A luta anti-imperialista é anticapitalista
Queridos camaradas,
Gostaríamos de vos agradecer por acolherem este encontro num país
e numa região que sofre desde há anos e, também,
nos últimos dias , já que a intervenção e a
invasão imperialistas são elementos quase permanentes, que
registam todos os níveis de barbaridade e autoritarismo. A Grécia
também faz parte desta região e por isso sentimos sempre como
nosso dever, não só expressar a nossa solidariedade
internacionalista mas também considerar seriamente os acontecimentos,
que têm igualmente impacto no nosso país - país capitalista
plenamente assimilado pelos objetivos estratégicos da UE, da NATO dos
Estados Unidos, com o acordo assumido da grande maioria das forças
políticas. Condenámos o acordo estratégico assinado entre
a Grécia e Israel por, sem qualquer dúvida, não ter nada a
ver com os interesses comuns dos povos mas, sim, com os objetivos antipopulares
da burguesia, tanto do nosso país como de Israel. Trata-se de uma
cooperação estratégica, tanto militar como
económica, que tem como objetivo a participação na luta
incondicional e implacável pelos recursos energéticos e os
recursos da região em geral. A Grécia está disposta a dar
o seu contributo nas intervenções militares, sobretudo se Israel
decidir atacar o Irão. De facto, estão a realizar-se
exercícios conjuntos com Israel que incluem exercícios
idênticos às operações militares contra a
Síria ou contra o Irão.
Não é por acaso que o governo grego não expressou
formalmente qualquer simpatia pelo martirizado povo palestiniano, que
está mais uma vez a ser bombardeado, enquanto os restantes partidos da
oposição se mantêm basicamente em silêncio.
Apesar de a região ter vindo a sofrer durante muitos anos a
intervenção imperialista multifacetada em proveito dos governos e
dos regimes reacionários, a situação que vivemos nos
últimos anos e hoje em dia está, contudo, diretamente relacionada
com o desenvolvimento da profunda e prolongada crise económica
capitalista na zona euro, que tem um impacto directo tanto a nível
mundial como nos centros e potências imperialistas estabelecidas e
emergentes.
A crise que estamos a viver que teve como ponto de partida os Estados
Unidos é a continuação da crise que estalou em
finais da década de 1990 nos chamados tigres asiáticos, na
Rússia e em países da América Latina. A
recuperação que ocorreu não atingiu as taxas anteriores.
Não excluímos a possibilidade de uma recuperação
anémica, que será seguida de uma crise mais profunda e
sincronizada na UE, nos EUA e no Japão.
O sistema capitalista não pode gerir a crise com a mesma facilidade com
que o fazia antes. Não pode gerir as consequências da pobreza e da
indigência como o fazia antes. Claro, isto não significa que o
sistema vá entrar em colapso por si mesmo, devido às suas
contradições, a menos que se forme em cada país um
poderoso movimento operário, capaz de levar a cabo um assalto geral e de
estar preparado para quando ocorrer a situação
revolucionária, ou quando se apresente como iminente. O movimento
revolucionário não brotará de repente; está a ser
preparado, está a ser educado, está a adquirir experiência
nas lutas diárias.
O estouro da generalizada e sincronizada crise económica capitalista
pôs em relevo o caráter historicamente antiquado e inumano do
sistema capitalista contemporâneo, a atualidade e a necessidade do
socialismo, a necessidade do reagrupamento do movimento comunista
internacional.
A questão é a de saber que movimento operário, que
movimento popular pode avançar na dura vereda cheia de curvas, subidas e
descidas, sem ficar preso, sem degenerar? A experiência anterior e a
recente proporcionou-nos uma grande quantidade de exemplos sobre esse perigo.
Que movimento operário e popular se levantará contra a
agressividade imperialista, abrirá uma frente contra a guerra e a paz
imperialistas para que os povos não derramem o seu sangue pelos
interesses dos imperialistas?
A linha para o fortalecimento do movimento operário, da sua
aliança com os setores populares, só pode ser testada se se
preparar e travar batalhas diariamente no caminho da luta emancipadora, com
objetivos antimonopolistas e anticapitalistas, a nível nacional e em
termos de cooperação internacionalista e ação
conjunta.
Hoje em dia, o patriotismo contemporâneo expressa-se com a luta pelo
derrube do capitalismo, pelo socialismo. Nenhum país capitalista, por
muito avançada que seja a democracia parlamentar, pode garantir a
independência nacional do seu povo, o respeito pelos direitos soberanos,
exceto num sentido meramente formal e sem conteúdo substancial.
