Olli Rehn deveria demitir-se por crimes contra a Grécia e a
teoria económica
O caminho trilhado por Portugal sob a troika pode ser antevisto naquele
trilhado pela Grécia
por Ambrose Evans-Pritchard
[*]
Ninguém assumiu responsabilidade pelos erros desastrosos cometidos pela
troika UE-FMI na Grécia, onde o desemprego juvenil acaba de atingir os
58,3 por cento.
Ninguém se demitiu ou perdeu um único dia de pagamento ou
enfrentou qualquer espécie de censura de um organismo eleito, apesar da
acusação contundente que acaba de ser emitida pelo FMI.
Pior ainda, os erros básicos de concepção política
que conduziram a este episódio trágico não foram
plenamente corrigidos.
Com uns pequenos aparos de rebarbas aqui e ali, a eurozona está colada
ao mesmo conjunto de políticas contraccionistas auto-derrotantes que
remeteram a região outra vez a uma recessão em W, com sete
trimestres seguidos de queda do PIB, elevando o desemprego e a uma cada vez mais
drástica divergência com os Estados Unidos.
Só para recapitular, eis o que o jornalista Bruno Waterfield
informou de Bruxelas:
o mea culpa do FMI admite que a Troika sacrificou a Grécia a fim de salvar o euro
.
Ela errou completamente na avaliação da ferocidade da espiral
recessiva causada pela austeridade excessiva e, a seguir, culpou a
vítima pretendendo que a Grécia estava a falhar no cumprimento
dos termos acordados.
Em 2010 a Troika rejeitou a política padrão do FMI de
reestruturação da dívida da Grécia porque era
"politicamente difícil" para países (França?,
Alemanha?) cujos bancos possuíam títulos gregos.
A reportagem diz que os termos de resgate violaram três das quatro regras
chave para emprestar a países insolventes, um assunto de não
pequena importância uma vez que era o maior empréstimo que o Fundo
havia feito alguma vez em proporção à quota do membro e
considerando que a equipe foi "incapaz de confirmar que a dívida
pública era sustentável".
Eles admitiram que o pacote de 2010 foi uma "operação de
contenção"
("holding operation")
que "deu à área euro tempo para construir uma muralha a fim
de proteger outros membros vulneráveis e evitou efeitos potencialmente
graves sobre a economia global".
A Comissão Europeia defendeu-se ontem, dizendo que uma
reestruturação da dívida em 2010 teria provocado
devastação nos mercados de títulos e contágio
virulento. Isto é verdade, mas que espécie de defesa é
esta?
Sim, toda a gente temia uma reacção em cadeia de incumprimentos
que atingisse a Itália e a Espanha, mas isto foi exclusivamente porque o
BCE estava imprudentemente a recusar-se a cumprir sua responsabilidade como
prestamista de último recurso, o objectivo final de qualquer banco
central. Ao assim fazer, estava a por em perigo todo o sistema financeiro
global.
Pode-se rastrear esta paralisia a Maastricht e à natureza do mandato do
BCE, mas como o escudo de Draghi para a Itália e a Espanha demonstrou
desde então, o que isto realmente mostra foi que um bocado de
governadores do BCE foram fracos, ou seguiram agendas nacionais puras e
simples, ou ambos, e esconderam-se por trás do que na realidade
são cláusulas do tratado muito elásticas.
O FMI torna cristalino em que as instituições da UE e os
líderes dos países da União Económica e
Monetária (UME) (ainda a recusar-se a enfrentar as
implicações da UME ou a admitir junto aos seus próprios
eleitores que a união monetária custa dinheiro real) foram os
principais vilões nesta saga.
O que assistimos é uma quase perfeita exposição do que
está errado com o Projecto Europeu. Não há mecanismo de
responsabilização. A responsabilidade final deve-se a isto.
Não pretendo irritar o comissário económico Olli Rehn,
embora a paciência se esgote depois de ouvir a resposta da
Comissão de que o FMI está "completamente errado".
