Federal Reserve: Agonia mortal no seu 100º aniversário
por Valentin Katasonov
[*]
O Federal Reserve Act foi promulgado em 23 de Dezembro de 1913 quando,
há uma
centena de anos, a lei foi assinada pelo presidente Woodrow Wilson. Desde
então o Federal Reserve System tornou-se um factor determinante da
economia e da política estado-unidense.
Um Federal Reserve System ilegítimo
Muitos americanos acreditam que um bando de banqueiros internacionais
alcançou o poder quando o Federal Reserve System (FRS) entrou em vigor.
O presidente e o Congresso tornaram-se servos dos principais accionistas do
FRS. A Federal Reserve Corporation, de propriedade privada, pertencente a um
grupo de banqueiros, tornou-se o único poder real na América o
qual começou então a competir pela dominância mundial.
Numerosas publicações dedicaram-se ao assunto.
O livro
Secrets of the Federal Reserve,
de Eustace Mullins, foi o primeiro a vir a lume no fim da década de
1940. Foi seguido por
The Federal Reserve Conspiracy
de Antony Sutton;
The Syndicate: The Story of the Coming World Government
de Nicholas Hagger,
The Unseen Hand
de A. Ralph Epperson e
The Gods of Money
de William Engdahl. Há um bestseller recente do antigo deputado Ron
Paul chamado
End the Fed
. O poder do Federal Reserve no século XX instilou um falso sentimento da
sua eternidade tal como o da emissão do dólar. Estas
ilusões evaporaram-se gradualmente quando eventos no
princípio do século XXI começaram a desdobrar-se... Ron
Paul enumera muitos casos em que o Federal Reserve System tem estado em directa
violação do Federal Reserve Act. O mais chocante é a
concessão pelo Federal Reserve System de créditos incrivelmente
gigantescos na quantia total de US$ 16 milhões de milhões
(trillion)
aos maiores bancos da América e da Europa durante a recente crise
financeira. Não me refiro ao facto de que o próprio
estabelecimento do Federal Reserve System foi uma flagrante
violação da Constituição americana, a qual afirma
claramente que só o Congresso está autorizado a emitir moeda,
não um grupo de proprietários privados.
Cenário da "fuga do dólar"
O Federal Reserve System preservou sua influência ao longo de todo o
século porque houve procura do US dólar produzido pelas suas
impressoras, no país e além das suas fronteiras. Todos os
esforços da política externa dos EUA desde o começo do
século XX até o princípio do XXI centraram-se na
promoção da mercadoria produzida pelas máquinas de
impressão do Federal Reserve. Foi isto que levou ao desencadeamento de
duas guerras mundiais e a um bocado de conflitos locais. Não era
difícil manter a produção do Federal Reserve System com a
procura pós II Guerra Mundial, quando o mundo obtinha a maior
proporção de bens comprando-os aos EUA e dando dólares em
contrapartida. Os EUA eram o maior accionista do Fundo Monetário
Internacional e do Banco Mundial, que promoviam o processo de
"dolarização". Isto constituía o cerne do Plano
Marshall com o lançamento de múltiplos programas de ajuda externa
estado-unidenses.
Graças à política de Kissinger para o Médio
Oriente, apoiada pelo poder militar dos EUA, em 1973-1975 Washington conseguiu
introduzir as bases do padrão petróleo-dólar. O mundo
começou a vender o "ouro negro" apenas por dólares. Os
mercados financeiros mundiais começaram a prosperar na segunda metade do
século XX e os "instrumentos financeiros" eram
predominantemente vendidos também em US dólares.
A procura pelo dólar começou a cair nos últimos anos. A
competição com outras divisas começou. O euro, o yuan e as
divisas alheias à lista das moedas de reserva desafiaram a nota verde.
Tentando livrar-se da dependência do dólar, líderes de
outros países muitas vezes faziam declarações extremas as
quais são percebidas pelos donos do Federal Reserve System como apelos
ao boicote do padrão petróleo-dólar. No seu tempo, Saddam
Hussein recusou-se a vender o "ouro negro" por dólares e
comutou para pagamentos em euro. Washington respondeu imediatamente; a revolta
resultou no derrube de Saddam Hussein e a sua posterior execução.