Acompanhamos de perto as reflexões e os debates no movimento comunista
sobre o imperialismo, a estratégia do movimento, as
acusações dirigidas contra a política liberal de
gestão do sistema capitalista. Em nossa opinião, tal como
é importante dar passos e progredir na atividade prática, no
esforço para reunir amplas massas populares e operárias, é
igualmente importante esclarecer questões sérias da ideologia e
da teoria, que têm que ver com a estratégia e a tática do
movimento contra o imperialismo.
A linha política que, hoje, predomina a nível mundial não
é simplesmente uma receita de gestão liberal, como se costuma
afirmar. Independentemente de certas diferenças entre as receitas
liberais e social-democratas, elas consubstanciam a estratégia
contemporânea a favor dos monopólios, que foi elaborada depois da
crise de 1971-1973, como uma resposta ao problema da tendência
decrescente da taxa de lucro em condições de antagonismo
imperialista, enquanto o desenvolvimento desigual se agudizava, pois é
inerente ao sistema capitalista internacional.
Uma componente da política contemporânea a favor dos
monopólios é a força de trabalho barata, as
reestruturações reacionárias, as
"liberalizações", as privatizações, a
intervenção imperialista e a guerra pela
redistribuição dos mercados.
Esta política a favor dos monopólios foi e continua a ser seguida
por forças governamentais burguesas liberais e social-democratas, assim
como por governos do centro-esquerda, nos últimos trinta anos.
Começou nos Estados Unidos e Grã-Bretanha, estendendo-se de
imediato à UE. No século XX, tanto a gestão liberal como a
gestão
keynesiana
não puderam, nem podem, eliminar a crise económica e a guerra
imperialista.
Uma questão fundamental é convencer a maior parte possível
da classe operária, do povo trabalhador, sobre o verdadeiro
carácter da crise, como uma crise de sobre-acumulação na
base da propriedade capitalista e da exploração de classe;
confrontar com argumentos o esforço sistemático de desinformar e
ocultar, para encobrir as verdadeiras causas e os fatores da crise, as teorias
sobre o "capitalismo de casino", a teoria de que a crise se deve
exclusivamente ao sistema financeiro, ao "consumo excessivo", assim
como ao seu contrário, ao "subconsumo".
O movimento operário e os seus aliados não devem ficar presos nas
diversas fórmulas de gestão da crise que aparecem hoje na UE e a
nível internacional, porque não existe uma fórmula de
saída da crise a favor do povo. Todas as fórmulas que foram
claramente expressas assentam na força de trabalho barata, afetam um
grande número de sectores pequenos e médios e apoiam as
reestruturações capitalistas.
Hoje em dia há um intenso debate e existem sérios desacordos
entre os estados membros da UE, entre setores da burguesia de cada país,
entre os partidos políticos burgueses, sobre se uma quebra controlada
é solução, sobre se a zona euro deve permanecer intacta,
sobre se a UE deve transformar-se numa federação que
possivelmente levará à expulsão de alguns Estados, etc.
Além disso, círculos políticos burgueses e empresariais
fomentam a teoria de que a saída da zona euro ou mesmo da UE ajudaria um
governo burguês a libertar-se dos compromissos da moeda única, a
imprimir o seu próprio dinheiro, a atrair investidores que apostam numa
moeda nacional barata, etc.
Esta posição tem um carácter de classe, na medida em que
é promovida por sectores da burguesia e especuladores, não tem
nada que ver com a posição de classe do KKE sobre o poder
operário e popular, a saída da UE, o cancelamento unilateral da
dívida e a socialização dos monopólios, ou sobre as
cooperativas populares de produção agrícola que estejam
integradas em certa medida na planificação central.
As forças oportunistas que tomam uma posição contra a
receita alemã, apoiam o relaxamento da política fiscal e a
falência controlada, assim como a ideia de que existe um programa de
transição política, de luta e poder, que pode equilibrar
os interesses dos monopólios e do povo trabalhador. Tal programa
governamental que tem resultados favoráveis tanto para os
monopólios como para os povos nunca existiu em lugar algum, nem existe
hoje, isto é, no sentido de ter sido confirmado no âmbito nacional
ou num grupo de países. Não é por casualidade que
não se menciona nem um país como exemplo da
aplicação desta opção.
