Quem tem autoridade na Europa?
por Valentin Katasonov
[*]
O referendo no Reino Unido em 23 de Junho reforçou as tendências
de desintegração dentro da UE e estimulou um novo olhar a toda a
estrutura da União Europeia. Das sete instituições da UE
(o Conselho Europeu, o Parlamento Europeu, o Conselho da União Europeia,
a Comissão Europeia, o Tribunal de Justiça da União
Europeia, o Tribunal de Auditores e o Banco Central Europeu (BCE)), este
habitualmente mencionado por último, o BCE não é de modo
algum o menos importante. De facto, há razões para acreditar que
em termos de impacto sobre a vida na Europa o BCE é a mais importante
instituição da União Europeia.
O BCE, a mais importante das sete instituições da UE
Com sede em Frankfurte, o BCE é o banco central da eurozona, a qual tem
19 membros. O objectivo primário do BCE é manter estabilidade de
preços dentro da eurozona (mantendo de ano para ano a taxa de
câmbio no índice de preços no consumidor em torno dos 2 por
cento). Além disso, ao BCE são confiadas funções
como emitir euros (tanto na forma de cash como de não-cash); definir e
implementar a política monetária da eurozona; administrar as
reservas estrangeiras do Sistema Europeu de Bancos Centrais e estabelecer taxas
de juro chaves.
O
Tratado
sobre o Funcionamento da União Europeia enfatiza que o BCE é
independente das outras instituições da UE. O mais alto organismo
para a tomada de decisões é o Conselho de Governadores, o qual
é constituído pelos governadores dos bancos centrais dos
países da área do euro. O número de votos no Conselho
é determinado pelo peso económico do país. Entretanto, a
maior parte das questões não são tomadas pelo Conselho de
Governadores e sim pelo Conselho Executivo
(Executivo Board),
o qual é constituído por seis pessoas. Um dos membros do
Conselho Executivo é o presidente do BCE (Mario Draghi).
A seguir à crise financeira de 2007-2009 começou a
construção de um sistema bancário unificado da UE e ao BCE
foi confiada a responsabilidade de ser o regulador dos bancos europeus
"sistemicamente importantes" (cerca de 130 bancos gigantes). Na
prática, o BCE removeu esta função dos bancos centrais
nacionais. Finalmente, em 2012 foi criado o Mecanismo Europeu de Estabilidade (
MEE
), uma espécie de mealheiro
(money pot)
colectivo da UE para proporcionar assistência financeira de
emergência a naufrágios países (primariamente a
Grécia). Mais uma vez, o BCE tomou sobre si a responsabilidade de
supervisionar este fundo europeu. De facto, durante vários anos
após a crise financeira, o BCE conseguiu ganhar o controle do sistema
financeiro e bancário não só da eurozona como de toda a
União Europeia. A propósito, esta foi uma das razões
porque o Reino Unido votou do modo que o fez no referendo da UE: a
ameaça de Londres perder controle sobre o seu próprio sistema
financeiro e bancário tornou-se demasiado evidente.
Na Europa continental, mesmo aqueles favoráveis à
preservação da UE pedem frequentemente que o BCE seja colocado no
seu lugar. Referências ao facto de que o mais alto organismo de governo
do BCE é o Conselho de Governadores, o qual é composto por
governadores dos bancos centrais da eurozona, são inconvincentes. Em
primeiro lugar, os bancos centrais nacionais têm um alto grau de
autonomia e são fracamente controlados pelos governos e parlamentos. Em
segundo lugar, o BCE estende sua influência para além da eurozona.
O BCE e o Goldman Sachs
O actual presidente do BCE,
Mario Draghi
, tornou-se o chefe desta instituição em 1 de Novembro de 2011,
sucedendo a Jean-Claude Trichet. Draghi imediatamente deixou claro que
não tinha intenção de coordenar suas acções
com ninguém. Já em Dezembro de 2011 decidiu providenciar um
empréstimo de três anos para salvar bancos europeus sem consultas
nem à Comissão Europeia nem a outras instituições
da UE. O montante total cerca de 500 mil milhões com taxas de juro
simbólicas.
Mario Draghi irritou mesmo os numerosos apoiantes da integração
europeia e foi chamado o "Cavalo de Troia" do Goldman Sachs. De 2002
a 2005, Draghi fora vice-presidente e administrador executivo do Goldman Sachs
International, um dos quatro maiores bancos nos EUA e um daqueles associados a
práticas financeiras malsãs que se verificaram nos mercados de
acções no século passado.
