A Europa, um "velho" continente colonialista, está decadente e
em alguns lugares está mesmo a entrar em colapso. Percebe-se quão
más as coisas estão a ocorrer. Mas ela nunca pensa que é
por sua própria culpa.
A América do Norte está decadente também, mas ali as
pessoas nem ousam comparar. Elas apenas "sentem que as coisas não
vão bem". Se tudo o mais falhar, elas simplesmente tentam obter um
segundo ou terceiro emprego e apenas sobreviver, de algum modo.
Em ambos os lados do Atlântico, o establishment está em
pânico. Seu mundo está em crise e as "crises" acontecem
principalmente porque vários países grandes, incluindo a China,
Rússia, Irão, mas também África do Sul, Turquia,
Venezuela, RDPC e as Filipinas, recusam-se abertamente a actuar de acordo com o
roteiro traçado em Washington, Londres e Paris. Nestes países,
subitamente já não há apetite para sacrificar seus
próprios povos no altar do bem-estar de cidadãos ocidentais.
Vários países, inclusive Venezuela e Síria, estão
mesmo dispostos a combater pela sua independência.
Apesar dos embargos e sanções insanos e sádicos que lhes
são impostos pelo ocidente, a China, a Rússia e o Irão
estão agora a florescer, em muitos campos a fazer muito melhor do que a
Europa e a América do Norte.
Se forem realmente forçados, a China, a Rússia e seus aliados em
conjunto poderão facilmente por em colapso a economia dos Estados
Unidos; uma economia que está construída sobre barro e
dívida insustentável. Também está a ficar claro
que, militarmente, o Pentágono nunca poderia derrotar Pequim, Moscovo e
mesmo Teerão.
Depois de aterrorizar o mundo durante eras, o ocidente está agora quase
acabado: moralmente, economicamente, socialmente e mesmo militarmente. Ele
ainda pilha, mas não tem plano para melhorar o estado do mundo. Ele
não pode sequer pensar nesses termos.
Ele odeia a China e qualquer outro país que tenha planos progressistas,
internacionalistas. Ele enlameia Xi Jin Ping e sua ideia original, a Estrada da
Seda (Bel and Road Initiative, BRI), mas não há nada de novo e
excitante que o ocidente seja capaz de apresentar ao mundo. Sim, naturalmente,
aquelas mudanças de regime, golpes, intervenções militares
e o roubo de recursos naturais, mas alguma coisa mais? Não,
silêncio!
Durante minha visita de duas semanas à Europa, na República Chica
(agora rebaptizada Chéquia), um país que desfruta um IDH
(Índice de Desenvolvimento Humano definido pelo PNUD) mais alto do que a
Itália ou a Espanha, vi vários jovens, homens vestidos
decentemente, a vasculhar latões de lixo em frente ao meu hotel,
à procura de comida.
Vi jovens europeus de joelhos a mendigar em Stuttgart, a segunda mais rica
cidade da Alemanha (onde são produzidos os carros Mercedes e Porsche).
O que observei em todos os sete países da UE que visitei foi
confusão, mas também indiferença, egoísmo extremo e
ociosidade quase grotesca. Num grande contraste com a Ásia, todos na
Europa estavam obcecados com os seus "direitos" e privilégios,
mas ninguém dava importância às responsabilidades.
Quando meu avião vindo de Copenhagen aterrou em Stuttgart,
começava a chover. Não era chuva pesada, apenas chuva. O jacto
Canadair operado pela SAS é um avião pequeno e não obteve
um portão. Estacionou a poucos metros do terminal e o comandante
anunciou que o pessoal de terra se recusou a trazer um autocarro, devido a
relâmpagos e à chuva. E assim ficamos dentro do avião
durante 10 minutos, 20 minutos, meia hora. Os relâmpagos terminaram. O
chuvisco continuava. Quarenta minutos, sem autocarro. Uma hora mais tarde,
apareceu um autocarro. Um homem da equipe de terra emergiu vagarosamente,
totalmente envolto em plástico, protegido hermeticamente da chuva. Aos
passageiros, por sua vez, não foram oferecidos sequer guarda-chuvas.
"Amo-me", li depois num graffiti no centro da cidade.
O graffiti não estava longe da estação central, a qual
está a ser renovada ao custo de vários milhares de milhões
de euros e contra a vontade dos cidadãos. O projecto monstruoso
avança num ritmo loucamente preguiçoso, com apenas 5-6
trabalhadores da construção detectáveis ao mesmo tempo
nas imensas escavações.
Stuttgart é inacreditavelmente imunda. As escadas rolantes muitas vezes
não funcionam, bêbados estão por toda a parte, assim como
mendigos. É como se durante décadas ninguém tivesse feito
qualquer arranjo na cidade. Museus outrora gratuitos agora estão a
cobrar pesadas taxas de entrada e a maior parte dos bancos públicos
desapareceu dos parques e avenidas.
A decadência está omnipresente. O sistema ferroviário
alemão (DB) entrou virtualmente em colapso. Quase todos os comboios
estão atrasados, desde o "regional" até o outrora
glorificado ICE (estes "comboios-bala" alemães estão
realmente a mover-se mais devagar, em média, mesmo em
comparação com alguns expressos inter-cidades da
Indonésia).