Estamos num período em que as contradições
interimperialistas, em crise profunda, estão a empurrar setores da
burguesia, toda a burguesia de um ou outro país, para decidir se
permanecem num campo imperialista ou se vão para outro, para decidir ao
lado de que potência imperialista lhes convém estar. Além
disso, nas alianças imperialistas produzem-se realinhamentos
é um assunto fluido o que, em nossa opinião, está
também relacionado com a região mais ampla do Mediterrâneo
Este e mesmo do Norte de África.
A identificação do movimento operário e dos seus aliados
com uma ou outra fórmula de gestão, com uma ou outra
potência imperialista, significa submissão e alistamento sob uma
bandeira alheia. Vejamos como são as coisas na zona euro.
A burguesia alemã e a burguesia francesa enfrentam dilemas sérios
quanto ao futuro da zona euro. Apesar das suas contradições,
chegaram a um frágil compromisso temporal, como aconteceu no passado,
que não alivia a barbaridade das medidas antitrabalhadores e das
reformas reacionárias, e que também não nega as causas da
agudização das contradições interimperialistas.
A tendência dominante da burguesia alemã coloca como prioridade o
fortalecimento do euro, a estabilidade monetária, e recusa assumir o
custo da depreciação do capital nos países altamente
endividados. Uma segunda tendência que se está a fortalecer na UE
é a que quer manter intacta a zona euro, para que o mercado europeu
não se contraia perante o duro antagonismo internacional. Uma terceira
tendência questiona a forma actual da zona euro no seu conjunto e
dá prioridade à aproximação ao eixo
China-Rússia.
Os governos burgueses, os partidos liberais e social-democratas, assim como os
chamados partidos da esquerda, da renovação, alinham atrás
das forças que expressam as contradições e procuram
absorver o movimento operário e os seus aliados para uma ou outra
versão de gestão que, esquematicamente, se caracterizam como
restritiva e como expansiva.
Estamos certos de uma coisa, sem subestimar as dificuldades que as
ilusões e as visões utópicas trazem ao fortalecimento do
movimento: que, objetivamente, cada vez mais sectores da classe operária
entrarão em conflito com as soluções burguesas de
gestão, que procuram controlar a extensão da
depreciação do capital e a distribuição do
prejuízo entre os seus diferentes setores.
Os partidos comunistas e a vanguarda radical não devem perder a
independência de julgamento e ação face aos vários
blocos que estão do lado de uma ou outra potência imperialista,
com um sector da burguesia contra outro, a favor dos estratos médios
altos.
O carácter anticapitalista e antimonopolista da luta tem de se
fortalecer e é a partir deste ponto de vista que se deve tratar os
compromissos e a dependência que sofrem os países e os povos que
estão integrados nas uniões imperialistas como a NATO e a UE.
O caráter do patriotismo contemporâneo coincide com o derrube do
poder burguês e da propriedade capitalista dos meios de
produção e a saída de qualquer coligação
interestatal capitalista e aliança imperialista.
Portanto, a chamada frente antialemã ou a frente antiamericana, ou seja,
contra os Estados Unidos, não pode, por si só, expressar ou fazer
frente à luta contra o imperialismo, contra as consequências da
crise. Também não devemos ignorar que o capitalismo monopolista,
ou seja, o imperialismo, determina o destino e o curso dos estados que
não pertencem organicamente a uniões imperialistas. Hoje
não existem países que não estejam ligados, de uma maneira
ou de outra, ao sistema global e regional do imperialismo, quer dizer, ao
mercado capitalista mundial, aos seus mercados regionais. A via do
desenvolvimento capitalista é a via que conduz à mais fraca, ou
mais estreita, assimilação no sistema do imperialismo e, por esta
razão, a luta anti-imperialista é anticapitalista, dado que nos
encontramos na fase imperialista do capitalismo.
Os povos não se tornam mais combativos quando se deixam influenciar por
opiniões que separam a política imperialista do capitalismo
monopolista, quando identificam o imperialismo só com as
relações internacionais desiguais, com a
intervenção imperialista e a guerra, ou seja, quando separam as
contradições internas das interimperialistas.
O Partido Comunista deve ter um papel dirigente na organização
independente da resistência operária e popular em todas as suas
formas, para que a resistência se ligue à luta pela derrota
completa da burguesia, doméstica e estrangeira, como um invasor, para
ligar na prática a luta contra a guerra à tomada do poder. Por
iniciativa e com a direção do Partido deve-se formar uma frente
operária e popular sob o lema: o povo proporcionará a liberdade e
a saída do sistema capitalista, que, enquanto predomina, traz a guerra e
a paz com uma pistola na cabeça do povo.
