que não conta
sequer com o apoio material mais ou menos discreto de nenhum estado, mas sim e
apenas com o suporte e a dedicação sem limites do próprio
povo. As limitações do poder imperial ficaram cruamente expostas
à vista de todos os povos.
Mas também é essencial a luta das forças progressistas no
"Ocidente", de todos os que se opõem ao louco projecto
hegemónico dos EUA e querem lançar as bases de uma ordem mundial
mais justa. Só a conjugação destas duas lutas pode
derrotar o império, ou pelo menos fazê-lo recuar nos seus
propósitos mais agressivos.
6.
Portugal, como alguns outros países europeus, também se envolveu
na agressão ao Iraque.
Primeiro, organizando e participando, pela mão do Governo de Barroso, na
"cimeira das Lajes" onde a decisão foi formalmente tomada e
anunciada ao mundo, e alinhando, antes e depois, em todos os fóruns
internacionais com as posições dos EUA.
Após a ocupação, enviando uma força da GNR para o
Iraque, com a concordância do Presidente da República (Jorge
Sampaio). Embora as posições dos dois órgãos de
soberania não fossem coincidentes, nunca o PR assumiu uma
posição clara de distanciamento da política do Governo.
Colaborou também o Governo Barroso com os invasores, ao enviar para
Bagdad um representante seu (José Lamego) junto da Autoridade
Provisória nomeada pela Casa Branca.
Entretanto tinham tido início as "transferências
extraordinárias" de presos da CIA, em aviões sobrevoando o
território português, que perduraram por todo o Governo de Santana
Lopes e que, inclusivamente, terão ainda ocorrido já depois de o
actual Governo ter iniciado funções.
O Parlamento Europeu identificou 118 escalas de aviões operados pela CIA
nos nossos aeroportos, 3 deles directamente de ou para Guantánamo.
O Governo português actual, estranhamente, não só
não colaborou com a comissão do PE que se deslocou a Portugal
para recolher informações, comissão aliás presidida
por um eurodeputado português (Carlos Coelho), como inclusivamente a
hostilizou, pela voz do MNE, Luís Amado, que se envolveu em
polémica com a eurodeputada Ana Gomes, membro da comissão
parlamentar europeia, por esta tentar aprofundar a investigação
dos factos ocorridos em Portugal.
Foi aliás devido à "queixa" apresentada por esta
eurodeputada portuguesa que o PGR decidiu instaurar um inquérito
criminal (contra incertos) para apuramento dos factos descritos no
relatório do PE. Note-se que, poucos dias antes, o partido
governamental, apoiado pelos partidos da direita, tinha rejeitado a
instauração de um inquérito parlamentar com o mesmo
objectivo, proposto pelo PCP, e apenas apoiado pelo BE.
É muito problemático o sucesso que poderá ter o
inquérito criminal instaurado, pois a atitude do Governo português
sobre esta matéria não revela grande entusiasmo, para não
dizer que mostra aberta hostilidade, no apuramento dos factos e a
colaboração governamental poderá ser decisiva para a
descoberta da verdade.
Recentemente, novos dados sobre os referidos voos foram apresentados pela ONG
inglesa Reprieve, mas o Governo português imediatamente
"desvalorizou" as informações. O próprio
Primeiro-Ministro, José Sócrates, há poucos dias, garantiu
que nem o actual executivo, nem os anteriores, autorizou a passagem de voos da
CIA pelo espaço aéreo português.
Esta atitude, aliás em contraste com a do governo britânico,
que pela primeira vez reconheceu a passagem pelo seu território dos
aviões da CIA, embora tenha admitido apenas dois voos
"irregulares" (!), é ilustrativa do desinteresse do Governo na
procura da verdade, se não mesmo no interesse em escondê-la
O Procurador-Geral da República anunciou, na sequência da
denúncia da Reprieve, a realização de novas
diligências no inquérito, mas, insiste-se, sem a
colaboração do Governo, que tem nas suas mãos, ou ao seu
alcance, as informações essenciais para o apuramento da verdade,
aquele inquérito não poderá ser concluído com
êxito.
A decisão com base nesta acusação aprovada pelos
jurados do
Tribunal Iraque
na madrugada de 19 de Abril será acrescentada logo que
disponível.
Este documento encontra-se em
http://resistir.info/
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