O Federal Reserve e o seu papel sombrio nas eleições dos EUA
por Valentin Katasonov
Em Dezembro de 2015, o Federal Open Market Committee (FOMC) do Federal Reserve
decidiu elevar as taxas de juro. Pela primeira vez em sete anos o banco central
dos EUA incrementou a taxa em 0,25%. A amplitude de objectivos para a taxa dos
fundos do Fed foi estabelecida em 0,25 0,50%.
Foi um movimento que provocou uma reacção por todo o mundo. Nos
EUA, a decisão do Fed foi encarada amplamente como um sinal de que o
país estava a emergir da sua crise económica, que o desemprego
havia caído para um nível socialmente administrável, que
um boom de investimento havia começado na economia real e que não
haveria reencenação da crise financeira. Mas quando surgiu a
reacção do resto do mundo quanto à decisão de
Dezembro do Fed, ficou evidente, antes de mais nada, que nos mercados globais o
cash agora começava a fluir na direcção dos EUA. Os
problemas económicos de outros países agravaram-se, incluindo os
da China.
Eminentes conselheiros americanos, os directores dos 12 bancos do Federal
Reserve e mesmo a própria governadora do Federal Reserve System, Janet
Yellen, começaram a falar como se a decisão de Dezembro fosse
apenas o ponto de partida. Como se uma era de incrementos de taxa estivesse a
começar. Como se nos dois anos seguintes o Fed gradualmente fosse subir
a taxa de juro de referência para 3,0 3,5%.
O FOMC do Fed toma decisões sobre a taxa e é-lhe exigido que se
reúna oito vezes por ano. Mas desde Dezembro último ele manteve
várias reuniões sem um único novo aumento. A sra. Yellen
tem-se mantido muito silenciosa. Analistas calcularam que nos primeiros oito
meses de 2016 ela divulgou declarações oficiais apenas um par de
vezes, não contando as conferências de imprensa após
reuniões do Fed e seu testemunho perante o Congresso. Para
comparação, nesta altura do ano passado Yellen já havia
emitido sete anúncios e em 2014 emitiu dez. Desde 1996, a governadora do
Fed tem feito uma média de 19 discursos oficiais por ano.
Peritos apresentam duas explicações para a "timidez"
("coyness")
da senhora. Em primeiro lugar, o panorama financeiro na América de hoje
e por todo o mundo parece-se muito com o de 2007, exactamente quando a crise
financeira global estava prestes a desencadear-se. Em segundo lugar, os EUA
estão prestes a eleger um novo presidente. Mais uma vez, uma palavra
descuidada de Yellen poderia ferir a candidata democrata, Hillary Clinton.
Embora se suponha que governadores do Federal Reserve permaneçam acima
das rixas políticas, todos sabem que Yellen é do Partido
Democrata e segue a linha do partido.
Muitos americanos estão perturbados por esta acalmia prolongada que
antecede a prometida alta na taxa de referência do Fed. Trump
também está preocupado e manifestou repetidamente seu
desconforto. Ele articula sua argumentação muito claramente. A
actual taxa de juro estabelecida pelo US Federal Reserve é tão
barata que a moeda é praticamente gratuita. Trump é um homem de
negócios que certamente gosta de dinheiro barato. Contudo, como
próximo presidente, também deve ter em mente o futuro do seu
país como um todo. E a moeda barata nos EUA é uma bomba
relógio à espera de explodir.
Isto está a criar uma bolha crescente no mercado financeiro que
certamente disparará uma nova crise financeira. Por esta razão,
como próximo presidente dos EUA, ele precisa que Janet Yellen, como
governadora do Federal Reserve, eleve de imediato a taxa de referência.
Trump fez reiteradamente tais declarações durante este ano e em
Maio último prometeu demitir Yellen da sua posição como
presidente do Board of Governors do Fed assim que tomar posse.
Em 12 de Setembro, Donald Trump fez mais uma declaração, ao ser
entrevistado na CNBC. Mas esta foi ligeiramente diferente, porque desta vez ele
estendeu as acusações de negligência: não só
contra Janet Yellen mas também contra Barack Obama. Ele
disse
especificamente: "A taxa permanece em zero porque ela [Janet Yellen] é obviamente
política e faz o que Obama quer que ela faça".
Segundo
Trump, Yellen está "a mantê-las [as taxas de juro]
artificialmente baixas para deixar Obama tranquilo", referindo-se ao
desejo de Obama de abandonar o posto com uma nota positiva e com um legado
favorável. Mas quando Trump chegar à Casa Branca terá de
limpar a desordem que Yellen e Obama deixaram atrás.
Naturalmente há mais do que um pouco de vociferação
política nas afirmações de Trump. Ainda não
é evidente que Trump tenha qualquer plano sério para reestruturar
o sistema financeiro e económico americano. Não parece haver
alguém ao seu redor ou no seu círculo de conselheiros que seja
capaz de conceber um tal programa e muito menos de implementá-lo.
Naturalmente, uma das promessas da campanha de Barack Obama foi reformar
radicalmente o sistema financeiro e bancário dos EUA a fim de evitar uma
repetição do pesadelo da crise financeira de 2007-2009. E a Lei
Dodd-Frank também conhecida como o Wall Street Reform and
Consumer Protection Act não teria sido
aprovada
em 2010 sem o seu apoio. Contudo, aquela lei foi morta à partida,
porque banqueiros da Wall Street efectivamente bloquearam a sua
aplicação.
O problema é que o Federal Reserve é uma corporação
privada e a presidente do seu Board of Governors sempre recebeu ordens apenas
daqueles accionistas corporativos os quais primariamente consistem nos
maiores bancos da Wall Street. Eles são os mestres reais da moeda. E
aparentemente planeiam mais uma vez reencenar o velho roteiro dos anos 2000, o
que significa aquecer o mercado financeiro utilizando moeda barata (gratuita).
Ao perceber que isto gerará uma segunda onda inevitável da crise
financeira, Trump está a tentar transferir antecipadamente a culpa para
Obama. Quer tenha ou não êxito na tentativa, os arquitectos reais
da crise certamente permanecerão nas sombras.
16/Setembro/2016
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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