por Kostas Papadakis
[*]
entrevistado por a odiario.info
1. Qual é a posição do KKE sobre o referendo?
Como é bem sabido, o governo do partido "de esquerda" e
na essência social-democrata SYRIZA e do partido de direita
nacionalista ANEL, num esforço para gerir a quebra total dos seus
compromissos eleitorais, anunciou um referendo para 5 de Julho de 2015, com a
única pergunta se os cidadãos estão ou não de
acordo com a proposta de acordo apresentada pela UE, o FMI e o BCE e que se
refere à continuação das medidas antipopulares, pela
saída da crise capitalista com a Grécia no euro.
Funcionários do governo de coligação estão a apelar
ao povo a que diga "Não" e deixam claro que este
"Não" ao referendo será interpretado pelo governo grego
como uma aprovação da sua própria proposta de acordo com a
UE, o FMI, o BCE, cujas 47+8 páginas contêm igualmente medidas
antipopulares e anti-operárias duras, com o fim de aumentar a
rentabilidade do capital, o "crescimento" capitalista e a
permanência do país no euro.
O governo SYRIZA-ANEL, que nem por um momento deixou de elogiar a UE, "a
nossa casa europeia comum", o "acervo europeu", reconhece que a
sua proposta é 90% idêntica à proposta da UE, do FMI, do
BCE e tem muito pouco a ver com o que SYRIZA tinha prometido antes das
eleições.
Juntamente com os partidos do governo de coligação (SYRIZA-ANEL)
e a favor do "Não" posicionou-se o Aurora Dourada fascista,
que apoiou abertamente o retorno à moeda nacional.
Por outro lado, a oposição de direita da ND e o PASOK
social-democrata, que estiveram no governo até Janeiro de 2015,
juntamente com o partido TO POTAMI (nominalmente de "centro" mas na
essência reaccionário) posicionaram-se a favor do "Sim"
às bárbaras medidas da Troika e afirmam que isto será
interpretado como consentimento e "permanência na UE a qualquer
custo"
Na realidade ambas as respostas levam a um "Sim" à
União Europeia e à barbárie capitalista.
Durante a sessão no parlamento, em 27 de Junho, a maioria governamental
de SYRIZA-ANEL rejeitou a proposta do KKE de colocar perante o julgamento do
povo grego as seguintes propostas:
Não às propostas de acordo da UE, do FMI, do BCE e do governo
grego
Saída da UE Abolição dos memorandos e de todas as
leis da sua aplicação
Com a sua postura o governo mostrou que quer chantagear o povo para que este
aprove a sua proposta à Troika, que é a outra face da mesma
moeda. Está a pedir ao povo que aceite os seus planos antipopulares e
responsabilizá-lo pelas suas novas opções antipopulares,
seja através de um acordo supostamente "melhorado" com os
organismos imperialistas, ou por meio de uma saída do euro e o retorno
à moeda nacional, que o povo será chamado a pagar de novo.
Nestas condições, o KKE está a apelar ao povo para que
utilize o referendo como uma oportunidade para reforçar a
oposição à UE, para que se reforce a luta pela
única saída realista da actual barbárie capitalista, que
tem apenas um conteúdo: Ruptura Saída da UE, cancelamento
unilateral da dívida, socialização dos monopólios,
poder operário e popular.
O povo, com a sua acção e a sua escolha deve responder ao engano
da falsa pergunta que o governo coloca e rejeitar tanto a proposta da UE, do
FMI, do BCE como a proposta do governo SYRIZA-ANEL. Ambas as propostas
contêm medidas antipopulares bárbaras que se acrescentarão
aos memorandos e às leis da sua aplicação dos governos
anteriores, da ND-PASOK. Ambas servem os interesses do capital os lucros
capitalistas.
O KKE sublinha que o povo não deve escolher entre Esquila e Caribdis mas
sim expressar no referendo, por todos os meios e formas, a sua
oposição à UE e aos memorandos permanentes. Deve
"cancelar" este dilema ao votar pela proposta do KKE.
Não à proposta da UE, FMI, e BCE
Não à proposta do governo
Saída da UE, com o povo no poder
2. Como avalia os resultados das negociações do governo grego com
a Comissão Europeia?
O governo do Syriza-ANEL está há quatro meses a negociar com
a troika, as "instituições", ou seja a
Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o FMI, mas não
a favor dos interesses do povo. Trata-se de uma negociação com os
credores, que é a priori antipopular, com a qual o governo
está a tratar de assegurar os interesses da burguesia grega no quadro do
antagonismo geral que se desenvolve entre os Estados Unidos e a Alemanha,
assim como entre os países da zona euro, sobre a fórmula da
gestão capitalista. Esta negociação reflecte a
confrontação geral em que a burguesia grega tem como objectivo,
entre outros, assegurar um superavit baixo para os próximos anos,
passando capitais destinados à amortização de
empréstimos para o financiamento estatal dos grupos empresarias.
