A que ruptura nos convoca a crise actual do capitalismo?
As três questões inicialmente colocadas foram:
- Porquê uma ruptura com o capitalismo?
- Porquê a escolha de uma alternativa socialista?
- Que lições podem ser aprendidas da China, Vietname, Cuba?
Quero agradecer aos organizadores desta iniciativa pelo seu convite para falar,
para falar outra vez de socialismo. Trata-se de algo feliz, pois fazem lustros que
o PCF renunciou a falar e, na realidade, renunciou de todo ao socialismo. E,
pessoalmente, penso que é nomeadamente por causa desta renúncia
que o Partido está onde está, ou seja, no ponto mais baixo.
O problema é que, ao abandonar o socialismo que é uma via,
que é uma transição , o Partido abandonou
também a busca do ideal comunista. Daí este estado actual de
deriva, ou esta impressão de perdição.
Portanto, confesso que estou certamente muito satisfeito com esta
iniciativa, mas que me sinto um pouco como padre operário
convidado a um concílio do Vaticano, ou um membros dos alcoólicos
anónimos convidado a um salão de vinhos e bebidas espirituosas
para dizer: "é preciso parar de beber!". Permitam-me dizer
isto a brincar para não ser demasiado desagradável.
Aceitei estar aqui e participar deste debate, não para dividir, mas para
contribuir, modestamente, para a unidade daquelas e daqueles que querem falar
de socialismo para iniciar uma transição socialista, em ruptura
com o sistema no qual vivemos, e no qual vivemos cada vez mais mal.
Este sistema está em crise. Esta crise não data de ontem, ela
remonta a pelo menos um meio século, ela é estrutural, grave,
mesmo gravíssima, ela é multidimensional. Ela é
sistémica, o que quer dizer que o sistema não encontrará
solução por si mesmo. O capitalismo declina, o capitalismo
degenera e se não se afunda rapidamente é porque o seu Estado o
sustém com grande esforço; como foi o caso em 2008 quando a
vertente financeira do sistema entrou em colapso, e como ainda hoje acontece
com a chamada crise dita "sanitária" e uma economia que vive
sob perfusão.
O que estou a dizer é que não haverá saída para o
problema sanitário com pessoas que destroem o hospital público;
nem saída para o problema financeiro com bancos que continuam a
especular. Não haverá solução para o problema
ambiental com ecologistas uns mais neoliberais do que outros, tal como
não houve solução para os problemas sociais com os
social-liberais do PS. E acrescentarei que tão pouco haverá
saída para o terrorismo religioso com os mercadores do templo que
enfraqueceram a educação nacional e a laicidade, vendendo-a ao
sector privado, que além disso é confessional.
O capital jamais encontrará uma solução através da
sua lógica interna do lucro, por razões profundas e
múltiplas, nomeadamente porque as suas novas tecnologias tendem a poupar
muito trabalho humano e a minar a criação de valor, porque o
trabalho improdutivo está a ganhar terreno ao trabalho produtivo, porque
as contradições do capital exigem uma intervenção
estatal que custa cada vez mais caro, mas também porque a
acumulação excessiva provém agora sobretudo do capital
fictício e porque as finanças encerram todo o sistema numa
espiral de destruições, conflitos e guerras que acabam por nos
ameaçar a todos com a morte.
É por isso que querer embarcar numa transição socialista
não é apenas responder a um espírito de justiça,
é responder ao apelo da razão, é mesmo uma questão
de sobrevivência para a humanidade, para a ida. E é aí que
estamos, camaradas
O socialismo não é apenas uma palavra, é uma luta.
Não é um fim, mas um processo de transição, longo,
difícil, que pode tomar mil formas no caminho da
emancipação, no caminho da libertação do trabalho
da dominação do capital. Porque isso é que é o
capitalismo, a dominação do capital sobre o trabalho.
Sei que dirão: já se tentou e correu mal. Mas quando exactamente
foi tentado o socialismo neste país? Em 1981? Em 1981, o que tivemos foi
o mitterrandismo e "a invenção do neoliberalismo de
estado", mas não o socialismo. É o que explico no meu
último livro,
En Lutte !
