A dívida pública dos países em desenvolvimento e os
empréstimos "subprime":
assalto às populações do terceiro e do quarto mundo
por Nicolas Sersiron
A titularização dos empréstimos "subprime"
é a mais recente invenção da finança internacional
para obter lucros com o trabalho das classes pobres. As "subprime
mortgages" são créditos hipotecários de risco,
tipicamente estado-unidenses. Dois a três milhões de
famílias americanas estão prestes a perder os seus bens devido ao
facto de o banco as obrigar a ceder as suas casas como garantia de reembolso, e
também devido à subida da taxa directora do Tesouro, à
descida do mercado imobiliário e às clausulas contratuais dignas
de usura. Método de enriquecimento mais antigo e sempre activo desde
há vinte e cinco anos, a dívida pública dos PED
(países em desenvolvimento) corresponde a empréstimos, geralmente
a longo prazo, concedidos aos Estados do Sul pelos grandes bancos, pelos
governos dos países ricos ou pelas instituições
financeiras internacionais BM e FMI. Surgida após a crise de 1982,
consequência da violenta escalada das taxas estado-unidenses de 1979, a
dívida pública é uma causa sempre presente no
empobrecimento de metade dos habitantes do planeta obrigados a sobreviver com
menos de dois dólares por dia. Por outro lado, os fluxos
contínuos de dinheiro do Sul para o Norte, a título de reembolso
da dívida, enriquecem consideravelmente a finança internacional e
os países industrializados. O que uns perdem ganham-no outros. A APD
(ajuda pública ao desenvolvimento) permanecerá insuficiente face
a este desequilíbrio constante dos fluxos financeiros em desfavor dos
países pobres.
As semelhanças entre estes dois dramas financeiros são
múltiplas, e envolvem, nomeadamente: as populações que
sofrem, os correctores aqueles que anunciam os empréstimos
com as técnicas e as mentiras utilizadas para convencer as pessoas a
pedirem empréstimos, os riscos incríveis corridos pelos bancos e
pelo sistema financeiro para obterem benefícios desmesurados, a
exposição da economia planetária ao perigo, as
operações de salvamento levadas a cabo pelos bancos centrais ou
pelo FMI que é o mesmo que dizer pelo dinheiro público
quando a conjuntura se modifica, os condicionalismos impostos pelas
entidades credoras que lhes proporcionam um domínio total sobre os
devedores em caso de falta de pagamento.
Quem paga estas dívidas?
Nos Estados Unidos, a maioria dos empréstimos tem sido acordada
às populações latino e afro-americanas, as mais
frágeis e as mais pobres, as mais fáceis de atrair com ofertas
mirabolantes: taxas muito baixas e reembolsos pouco significativos no
início. Muitas vezes pouco cultas, por vezes analfabetas, geralmente mal
alojadas, estas populações são frequentemente hipnotizadas
pelo sonho consumista americano. A habitação individual é
emblemática dessa situação. Incapazes de ler as
cláusulas dos contratos ou de compreender o impacto no seu futuro, elas
são presas ideais para os caçadores de lucros fáceis. Nos
anos de 1960 e 70, os países recentemente tornados independentes da
África e da Ásia e América Latina tinham fortes
necessidades financeiras para se reconstruírem e se desenvolverem.
Também eles ficaram fascinados com o milagre materialista ocidental. Os
dirigentes destes países deixaram-se enganar, mas sobretudo corromper,
por empréstimos com condições tão
favoráveis. Mais uma vez, as populações em causa
são latinas, indo-americanas, africanas e asiáticas. Foram a sua
força de trabalho e os seus impostos que foram utilizados, e que
continuam a sê-lo, para pagar esses empréstimos tão pouco,
ou nada, investidos no desenvolvimento dos seus países. A partir de
1982, as novas dívidas serviram, na maioria dos casos, para reembolsar
os primeiros. Passados 25 anos, muitos desses países consagram 40% das
suas magras receitas, ou seja, do orçamento do Estado, para o reembolso
da dívida pública externa.
Os correctores: técnicas e mentiras para convencer as pessoas a pedirem
empréstimos
A correia de transmissão será nos dois casos esse famoso
corrector. Aquele que anuncia os empréstimos, que seduz o cliente com
belas patranhas, que lhe esconde não apenas os verdadeiros riscos e a
variabilidade das taxas, mas sobretudo, as cláusulas referentes à
subida vertiginosa dos reembolsos desde o terceiro ano e durante os vinte e
sete que se seguem, no caso dos empréstimos "subprime". Aquele
que ganhará muito dinheiro por cada contrato assinado, seja qual for o
risco para a pessoa que pede o empréstimo. O argumento que diz que a
subida dos preços do imobiliário permitirá ao devedor
revender os seus bens e manter-se de pé em caso de dificuldades de
reembolso.
