A troika transforma a recessão em depressão
Salvamento ou afogamento?
Seis anos de recessão, a queda dramática do PIB de 231 mil
milhões, em 2009, para 193 mil milhões de euros, em 2012, uma
taxa de desemprego de 27% (passa de 7,5% para 26,9% entre o segundo trimestre
de 2008 e abril de 2013), de 57% para os cidadãos com menos de 25 anos,
e uma explosão de suicídios... a paisagem da Grécia
é catastrófica e alarmante para o resto da Europa. Como na
Argentina, em 2001, as crianças desaparecem dos bancos da escola por
falta de alimentação. Há um aumento dos casos de HIV, numa
altura em que os gastos com a saúde caíram mais de 20% em dois
anos (passaram de 7,1% do PIB, em 2010, para 5,8%, em 2012). Entretanto, o
partido nazi Aurora Dourada, com representação parlamentar,
aproveita a decadência social para espalhar o ódio. Os credores
transformaram a recessão numa depressão e a Troika (UE - FMI -
BCE) ensombra cada vez mais a situação.
A nova solução do FMI para salvar o seu plano
Todo o trabalho da troika é feito com base numa taxa de dívida
pública de 124% do PIB, em 2020. Acreditando que tudo se
desenrolará de acordo com esse objetivo irrealista, o Fundo
Monetário Internacional (FMI) aplica-se a retificar o tiro para manter a
linha de mira. Deverá a população grega aceitar um
horizonte macroeconómico, que não tem minimamente em
consideração o seu bem estar?
Esquecido o entusiasmo em relação à redução
do défice externo, o último relatório do FMI sobre a
Grécia, divulgado no final de julho de 2013, confirma que a
população grega vive estrangulada pelo peso duma dívida
pública, que não para de aumentar. A redução
conseguida em 2012, situando a dívida "apenas" nos 156,9% do
PIB, contra os 170,3% do ano anterior, é totalmente anulada por uma taxa
que ronda, em 2013, os 176% do PIB.
[1]
Embora reconhecendo, por meias palavras, a sua derrota clamorosa na
Grécia, a instituição de Washington reafirma ter a
solução... Com base em previsões de crescimento, que
estão constantemente a ser revistas em baixa, o cenário
"otimista" baseia-se numa recuperação imaginária
das exportações, do investimento e do consumo, com o objetivo de
atingir a famosa meta da dívida de 124% do PIB, em 2020, antes de chegar
aos 110%, em 2022, a verdadeira obsessão do FMI. No entanto, essa taxa
da dívida pública será, apenas, ligeiramente inferior
à taxa alcançada, onze anos antes, em 2009, quando se situava nos
129,7% do PIB. Tudo previsões com base em suposições,
portanto!
É do conhecimento público que as políticas
económicas, implementadas, há três anos, pela troika,
têm falhado de forma escandalosa, sufocando cada vez mais a
população. O FMI deverá, no entanto, encontrar novas
fontes de financiamento, para além daquelas já previstas no seu
plano de austeridade (receitas de privatizações,
redução de despesas através de cortes nos gastos sociais,
etc.), para que o país possa pagar aos credores. De facto, o FMI estima
que as finanças públicas da Grécia vão precisar, em
2014 e 2015, de mais cerca de 11 mil milhões de euros para satisfazer as
suas necessidades de financiamento. Mais precisamente de 4,4 mil milhões
de euros, no final de 2014, e de 6,5 mil milhões, em 2015. O Estado
é obrigado a pagar aos credores que concederam linhas de crédito
astronómicas, quaisquer que sejam os resultados.
Mas há mais: de acordo com o FMI, será necessária uma nova
redução parcial da dívida pública grega, dentro de
dois anos, para que a dívida possa baixar, como planeado pela
instituição, até aos 124% do PIB, em 2020. Essa
redução seria da ordem dos 4% do PIB, ou seja, cerca de sete mil
milhões de euros, a cargo dos parceiros europeus. Claro e como de
costume, fazendo com que as medidas propostas garantam o sucesso do dito
"resgate". Para além da troika e do governo grego, quem
é que ainda acredita na sua eficácia?
Golpe de teatro e chamada à ordem
Em 29 de julho de 2013, o comité executivo do FMI reúne-se para
aprovar o pagamento de uma nova tranche de 1,72 mil milhões de euros
(2,27 mil milhões de dólares) à Grécia. Uma das
condições do empréstimo é a
implementação de um plano de redução do setor
público, que permite o despedimento de 4.200 funcionários
públicos.
[2]
. Episódio inesperado, o brasileiro, Paulo Nogueira Batista, que
representa 11 países da América Central e do Sul,
[3]
abstém-se. "Os recentes desenvolvimentos na Grécia
confirmam os nossos piores receios. (...) A implementação [do
programa de reformas] foi decepcionante em quase todas as áreas. As
estimativas de crescimento e sustentabilidade da dívida foram demasiado
otimistas, disse.
Apesar de o voto de 11 países da América Central e do Sul
não alterar a correlação de forças em
relação aos Estados Unidos, que mantêm o seu poder de veto
desde a criação da instituição os
países em causa possuem apenas 2,61% do poder de veto, contra os 16,75%
dos Estados Unidos - o caso abanou a habitual sonolência que caracteriza
as reuniões. O ministro brasileiro das Finanças, Guido Mantega,
deu garantias à diretora do FMI, Christine Lagarde, em
relação ao sucedido: a situação não
voltará a acontecer, o Brasil apoia o FMI, o representante brasileiro
não foi mandatado para se abster.