O sr. Rehn é um homem decente, com uma tarefa impossível, arcando
com responsabilidades sem poder. Os políticos dos estados nortistas da
UEM e do BCE devem ser os principais culpados.
Escrevi na ocasião que Wolfgang Schauble da Alemanha transpôs uma
linha ao ameaçar expulsar a Grécia do euro e insistentemente
caluniar os gregos por fracassarem em cumprir, quando o fracasso essencial era
da própria política. A Grécia manteve-se faltosa nos
objectivos do défice porque a economia estava em colapso, provocando
contracção das receitas fiscais.
Mas o sr. Rehn é o responsável titular que está no cargo.
A Troika é o "seu" bebé. Se ele fosse o ministro das
Finanças de um estado democrático certamente teria de se demitir
depois desta devastadora demolição do seu exercício no
cargo.
O facto de que ninguém alguma vez se tenha demitido por políticas
ruinosas no sistema da UE (Salvo a Comissão Santer: a
excepção que confirma a regra) não deveria impedir o sr.
Rehn de tombar sobre a sua espada
[NT]
dado o seu alto sentido de honra. Tal gesto limparia o ar e marcaria um
reconhecimento de que a fórmula política da UEM deve ser varrida
a fim de permitir a recuperação.
O seu director-geral de assuntos económicos e monetários, Marco
Butti, admitiu que o multiplicador fiscal é mais alto do que o normal em
países que sofrem uma depressão
(slump)
à escala regional onde o sistema financeiro arruinou-se
(broken down)
e as taxas de juro estão próximas de zero e, portanto, que o
endurecimento fiscal provoca mais danos económicos.
Mas ele admite isto apenas retrospectivamente. A Comissão agora
argumenta que o retorno à calma após a actuação
(Put)
de Draghi baixou outra vez o multiplicador, de modo que não há
necessidade real de mudar de política (excepto deixar os estabilizadores
fiscais fazerem o seu trabalho, evitando o erro de mais uma vez endurecer para
tentar alcançar objectivos de défice falhados).
Se tal demissão por parte do comissário Rehn não se
verificar, ficamos a saber que o Rehn do Terror avançará. O
regime persistirá na loucura destrutiva, acrescentando 100 mil pessoas
às listas de desempregados a cada mês.
Apenas um recordatório da escala do erro,
escrita neste blog no ano passado
.
A Troika originalmente disse que a economia da Grécia contrair-se-ia em
2,6 por cento em 2010 sob o regime de austeridade, antes de se recuperar com
o crescimento de 1,1% em 2011 e de 2,1% em 2012.
De facto o PIB grego permaneceu numa queda livre ininterrupta. Não
cresceu em qualquer destes anos. Contraiu-se 7,1% em 2011 e 6,4%
em 2012.
Grosso modo, a Troika calculou mal a escala do declínio económico
ao longo dos três anos em 12% do PIB. O declínio real
estará em torno dos 25% do PIB, certamente uma Grande
Depressão.
Não digam que é difícil prever. O Instituto Grego do
Trabalho e o
think tank
IOVE efectuou previsões muito exactas. A verdade
é que a ideologia da Troika da "contracção fiscal
expansionista" é absurda, e duplamente perigosa quando combinada
com aperto monetário.
Tal como os espartanos, tebanos e tespianos na Passagem das Termópilas,
os gregos foram sacrificados a fim de comprar tempo para a aliança.
Ao invés de receberem aplausos, eles foram a seguir difamados pelos seus
heróicos esforços por parte de mal informados e auto-interessados
políticos holandeses, finlandeses, austríacos e alemães.
Um episódio sórdido.
06/Junho/2013
[NT] Alusão ao hara-kiri, suicídio ritual cometido por militares
japoneses após um fracasso.
[*]
Editor de Negócios Internacionais do
Telegraph,
jornal conservador londrino.
Do mesmo autor:
Portuguese bestseller calls for euro exit
O original encontra-se em
blogs.telegraph.co.uk/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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