A finança global e o imposto Robin Hood
por Valentin Katasonov
Após o recuo da primeira onda da crise financeira global (2007-2009),
alguns economistas começaram a ponderar como o seu retorno poderia ser
impedido. Então surgiu a ideia de introduzir um "
imposto Robin Hood
" um imposto sobre transacções interbancárias
que arrefeceria o fervor especulativo dos banqueiros e evitaria a
formação de bolhas nos mercados financeiros.
Remontando a 2010, uma petição colectiva com essa proposta foi
enviada aos líderes do G20. Sugeria-se ali que a receitas deste imposto
fossem utilizadas para combater a pobreza, tratar dos problemas da
educação e cuidados de saúde e evitar a
alteração climática
[NR]
. Mesmo uma taxa de imposto irrisória de 0,05% poderia arrecadar US$100
mil milhões em receitas anuais, o que excede de longe o montante da
ajuda ocidental a países do terceiro mundo.
Originalmente esta carta conjunta foi assinada por 350 dos principais
economistas do mundo. Mas no ano seguinte milhares de economistas de 53
países acrescentaram a sua assinatura à petição.
Entre os signatários incluiam-se os prémio Nobel Paul Krugman e
Joseph Stiglitz, bem como Jeffrey Sachs, um influente conselheiro do
secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, e professores de importantes
universidades na Europa e nos Estados Unidos.
A ideia do imposto foi apoiada por muitas figuras públicas e
políticas. Em particular, o primeiro-ministro britânico Gordon
Brown, o primeiro-ministro grego George Papandreu; e muitos bem conhecidos
responsáveis na Alemanha e particularmente em França
pronunciaram-se em favor do imposto. Também houve alguns oponentes,
primariamente nos Estados Unidos.
O conceito do imposto Robin Hood não surgiu num vácuo. Na
década de 1970 o economista americano James Tobin (1918-2002) argumentou
em favor de um tal imposto, o qual acabou por receber o seu nome. Em escritos
académicos isto é conhecido como o "imposto Tobin". O
economista americano sugeriu que a fim de atordoar os especuladores financeiros
seria suficiente estabelecer uma taxa na amplitude dos 0,1% a 0,25% do valor de
uma transacção em divisas (vendas).
Um imposto assim foi introduzido na Suécia na década de 1980. Em
consequência, especuladores suecos retiraram-se do seu mercado financeiro
interno e mudaram-se para o mercado vizinho na Grã-Bretanha. Depois de
sete anos a Suécia livrou-se do imposto. Ficou claro que o imposto
só poderia ter o efeito desejado se fosse introduzido simultaneamente em
todos os países, ou pelo menos naqueles com mercados financeiros bem
desenvolvidos. Enquanto isso, especuladores financeiros estavam a brincar com
um jogo que se tornava ano a ano cada vez mais arriscado, e as taxas de imposto
originalmente sugeridas por James Tobin já não eram mais
suficientes. Era necessário um "imposto travão" mais
poderoso.
A deterioração do quadro financeiro e económico na Europa
(a crise da dívida devastando o continente, a crise financeira na
Grécia, etc) forçou Bruxelas a procurar meios rápidos e
eficazes para estabilizar a situação. O imposto Tobin foi
recordado mais uma vez. Em 14/Fev/2013, a Comissão Europeia (CE) decidiu
introduzir um Imposto sobre transacções financeiras (Financial
Transaction Tax,
FTT
). As taxas do FTT foram ajustadas em 0,1% para transacções em
acções e obrigações e em 0,01% para
transacções de derivativos.
A comuidade bancária americana respondeu com protestos a esta
inovação, afirmando que se a FTT fosse imposta, os bancos e
companhias financeiras dos EUA retirar-se-iam da UE. A Grã-Bretanha
juntou-se ao ultimato estado-unidense. O primeiro-ministro britânico
David Cameron declarou que o seu país vetaria um imposto pan-europeu
sobre transacções financeiras, explicando que Londres estaria
disposta a introduzir o FTT apenas se um tal imposto fosse arrecadado
globalmente e não simplesmente na Europa. As perspectivas actuais para o
estabelecimento de um FTT global parecem bastante incertas qualquer
país pode cobrar o imposto por si próprio, mas não tem o
direito de impô-lo sobre outros.
No final das contas, a implementação da decisão da CE
sobre o FTT foi adiada. Após os protestos de Cameron, Sarkozy declarou
que a França unilateralmente introduziria o imposto. Finalmente a
França e a Itália autorizaram a este imposto, num forma algo
truncada e, em consequência, algumas das suas transacções
financeiras transferiram-se para países vizinhos. Após a
introdução do imposto, o volume de comércio no mercado
italiano de acções caiu em 12% em 2013 em
comparação com o ano anterior. Durante aquele período as
vendas em todos os outros mercado de acções na Europa cresceram
em 7%.
