por Christopher Black
[*]
O artigo 22 da
Convenção sobre o Alto Mar
de 1958, afirma:
'1. Excepto quando os actos de ingerência derivam dos poderes conferidos
pelo
tratado, quando um navio de guerra a encontra um navio mercante estrangeiro em
alto mar não se justifica abordá-lo a menos que haja motivo
razoável para suspeitar:
(a) Que o navio esteja envolvido em pirataria;
ou
(b) Que o navio está envolvido no tráfico de
escravos;
ou
c) Que, embora arvorando uma bandeira estrangeira ou
recusando-se a mostrar a
sua bandeira, o navio é, na realidade, da mesma nacionalidade do navio
de guerra.
Prossegue afirmando que as embarcações navais de uma
nação podem deter o navio de uma nação estrangeira
se esse navio violou quaisquer leis ou regulamentos da nação
à qual pertença a embarcação naval, caso seja
encontrada nas águas territoriais daquela nação.
É claro que, no caso da abordagem e apresamento do petroleiro iraniano
Grace 1, registado no Panamá, tal como muitos outros navios, ao largo da
costa espanhola, próximo de Gibraltar, que a Grã-Bretanha
não tinha o direito legal de ordenar aos seus fuzileiros navais que
abordassem o navio iraniano. Este estava ou em águas internacionais como
os iranianos afirmam ou em águas espanholas próximas de
Gibraltar. Trata-se de uma violação flagrante da
Convenção sobre o Alto Mar de que é parte e que, portanto,
também faz parte do direito interno do Reino Unido.
O pretexto apresentado pelos britânicos para este ato de guerra contra o
Irão e a Síria se se acreditar na sua alegação de
que o petróleo era destinado à Síria, em
violação de um alegado embargo da União Europeia contra a
Síria, é manifestamente falso uma vez que a União Europeia
não tem o direito legal de impor "sanções" ou
qualquer tipo de embargo, ou bloqueio naval, contra a Síria ou qualquer
outra nação. Este direito permanece na jurisdição
exclusiva do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o
qual não autorizou qualquer bloqueio. As ordens da UE contra a
Síria são portanto ilegais e no direito internacional não
existem.
A própria UE pretende justificar seu embargo ilegal de petróleo
à Síria na Resolução 2254 do Conselho de
Segurança e no Comunicado de Genebra de 2012, ambos os quais têm o
objectivo de buscar uma solução política pacífica
na Síria e não concede a quaisquer Estados individuais da UE ou
à UE como um todo, o direito de impor sanções ou qualquer
outro tipo de acção militar à Síria, nem o direito
de aplicá-las contra outras nações, como o Irão.
Portanto, os britânicos não tinham justificação
alguma para as suas acções.
A questão então converte-se em saber se isto foi um acto de
pirataria ou um acto de guerra e a resposta é, acto de guerra, pois
não é considerada pirataria sob a Convenção se uma
embarcação naval de uma nação aborda e apresa o
navio de outra nação. Pirataria existe quando a abordagem
é para fins privados por indivíduos privados a actuarem no seu
próprio interesse.
O Artigo 15 da Convenção declara,
(1) Quaisquer actos ilegais de violência, detenção ou
qualquer acto de depredação, cometidos para fins privados pela
tripulação ou pelos passageiros de um navio privado ou de uma
aeronave privada, e dirigidos:
a) No alto mar, contra outro navio ou aeronave, ou contra
pessoas ou bens a
bordo desse navio ou aeronave;
(b) Contra um navio, aeronave, pessoas ou bens num local
fora da
jurisdição de qualquer Estado;
Assim, a acção britânica não pode ser chamada de
"pirataria" num sentido legal, embora o termo seja adequado ao que
eles fizeram e os iranianos gostem de usar a palavra nos seus protestos contra
a acção britânica. Ao invés disso, trata-se de um
acto de guerra contra o Irão pela Grã-Bretanha e na realidade
pelos Estados Unidos da América uma vez que foi admitido pelo governo
britânico que o apresamento foi efectuado por ordens de Washington como
declarou o chanceler iraniano, Zarif, em 17 de Julho.
"O Reino Unido ao confiscar nosso navio está a ajudar os EUA a
impor suas sanções petrolíferas ilegais contra o
Irão."
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Espanha, Josep Borrell,
disse que Gibraltar havia apresado o Grace 1 em resposta a um pedido dos EUA
à Grã-Bretanha.
El Pais
informou que Borrell, do Partido Socialista (PSOE) disse que a
inteligência dos EUA implicava que o super-petroleiro estava em
águas territoriais britânicas. Os espanhóis reclamaram
formalmente de uma incursão britânica nas águas espanholas,
mas na realidade eles acompanharam a acção ilegal e também
citaram o embargo ilegal de petróleo da UE à Síria.
Ver também:
EUA despejam óleo no incêndio do Golfo
, M. K. Bhadrakumar
[*]
Advogado criminalista internacional com escritório em Toronto.
É conhecido pelos numerosos casos de crimes de guerra de alto perfil de
que tratou. Autor do romance
Beneath the Clouds
. Escreve ensaios sobre direito internacional, política e eventos
mundiais, especialmente para a revista on-line
New Eastern Outlook
e colabora
em
Global Research.
O original encontra-se em
New Eastern Outlook
e em
www.globalresearch.ca/piracy-war/5684176
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.