Na Europa, recorda-se como aquele banco da Wall Street deu empréstimos
à Grécia na década de 2000, deixando o país preso a
dívidas. Foi utilizada uma técnica especial de crédito que
ocultava a dívida crescente da Grécia e Bruxelas dormia enquanto
a bomba da dívida estava a ser colocada por baixo da "Europa
Unida". A dívida grega emergiu exactamente ao mesmo tempo em que
Mario Draghi se tornava presidente do BCE. Desde então, a Europa tem
estado numa crise de dívida permanente e responsáveis em
Bruxelas, nos estados membros da eurozona e na UE são forçados a
concordar com toda "iniciativa" avançada pelo BCE, o qual
está a chantagear a Europa com a ameaça do colapso financeiro.
Muitos europeus criticam o BCE basicamente por causa do seu programa de
facilidade quantitativa
(quantitative easing, QE).
Por trás desta expressão oculta-se a operação
trivial de criar moeda com uma máquina impressora, exactamente a
operação que era condenada em todo manual de teoria
económica do século XX. O pioneiro por trás da fraude da
facilidade quantitativa foi o US Federal Reserve System. A fraude consistiu em
permutar dólares totalmente novos por títulos lixo que o Federal
Reserve começou a comprar no mercado. A medida fora concebida
alegadamente para ressuscitar a economia dos EUA a seguir à crise.
Contudo, não houve ressuscitação e a economia global
começou a ser enchida com moeda barata e mesmo gratuita (taxas de juro
no mercado começaram a cair para zero). Esta moeda fácil
não entrou na economia real, mas sim nos mercados financeiros onde novas
bolhas começaram a inchar. As ameaças colocadas pelo programa QE
forçaram as autoridades dos EUA a por um fim ao perigoso experimento em
2014.
No mesmo ano, a Europa decidiu começar o seu próprio experimento
de facilidade quantitativa. A decisão foi tomada pelo Banco Central
Europeu e pelo presidente do BCE Mario Draghi, pessoalmente. As
repercussões do programa QE demonstraram-se ainda mais desastrosas para
a economia europeia do que para a economia dos EUA. O facto é que o BCE
decidiu aumentar o efeito do programa com a introdução de taxas
de juro negativas. Já em 2014, o BCE declarava estar a impor uma taxa de
juro negativa sobre sua facilidade permanente de depósito
(deposit facility)
e depois, em 2016, que estava a cortar sua taxa de juro para zero. Surgiram
bancos comerciais na Europa que não só têm taxas de juros
negativas nas suas operações de depósitos como
também nas suas operações activas (hipotecas na Dinamarca
e na Bélgica). Actualmente há títulos que totalizam
vários milhões de milhões
(trillion)
nos mercados europeus de títulos da dívida pública com
taxas de juro flutuantes!
Companhias e bancos europeus consideraram esta situação no
mercado como o seu tempo de esplendor. Eles apressaram-se a emitir seus
títulos corporativos a menos de 0,5 por cento e até menos de 0,1
por cento. Taxas de juros como estas tornam os títulos corporativos mais
atraentes do que os títulos "negativos" da dívida
pública dos governos. Mas para onde os emissores corporativos
estão a enviar a moeda levantada? A moeda está a ir exactamente
para os mesmos mercados financeiros. Os mercados estão a aquecer e as
bolhas estão a inchar.
Em sua defesa, o BCE diz que está a "salvar" a Europa. A
operação de resgate reduz-se à compra pelo BCE de
títulos de dívida de um certo número de países
europeus (Grécia, Espanha, Portugal e Itália). Mario Draghi
está a alimentar a procura pelos títulos de estados em
bancarrota. Estes títulos habitualmente têm períodos de
reembolso muito longos (dez anos ou mais). No momento, eles estão a ser
comerciados a preços significativamente mais altos do que o seu valor
facial, mas mesmo um leigo pode ver que estas cotações
inflacionadas a qualquer momento poderiam cair abaixo do valor facial. O
colapso do mercado é inevitável, é apenas uma
questão de quando.
Alguns peritos europeus acreditam que o presidente do BCE está a actuar
no interesse de Washington e do US Federal Reserve System ao minar a
competitividade da economia europeia e enfraquecer o euro de uma vez por todas.