E a URSS e a Europa de Leste, não será isso um fracasso? O que
vos direi acerca deste assunto é que o capitalismo levou séculos
a emergir e a libertar-se do feudalismo, então porque não deveria
o socialismo, com uma ambição muito mais bela e muito mais justa,
ter direito a um tempo longo? E além disso, será o socialismo o
mesmo por toda a parte? Se assim fosse, então teria falhado por toda a
parte. Ora, isto não é o caso, não é de todo o
caso. Faz-se crer que o socialismo por toda a parte para que os trabalhadores
abandonem a luta e se submetam, para que os povos do Norte e do Sul acreditem
que não há mais alternativa.
É aqui que as experiências da China, Vietname e Cuba são
interessantes para as nossas lutas.
A China é a maior história de êxito económico do
mundo e mesmo da história mundial. Nossos inimigos dizem: China?
É o capitalismo! Então deveríamos acreditar neles, repetir
isso e atribuir o êxito chinês ao capitalismo? Mas o capitalismo
não merece tal elogio! Não, este êxito chinês deve-se
principalmente, essencialmente, ao socialismo. Nenhum dos recentes êxitos
chineses teria sido possível sem uma luta encarniçada contra o
capitalismo, sem um controlo rigoroso por parte dos capitalistas, sem a
revolução socialista que começou em 1949, que tirou o povo
chinês da miséria e da guerra e que lhe trouxe o progresso social,
a educação, a saúde, as infra-estruturas públicas,
a independência, a dignidade.
Portanto, permaneçamos modestos mas não submissos. Os
chineses dizem: explora-se uma transição longa ao socialismo.
Procuremos compreender, aprendamos, sejamos respeitosos.
Que não haja aqui mal-entendido: a China está longe, muito longe,
do ideal comunista; há demasiada desigualdade, demasiados defeitos nesta
etapa da transição, que é uma etapa inicial do socialismo.
Mas o que é certo é que o povo chinês e seus dirigentes
estão lançados na batalha da transição socialista.
Como isso acabará? Não sei. Mas é impossível negar
sua vontade. A história não está acabada.
Além disso, camaradas, imaginem por um momento a França com
propriedade colectiva do solo e subsolo; com a maior parte das grandes empresas
industriais como sociedades de estado; com todas as infra-estruturas
nacionalizadas; com moeda, bancos, finanças controladas pelo Estado;
controlando também o comportamento das transnacionais estrangeiras no
território nacional; mais a planificação e, no topo do
poder, para supervisionar um Estado super-poderoso, quem? Um Partido Comunista!
Imaginem o nosso país organizado dessa forma, ou seja, como a China
está agora. Então, o que é que se diria? Que é
capitalismo? Estão a brincar! Dir-se-ia: é o socialismo. Nossos
inimigos capitalistas diriam mesmo: é o comunismo! Digamos antes que
é uma forma de socialismo de mercado, com capitalistas, claro, mas
capitalistas estritamente controlados pelo poder político de um Partido
Comunista.
A China certamente não é comunista, mas ela está em luta
com o capitalismo para tentar dominá-lo. É preciso tentar
compreender tudo isso, pensar por nós mesmos e, em primeiro lugar,
libertar-se da ideologia dominante, da opressão dos media dominantes,
que se tornaram entre nós o primeiro obstáculo à liberdade
de expressão.
No Vietname é aproximadamente a mesma coisa que na China desde o
"Doi Moi", ou seja a renovação do socialismo, um
processo de economia de mercado socialista, principiado após os anos
muito difíceis do pós-guerra, depois de o exército dos
Estados Unidos ter despejado sobre o Vietname três vezes mais bombas do
que todos os beligerantes da Segundo Guerra Mundial somados. E muito
recentemente, a maneira notável como o Vietname soube enfrentar a
pandemia do Covid-19 foi aqui, em França, completamente silenciada, com
o pretexto de que não era possível, com o pretexto de que os
vietnamitas mentem. Mas é o nosso governo que, submetido à
finança e em guerra contra todo um povo, que nos mente!