Com estes capitais como ferramenta tentam recuperar da crise capitalista.
Portanto, os grupos empresariais e as associações
(Federação de Industrias etc.) apoiam o governo que se apressou a
servir os seus interesses. O acordo antipopular de 20 de Fevereiro já
previa que se mantivessem as leis antipopulares do memorando aprovadas pelo ND
e pelo PASOK, enquanto se preparam novas medidas antipopulares no sistema
tributário, privatizações, abolição de
direitos de segurança social, etc. As negociações
estão a levar a um novo acordo-memorando, seja qual for o seu nome.
Portanto os interesses do povo grego não são servidos se
alinharem por planos antipopulares, que aliás implicam medidas
anti-laborais bárbaras; pelo contrário, é
necessário lutar contra eles de modo combativo e sem passividade. O povo
não é responsável pela dívida da plutocracia; nem a
criou nem tem de a pagar. Contra a lógica de uma
renegociação antipopular, cujo resultado o povo já pagou e
estão a chamá-lo para pagar de novo, o KKE pede ao povo que exija
a abolição das leis antipopulares e a recuperação
das perdas dos anos anteriores, abrir caminho para o cancelamento unilateral da
dívida e, ao mesmo tempo, sair da UE, com o povo no poder.
Cada trabalhador deve pensar que o SYRIZA se tinha comprometido a romper com os
memorandos mas agora traz outro e mantém vigentes todas as leis do
memorando. O KKE, pelo contrário, apresentou de novo em Fevereiro no
Parlamento um projecto de lei para o cancelamento dos memorandos e das leis
antipopulares pertinentes. Além disso, apresentou uma proposta para o
restabelecimento do 13º salário e do 14.o, aplicação
imediata do salário mínimo de 751 como base para
aumentos que haviam sido abolidos pelo governo da ND e do PASOK
aplicação obrigatória dos convénios colectivos
sectoriais, etc.
3. Como estão a reagir os que votaram com o SYRIZA sobre os
retrocessos perante as exigências da Comissão Europeia que
invalidam as promessas feitas durante e período eleitoral? E a classe
operária?
As "promessas" eleitorais do SYRIZA, o chamado programa de
Tessalónica, eram migalhas que de qualquer modo não tirariam as
famílias da pobreza e da miséria. Tratava-se de medidas que
reciclariam a pobreza mais extrema, mesmo sob a consigna: "contra a crise
humanitária", exonerando o próprio sistema capitalista,
dando a entender que se trata de uma ocasião excepcional e
não da própria natureza de um sistema explorador que está
a apodrecer. Constituiriam mesmo os primeiros projectos de lei do governo que
iam ser aprovados independentemente do resultado da negociação.
Mas logo depois das eleições "o programa
de Tessalónica" transformou-se de um programa de 100 dias num
programa de quatro anos. Assim as promessas de restabelecer o salário
mínimo passaram para um futuro longínquo e dependem do
"apetite" dos próprios empregadores. Enquanto o imposto sobre
bens imóveis (ENFIA) mantém-se no período próximo.
Assim, os impostos existentes estão a aumentar e o povo vai pagar
muito caro o aumento das taxas de IVA. Ao mesmo tempo, o 13º
mês (pelo Natal) foi adiado, mesmo para os mais fracos economicamente.
O aumento do limiar de entradas isentas de tributação foi
também adiado para os finais de 2016. Em contrapartida,
estão a promover as privatizações de portos, aeroportos,
bloquearam as reservas disponíveis dos municípios, de organismos
estatais e os fundos de segurança destinados a cobrir as necessidades
populares básicas. Enquanto se está a planificar o corte das
pensões antecipadas e entre elas as profissões pesadas e
insalubres, das mulheres trabalhadoras com filhos menores de idade, etc.
Perante essa política governamental profundamente antipopular, os
trabalhadores e outros sectores populares pobres que acreditaram nas
esperanças que fomentaram as forças da nova social-democracia do
SYRIZA, não devem ficar decepcionados mas sim tirar as conclusões
políticas necessárias. Ou seja, que não existem
"soluções fáceis favoráveis ao povo"
quando o povo concede a responsabilidade a um governo que opera no quadro da UE
e na senda do desenvolvimento capitalista. Portanto, o povo
é soberano só quando possui os meios de
produção, livre da UE, e pode satisfazer as suas necessidades com
uma planificação científica central.