Os serviços proporcionados por toda a parte na Europa, desde a
Finlândia até a Itália, são grotescamente maus.
Lojas de conveniência, cafés, hotéis estão
todos com pouco pessoal, mal geridos e sobretudo arrogantes. Os humanos
são muitas vezes substituídos por máquinas disfuncionais.
A tensão está por toda a parte, o mau humor omnipresente. Exigir
qualquer coisa é impensável; se o fizer arrisca-se a ser
agredido, insultado, enviado para o inferno.
Ainda lembro como a propaganda ocidental costumava louvar os serviços
nos países capitalista, quando éramos crianças no Leste
Comunista: "O cliente é sempre tratado como um deus". Sim,
certo! Como é risível.
Durante séculos os "trabalhadores europeus" foram
"subsidiados" pela pilhagem colonialista e neo-colonialista,
perpetrada em todos os cantos do mundo não branco. Eles acabaram por
serem mimados, repletos de benefícios e improdutivos. Isso era bom para
as elites: na medida em que as massas continuassem a votar pelo regime
imperialista do Ocidente.
"O Proletariado" finalmente tornou-se direita, imperialista, mesmo
hedonista.
Vi um bocado desta vez e em breve escreverei muito mais a respeito.
O que não testemunhei foi esperança, ou entusiasmo. Não
havia optimismo. Nem trocas de ideias saudáveis e produtivas, ou debate
profundo algo a que estou habituado na China, Rússia ou Venezuela
, apenas confusão, apatia e decadência por toda a parte.
E ódio para com aqueles países que são melhores, mais
humanos, mais avançados e cheios de entusiasmo socialista.
A Itália parecia um pouco diferente. Mais uma vez, encontrei lá
grandes pensadores de esquerda; filósofos, professores, cineastas,
jornalistas. Falei na Universidade Sapienza, a maior universidade da Europa.
Palestrei sobre a Venezuela e o imperialismo ocidental. Trabalhei com a
embaixada venezuelana em Roma. Tudo isso foi fantástico e esclarecedor,
mas seria isto realmente a Itália?
Um dia depois de deixar Roma, para Beirute, os italianos foram às
eleições. E eles retiraram seu apoio aos meus amigos do Movimento
5 Estrelas, deixando-o com apenas pouco mais de 17%, enquanto duplicavam o
apoio à extrema-direita da Liga do Norte.
Isto virtualmente aconteceu por toda a Europa. Os trabalhistas do Reino Unido
perderam, enquanto as forças de direita do Brexit ganharam
significativamente. A extrema-direita, mesmo partidos quase fascistas,
alcançaram alturas inesperadas.
Era tudo política do "eu, eu, eu". Uma orgia de "selfies
políticos". O
eu
tinha o que chegasse de imigrantes. O
eu
quer melhores benefícios. O
eu
quer melhor assistência médica, menos horas de trabalho. E assim
por diante.
Quem paga por isso, ninguém na Europa parece se importar. Nem uma vez
ouvi qualquer político europeu a lamentar a pilhagem da Papua
Ocidental ou de Bornéu, acerca da Amazónia ou do Médio
Oriente, muito menos da África.
E imigração? Será que ouvimos alguma coisa sobre esse
aborrecimento dos refugiados europeus, milhões deles, muitos deles
ilegais, que desceram nas últimas décadas sobre o Sudeste
Asiático, África Oriental, América Latina e mesmo o
subcontinente? Eles estão a fugir, em hordas, da falta de sentido, das
depressões, do vazio existencial. No processo, estão a despojar
os locais de terra, imóveis, praias, tudo.
"Fora com os imigrantes "? Bem; então os imigrantes europeus
fora do resto do mundo também! Chega da unilateralidade!
As recentes eleições da UE mostraram claramente que a Europa
não evoluiu. Por incontáveis séculos sombrios costumava
viver apenas para o seu prazer, matando milhões para sustentar sua vida
elevada.
Exactamente agora, está a tentar reformular seu sistema político
e administrativo, para que possa continuar a fazer o mesmo. Mais eficientemente!
Para coroar isto, absurdamente, espera-se que o mundo tenha pena deste
proletariado europeu super-pago e com mau desempenho, sobretudo de direita e
letárgico, e sacrifique mais dezenas de milhões de pessoas,
só para aumentar ainda mais seu padrão de vida.
Nada disto deveria acontecer. Nunca mais! Tem de ser travado.
Definitivamente não vale a pena morrer pelo que a Europa alcançou
até agora, à custa de milhares de milhões de vidas
"dos outros.
Cuidado com a Europa e o seu povo! Estudem a história. Estudem o
imperialismo, o colonialismo e os genocídios que ela tem propagado por
todo o mundo.
Deixe-os votarem nos seus fascistas. Mas mantenha-se longe. Impeçam-nos
de propagar o seu veneno por todo o mundo.
Querem eles colocar os interesses dos seus países em primeiro lugar?
Maravilhoso! Vamos fazer exactamente o mesmo: o povo da Rússia
também! China primeiro! E Ásia, África, América
Latina primeiro!
[*]
Filósofo, romancista, director de cinema e jornalista investigativo.
É o criador de
Vltchek's World in Word and Images
O original encontra-se em
journal-neo.org/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.