Exactamente dois anos depois da primeira decisão não aplicada da
CE sobre o FTT, os ministros das Finanças de onze países
(Áustria, Bélgica, Alemanha, Grécia, Espanha, Portugal,
Eslováquia, Eslovénia, França e Estónia) discutiram
e endossaram um plano actualizado para estabelecer o FTT. A mudança na
posição francesa foi a mais importante. Até aqui a
Áustria e a Alemanha instavam pela tributação do que
é conhecido como derivativos financeiros, tais como os futures, ao passo
que a França se opunha, explicando que os seus bancos controlavam pelo
menos um quarto do mercado europeu de tais instrumentos, os quais são
emitidos na base de acções. François Hollande agora
declarou seu apoio à tributação do número
máximo de ítens que estão envolvidos em
transacções financeiras, incluindo derivativos comercializados,
mas num nível mínimo. No ano passado Bruxelas anunciou que as
partes haviam conseguido chegar a um acordo acerca de taxas e de ítens
tributáveis e declarava a inauguração de um novo sistema
fiscal a começar em 01/Jan/2016. Estimativas preliminares das receitas
do imposto vão aos 57 mil milhões de euros por ano. E mais da
metade disso virá de impostos sobre transacções envolvendo
derivativos que estão ligados a taxas de juro.
Agora toda a gente está preocupada quanto a que cofres
orçamentais deveriam receber o dinheiro do imposto. Tome-se, por
exemplo, a compra e venda de acções. A receita fiscal poderia ir
para o tesouro do país do comprador, do país do vendedor ou do
país no qual o emissor das acções está registado.
Mas também há uma outra opção: o FTT poderia passar
para o orçamento geral da UE. Muitos políticos e economistas
europeus consideram a assimetria da União Europeia muito confusa, embora
tenha sido assim durante muitos anos. Isto é evidente no facto de que a
UE tem um banco central mas nenhum Ministério das Finanças
(tesouro).
Por esta razão, a
declaração conjunta
divulgada em 8/Fev pelos governadores dos bancos centrais da Alemanha e da
França Jens Weidmann e François Villeroy de Galhau
foi um acontecimento significativo. A declaração listava pedidos
de reforma imediata e radical da UE. No cerne daquelas reformas jaz a
insistência de que os estados membros da UE cedam ainda mais dos seus
direitos e poderes para o nível europeu. Uma das sugestões era
criar um Ministério das Finanças do conjunto europeu. Se um tal
ministério fosse financiado, o FTT poderia tornar-se o primeiro imposto
pan-europeu a encher um cofre comum da UE.
Mais de 40 anos se passaram desde que Tobin começou a expor a sua ideia
de tributar transacções financeiras, mas muito pouco progresso
tem sido feito quanto à sua implementação prática.
É verdade que alguns países arrecadam impostos sobre
transacções financeiras, mas isso funciona de um modo um pouco
diferente. Há muitos exemplos de países que estabilizam suas
economias e as taxas cambiais das suas divisas nacionais recorrendo a
restrições sobre movimentos transfronteiriços de capital,
tais como impostos sobre transacções financeiras
transfronteiriças. Naturalmente, aquelas taxas de impostos são
muito mais elevadas do que as que Tobin recomendou. O Brasil em particular
introduziu um imposto sobre investimento estrangeiro em 2009, a uma taxa igual
a 2% do capital envolvido. Mas isto não foi suficiente para travar a
apreciação da divisa local (o real) e no ano seguinte aquela taxa
foi elevada para 4%. Depois de a economia do Brasil ter estabilizado em 2013, o
imposto foi revogado.
É difícil denominar os planos da Europa para introduzir o FTT
como um "imposto Robin Hood". Não há
intenção de utilizar a receita do FTT na União Europeia
para combater a pobreza. Hoje, um dos maiores problemas da Europa é como
estabilizar seu sistema bancário melhorando a supervisão dos
prestamistas que são considerados "demasiado grandes para
falir" e reforçar seu capital. Aproximadamente 150 gigantes
bancários, como o Deutsche Bank e a Société
Générale, são vistos como "demasiado grandes para
falirem". Mas estes gigantes não podem aumentar seu capital
insuficiente por si mesmos e estão à espera da ajuda de Bruxelas
(a Comissão Europeia) e de Frankfurt (o Banco Central Europeu).
...Se os apoiantes de uma "Europa unida" conseguirem introduzir um
imposto pan-europeu sobre transacções financeira e estabelecer um
orçamento comum da UE, os impostos arrecadados serão retornados
àqueles que os pagam, ou seja para os bancos.
Ninguém hoje na Europa ou em qualquer parte do mundo hesita em chamar
banqueiros de "ladrões"
("robbers"),
mas não ladrões nobres como era Robin Hood, apenas gatunos
implacáveis e cobiçosos que não entendem o conceito de
piedade.
16/Fevereiro/2016
[NR] As "alterações climáticas" são um
falso problema, como resistir.info reiteradamente tem mostrado.
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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