Assembleia dos coletes amarelos:
"Será preciso sair do capitalismo"
por Rémy Herrera
O "Acto 21" dos coletes amarelos desenrolou-se, como desde há
cinco meses, no sábado 6 de Abril. Mas em paralelo, de 5 a 7,
efectuou-se em Saint-Nazaire, no Loire-Atlantique, um acontecimento que
certamente influenciará as próximas lutas no país: a
segunda Assembleia das assembleias dos coletes amarelo. Este é o
núcleo central do movimento. A primeira verificou-se na Meuse, em
Commercy, no fim de Janeiro, e havia reunido 70 delegações. Cerca
de 200 compareceram em Saint-Nazaire, ou seja, cerca de 800 delegados estavam
presentes (dois representantes mais dois observadores por
delegação). E isto sem contar os voluntários, os
jornalistas, os curiosos. Estes delegados haviam sido mandatados por cerca de
10 mil coletes amarelos, mobilizados em centenas de pontos de luta: rotundas,
praças, portagens, mas também, quando as forças da ordem
os desalojaram, em múltiplos lugares muito mais descentrados e menos
visíveis (até mesmo, por vezes, em cabanas ao acaso). Em toda a
França, a resistência.
Havia, parece, uma "ameaça contra a ordem pública". Foi
o pretexto utilizado pelo
maire
de Saint-Nazaire (David Samzun, "socialista", como ele ainda se
define) para justificar a sua recusa em emprestar um local aos organizadores.
Os eleitos das comunas vizinhas fizeram o mesmo e, finalmente, nenhuma sala foi
posta à sua disposição. Então os coletes amarelos
encontraram-se todas e todos na "sua Casa": a "Casa do
Povo", antiga agência do Polo Emprego
(Pôle Emploi)
que eles ocupam desde Novembro último com camaradas sindicalistas. Uma
"requisição cidadã", na pura
tradição histórica dos clubes de
sans-culottes
de 1789, das bolsas do trabalho dos operários do princípio do
século XX, das fábricas em greve da Frente Popular de 1936.
Alguns trabalhos de arranjos e muita solidariedade permitiram-lhes reunirem-se
para se reencontrarem, para se dar coragem. Para debater e para melhor se
bater. E para se organizarem.
Este encontro fora inicialmente previsto para os últimos dias de
Março, mas as dificuldades materiais para colmatar os fins de meios da
maior parte dos participantes somadas àquelas da logística
levaram a atrasá-la alguns dias. No princípio do
mês, uma vez recebido o pagamento, aquelas e aqueles que não se
deitam sobre ouro respiram um pouco melhor. Alguns queiram assistir à
mesma, mas a afluência obriga os organizadores a encerrar as
inscrições. Outros, ainda mais numerosos, não puderam vir
pela impossibilidade de pagar a sua deslocação. Nem contar com a
generosidade dos amigos, com meios risíveis. Contar só com as
suas próprias forças. Mas em 1864, o primeiro considerando dos
estatutos da Associação Internacional dos Trabalhadores
não dizia que "a emancipação da classe
operária deve ser a obra dos próprios trabalhadores"? Quando
se é colete amarelo, não se tem medo da lama, da chuva, nem dos
bolsos vazios.
Durante três dias, as discussões foram sérias. Muitas vezes
difíceis, tempestuosas, caóticas... À imagem da
mobilização iniciada em meados de Novembro, elas revelaram a
determinação dos coletes amarelos, sua oposição
resoluta, tenaz, a esta sociedade de desigualdades e de injustiça
simbolizada pelo presidente Macron, sua condenação unânime
à violências das repressões policiais de que são
vítimas, sua vontade teimosa de colocar a democracia directa no centro
do movimento, e pensar e reinventar formas autênticas desta
última, desde a base, sem líder auto-proclamado ou chefe
recuperado, de encontrar o "equilíbrio entre espontaneidade e
organização". Este é o colectivo que vive, acima de
tudo, na "horizontalidade". E a manutenção da unidade
de um movimento que reúne contra os riscos de divisão e fractura,
que solda um povo apesar de todas as suas diferenças (de
percepções políticas, por vezes de origens sociais), que
continua também a beneficiar de uma boa imagem e de um forte apoio junto
à opinião pública, que faz as lutas avançarem.
