Um programa de emergência para a Grécia
por Yannis Varoufakis
O governo grego, sob a intensa pressão da troika dos seus credores
(FMI-UE-BCE), está em vias de dar mais uma poderosa volta à roda
da depressão
[1]
. Numa altura em que a receita nacional está a contrair a um ritmo nunca
visto desde a Grande Depressão em qualquer sociedade pós-feudal,
numa economia em que os circuitos do crédito (e não apenas do
sector bancário) têm sido verdadeira e extremamente desmantelados,
e contra um pano de fundo do maior esmagamento tributário jamais
experimentado em tempo de paz, os credores da Grécia estão a
impor ao país outra contracção fiscal ainda maior do que a
anterior.
A proposta de orçamento para 2013 apresentada recentemente no Parlamento
grego incluía uma nova contracção fiscal de 11 mil
milhões de euros num país em que o PIB já caiu de
249 mil milhões em 2009 para 194 mil milhões em 2012. Dado o
enorme multiplicador que resultou da força acumulada da austeridade, o
novo aperto fiscal vai, com uma precisão matemática, reduzir a
receita nacional para cerca de 173 mil milhões, enviando o rácio
da dívida do país para uns estratosféricos 201% (De notar
que o governo, continuando uma longa cadeia de estimativas por defeito,
coloca-a em 190%). Nessa altura, a Grécia vai precisar de mais 100 mil
milhões a serem aprovados pelos contribuintes alemães só
para manter a continuação da ilusão, altura em que se
chegará ao fim do jogo, quando será inevitável a
insolvência da nação, numa altura de pobreza sem
precedentes e sem esperança, e nenhum OSI
[NT]
politicamente compreensível (i.e. cortes exigidos pela tróica)
pode resolver o problema.
Muita gente na Europa pensa que, no próximo ano, as OMT
[NT]
do Sr. Draghi
[NT]
terão aberto de certo modo o caminho para uma saída viável
da Grécia da zona do euro e que essa saída será a
'solução final' para o problema da Grécia. Bem, receio que
haja outra coisa a chegar: Tal como agora, também em 2013-14, a
Grécia estará condenada a uma possível catástrofe.
O que significa que espremer mais a Grécia hoje no campo tradicional
só intensificará os males da zona do euro no próximo ano.
No entanto, dada a óbvia relutância de Berlim, Frankfurt e
Bruxelas para recuar numa política grega que não faz sentido,
para além de ser desumana, o que é que a Grécia pode fazer
a curto prazo para minimizar o seu sofrimento, e o sofrimento que estará
a ser infligido ao resto da Europa nos próximos meses e anos? Deixo aqui
uma ideia:
Uma estratégia a curto-prazo para a Grécia
Actualmente, o governo grego está a tentar forçar através
do Parlamento um terrível aperto fiscal que retirará do fluxo
circular de receitas 11 mil milhões em 2013 e mais 2,5 mil
milhões em 2014
[1]
. Conforme explicado atrás, isso será mais um prego no
caixão da economia social grega. Primeiro, vai empurrar o rácio
da dívida-contra-o-PIB acima dos 200%. Em segundo lugar, e o que
é mais importante, vai atrasar a eliminação dos excedentes
primários no mínimo por mais dois anos. Enquanto o estado grego
tiver um défice primário, o governo grego continua a não
ter posição para negociar com a troika. E como a troika nem
sequer quer ouvir falar de argumentos racionais contra o tipo de afogamento
fiscal que está a impor à Grécia, a primeira prioridade da
nação devia ser conseguir um excedente primário (ou, pelo
menos, eliminar o défice primário).
Reconquistar poder de negociação vis-à-vis a troika
Pode a Grécia conseguir um excedente primário nas próximas
semanas? Claro que pode. O défice primário está neste
momento em cerca de 1,5% ou, em termos nominais, em cerca de 2,5 mil
milhões. O governo pode pois conceber uma contracção
fiscal de apenas 2,5 mil milhões, em vez dos 13,5 mil milhões que
a troika está a exigir, a fim de eliminar imediatamente o défice
primário. Além disso, para minimizar o efeito multiplicador
negativo desta contracção de 2,5 mil milhões sobre o resto
da economia, o governo podia ir buscar estas poupanças relativamente
modestas minimizando legalmente salários e pensões, i.e.
agarrando no salário estatal mais alto e reduzindo-o ao nível do
segundo salário mais alto, depois agarrando nestes dois salários
e reduzindo-os ao nível do terceiro mais alto e assim sucessivamente
até que se consigam as poupanças necessárias (fazendo o
mesmo com as pensões). (De notar que espremer os salários de cima
para baixo, será atacar primeiro os rendimentos dos que têm a
propensão marginal mais baixa para o consumo, minimizando assim o efeito
multiplicador).