[4]
O ministro interpelou "de imediato" o seu representante
no sentido de justificar o sucedido... Em vez de ter adotado uma atitude de
submissão, incidente diplomático à parte, o Brasil, se o
governo quisesse, poderia ter enfrentado o FMI, na medida em que não lhe
deve nada. De notar que a abstenção interessada de Paulo Nogueira
Batista refere o receio de a Grécia não reembolsar o
empréstimo concedido pelo FMI e não um desejo de justiça e
de ajuda desinteressada à Grécia.
Um salvamento
até ao afogamento?
Convém compreender que a troika, com o seu "resgate" à
Grécia, quer, na realidade, impor uma cura liberal radical, endividando
cada vez mais o Estado com o objetivo de silenciar definitivamente os poderes
públicos. Assim, esta nova tranche do FMI faz parte de um plano mais
alargado de endividamento da Grécia em relação a troika.
De facto, a Grécia recebeu, a 31 de julho, uma tranche de 4 mil
milhões de euros, concedida pelas autoridades europeias: 2,5 mil
milhões de euros concedidos pela zona euro através do Fundo
Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) e um empréstimo de 1,5 mil
milhões, que vence em 2048, concedido pelo Mecanismo Europeu de
Estabilidade (MEE), chamado a prazo a substituir o FEEF, gerado pelos bancos
centrais dos países europeus, com o objetivo de restituir a Atenas os
juros da dívida grega. Por outras palavras, uma parte dos juros que a
Grécia pagou aos países da UE, no âmbito do memorando de
2010, ser-lhe-á restituída sob a forma de empréstimo. A
Europa liberal será cínica ao ponto de cobrar juros sobre os
juros pagos pela Grécia? Estes empréstimos são odiosos,
porque, para além de violarem os direitos humanos, são
remunerados a taxas muito elevadas (cerca de 5%). Quando a Alemanha e a
França se financiam, a 10 anos, a 2%, enriquecem ao emprestarem a 5%
à Grécia.
Na sequência do encerramento da televisão pública grega
[5]
descobre-se, entre as condições dos empréstimos, uma nova
lei sobre a função pública, adotada a 18 de julho, poucas
horas antes da visita a Atenas do ministro alemão das Finanças,
Wolfgang Schäuble visita que transformou o centro de Atenas numa
"terra de ninguém" vigiada pela polícia.
Essa lei prevê o despedimento em massa de funcionários, violando
abertamente a Constituição grega, e sacrifica milhares de
funcionários que terão de trabalhar durante oito meses com
salário reduzido, antes de aceitarem uma nova proposta salarial, sob
pena de irem para a rua. Ao todo, 4.200 pessoas foram afetadas: policiais
municipais, professores, auxiliares... Uma lei sobre a reforma do código
tributário, adotada de urgência, a 25 de julho de 2013,
complementa a lei aprovada em 18 de julho. Uma magra compensação
foi, entretanto, conseguida pelo governo junto da troika: a
redução temporária de 10 pontos na taxa do IVA sobre a
restauração, 13% contra 23% há mais de um ano.
Além disso, entre outras medidas, a Troika pretende privatizar os
serviços públicos de transporte de longa distância, as
empresas de gestão de água e saneamento em Atenas (EYDAP) e
Salónica (EYATH), a companhia do gás (DEPA), a maior empresa de
refinação e distribuição de petróleo (ELPE,
Hellenic Petroleum SA), a lotaria nacional, a organização grega
de previsões de futebol (OPAP)...
Depois dos sucessivos fracassos na resolução da crise
asiática (Tailândia, Indonésia e Coreia do Sul), em 1997, e
noutros locais, o FMI continua a sua cruzada contra a soberania dos povos na
Europa, onde a Grécia é o seu laboratório experimental. As
últimas declarações do FMI, no sentido de reduzir as
políticas de austeridade, não valem nada e, sob o pretexto de
reduzir a dívida, a instituição de Washington está
pronta para o pior, sob o olhar ávido do partido nazi grego. Para
iniciar uma viragem em defesa do povo grego, é preciso anular a
dívida da Grécia em relação à troika, porque
é odiosa
[6]
. É preciso anular também as outras dívidas
ilegítimas e revogar todas as medidas anti-sociais impostas desde 2010.
A troika, que mergulha a Grécia numa crise humanitária assassina,
deve sair de cena o mais depressa possível.
Notas
[1]
Relatório do FMI, julho de 2013:
www.imf.org/...
[2]
Brazil Summons IMF Rep Home After Abstention on Greece Debt Vote.
David Biller, Sandrine Rastello, Bloomberg, 1 agosto de 2013.
www.bloomberg.com/...
[3]
Este grupo, presidido pelo Brasil, é composto também por
Cabo-Verde, República Dominicana, Equador, Guiana, Haiti,
Nicarágua, Panamá, Suriname, Timor-Leste, Trinidad e Tobago.
[4]
"[MrNogueira Batista] did not consult the government, nor was he
authorised by us to vote in this manner and the finance minister has ordered
him to return to Brazil immediately to explain himself"
Brazil's finance ministry said.
[5] Comunicado de Imprensa do CADTM, 14 junho de 2013,
Grécia, demonstração de força do governo e da
troika.
cadtm.org/Grecia-demonstracao-de-forca-do
{6] Renaud Vivien, Éric Toussaint,
Grèce, Irlande et Portugal: pourquoi les accords conclus avec la
Troïka sont odieux?
cadtm.org/Grece-Irlande-et-Portugal-pourquoi
O original encontra-se em
cadtm.org/Grece-La-troika-transforme-la
. Tradução de Maria da Liberdade.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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