Algum tempo depois o mesmo destino foi reservado a Muammar Qaddafi, o qual
havia planeado abandonar o dólar pelo dinar dourado. Os planos de
Washington fracassaram quando chegou a vez do Irão. As
sanções estado-unidenses foram impostas há longo tempo
(1979). Mas o país era um osso duro de roer.
O Irão recusou-se terminantemente a utilizar o US dólar para
transacções externas
(deveria ser notado que todas as transacções tramitam
através do sistema bancário dos EUA e são controladas pelo
Federal Reserve System). Isto é um precedente perigoso, um exemplo que
pode ser seguido por outros estados. Passos cautelosos para gradualmente
afastar-se do dólar começaram a ser tomados pela China. Pequim
concluiu uma série de acordos com outros países para utilizar
divisas nacionais no comércio externo. Exemplo: está em vigor um
acordo entre Pequim e Tóquio que prevê a utilização
do yuan e do yen para as transacções comercias China-Japão
pondo de lado todas as outras divisas, incluindo o US dólar. Estes
eventos poderiam ser caracterizados como uma emancipação gradual
em relação ao US dólar, processo que a qualquer dado
momento pode tornar-se uma fuga da divisa dos Estados Unidos. Neste caso, o
Federal Reserve System pode não morrer de imediato, mas
tornar-se-á nada mais do que um banco central comum com
operações limitadas apenas pelos desenvolvimentos
económicos internos.
O cenário do "Federal Reserve System" fora do negócio
Alguns anos atrás ninguém poderia imaginar um cenário que
considerasse a bancarrota do Federal Reserve System. Mas os apuros do FRS
começaram a agravar-se rapidamente a partir de 2010 devido à
implementação da política da facilidade quantitativa
(quantitative easing).
Anunciando o objectivo de restaurar a economia nacional e promover o emprego
após a crise financeira, o Federal Reserve System continuou a aumentar a
produção das suas impressoras. O mecanismo é tão
simples quanto podia ser: o Federal Reserve System troca a sua
produção de papel por diferentes espécies de
títulos oferecidos por bancos americanos (US$85 mil milhões por
mês durante o ano passado). Os papéis incluem títulos do
Tesouro dos EUA ou títulos hipotecários. Estes últimos
não são senão pedaços de papel que os financeiros
chamam "activos tóxicos" no seu jargão profissional. O
preço de mercado é extremamente baixo (de vez em quando flutua em
torno de zero), mas o Federal Reserve System adquire-os ao seu valor facial ou
quase ao custo nominal. O FRS só pode vender "activos
tóxicos" a operar com prejuízo. A acumulação
de tais "activos" criará uma bolha inchada de forma
monstruosa. Há bolhas imobiliárias e cambiais, agora
emergirá um novo tipo de bolha. Não se trata apenas dos
papéis hipotecários; os títulos do tesouro também
podem causar problemas. Hoje o Federal Reserve System paga um alto preço
por títulos do tesouro mas amanhã o seu preço de mercado
pode afundar. Assim o FRS terá prejuízo ao vendê-los.
Qualquer organização comercial utilizará o seu
próprio capital como uma reserva de prontidão para cobrir perdas.
O mesmo se passa para o Federal Reserve System. Mas neste caso é apenas
um capital simbólico representando apenas 3-4 por cento dos activos
actuais do FRS. A propósito, ele deve cumprir exigências de
capital inicial mínimo (as exigências estão definidas e os
procedimentos estipulados por documentos especiais do Comité de
Supervisão Bancária do Banco de Pagamentos Internacional
(Bank for International Settlements)
). Actualmente o Federal Reserve System está longe de cumprir com estas
exigências. Os peritos sabem bem disto mas as discussões nunca
saem do círculo estreito de iniciados que traram do negócio.
