A Grécia encurralada
Esta é a versão "longa" de uma entrevista dada ao Sr.
Tassos Tsakiroglou para o diário
Efimerida ton Syntakton
(Jornal de Editores).
Este jornal grego é um esforço cooperativo de
jornalistas e trabalhadores da imprensa em auto-gestão e
auto-financiamento que assumiu o lugar do jornal de centro-esquerda
Eleftherotypia,
que foi à falência em 2011. Uma versão mais curta
deverá ser publicada na Grécia na próxima semana.
- Como encara a proposta da Sra. Merkel em Dezembro para que, em nome da
salvação do euro, os estados da Zona Euro assinem uma
espécie de "contrato" com a Alemanha, a fim de cumprirem os
seus compromissos?
A Sra. Merkel já tinha lançado a ideia de "contratos"
na política económica algumas semanas antes. Mas é uma
ideia basicamente defeituosa nos seus princípios. A política
económica deve ser decidida por uma comunidade, com um Parlamento que
aprove receitas e despesas, num país ou numa federação de
países. É esta a base e a origem da democracia. Não
há lugar para relações contratuais. Tentar copiar o
direito privado neste domínio é uma receita para o fracasso. Na
verdade o que vemos aqui é uma tentativa de transformar uma coisa
profundamente política numa coisa "técnica". Mas o
facto é que esta despolitização da política
económica contém uma terrível ameaça para a
Democracia. Num estado federal pode haver directrizes comuns para a
política económica, mas com uma forte solidariedade em troca. A
Alemanha, por exemplo, ou os Estados Unidos, são estados federais e
é sabido que o orçamento federal é de longe o mais
importante em comparação com os orçamentos dos respectivo
estados. O orçamento de Bruxelas, ou seja o orçamento comum da
UE, mal chega a 1,26% do PIB da União Europeia. É demasiado
reduzido para ser classificado como um orçamento "federal".
Seria necessário pelo menos um orçamento de 10% a 12% do PIB. A
curto prazo seria necessário uma grande transferência do
orçamento de Norte para Sul, num total de cerca de 300 mil
milhões de euros por ano. Esta quantidade de dinheiro teria que ser
suportada pelos países do norte da Europa. Mas sabemos que isso
implicaria uma carga demasiado pesada mesmo para a Alemanha: cerca de 8% a 12%
do PIB. Seria o suficiente para dar cabo da economia alemã. Portanto,
não vale a pena pedirmos à Alemanha um montante desses nem
queixarmo-nos de que a Alemanha não quer pagar. A Alemanha não
pode pagar. Portanto, por detrás dos discursos sobre
"contratos" estamos a ver a verdade nua e crua: a Alemanha
está apenas a tentar impor a sua vontade aos outros países. O que
a Alemanha não conseguiu fazer pela força bruta, por duas vezes
no século XX, está a tentar fazê-lo agora através de
meios económicos.
- Qual é o futuro da Zona Euro se continuarmos com os cortes
orçamentais e os programas de austeridade?
Claro que o futuro da Zona Euro é sombrio. Temos que olhar para o seu
começo. O euro não podia funcionar com países tão
diferentes incluídos na zona. O nível de heterogeneidade era
demasiado grande. Levantam-se várias questões. Primeiro, a da
inflação, com a presença de taxas de
"inflação estrutural" muito diferentes entre
países. Em segundo lugar, o facto de a taxa dos ganhos de produtividade
ser extremamente diferente entre países. Em terceiro lugar, as
diferenças na demografia eram importantes, com uma demografia estagnada
nalguns países e muito mais expansiva noutros. Estas diferenças
induziam necessidades diferentes para o crescimento económico. Estas
questões eram bem conhecidas no início da Zona Euro em 1999. Mas
os economistas e os políticos, na ânsia de conseguirem a
"moeda única", desprezaram-nas
[1]
ao pretenderem que a criação da Zona Euro, por si só,
levaria a algum crescimento. Estamos hoje a pagar o preço desses erros,
que no entanto foram denunciados por alguns economistas
[2]
.
Os cortes orçamentais e as medidas de austeridade estão
evidentemente a agravar esta situação e estão a mergulhar
uma série de países numa profunda crise. É importante
recordar que os efeitos da austeridade foram profundamente subestimados a
partir de 2012. Nessa altura, o credo económico "liberal" era
que podíamos ter uma forte redução das despesas
públicas
juntamente
com crescimento. Claro que estava errado. O FMI reconheceu este facto
[3]
. Foram apresentadas dúvidas em 2010 pelo menos e mesmo antes
[4]
. A austeridade apenas está a precipitar os países na grande
armadilha da depressão.