Visíveis na Internet, os debates foram estruturados em grupos de
trabalho temáticos: os modos de acção do movimento, a
comunicação interna e externa, a formulação das
reivindicações, os pontos de convergência com os sindicatos
e outros colectivos, o futuro da mobilização... Finalmente, a
sessão plenária apresenta as sínteses das
discussões de comissões (elaboradas durante a noite) e um texto
final. Um texto particularmente lúcido e radical. Um texto que
será submetido posteriormente ao voto pelas diferentes assembleias
locais de coletes amarelos. O que diz este texto?
Coisas essenciais, na realidade. Diz que as reivindicações devem
ser concentradas sobre as altas de salários, de pensões de
reforma e dos mínimos sociais, com uma atenção especial
concedida aos nove milhões de pessoas que vivem abaixo do patamar de
pobreza no país. Diz que é preciso reforçar os
serviços públicos para todas e todos. Isto já é
fundamental.
Este texto diz "não" à violência imposta por uma
minoria de privilegiados contra todo um povo; "sim" à
anulação das penas dos prisioneiros e condenados do movimento dos
coletes amarelos. "As violências policiais são um acto de
intimidação política, elas procuram aterrorizar-nos para
nos impedir de agir. A repressão judiciária vem a seguir para
abafar o movimento. (...) O que nós vivemos hoje é o quotidiano
dos bairros populares desde há décadas".
Ele declara ainda sua rejeição da "trapaça do Grande
Debate nacional" pretendido e manipulado pelo presidente Macron, assim
como sua recusa em participar nas eleições europeias no
próximo mês: "a rua nos une, as eleições nos
dividem". "E na luta que se construirá a Europa dos povos.
(...) É conduzindo uma luta coordenada contra nossos exploradores que
lançaremos as bases de uma entente fraternal entre os povos da Europa e
de alhures".
Neste 7 de Abril, o apelo da Assembleia das assembleias dos coletes amarelos de
Saint-Nazaire diz também e sobretudo que "para melhorar nossas
condições de vida, (...) reconstruir nossos direitos e liberdade,
(...) fazer desaparecer as formas de desigualdades, de injustiça, de
discriminações", para que finalmente se alcance "a
solidariedade e a dignidade", será preciso
mudar de sistema:
"conscientes de que temos de combater um sistema global, consideramos que
será preciso sair do capitalismo". E para isso, "colocar o
conjunto das cidadãs e cidadãos em ordem de batalha contra este
sistema".
Quanto à mensagem dirigida aos ecologistas, é uma limpidez total
e muito progressista. Será que a ouvirão? Seria bom. Uma vez que
a urgência ambiental está aí, verifica-se
indispensável a convergência do combate pela ecologia com as lutas
pelo progresso social. E "a mesma lógica de
exploração infinita do capitalismo que destrói os seres
humanos e a vida sobre a Terra. A fim de proteger o ambiente, será
preciso mudar um sistema prejudicial aos humanos e à ecologia".
Aqui está, para quem tinha dúvida sobre a
orientação à esquerda do movimento...
Tais orientações e formulações não foram
fáceis de fazer emergir. Alguns julgaram-nas prematuras. Outros temiam
que o movimento ficasse dogmatizado, doutrinado e endurecesse demasiado.
É claro que ainda estamos muito longe de uma saída do sistema
capitalista. Mas já é importante saber contra o que precisamos
combater. Pois os coletes amarelos, reunidos no meio da multidão e do
brouahaha desta Casa do Povo "pela honra dos trabalhadores e por um mundo
melhor", pelo menos compreenderam e exprimiram claramente o que mais
ninguém ou quase ninguém das nossas altas direcções
partidárias e sindicais, entre nossos artistas comprometidos ou nossos
grandes intelectuais, nem compreende nem exprime. Sim, para esperar construir
um "mundo de liberdade, igualdade e fraternidade",
será preciso sair do capitalismo.
Certamente. Sem isso, nada é possível. É por aqui que
começa qualquer programa de alternativa verdadeira. Pois os coletes
amarelos, levantados contra o insuportável, não mais
deixarão de fazê-lo. O século XXI não será o
fim da história; será o arranque de uma nova
civilização. Pós-capitalista.
11/Abril/2019
Este artigo encontra-se em
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