Antevisão dos resultados da receita agora aplicada a Portugal
A cortina de fumo do FMI para esconder mais um fracasso previsível

por Yannis Varoufakis

O elefante que eles não querem ver. Tendo amoldado as suas próprias regras, e depois de fechar os olhos à avaliação dos seus próprios peritos quanto à sustentabilidade do 2º salvamento da Grécia, o FMI está agora a preparar-se para o fracasso. A sra. Lagarde achou difícil convencer a sua administração a acompanhar a Europa quando esta trancou a Grécia em mais um futuro insustentável.

Houvesse o FMI aplicado as suas próprias regras estritas, nunca teria oferecido outra carga gigante de Direitos Especiais de Saque (DES) a um país que conseguiu o feito de incumprir e ao mesmo tempo aumentar a sua dívida. Tal como o primeiro "salvamento", isso está à vista de todos:   a dívida grega demonstrar-se-á insustentável só que, desta vez, será o dinheiro do sector oficial que enfrentará o corte – quando as galinhas tiverem voltado ao seu poleiro.

Então, o que faz o FMI para encobrir as suas pegadas e limitar as perdas quando o fracasso do novo programa grego se tornar evidente? Emite um relatório oficial o qual prevê o dito futuro mas exprime-o de um modo que minimiza a responsabilidade do FMI por ter cedido aos europeus seguindo as linhas de um programa inócuo.

"A Grécia permanece "inclinada a acidentes" diz o relatório e, por esta razão, pode haver outro incumprimento e outro salvamento. Quando acontecerá isto, segundo o FMI? Se ela lutar para executar medidas impostas por um novo salvamento de €130 mil milhões..."

Note-se o subterfúgio. A Grécia falhará se lutar. O "se" hipotético posto em serviço para transformar o que é uma tautologia em algo como uma explicação causal. Ao invés de dizer "Jill chocará o seu carro", a mesma sentença parece mais "analítica" reformulada como se segue: "Jill chocará o seu carro se ela perder o controle do mesmo".

"Se o programa descarrila, a capacidade de Grécia para cumprir suas obrigações para com o fundo dependerá criticamente da disposição de parceiros europeus a continuarem a proteger a capacidade de pagamentos da Grécia e da capacidade do euro-sistema para proteger liquidez bancária enquanto novos esforços são postos em acção para estabilizar a economia grega", advertiu o relatório do FMI.

A ideia central, naturalmente, repousa no temor de que o FMI perderá o seu biscoito se os europeus não produzirem um outro empréstimo "salvador", em vista da certeza do fracasso do programa actual. Para encobrir o facto de que o FMI nunca deveria ter aceite participar na presente impostura deste programa, seu relato utiliza toda a panóplia de uma única palavra: do hipotético "se". Observe o modo como começa a última sentença: " Se o programa descarrila..." A verdade trágica é que tudo o que se segue a tal hipótese (isto é, as repercussões do 2º fracasso iminente do salvamento grego) acontecerá com precisão matemática mesmo que o programa permaneça no seu rumo. Assumindo que o governo grego se empenhe na sua execução (ajustamento fiscal, reformas estruturais, etc), o elefante na sala é que a absoluta falta de liquidez e a escassez de procura (ambos os quais estão a ficar exponencialmente piores, dia a dia) garantirá a tradução dos cortes executados em receitas fiscais mais baixas, crescimento ainda mais baixo e défices persistentes.

A estratégia do FMI é clara. Eles foram forçados por considerações políticas a apoiar o insustentável 2º programa grego da Europa. Eles sabem que o seu fracasso está pré-determinado, pois foi pré-anunciado pela própria análise de sustentabilidade do FMI. O seu medo é que o próximo passo lógico seja um cancelamento parcial de dívidas do sector oficial, incluindo as do FMI. E o que fazer? Eles utilizam uma hipótese forçada, um pequeno "se", para transformar uma tautologia numa tese aparentemente analítica de modo a encobrir o seu rastro e fazer aquilo que já se tornou um hábito ultimamente: culpar a economia grega por não responder ao veneno como se fosse o remédio adequado.

17/Março/2012

O original encontra-se em yanisvaroufakis.eu/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
18/Mar/12