E se em França a luta social estivesse apenas a começar?
por Rémy Herrera
A chegada do Verão, sinónimo de férias, é aguardada
com impaciência por todos os trabalhadores; até mesmo por aqueles
que estão lutando por justiça e sabendo que durante dois meses,
suas lutas ficarão com reticências, isto é, serão
postas entre parênteses, até à reentrada em setembro. Desta
vez, no entanto, na agitação social que sacode o país
desde o início do ano, foi sobretudo o governo, a achar havia demasiado
tempo antes das férias de Verão. Nas esferas de poder, alguns
certamente estão convencidos que venceram a guerra. A guerra social, que
os capitalistas que elegeram em 3 de julho para dirigir a sua
organização patronal (MEDEF) um puro descendente da nobreza
francesa, Geoffroy Roux Bezieux e o seu dedicado presidente-monarca
Macron lançaram contra o povo. No entanto, tudo leva a crer que a grande
confrontação ainda está para vir. As coisas sérias
estão apenas a começar.
As forças neoliberais já estão alinhadas em ordem de
batalha, prontas para a próxima ofensiva. Será a
"reforma" das pensões de aposentação, nova etapa
para a demolição da protecção social dos
trabalhadores. Para fazer isso, foi nomeado um "alto
comissário" Jean-Paul Delevoye homem de direita, acumulando
mais de 80 anos de mandatos políticos, ex-ministro sob Jacques Chirac,
que se juntou ao partido do actual Presidente La République en
Marche! É responsável pela elaboração do projecto
de lei sobre pensões que o Governo apresentará ao Parlamento em
2019 no quadro do PACTO (plano de acção para o crescimento e a
transformação das empresas).
Sous prétexte d'"harmoniser" les régimes de
retraite et d'"aligner" le système en vigueur dans
la fonction publique sur ceux des secteurs privés, ce qui est
visé, c'est la promotion des marchés de l'épargne
retraite, selon les desiderata des banques et compagnies d'assurance.
Sob o pretexto de "harmonizar" os planos de Pensões e de
"alinhar" o sistema actual na função pública com
o do sector privado, o que se pretende é a promoção de
mercados de poupança-reforma, de acordo com os desejos dos bancos e
empresas seguradoras. O projecto prevê bloquear as
contribuições para a Segurança Social, condenando assim os
montantes das pensões a baixarem à medida que aumentar o
número de aposentados e a expectativa de vida. Nenhuma garantia é
concedida aos investimentos em poupanças quanto ao nível das suas
pensões, confiada aos caprichos das cotações bolsistas
(nem mesmo sobre as possibilidades de recuperarem as suas economias)! É
de facto uma privatização dissimulada do regime de pensões
que está à vista, colocando em risco, em consequência da
captura de uma parte das poupanças dos aposentados, o financiamento da
Segurança Social em França. A finança globalizada e os
fundos de pensões, frustrados desde a crise de 2008 com taxas de juro
quase zero, esfregam as mãos! Afinal não foi para isto que
escolheram Macron?
O sistema ideal é o que permite garantir para todos a continuidade do
seu melhor nível de vida na carreira, durante a passagem da actividade
para a reforma. Apesar das recomendações da Comissão
Europeia, o FMI e a OCDE a favor da capitalização, o sistema
francês funciona ainda amplamente felizmente na base da
repartição: contribuições actuais financiam os
aposentados actuais e as contribuições actuais são
constitutivas dos futuros direitos à reforma, através da
solidariedade intergeracional e a obrigação de qualquer activo a
contribuir. Este regime, com prestações garantidas, é
seguro porque financiado pelas contribuições do total dos
salários nacionais. Isso, sem recorrer aos mercados financeiros,
portanto sem o risco dos desastres do mercado de acções.
É esta solidariedade que os anos de neoliberalismo enfraqueceram, sem a
conseguir desmantelar. É este sistema que o Presidente Macron às
ordens da finança quer destruir. É este sistema de pensões
que será preciso em breve defendermos, para o reforçar e
universalizar. O problema das reformas não é demográfico;
é uma questão de justiça social. Trata-se de uma escolha
profunda da sociedade: ou a solidariedade ou cada um por si.
As elites dirigentes, arrogantes e impulsionadas por uma relação de
forças historicamente favorável ao capital, devem no entanto
recordar-se que em 1995 as maiores mobilizações populares
após o maio de 1968 foram precisamente em defesa do sistema de reformas.
Poderosas greves paralisaram então o país por mais de um
mês (novembro - dezembro), e forçaram o governo da época (o
de Alain Juppé, primeiro-ministro de Chirac) a abandonar sua
"reforma", sob a pressão de dois milhões de
manifestantes. Em 2010, sob Sarkozy, 3 milhões de manifestantes
não foram suficientes para deter a máquina infernal neoliberal.
Quantos milhões serão necessários em 2019 para
forçar Macron a pôr-se "em marcha
atrás"?
15/Julho/2018
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