Destas três experiências socialistas actuais, é Cuba que
está mais afastada do capitalismo. É lógico portanto que
seja contra Cuba que o imperialismo mais se encarniça impondo-lhe
o bloqueio. Sem o socialismo, Cuba jamais teria podido manter-se após a
queda da União Soviética. Mas sem a resistência de Cuba,
hoje não se falaria mais em socialismo na América Latina. Ora,
por toda a parte neste continente latino-americano os povos estão de
pé e lutam pelo socialismo. Olhem a Bolívia e a recente
vitória do seu povo, magnífica! Dir-se-á: há
penúria em Cuba. Mas é o bloqueio imperialista que cria a
penúria em Cuba, não o socialismo. Havia de tudo em Cuba antes da
queda da URSS. Agora, faltam muitas coisas em Cuba, materialmente, mas a ela
não lhe falta certamente espírito de solidariedade. Os italianos
sabem-no bem, todos os países africanos e quase todos os países
do Sul também o sabem, os que recebem desde há muito tempo os
cuidados das missões internacionalistas cubanas. Caros camaradas, Cuba
é absolutamente fundamental para nós porque os cubanos provam que
é possível resistir.
O que nos ensinam estes três países é portanto:
-
primeiro, que é preciso resistir, mesmo se o imperialismo impõe
um bloqueio, mesmo se o imperialismo arrasou o vosso país;
-
a seguir, que há uma alternativa, que esta alternativa chama-se
socialismo, que cabe aos Partidos Comunistas assumirem suas responsabilidades;
-
e finalmente que o socialismo permanece actual, que ele deve, que pode mesmo
ultrapassar o capitalismo, que não é sinónimo de
ineficácia e de penúria, mas de partilha, mesmo de
opulência (uma certa opulência, como o desejava Marx, como o
desejava Lenine).
Aquilo que é preciso compreender é que o capitalismo está
a acabar, que o capitalismo agoniza, que ele vai desencadear uma
violência extraordinária contra todos os povos antes de
desaparecer e que é o socialismo, a solidariedade, que marcham com a
história.
Mas além destas lições importantes, o que é que
podemos extrair mais concretamente de tudo isto? As experiências
socialistas cubana, vietnamita e chinesa são evidentemente
inexportáveis, além de serem imensamente
aperfeiçoáveis, em todos os domínios, mas elas nos
interessam porque fundem três dimensões chave: a dimensão
da emancipação social (anti-capitalista), a dimensão da
independência nacional (anti-imperialista) e a dimensão do
humanismo igualitário (anti-racista). É a
articulação destas três dimensões que define sua
respectiva transição socialista, que define seu "projecto
comunista". E mesmo se estas três revoluções, que
estão sempre de pé neste momento, têm cada uma dela
condições históricas, sócio-económicas e
culturais singulares o que significa que será preciso encontrar,
nós, em França, nossas próprias formas de luta, renovadas,
adaptadas para serem mais eficazes frente aos desafios actuais , a
análise das motivações profundas destas três
revoluções é, a meu ver, útil para nós. As
três são, como disse: 1. anti-racistas; 2. anti-imperialistas; 3.
anti-capitalistas. O que é que isso significa para nós?
1.
O anti-racismo, naturalmente, porque combater o racismo da extrema-direita e
do sistema tornou-se uma prioridade absoluta. Mas não ao modo da
direita, que ergue comunitarismo hostis entre si; nem como o faz a "nova
direita" social-liberal do PS, anti-racista em palavras, mas cuja
acções visam neutralizar as lutas populares, sobretudo na
cidades, nos bairros. Não, nosso combate contra o racismo não
é societal, ele é político, é
socio-económico. E passa-se o mesmo com outros combates fundamentais e
conexos, o combate pela democracia, pela igualdade homens-mulheres, pela
protecção ambiental, que também devem ser colocados no
cerne das nossas lutas comuns pelo socialismo. A este respeito, o Islão
político, como todos os outros fascismos, não quer de modo algum
romper com o capitalismo; pelo contrário, é um aliado e
cúmplice do imperialismo. Por isso, também aqui, a escolha do
socialismo será para nós o baluarte mais seguro contra todos os
fascismos, inclusive o fascismo do islamismo político.