Outro constrangimento sobre a capacidade do governo em negociar com a troika
provém das suas dívidas não pagas a uma legião de
fornecedores (desde as empresas farmacêuticas a empreiteiros). Estas
importantes quantias ascendem a cerca de 8 mil milhões de euros que o
governo não pode assumir sem mais uma fatia de empréstimos da
troika; uma dependência que ainda limita mais o seu poder negocial com os
seus credores. Neste aspecto, o governo podia emitir novos títulos
anónimos transferíveis que possibilitem ao seu possuidor receber
o dinheiro em vez de impostos durante um período de três anos
(2013-2015). Como a carga fiscal sobre indivíduos e empresas
(legítimas) está a aumentar exponencialmente (já que o
estado grego está a impor impostos cada vez mais pesados numa aposta
desesperada de juntar as pontas), esses títulos terão um valor
imediato. Os utentes poderão usá-los a fim de pagar os impostos
devidos a curto prazo e, o que é importante, trocá-los por bens e
serviços (inclusive como forma de pagamento de salários em atraso
desde que os trabalhadores também tenham impostos a pagar no ano
seguinte).
Finalmente, há um constrangimento do programa de
recapitalização da banca. Dos estranhos 30 mil milhões que
a troika está a acenar diante dos olhos de Mr. Samara (i.e. a
próxima fatia do empréstimo), a maior parte será usada
para recapitalizar os bancos. Pondo de lado que o mecanismo com que se
propõem fazer isso tresanda a corrupção (a versão
da Grécia daquilo a que eu chamo a 'autocracia da falência
bancária'), esta injecção de capital não
servirá para nada. Os bancos da Grécia estão para
lá da insolvência. Estão irremediavelmente falidos,
atendendo à Depressão à sua volta. A planeada
injecção de capital será, por si só, menos que
suficiente para os tirar da insolvência. Com efeito, mesmo que a
Comissão Europeia concorde que, a não ser que (a) seja injectado
capital privado (juntamente com os fundos FEEF)
[NT]
na sua estrutura de activos e (b) regressem aos bancos gregos os
depósitos (que migraram em massa para o estrangeiro no último
ano), o projecto de recapitalização vai fracassar. Mas qual
é o investidor suficientemente imprudente para investir num banco com
sede num estado que está em vias de incumprimento pela segunda vez em um
ou dois anos? Que grego heróico, que enviou as suas poupanças
para Frankfurt ou Genebra vai repatriá-las agora, depois de ler a
avaliação sombria do governo grego sobre as perspectivas da
nação? É pois muito claro que o facto de o estado grego
insolvente pedir agora um empréstimo de vinte mil milhões para os
injectar como capital nos bancos gregos constitui um acto maior de loucura
financeira. O dinheiro bom será atirado, depois do mau, para o buraco
negro dum sector bancário que se apoia totalmente num estado que em
breve vai ser declarado oficialmente na falência (outra vez)!
O fito do parágrafo anterior é simples. Não façam
isso! Não usem a próxima fatia do empréstimo para
recapitalizar os bancos, enquanto os termos e as condições para
receber essas fatias sejam tais que o estado grego entre em falência com
toda a probabilidade num futuro previsível. E então o que
fazer?, estou a ouvir-vos perguntar. Para já, continuemos com a
terrível realidade do presente (com o BCE a manter as máquinas
multibanco (ATMs) gregas a funcionar como provisão diária de
liquidez através da ELA
[NT]
grega) até que o governo grego possa negociar (depois de reconquistar
um pouco do seu poder de negociação) um novo programa que tenha a
hipótese de ter êxito, altura em que possa ser efectuada uma
recapitalização que não desperdice mais uma larga posta de
dinheiro do FEEF.
A ideia aqui é que, quando o governo tiver atingido um excedente
primário (ver acima), pode pedir delicadamente aos representantes da
troika em Atenas que se vá embora e pedir, no grupo do euro e/ou a
nível do Ecofin
[NT]
, o seguinte, como primeira aposta numa nova negociação que possa
levar a um programa viável.
Obter um compromisso para renegociar a lógica do seu programa
Assim, depois de conseguir um excedente primário com base em 2,5 mil
milhões de poupanças (depois de ter rejeitado a exigência
da troika do impossível aperto fiscal de 13,5 mil milhões de
dimensão), o que deve fazer o governo de Atenas a fim de convencer a
Europa a renegociar a lógica do seu programa uma
renegociação de que, actualmente, Berlim nem sequer quer ouvir
falar?
Deve anunciar que todos os reembolsos ao BCE (dos títulos que o BCE
comprou durante o malfadado programa SMP
[NT]
por volta de 2010-2011, que estão agora vencidos e que não foram
eliminados com o infame PSI
[NT]
) estão suspensos até ser acordado um novo programa com a UE, o
BCE e o FMI. Como, devido ao PSI, os títulos do governo grego que
estão em circulação (e não estão na posse do
BCE) só estarão vencidos em 2022, isso significa que o governo
grego estará a jogar forte apenas com o BCE e, por extensão, com
a UE. E não com credores privados.
