Dois mapas e uma eleição
por Jacques Sapir
Os ladridos da turba mediática que instam todos e cada um a
pronunciar-se em favor de Emmanuel Hollande, se não for por
François Macron, sob pena de se fazerem tratar por "fachos" e
outros nomes pouco simpáticos, são hoje ensurdecedores. Esta
turba pratica portanto o "ladridismo", neologismo que recorda o
ladrar dos cães. E ao assim fazer ela confirma o aforismo segundo o qual
o cão nunca morde a mão que o alimenta...
Contudo, esta turba tem todo o cuidado em não analisar o que está
por trás da chegada da sra. Marine Le Pen ao segundo turno da
eleição presidencial. Acreditando que muitas vezes um bom
gráfico vale um bom discurso, trago ao conhecimento dos leitores, mas
também dos membros desta turba que quiserem aprender, os seguintes mapas.
Uma comparação instrutiva
O primeiro que reproduzo aqui, por trás do seu aspecto antiquado (sim,
houve um tempo em que não se utilizavam as cores produzidas por um
computador), mostra o estado da industrialização da França
no fim dos anos 1950.
Gráfico 1
Emprego industrial por departamento (1958)
Este mapa indica quais eram as zonas de desenvolvimento da indústria
durante os "trinta anos gloriosos". Convém agora comparar com
o mapa dos resultados do 1º turno da eleição presidencial de
2017. Surpresa, surpresa, constata-se a quase coincidência entre o voto
em favor da sra. Marine Le Pen e o primeiro mapa.
Gráfico 2
Resultados do 1º turno da eleição presidencial
(23/Abril/2017)
Resultados publicados pelo Ministério do Interior
Naturalmente, esta correlação entre os dois mapas não
é perfeita. As regiões do Drome que se desenvolveram nos anos
1990 não constam no primeiro mapa nem a industrialização
do vale da Garonne, além da indústria aeronáutica em torno
de Toulouse. Inversamente, vê-se bem a forte presença do voto em
favor de Le Pen nas regiões mais rurais. Se a crise da indústria
não é claramente o único factor explicativo, se outros
factores devem ser considerados, como a história da Resistência
que sem dúvida explica os resultados muitos fracos de Le Pen no
Limousin, a configuração geral destes dois mapas parece bastante
semelhante para que se deva apenas a uma coincidência.
Não há acaso em economia
Foram portanto das zonas de industrialização antiga, as zonas que
foram mais afectadas pelo impacto da mundialização e depois pelo
impacto do euro, que forneceram a Marine Le Pen seus melhores resultados.
Convém aqui recordar que as diferentes fases de
instauração do livre comércio em nada tiveram em conta a
diferença dos custos salariais (e das contribuições
sociais) que é em grande medida o produto da história
política e social de cada país. Pode-se dizer o mesmo das
diferenças em matéria de regulamentação ambiental.
O livre comércio põe em competição histórias
sociais diferentes, puxando todas para baixo, e não projectos
empresariais. Esta é a justificação essencial de formas de
proteccionismo "inteligente", ou "solidário" ou
mesmo "altruísta", como defendi na minha obra
La Démondialistion
[1]
, após Bernard Cassen e antes de Jean-Luc Mélenchon, Arnaud
Montebourg e naturalmente Marine Le Pen. Mas que importa quem lançou a
ideia. Ela é boa e ela se impõe se não se quiser que os
trabalhadores sejam constrangidos a aceitar as normas e os salários mais
baixos.
A implantação do Euro veio agravar a situação
consideravelmente. O Euro favorece a Alemanha permitindo a este país
subestimar sua moeda e desfavorece países como a França e a
Itália obrigando-os a ter uma moeda super-valorizada. Isto foi
demonstrado num documento do Fundo Monetário Internacional no
Verão de 2016
[2]
. Além disso, durante muito tempo o Euro fortemente super-avaliado em
relação ao Dólar americano, que é a moeda de
referência de numerosos países, não só evidentemente
dos Estados Unidos como também da China e globalmente da "zona
Dólar". Esta super-valorização teve, em particular
para a indústria francesa, consequências desastrosas. Estes dois
efeitos combinados levaram as empresas não só a perderem mercados
de exportação como também a sofrerem mais que o
necessário frente à concorrência no mercado interno. Estes
dois efeitos explicam em grande medida a desindustrialização da
França e, consequentemente, a crise social que se conhece nas
regiões de industrialização tradicional.
Com o conjunto dos economistas que combatem o Euro, são estes efeitos
que se visam ainda que não sejam os únicos efeitos
negativos engendrados pelo Euro
[3]
. As consequências políticas do Euro são igualmente graves.
Portanto não há nada de casual na quase coincidência entre
estes dois mapas. E não há nada de casual na subida do voto em
favor da sra. Marine Le Pen, um voto que traduz a revolta dos meios populares
que foram
deliberadamente
sacrificados pelas elites políticas deste país, quer por
razões de lucro financeiro (no que se refere à direita) ou por
razões ideológicas (para o P"S" e o PCF). Então,
ladrar contra aqueles que se recusam a uma fútil e inútil
"Frente Republicana" e a uivar contra uma pretensa
"ameaça fascista" é acrescentar o insulto ao estigma;
é um comportamento de uma indecência absoluta. Mas isso não
impedirá os jornalistas às ordens da elite política e dos
oligarcas que detêm os "grandes media" de prosseguirem nesse
caminho. Como se diz, verifica-se aqui o aforismo de la Rochefoucauld: "o
cão não morde a mão que o alimenta". Mas isto
justifica totalmente a posição da "França
Insubmissa" e de Jean-Luc Mélenchon que se recusa, com coragem, a
misturar sua voz a este concerto de ladridos.
25/Abril/2017
[1]
Sapir J.,
La Démondialisation,
Le Seuil, Paris, 2011.
[2]
IMF,
2016 EXTERNAL SECTOR REPORT,
International Monetary Fund, juillet 2016, Washington DC,
telecarregável em:
www.imf.org/external/pp/ppindex.aspx
[3]
Sapir J.,
L'Euro contre la France, l'Euro contre l'Europe,
le Cerf, 2016; Idem,
Faut-il sortir de l'euro?,
Le Seuil, Paris, 2012.
O original encontra-se em
russeurope.hypotheses.org/5937
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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