Podemos ver isso no Gráfico 1:
O desemprego continua a aumentar em todos os países do "Sul"
(Espanha, Itália), incluindo a França. Mas é preciso dizer
que, mesmo com uma política económica mais suave, o futuro da
Zona Euro continuaria a ser sombrio. Mesmo que a Alemanha decidisse aliviar o
colete-de-forças da austeridade, isso não curaria os defeitos
básicos da moeda comum, que são bem conhecidos dos economistas a
nível mundial. Estamos perante uma morte rápida ou uma longa
agonia, mas o resultado final será o mesmo. Agora é totalmente
impossível fazer com que o euro funcione em todos os países.
- Há uns dias o Centro para a Política Europeia (Freiburg)
afirmou que a Grécia não tem possibilidade de pagar as suas
dívidas e que a sua credibilidade está a diminuir rapidamente. O
que é que isso significa para si?
Não me surpreende. Eu disse, no Outono de 2011, que a Grécia
não podia nem iria pagar as suas dívidas. Disse isso outra vez
depois da primeira avaliação. Já tivemos várias
avaliações, mas com que resultado? A dívida grega continua
insustentável. Dizer o contrário é uma total
irresponsabilidade. Assim, há duas soluções
possíveis, ou uma forte inflação (possivelmente aliada a
uma saída da Zona Euro) ou um incumprimento. A primeira hipótese
seria melhor. No entanto, quanto mais depressa chegarmos a essa realidade,
melhor será para toda a Europa. A dívida grega está
rapidamente a chegar a um beco sem saída sob o chamado regime da
"Troika".
- A saída da Zona Euro é um cenário realista? Quais seriam
as consequências na economia real e na vida social?
Mais uma vez, eu disse em 2010 que a saída da Zona Euro com uma grande
desvalorização, seria a melhor opção para a
Grécia. Claro que haveria algum sofrimento económico neste
processo mas muito menor do que o que está a ser imposto actualmente ao
povo grego, e sem qualquer resultado. Os investimentos estão muito
abaixo do nível do ano 2000, o que está a comprometer o futuro a
longo prazo.
Não é apenas o capital material, que neste momento não
está a ser substituído ao mesmo nível de 2000, mas
também o capital humano. É preciso saber que a
situação da saúde está a deteriorar-se rapidamente
na Grécia. A revista médica
The Lancet
escreve:
"O custo de ajustamento está a ser suportado principalmente pelos
cidadãos gregos comuns. Estão a ser sujeitos a um dos programas
mais radicais de redução de despesas com a segurança
social nos últimos tempos o que, por sua vez, afecta a saúde da
população. No entanto, apesar desta clara evidência, tem
havido pouco consenso sobre o papel causal da austeridade. (
) Perante
este pormenorizado conjunto de evidências quanto aos efeitos prejudiciais
da austeridade sobre a saúde, é espantosa a falta de
reconhecimento público desta questão por parte dos sucessivos
governos gregos e das agências internacionais. Com efeito, a
reacção predominante tem sido negar que existem quaisquer
dificuldades sérias, embora essa reacção não seja
exclusiva da Grécia; o governo espanhol também tem sido relutante
em reconhecer o prejuízo causado pelas suas políticas"
[5]
Com uma grande desvalorização, o sofrimento da
população teria sido muito menor e num período mais curto.
A indústria e a agricultura gregas recuperariam a sua competitividade e
as exportações, que eram bastante significativas antes de 2004,
mais que equilibrariam a balança de importações. A
restrição às importações não seria a
única forma de equilibrar o comércio externo. Isso teria
consequências muito benéficas no crescimento do PIB. O aumento do
PIB tem sido calculado em pelo menos +15% nos primeiros dois anos depois da
saída do euro e da desvalorização
[6]
, o melhor resultado para qualquer país da Zona Euro. Os resultados
finais podem atingir +25% ou +35% nos primeiros cinco anos depois da
desvalorização.
- E quanto às consequências para o resto da Zona Euro?
Conforme já lhe disse, a Zona Euro está condenada, façamos
o que fizermos, porque foi mal concebida. Se a Grécia tivesse
saído do euro em 2010 ou 2011, isso teria incapacitado a Zona Euro de
imediato. Mas teria sido um mal muito menor do que a actual
situação. Claro que alguns bancos estrangeiros teriam enfrentado
dificuldades. Mas actualmente estão a enfrentar dificuldades ainda
piores por causa duma economia em estagnação. Se a Grécia
saísse agora, seria um choque grave para a estrutura frágil da
Zona Euro.