Em África, na Ásia ou na América Latina, os dirigentes
eram muitas vezes ditadores, e tornaram-se os verdadeiros correctores das
respectivas populações. Ao deixar-se corromper, ao desviar grande
parte dos empréstimos com o conhecimento dos credores, eles souberam
fazer aceitar ou simplesmente impor os empréstimos às
populações. Fosse porque os credores não forneciam
informação suficiente sobre a utilização dos
empréstimos, fosse porque o empréstimo já tinha sido
contraído, e em parte desviado confidencialmente, para o fundo dos
palácios dourados. Esses dirigentes privilegiaram os seus lucros
imediatos e pessoais sobre os das populações para grande
benefício dos credores e dos seus comanditários. São os
impostos dos camponeses e de outros pequenos produtores não informados
o fruto do seu trabalho que serão exportados pelo
país devedor a título de reembolso da dívida. As mentiras
e dissimulações dos correctores são imagem de marca da
pobreza das populações frágeis daqui e de lá.
Os riscos incríveis a que se sujeita o sistema financeiro para obter
benefícios desmesurados
O primeiro papel é desempenhado pelos bancos. Nos dois casos, os bancos
dispõem de liquidez considerável e procuram devedores. Em
2005-2007, os bancos são bastante ricos, as transnacionais das quais
eles são os grandes accionistas fazem lucros vertiginosos, são
eminentemente credoras. As taxas são baixas, os potenciais imensos. Os
bancos americanos não hesitam em fazer empréstimos
imobiliários a clientes quase insolventes. A taxa de partida
ridiculamente baixa torna-se exageradamente elevada, passados dois anos. Se o
nível da "prime rate" aumenta, devido à cláusula
de variabilidade e de indexação, e ao mesmo tempo, o preço
do imobiliário se estabiliza ou baixa, o empréstimo será
dificilmente reembolsável. As habitações ao tornarem-se
invendáveis pelo preço esperado provocam inevitavelmente a
falência do comprador endividado.
Pela magia da tecnologia financeira, pela titularização, o
reagrupamento das obrigações imobiliárias em pacotes e a
emissão dos títulos negociáveis representando esses
pacotes os bancos revendem essas obrigações
improváveis, mas com benefícios, no mercado das
acções. Os investidores, na busca de lucros excepcionais, nem
sempre conseguem avaliar os perigos. Depois da venda dessas
obrigações titularizadas, os riscos são externalizados e
diluídos no amplo planeta financeiro. Os bancos podem então
começar a emprestar sem riscos aparentes aos novos devedores insolventes
(os "ninja": "no income, no job, no asset") para
além dos critérios da dita 'boa governança'. Porque para
que a cadeia dos lucros obtidos com as "subprime" funcione sem
rupturas, é necessário aprovisioná-los em
permanência com os novos compradores, seja qual for a sua solvência.
Nos anos 60-70, os cofres dos bancos internacionais encheram-se, uma primeira
vez, com o retorno dos empréstimos do Plano Marshall, após a
reconstrução da Europa, e uma segunda vez, com o retorno dos
haveres dos produtores de petróleo depois da subida vertiginosa dos
preços definida pela OPEP em 73. Sendo o trabalho de um banco emprestar
e não entesourar, qual o melhor argumento para convencer uma pessoa que
pede um empréstimo, senão as taxas baixas? Mas tal como no caso
das "subprime", as taxas serão invariáveis e indexadas
à "prime rate": essa taxa fixada pelo Tesouro americano para o
refinanciamento dos bancos. A taxa de inflação monetária
a desvalorização da moeda será por vezes
superior à taxa nominal dos empréstimos. Uma
situação que será favorável aos países que
pedem empréstimos até ao início de 80. No entanto, os
bancos emprestaram muito para além dos seus próprios fundos,
correndo riscos inauditos. Só se preocuparam em saber se os
países eram ou não solventes no final dos contratos.
A falência dos países pobres no primeiro caso e dos pobres do
país mais rico no outro
Em 1979, assim que os Estados Unidos decidem unilateralmente multiplicar por
quatro a taxa de refinanciamento dos bancos (a "prime rate") para
quebrar a desvalorização do dólar e para fazer entrar de
novo o capital estrangeiro no seu país, provocam o encarecimento dos
reembolsos da dívida exterior dos países em desenvolvimento nas
mesmas proporções, através dos efeitos da variabilidade e
da indexação. Estes países, impossibilitados de continuar
a pagar, fazem um apelo ao FMI, em último recurso, que impõe, em
troca da sua ajuda, condicionalismos ultraliberais denominados PAS (planos de
ajustamento estrutural).