Ninguém entre os peritos pode propor algo como um plano significativo
para resgatar o Federal Reserve System da bancarrota iminente.
Cenário "bancarrota do governo"
O Federal Reserve System tem actuado como o salvador do governo
estado-unidense. O FRS concede empréstimos ao Tesouro ao comprar
títulos de dívida. Naturalmente, ele não é a
única entidade a salvar o governo. Muitas outras
organizações dos EUA têm adquirido títulos do
tesouro bancos comerciais e de investimento, fundos de investimento,
companhias de seguros, fundos de pensão. Os bancos centrais de outros
países e ministérios das finanças até recentemente
representavam metade das aquisições dos títulos do
tesouro.
Hoje a China, Japão, Arábia Saudita e alguns outros países
com enormes reservas de ouro e divisas estrangeiras são os principais
credores do governo dos EUA.
A China e outros estão gradualmente a perder o desejo de acrescentar
"papel verde" às suas reservas internacionais. No fim de 2013
um vice-governador do Banco da China fez uma declaração
sensacional dizendo que a China já não era favorável
à acumulação de reservas cambiais estrangeiras.
O Federal Reserve System tornou-se o principal prestamista (doador) do Tesouro
dos EUA. No terceiro round da facilidade quantitativa, "QE3", o
Federal Reserve System começou a comprar a fatia do leão dos
papéis utilizados pelo governo para cobrir os buracos orçamentais
(a fim de pagar o défice orçamental). Um círculo vicioso
começou: o Federal Reserve dá ao Tesouro a "nota
verde"; em retorno o Tesouro dá os títulos ao Federal
Reserve. Isso parece-se a um moto perpétuo monetário. Este
mecanismo "fechado" priva a economia americana e mundial da divisa
necessária, funciona só para si mesmo. A falta da "nota
verde" será exponencialmente compensada por outras divisas e seus
substitutos.
Além disso, há mais uma armadilha à espera do governo dos
Estados Unidos e do Federal Reserve System. O governo americano tem de utilizar
o orçamento para amortizar a sua dívida. As taxas de juro
actualmente estabelecidas pelo Federal Reserve System são cerca de zero.
As taxas de juro dos títulos do tesouro (orientada pelas taxas do
Federal Reserve System) também são extremamente baixas. Cerca de
7 por cento do dinheiro do orçamento é gasto com o reembolso das
dívidas do governo. É aceitável. Mas vamos imaginar que as
taxas de juro começam a crescer (mais cedo ou mais tarde elas
inevitavelmente subirão). A percentagem do orçamento gasto no
reembolso da dívida (pagamentos de juros) também
aumentará. Peritos acreditam ser possível que 50 por cento do
total do orçamento seria gasto para cobrir juros. Neste caso o moto
perpétuo financeiro cessará porque atingirá um
obstáculo natural como as receitas de impostos que abastecem o
orçamento de estado dos EUA. Então o único cliente do
Federal Reserve System o governo americano irá à
bancarrota. Depois disso o próprio Federal Reserve System terá de
abandonar o espectro.
Há outros cenários a serem considerados, todos eles relacionados
com o Federal Reserve System, o dólar e os Estados Unidos os
três pilares do sistema financeiro e político integrado. Todos
eles são desfavoráveis aos proprietários do Federal
Reserve System. Na verdade, exactamente a mesma situação foi
enfrentada na primeira metade do século XX pelos proprietários do
Banco da Inglaterra quando o US dólar começou a rivalizar com a
todo-poderosa libra esterlina. A última oportunidade para os donos do
Banco da Inglaterra preservarem "um lugar ao sol" foi desencadear uma
guerra em grande escala. Receio que seja exactamente isso o que os actuais
donos do Federal Reserve System tenham em mente.
23/Dezembro/2013
Nestes links podem ser descarregados gratuitamente os seguintes livros
mencionados pelo autor:
Secrets of the Federal Reserve Bank
The Federal Reserve Conspiracy
The Unseen Hand. An Introduction to the Conspiratorial View of History
[*]
Economista.
O original encontra-se em
www.strategic-culture.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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