4. Como interpreta o enfraquecimento relativo da reacção popular
nos últimos meses? Quais são as perspectivas para a luta de
massas no futuro próximo?
Para lá da repressão e das provocações utilizadas
pelos governos da ND e do PASOK nos anos da crise, um factor determinante que
foi usado para enfraquecer o movimento operário e impedir o
desenvolvimento da sua união e da sua orientação
de classe, foi que a classe burguesa e o seu pessoal proporcionaram a ideia de
que outro governo de gestão burguesa se encarregará de resolver
os problemas populares e dos trabalhadores. A intenção de
apresentar o governo com o SYRIZA no seu núcleo como salvador do povo
provocou uma contenção grave do movimento operário.
Fomentou a passividade e falsas ilusões, do que resultou que exista
mesmo agora um retrocesso na luta operária e popular. Nos primeiros dias
depois das eleições o novo governo tratou de por o povo a
aplaudir activamente os objectivos da burguesia nas
negociações antipopulares. Poucos meses depois, cada vez mais
gente compartilha as advertências do KKE sobre o carácter e a
missão deste governo. Uma série de mobilizações de
trabalhadores não remunerados, grevistas, contratadores nos centros de
trabalho são um fenómeno diário. A greve dos trabalhadores
no sector da saúde, a 20 de Maio, foi um passo importante porque a
situação nos hospitais estatais é explosiva dado
que nem sequer têm gaze e os pacientes não só pagam caro
por tudo, como ainda trazem os medicamentos de casa, materiais, etc. As
mobilizações que o PAME está a organizar a 11 de Junho
reclamando que não se aplique o novo acordo antipopular podem significar
uma mudança na força, na combatividade do movimento
operário, podem marcar um novo ponto de partida para o confronto da
ofensiva do governo, da UE e do capital contra o povo, para a
recuperação das perdas. A organização do seu
contra-ataque para a criação de uma aliança popular forte
contra os monopólios e o capitalismo.
5. As divergências no movimento comunista internacional actualmente
são óbvias. A que se atribuem? Qual é a
posição do KKE?
Sim, efectivamente há desacordos e divergências em assuntos-chave
de importância estratégica. Mas o crucial é determinar qual
é a base sólida e os critérios para os examinar. Os
alicerces estão na cosmovisão marxista-leninista, nos
princípios da luta de classes, na estratégia
revolucionária. Só nesta base é possível
fortalecer o verdadeiro carácter comunista dos partidos comunistas,
conquistar a unidade da classe operária e a sua aliança com as
demais camadas populares pobres, conseguir agrupar e preparar as forças
trabalhadoras e populares para o derrubamento da barbárie capitalista,
pelo socialismo-comunismo. De outro modo, os partidos comunistas ficam expostos
ao efeito corrosivo das forças burguesas e oportunistas, ao
parlamentarismo, à incorporação na gestão burguesa,
às alianças sem princípios, à
participação em governos de gestão burguesa sob o
título de "esquerdas" "progressistas", à
opção e à alienação por detrás das
uniões imperialistas, a convergência com forças e
formações oportunistas, como o chamado Partido da Esquerda
Europeia ou a sua expressão política, GUE-NGL. A base de tudo
isso é a lógica daninha de etapas entre o capitalismo e o
socialismo. O etapismo, que historicamente não se confirmou em caso
algum, está a embelezar o capitalismo, está a criar
ilusões de que se pode humaniza-lo através da gestão
burguesa, com a participação dos partidos comunistas. Este
caminho levou à mutação e dissolução de
partidos comunistas, por exemplo, em França, Itália, Espanha,
etc. Esta percepção de "etapas", que se baseia em
elaborações obsoletas do movimento comunista internacional,
acalma o derrubamento do poder capitalista, o próprio socialismo, a
"segunda vinda" e fragiliza a preparação da classe
trabalhadora e dos seus aliados para esta tarefa monumental. Na pergunta
crucial "revolução ou transformação", o
etapismo opta pela transformação. O KKE quer um debate aberto e
essencial entre os partidos comunistas sem etiquetas e sem aforismos sobre
assuntos chave de importância estratégica para que se elabore uma
estratégia revolucionária contemporânea. Cada partido
é responsável por responder e justificar a sua opinião e
postura.
6. Como encara o KKE a ofensiva actual do imperialismo em múltiplas
frentes: Ucrânia, Médio Oriente, América Latina, China,
Rússia?