A armadilha da dívida funciona. Os países em desenvolvimento
contraem empréstimos para reembolsar uma dívida que se tornou
impagável por força maior (imprevisível, exterior e
irreprimível). Essas dívidas deixam de ser legítimas,
juridicamente não tinham de ser reembolsadas, uma vez que as
cláusulas do contrato original haviam mudado substancialmente. A essas,
falta adicionar as dívidas "odiosas": as que correspondem aos
empréstimos feitos a ditadores. No entanto, os países e os seus
contribuintes pagarão e ainda hoje pagam. O resultado foi o
empobrecimento da maioria das populações desses países e a
morte por má nutrição e doença para muitos.
Em 2007, a mesma causa, a subida das taxas americanas provoca mecanicamente o
encarecimento das mensalidades dos devedores "subprime". Os novos
compradores são raros, os "Ninja" começam a entrar em
falência. No final do segundo ano, os reembolsos são demasiado
pesados o preço do imobiliário sobreavaliado recai, as
habitações são invendáveis e assiste-se ao
desmoronar da cadeia de obrigações "subprime"
titularizadas. Milhões de famílias americanas ficarão de
novo sem as suas casas. O planeta financeiro começa a balançar
perigosamente e as populações mais frágeis sofrem as
perdas e pagam a factura.
As operações de salvamento levadas a cabo pelos bancos centrais
ou pelo FMI, ou seja, pelo dinheiro público, quando a conjuntura se
modifica: a exposição ao perigo da economia planetária
Sem as injecções de dinheiro proveniente das
instituições públicas ou internacionais, o sistema
financeiro já teria ruído muito provavelmente. Em 1980,
são os bancos, empenhados muito para além dos seus
próprios fundos, os primeiros a serem salvos. É o sistema
financeiro internacional que evita a falência graças ao dinheiro
público detido pelo FMI. É o FMI que impõe que os bancos
sejam reembolsados em primeiro lugar. O desenvolvimento dos países em
grande dificuldade terá de esperar. Em 2007, é novamente o
sistema financeiro internacional que escapa à catástrofe
graças às injecções monetárias dos bancos
centrais de Nova Iorque, Frankfurt ou Tóquio. Centenas de milhares de
milhões de dólares e de euros recuperam um pouco a
confiança perdida num sistema financeiro cego pelos reflexos dos seus
falsos diamantes. Os pobres, os que terão perdido as suas casas neste
jogo de enganos, não terão hipótese, a sua vez terá
passado.
Os condicionalismos impostos pelas entidades credoras que lhes proporcionam um
domínio total sobre os devedores em caso de falta de pagamento
Apesar de serem as decisões financeiras exteriores aos países em
desenvolvimento que criam o problema de solvência, o FMI impõe
cortes significativos nos seus orçamentos. Os planos de ajustamento
estrutural, a luta contra a pobreza, a anulação das
dívidas, a APD, os ODM, pouco ou nada mudarão, porque
permitirão que o sistema injusto, imoral e desumano perdure. As
populações inocentes vão perder infraestruturas,
serviços públicos, saúde e educação. Mais,
elas sofrerão a liberalização forçada, a abertura
das fronteiras com uma concorrência totalmente desequilibrada entre
pequenos produtores do Sul e multinacionais do Norte. Deverão continuar
a reembolsar indefinidamente uma dívida, tornada ilegítima, para
além de "odiosa". Os efeitos da crise não acabaram
porque a espiral infernal do empréstimo para reembolsar o
empréstimo precedente mantém-se em 2007 e os três mil
milhões de seres humanos que vivem com menos de dois dólares por
dia são disso a expressão mais visível. Quanto aos
milhões de latinos e afro-americanos dos Estados Unidos, quer eles
consigam trabalhar mais para ganhar mais 24 horas sobre 24 horas
para pagar e enriquecer os compradores das obrigações
titularizadas que rendem cerca 16% ou 18% aos seus detentores quando a
taxa de refinanciamento dos bancos está nos 4%; quer eles regressem
às habitações insalubres depois de terem perdido tudo;
eles nunca serão ajudados por esses poderes públicos esquisitos
que acabam de salvar um sistema financeiro tão feroz e
plutocrático quanto incapaz de se autogerir.
19/Outubro/2007
O original encontra-se em
http://www.cadtm.org/imprimer.php3?id_article=2887
. Tradução de RM.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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