Antes de descrever quais deviam ser as exigências do governo grego,
levanta-se uma questão premente: E se o BCE ficar tão aborrecido
com o governo grego que corte os bancos gregos da ELA dos bancos centrais
gregos, forçando o governo grego a sair da zona euro? Ocorrem ao
espírito duas respostas. Primeiro, seria ilegal fazer isso
unilateralmente, dado que os colaterais dos bancos gregos não têm
valor mais baixo do que, digamos, o que os bancos espanhóis usam
actualmente. Como os bancos gregos já não detêm
títulos do governo grego pré-PSI, o BCE (que detém muitos)
não pode afirmar que os bancos gregos estão insolventes com base
em que o estado grego está a recusar-se a honrar títulos que eles
têm nos seus livros. Claro, o cínico argumentará, com
razão, que onde há vontade, há sempre uma forma. Que, se o
BCE quiser correr com a Grécia, há-de encontrar um caminho (legal
ou não). Verdade. Mas aqui entra o meu segundo argumento-resposta: Essa
vontade não existe nem no BCE nem em Berlim.
Não tenho dúvidas, caro leitor, de que se a Alemanha (e talvez o
sr. Draghi
[NT]
) pensassem que podiam amputar a Grécia sem problemas, fá-lo-iam.
Mas eles sabem que, com a Espanha e a Itália à beira do abismo,
esse caminho não existe. Portanto, se o governo grego, depois de
conseguir um excedente primário dentro de poucas semanas, exigisse uma
renegociação ameaçando deixar de resgatar os
títulos do governo grego pré-PSI, nas mãos do BCE, tanto
Frankfurt como Berlim se sentariam à mesa a fim de chegar a um
rápido acordo que não pusesse em perigo a credibilidade do BCE em
relação aos outros estados membros.
Três exigências
[NR]
Se o governo grego, assim, conseguisse uma renegociação, o que
devia exigir aos seus parceiros? Três deviam ser as exigências que
Atenas tem a obrigação moral (não só para si mas
para toda a zona do euro) de pôr em cima da mesa:
Primeira, que os bancos gregos sejam recapitalizados directamente pelo
FEEF-ESM, conforme o acordo da Cimeira da UE de Junho (que foi posto de lado).
Segunda, que os 12 mil milhões de fundos estruturais não gastos
(devido à recessão) afectados à Grécia para o
período de 2007-2013 (de notar que foram afectados 20 mil
milhões, dos quais só foram gastos 8 mil milhões) sejam
passados não para o estado grego mas para o Banco de Investimento
Europeu com o objectivo de serem investidos directamente no sector privado
grego.
Terceira, um novo calendário para reembolso da dívida da
Grécia à troika que acompanhe o ritmo e o timing de reembolsos
com o crescimento do PIB; tornando os credores da Grécia efectivamente
os detentores de activos nas suas futuras receitas e riqueza.
Conclusão
Vivemos tempos verdadeiramente desesperados para a Grécia. A
nação está a sofrer não só uma
terrível Grande Depressão, como também uma crise
existencial. Outras grandes nações, sob uma ameaça
equivalente, até considerariam o uso da opção nuclear. A
minha sugestão é muito, muito mais suave. Basta dizer não
a um novo aperto fiscal que todos sabem ser terrível para a
Grécia e mau para a Europa. Em vez disso, para fazer o que for preciso o
governo necessita de reconquistar o poder negocial a fim de defender um
programa que seja mutuamente vantajoso para todos os europeus.
5/Novembro/2012
[1] Já deu, posteriormente a este artigo. O novo aperto fiscal foi
aprovado em 7 de Novembro pela maioria reaccionária do Parlamento grego.
NT
ECOFIN - Comité Económico e Financeiro
ELA Emergency Liquidity Assistance
ESM European Stability Mechanism
FEEF Fundo Europeu de Estabilidade Financeira
OMT Outright Monetary Transactions Transacções
Monetárias Directas
OSI Official Sector Involvement (significando BCE)
PSI Private Sector Involvement
SMP Securities Markets Programme
Mario Draghi banqueiro e economista, governador do Banco da
Itália de
2006 a 2011, actual presidente do Banco Central Europeu.
[NR]
Resistir.info não tem de concordar com tudo quando publica um artigo.
No caso presente resistir.info publica-o devido à qualidade do
diagnóstico, mas não à qualidade das terapias recomendadas
pelo autor. As três exigências por ele sugeridas, considera
resistir.info, são absurdas pois se houvesse um governo digno e decente
na Grécia há muito tempo o país teria abandonado a zona
euro e feito um manguito aos credores abutres que o arruínam. Pedir
comportamentos moderadamente reformistas a um governo de traição
nacional como o actual é uma inanidade total. No panorama
político grego, a posição mais consequente e lógica
é a do KKE que preconiza o abandono da zona euro e das
organizações imperialistas que sufocam o país.
O original encontra-se em
yanisvaroufakis.eu/2012/11/05/an-emergency-program-for-greece/#more-2899
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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