Os Estados Unidos, tal como a União Europeia, a NATO e os seus governos,
estão a levar a cabo planos perigosos contra os povos. O
fortalecimento da articulação da UE com a NATO, assim como as
intervenções imperialistas independentes da UE com a
formação de um euro-exercito regular e o fortalecimento das
forças militares para executar guerras e missões
imperialistas pelos interesses dos monopólios, confirmam a
agudização dos antagonismos pelo controlo dos mercados, das
fontes e das rotas de transporte de energia. A
corrida armamentista com os estandartes da NATO, os programas
avançados de armamento dos chamados países emergentes como a
China e a Rússia e de países do Médio Oriente, são
reveladores e constituem um prelúdio perigoso da forma e dos
métodos com que o sistema capitalista procura recuperar da sua crise
profunda. São pura hipocrisia as alianças das potências que
estão "dispostas" a actuar contra os jihadistas, que
foram apoiados pela NATO, Estados Unidos e a UE, os traficantes de pessoas nos
países onde a UE e seus aliados entraram a ferro e fogo em
intervenções imperialistas causando enormes vagas de
imigrantes.
O governo grego que subscreveu tudo isso, anunciou que vai criar uma nova base
da NATO no Egeu para as necessidades da UE e da NATO e dos planos imperialistas
e que disponibilizará forças armadas e bases ao
serviço da NATO. Subscreveu todos os comunicados militares da UE nas
cimeiras e dos ministros de assuntos exteriores e de defesa da UE,
enquanto fortalece as relações políticas,
económicas e militares com Israel que ataca o povo palestino. É
esse o governo das "esquerdas" do SYRZA-ANEL e queremos sublinhar que
as forças que se apressaram a celebrá-lo, ficaram
irremediavelmente expostas.
Os povos devem intensificar a sua luta para frustrar os planos imperialistas,
pelo que é necessário estar em vigilância militante. O
KKE desempenha um papel essencial na luta contra a
implicação da Grécia nos planos imperialistas, exige que
regressem as forças militares gregas
das missões euro-atlânticas ao estrangeiro, que
sejam encerradas as bases dos Estados Unidos e da NATO. O KKE luta pelo
afastamento da NATO e da UE, sendo o povo dono do seu destino.
7. Como vê a nova estratégia de Barack Obama sobre as
relações dos Estados Unidos com Cuba?
É particularmente importante que a longa luta do povo cubano em
condições muito difíceis e a mobilização
mundial de solidariedade contra o bloqueio inaceitável dos Estados
Unidos tenham exercido pressão sobre o governo dos Estados Unidos para
discutir o seu levantamento. O mesmo acontece com a UE com a chamada
Posição Comum e as sanções que impõe
há anos contra Cuba. Esta pressão e este movimento mundial de
solidariedade que se tem desenvolvido impulsionaram a libertação
dos cinco patriotas cubanos.
Mas, não há qualquer complacência ou ilusão
já que o imperialismo não deixa de utilizar tanto o engodo
como o chicote com o fim de incorporar e subjugar os povos sob a sua
estratégia. Por isso é necessário que a solidariedade
internacional revele os ajustes da táctica do adversário para que
se não apliquem os planos que o imperialismo internacional
está a preparar e que se implementem através de
sanções, chantagem, e ameaças ou negociações.
8. Qual a opinião do KKE sobre o chamado Socialismo do século 21
e o papel dos intelectuais de esquerda da América Latina a esse
respeito? Mesmo hoje em dia, consideram como modelo os chamados governos
progressistas, de esquerda, da América Latina?
Ainda hoje os chamados governos progressistas, de esquerda, da América
Latina que constroem o "socialismo do séc.21" são
considerados como modelo. Esta fabricação ideológica
opõe-se à própria experiência popular daqueles
países que estão a experimentar a política antipopular, a
pobreza, a exploração enquanto os monopólios estão
a enriquecer. A fabricação ideológica do "socialismo
do séc. 21" reúne as diversas correntes social-democratas e
oportunistas, académicos latino-americanos que garantem que falam em
nome do marxismo mas distorcem-no, porque o "socialismo do séc.
21" no seu conjunto caracteriza-se pela agressividade contra o
marxismo-leninismo e o movimento comunista internacional, promovendo como
solução as reformas burguesas que não afectam o poder do
capital. É a expressão de certas secções da
burguesia, sobretudo na América Latina, que aspiram a uma melhoria do
financiamento estatal para a criação de infra-estruturas,
mão-de-obra especializada necessária para os monopólios
que não estão dispostos a financiá-los a fim
de aumentar a sua rendibilidade. Uma orientação semelhante
existiu também nas décadas anteriores nos países da Europa
Ocidental. Trata-se das necessidades das classes burguesas desses países
para que se reforça a sua posição no antagonismo
internacional. O "socialismo do séc. 21" é uma fonte de
distorção do conceito do socialismo científico já
que não afecta o poder burguês. É apenas uma fórmula
de gestão do sistema capitalista a expensas da classe operária e
das demais amadas populares de cada país.