Outros sugeriram que Draghi está a actuar especificamente no interesse
do Goldman Sachs. Mesmo em meio aos tubarões da Wall Street, este banco
destaca-se. Em primeiro lugar, ele empresta-se a si próprio ganhando
dinheiro com crises, bancarrotas e falências como nenhum outro. Em
segundo lugar, ele habituou-se a abrir caminho como um verme dentro do governo
e receber apoios orçamentais e outros. Foi exactamente isto que permitiu
ao banco aguentar a crise de 2007-2009.
Um duelo entre o BCE e o Deutsche Bank
No princípio do Verão, o descontentamento entre políticos,
homens de negócio e secções da comunidade bancária
com BCE aumentou drasticamente. Isto deveu-se às acções da
maior instituição financeira privada na Europa continental
o Deutsch Bank (DB). No fim de Junho, o DB publicou um
relatório
que avaliava as consequências da política do BCE. Estas
consequências são devastadoras, uma vez que a moeda quase gratuita
está a prolongar artificialmente a vida de companhias em bancarrota,
exacerbando a crise de superprodução e impedindo a
restauração do equilíbrio do mercado. As dívidas
soberanas de estados membros da UE também continuam a crescer devido
à compra de títulos pelo BCE. O documento do Deutsche Bank
conclui que o BCE está a impedir a implementação de
reformas estruturais na eurozona e a preparar as condições para
uma nova crise, ainda maior. O Deutsche Bank conclamou o BCE a travar a sua
política de facilidade quantitativa e de moeda gratuita.
Directa ou indirectamente, a posição do Deutsche Bank tem sido
apoiada pelos outros bancos europeus, primariamente os alemães. Um dos
maiores bancos da Alemanha o Commerzbank
apelou
ao BCE para que abolisse suas taxas de juro negativas sobre contas de
depósito, advertindo que doutra forma ele não mais utilizaria os
serviços de depósito do BCE, mas armazenaria seu excesso de
liquidez (centenas de milhões e mesmo milhares de milhões de
euros) nos cofres em forma de cash. Mesmo o ministro federal das
Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, criticou a política
do BCE. Em Maio, o Tribunal Constitucional da Alemanha informou que recebera
uma queixa respeitante à política monetária do Banco
Central Europeu. Os nomes dos queixosos não foram revelados, mas
alegadamente são um grupo de homens de negócio alemães e
peritos nos campo da teoria económica e das finanças.
O governador do Banco da França e membro do Conselho de
Administração do banco, François Villeroy de Galhau,
inesperadamente exprimiu-se publicamente em apoio à política do
BCE, mas os governadores de bancos centrais em muitos outros países
europeus estão a manter-se silenciosos e isso é
compreensível. Como profissionais, eles estão claramente
conscientes dos efeitos devastadores a longo prazo da política de
facilidade do BCE, mas seus países recebem "prendas" do BCE
por meio de compras de títulos do Tesouro a preços competitivos.
Mario Draghi fez uma pausa maior do que outros responsáveis europeus a
seguir ao referendo britânico de 23 de Junho. Ele finalmente falou,
considerando os resultados do referendo "extremamente
lamentáveis". Nos primeiros dois dias úteis após o
referendo (sexta-feira 24 de Junho e segunda-feira 27 de Junho), os mercados
globais de acções perderam US$3 milhões de milhões
(trillion).
O único tombo comparável antes disto foi registado no
princípio da crise financeira global de 2007-2009. Nunca
conferência financeira efectuada na cidade portuguesa de Sintra, no fim
de Junho, o presidente do BCE apelou a maior cooperação entre os
principais bancos centrais.
Ninguém põe em dúvida que o Brexit levará a
reformas sérias dentro da UE. Esboços preliminares para tais
reformas estão
contidos
num documento intitulado "Uma Europa forte num mundo de incerteza".
O documento foi assinado pelos ministros dos Estrangeiros da Alemanha e da
França Frank-Walter Steinmeier e Jean-Marc Ayrault. As reformas
radicais que eles propõem estão destinadas a despojar ainda mais
estados membros soberanos dos seus direitos soberanos. O documento propugna
pela criação de um organismo UE na forma de um "Super-estado
europeu" no qual os estados membros da UE perderão finalmente sua
soberania nacional de uma vez por todas, mas em relação ao papel
o BCE e a sua posição dentro desta nova arquitectura europeia, o
documento nada diz.
24/Julho/2016
[*]
Professor, membro associado da Academia Russa de Ciência
Económica e Negócios
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/news/2016/07/24/ecb-who-wears-trousers-europe.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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