- O mecanismo de vigilância dos bancos é suficiente para controlar
a banca "paralela" e as práticas especulativas que provocaram
a actual crise?
A chamada "união da banca" terminou na situação
mais ridícula, em que uma série de bancos (na Alemanha) ficaram
fora desta supervisão e o orçamento necessário não
estará disponível antes de 2025. Mas a história da
"união da banca", com todas as suas negociações
e negociatas que acabaram por não chegar a parte alguma, ensinou-nos uma
lição. A Alemanha está a fazer tudo para evitar ter que
pagar por outros países. Nenhum país (a França inclusive)
está disposto a abandonar o seu poder regulador quando se trata de
dinheiro. É pena que, segundo parece, ninguém tenha percebido
esta lição.
- Afirmou que uma Europa Federal é menos provável do que uma
invasão de marcianos na Terra. Como explica isso?
Como estão a chegar as "eleições europeias",
há muita gente numa série de partidos políticos que anda a
falar duma "Europa Federal" e a defender fazer agora o que não
fez durante mais de 20 anos. Isso é pura fantasia, é como apostar
numa invasão de marcianos. Podemos considerar essa fantasia como uma
espécie de ilusão egoísta ou como uma espécie de
mentira descarada. Algumas dessas pessoas andam a entreter-se com sonhos mas
não analisaram seriamente as condições reais para os
realizar. Outras pessoas nunca tiveram e continuam a não ter qualquer
intenção de construir uma "Europa Federal". O que tem
sido uma fantasia continua uma fantasia. Os países que foram aceites
recentemente na UE não querem ajudar os outros. O Norte não quer
ajudar o Sul. A ideia duma "Europa Federal" está morta.
Vivemos num mundo de Nações e temos que aceitar esta realidade.
Recorde-se que o Airbus e o Ariane, frequentemente gabados como
realizações "europeias", foram na realidade resultado
de cooperação internacional decidida através de
decisões inter-governamentais. Nos últimos 25 anos fomos
incapazes de definir mecanismos para uma verdadeira cooperação e
integração a não ser cooperação
internacional. Talvez os marcianos conseguissem
03/Março/2014
[1] Encontramos um bom exemplo deste erro em Rose, A.K. (2000), "One
money, one market: the effect of common currencies on trade",
Economic Policy,
Vol. 30 pp. 7-45 et Rose, Andrew K., (2001), "Currency unions and trade:
the effect is
large,"
Economic Policy
Vol. 33, 449-461.
[2] Bun, M., Klaasen, F. (2007), "The euro effect on trade is not as large
as commonly thought",
Oxford bulletin of economics and statistics,
Vol. 69: 473-496. Berger, H., Nitsch, V. (2008), "Zooming out: the trade
effect of the euro in historical perspective",
Journal of International money and finance,
Vol. 27 (8): 1244-1260. Flam, H., Nordström, H. (2006), "Trade
volume effects of the euro: aggregate and sector estimates",
IIES Seminar Paper No. 746.
Baldwin R. (2006) "The euro's trade effects"
ECB Working Papers,
WP n°594, Francfort. Baldwin R. et al. (2008), "Study on the Impact
of the Euro on Trade and Foreign Direct Investment",
Economic Paper,
European Commission, n° 321. Ver também, Kelejian, H. & al.
(2011), "In the neighbourhood: the trade effetcs of the euro in a spatial
framework",
Bank of Greece Working Papers,
136.
[3] O. Blanchard et D. Leigh, "Growth Forecast Errors and Fiscal
Multipliers",
IMF Working Paper,
WP/13/1, FMI, Washington D.C., 2013
[4] A. J. Auerbach et Y. Gorodnichenko "Measuring the Output Responses to
Fiscal Policy",
American Economic Journal: Economic Policy
2012, Vol. 4, n° 2, pp 127. L. Christiano, M. Eichenbaum, et
S. Rebelo," When Is the Government Spending Multiplier Large?",
Journal of Political Economy, Vol. 119, No. 1 (Février 2011), pp. 78-121.
[5] Fonte: Alexander Kentikelenis, Marina Karanikolos, Aaron Reeves, Martin
McKee, David Stuckler, "Greece's health crisis: from austerity to
denialism",
The Lancet
Vol 383, February 22, 2014, pp. 748-753, p. 751,
www.thelancet.com
.
[6] Sapir J, Murer P. et Durand C.,
Les scenarii de dissolution de l'Euro
, Fondation ResPublica, Paris, 2013.
Ver também:
Yannis Varoufakis: "Il aurait mieux valu que la Grèce fasse faillite"
[*]
Economista.
O original encontra-se em
russeurope.hypotheses.org/2033
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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