9. Quais as razões
em contradição com a posição de Marx sobre a
extinção gradual do Estado para que o Estado em vez de
enfraquecer estava continuamente a agigantar-se (URSS, Cuba, China)?
O estudo da experiência da construção socialista é o
assunto de que o nosso partido se tem ocupado nos últimos 20 anos.
Tirámos conclusões sobre os princípios da
construção do socialismo através de um estudo a fundo, de
um debate colectivo sobretudo da experiência da URSS, principalmente das
decisões tomadas no âmbito da economia. Hoje em dia, este debate
é necessário para cada partido comunista. Porque, por exemplo,
é um problema e uma expressão da situação
difícil do movimento comunista internacional o facto de que hoje em dia
existem partidos comunistas que negam os princípios, as leis
científicas da construção socialista, o poder
operário, a socialização dos meios de
produção, a planificação e o controlo
operário e popular.
O KKE defende a necessidade da revolução socialista e os
princípios da nova sociedade e, desse ponto de vista, participa no
debate que está em curso no movimento comunista. Nesta perspectiva
examinamos, por exemplo, os acontecimentos na China onde, segundo os dados,
prevalecem as relações capitalistas de produção.
Para chegar ao ponto de falar da extinção do Estado uma
pré-condição necessária é o fortalecimento
das relações de produção comunistas, não o
seu enfraquecimento. A experiência histórica da
contra-revolução, que ainda não acabou, mostra que a
tarefa de desenvolver relações comunistas de
produção e distribuição requer o desenvolvimento da
teoria do comunismo científico pelo partido comunista através do
estudo das leis da construção socialista. A experiência
mostrou que os partidos no poder, na URSS e noutros Estados socialistas,
não só não tiveram êxito nessa tarefa como
também sofreram a erosão do oportunismo e se transformaram em
veículos da contra-revolução e da
restauração do capitalismo.
10. O homem realizou conquistas destacadas no âmbito da ciência e
da técnica, mas mudou muito pouco desde a Grécia e Roma, como
mostram as guerras, cada vez mais cruéis, e a escalada de crimes do
imperialismo. A velocidade com que o "homem velho" reapareceu para
milhões na Rússia e na China, e está a aparecer em Cuba,
parece mostrar que a transição do socialismo para o comunismo
será muito mais lenta do que o previsto por Marx e Engels. A
história desmentiu o mito do "homem novo"? Que pensam disto?
Não concordamos com essa ideia. Tudo o que afirmaram Marx e Engels,
assim como Lénine, se confirmou e confirma de modo absoluto hoje em dia.
A resposta à pergunta surge no próprio carácter da
época inaugurada pela Grande Revolução Socialista, que
é a época da transição do capitalismo para o
socialismo. O capitalismo está na sua última fase imperialista.
As condições materiais para a construção do
socialismo estão já a amadurecer. O partido comunista deve pois
ser capaz de responder com a sua estratégia e táctica para o
desenvolvimento da luta de classes, ajudar a classe operária a estar
consciente da sua missão histórica, a prepará-la para o
confronto com o verdadeiro inimigo, ou seja a UE, os monopólios e o seu
poder. A elaboração da estratégia revolucionária
é a tarefa dos partidos comunistas independentemente da
correlação de forças.
O objectivo é que os partidos comunistas que crêem na luta de
classes e seus princípios, na necessidade histórica do
derrubamento do poder burguês e na construção do
socialismo-comunismo elaborem uma estratégia que cumpra com a
própria razão da existência de um partido comunista: reunir
forças para o confronto com o poder dos monopólios e não
para a gestão e perpetuação da barbárie
capitalista. O capitalismo é um sistema apodrecido e obsoleto e nenhum
modo de gestão pode dar-lhe rosto humano. A luta pelo socialismo,
portanto, não é uma declaração para um futuro
longínquo mas um tema chave que determina todos os outros. A
questão chave é como trabalha dia após dia um partido
comunista para alcançar esse objectivo.
30/Junho/2015
[*]
Membro do CC e eurodeputado do KKE.
O original encontra-se em
http://www.odiario.info/?p=3692
. Tradução de Manuela Antunes.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
.