2.
O anti-imperialismo, o que quer dizer não só pôr fim
à lógica das guerras da NATO sob a hegemonia dos EUA, mas
também libertar-se do jugo europeu. Desejo de todo o
coração boa sorte a Fabien Roussel no PCF se ele quiser falar de
socialismo permanecendo na zona euro. A União Europeia foi
construída precisamente para impedir o socialismo, este era mesmo o seu
objectivo primordial. Boa sorte também para Laurent Brun na CGT se ele
quiser permanecer na Confederação Europeia de Sindicatos, que
é euro-liberal, social-liberal, inteiramente submissa ao capital.
Realmente muito boa sorte para ambos se quiserem reformar o
irreformável. Enquanto se espera por Godot esta Europa social que
nunca irá acontecer, pela razão de que o quadro europeu tal como
existe o proíbe é a direita e a extrema-direita que ocupam
o terreno da contestação que nós decidimos desertar. Pois
recordo-vos que o conceito de soberania nacional nasceu nas nossas fileiras (em
Valmy). Na verdade, a censura do debate sobre o euro não é apenas
antidemocrática, ela é simplesmente suicida. Não
reconstruiremos uma perspectiva socialista, ou mesmo moderadamente socialista,
sem radicalmente por o euro em causa.
3.
O anti-capitalismo. Isso significa a necessidade de romper com o sistema de
dominação do capital em última análise,
ultrapassada, tornada quase unicamente destrutiva, assassina, mesmo criminosa.
A alternativa anti-capitalista é a transição socialista.
É a única alternativa razoável. O que quer dizer isto,
para nós? Isso quer dizer, mais concretamente:
-
serviços públicos fortes, concebidos como
condições de cidadania;
-
a planificação, pela aplicação de uma
estratégia de desenvolvimento, socialista;
-
o controle da moeda, da banca e dos sectores estratégicos da economia,
o que implica portanto nacionalizações, a repensar totalmente em
relação às experiências passadas;
-
uma propriedade dos recursos naturais colectiva e a urgência de uma
protecção da natureza;
-
formas de propriedade certamente diversas, mas orientadas para a
socialização das forças produtivas;
-
uma elevação muito forte dos rendimentos do trabalho, muito
mais rápida, com um objectivo de justiça social, uma
óptica igualitária;
-
relações exteriores garantindo a troca ganhador-ganhador e
fundamentadas sobre a paz;
-
e, naturalmente, uma forma de democracia política ampliada, não
fictícia como hoje, mas autêntica, amplamente participativa,
tornando possíveis e concretizando as escolhas colectivas
estratégicas.
Portanto, juntos, vamos deslegitimar o capitalismo, que promete
abundância, mas generaliza a penúria (vê-se o que isso
provoca em plena pandemia!). Vamos descredibilizar este sistema capitalista que
nos vende felicidade na publicidade, mas que nos empurra para a pior crise
desde 1945; que sacraliza a liberdade individual, mas desmantela os nossos
direitos, destrói os nossos serviços públicos, empobrece
cada vez mais os seres humanos. Desmascaremos este sistema arcaico que fala de
democracia mas impõe a ditadura da finança. Camaradas, não
se adapta a uma ditadura, combate-se contra ela. A ordem que nos impõe o
capital financeiro é, hoje em dia, uma ditadura. Nosso dever imediato de
toda e de todos é unirmo-nos para lhe pôr fim.
06/Novembro/2020
[*]
Economista, investigador do CNRS.
Transcrição da videoconferência de 6 de Novembro de 2020 no
debate organizado para o centenário do PCF.
Esta conferência encontra-se em
https://resistir.info/
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