Hoje, na Grécia, apoiamos a Aliança Popular, que expressa os
interesses da classe operária, dos semiproletários, dos
trabalhadores autónomos pobres e dos camponeses, assim como dos
intelectuais que trabalham por conta própria que, ainda que tenham maior
liberdade do que os trabalhadores assalariados, se converterão cada vez
mais em assalariados em grandes empresas capitalistas, com baixos rendimentos,
ou em desempregados ou semidesempregados. Deste ponto de vista, repudiamos todo
o apoio às forças políticas que apoiam uma ou outra
fórmula de gestão.
Hoje, na Grécia, são levados a cabo processos de reforma do
sistema político, pois o sistema de alternância
bipartidária da ND liberal e do PASOK social-democrata já
não funciona mais, sobretudo devido à desintegração
do PASOK. Uma grande parte do aparelho do PASOK, de setores da aristocracia
operária e do sindicalismo pactuante, de sectores das camadas
médias que operavam como satélites dos monopólios e geriam
uma parte dos subsídios da UE mudaram de partido, transferiram-se para o
SYRIZA, que se está a transformar de um partido oportunista no sucessor
da social-democracia, mantendo algumas consignas, a fim de manter o seu perfil
de esquerda comunista renovada.
O KKE resistiu à grande pressão que foi exercida para tomar parte
num governo com o SYRIZA no seu núcleo, ou seja, num governo cujas
posições programáticas teriam uma clara
direção de apoio ao desenvolvimento capitalista, com
contradições que determinam de antemão a sua plena
assimilação quando se converte em maioria governamental. Esta
posição trouxe um custo eleitoral mas não privou o partido
da sua capacidade de, depois das eleições, mobilizar e organizar
as massas populares. É um legado para o futuro, para um movimento que
evitará as armadilhas perigosas e os erros que podem prejudicar os
interesses populares e que finalmente o esmagariam por um longo e crucial
período de tempo.
O KKE deixou clara a sua posição desde o início das
mobilizações nos países do Norte de África, assim
como do início do conflito armado na Síria. Qualquer que tenha
sido a participação popular, em particular no Egipto e na
Tunísia, expressou certamente os problemas populares do povo, os
direitos dos trabalhadores, o desejo de uma mudança da linha
política. Mas não podemos fechar os olhos ao facto de que foram
provocados ou utilizados pelas fortes potências imperialistas,
encabeçadas pelos Estados Unidos e seus antagonistas, pelo controlo dos
recursos naturais, a fim de mudar o governo por forças que eles melhor
podiam controlar. Dissemos claramente que foi parte de um plano que
Bush tinha proclamado como de "democratização" dos
países e do mundo árabes. Os acontecimentos na Síria
têm as suas raízes nos problemas económicos, sociais e
políticos que a classe operária e as outras camadas sociais
estão a viver. Mas nós opomo-nos a qualquer tentativa de uma
intervenção imperialista dos Estados Unidos, da UE, da NATO, de
Israel, da Turquia, do Qatar, da Arábia Saudita. Temos mostrado ao povo
grego que os EUA, a UE e Israel estão interessados em desestabilizar e
debilitar a correlação de forças no regime burguês
sírio, porque a sua liderança é uma aliada da Palestina e
do Líbano, opõe-se às posições e aos planos
imperialistas dos EUA, da NATO e de Israel, que hoje está a bombardear
Gaza sem piedade e a ocupar territórios palestinianos, libaneses e
sírios. O enfraquecimento e o derrube do regime sírio abre o
apetite dos imperialistas para atacar o Irão, para proceder a novos
desmantelamentos de estados na região, ou seja, um efeito dominó
de desestabilização e de derramamento de sangue, que trará
novas guerras e intervenções imperialistas.
Consideramos que todos devemos trabalhar na luta comum anti-imperialista e
antimonopolista, pelo desmantelamento das organizações
imperialistas, a eliminação das bases militares estrangeiras e do
armamento nuclear, pelo regresso das forças militares das missões
imperialistas e pela integração desta luta na luta pelo poder.
[*]
Secretária-geral do KKE. Discurso no 14.º Encontro Internacional
dos Partidos Comunistas e Operários, em Beirute, 22-25/Novembro/2012
O original encontra-se em
es.kke.gr/news/news2012/2012-11-13-omilia-kke-14imcwp
e a tradução para português em
www.pelosocialismo.net/
Este discurso encontra-se em
http://resistir.info/
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