"Portugal precisa de se libertar do euro"
Longe vão os tempos em que muitos faziam gala em defender as
inúmeras virtudes da entrada de Portugal no Euro. Do
"pelotão da frente", à tal "pedra" sobre a
qual alguns iam construir a sua Europa, da apregoada convergência real,
ao guarda-chuva do país contra a especulação financeira,
do fim das crises à valorização dos salários ao
nível do que se praticava nas grandes potências da Europa, o rol
de promessas que acompanharam a imposição do Euro ao nosso povo
foi de facto abundante.
O PCP combateu desde o primeiro momento a entrada de Portugal na moeda
única e alertou para os seus perigos e impactos. Com a entrada da moeda
em funcionamento no nosso país, o PCP não baixou a sua voz,
combateu ilusões federalistas, denunciou o impacto da perda da soberania
monetária e contribuiu para evidenciar e alargar a consciência da
real dimensão do problema com que Portugal se passou a confrontar. O PCP
tinha e teve razão!
Tinha e teve razão quando se opôs ao processo de
recuperação capitalista, ao corrupio de
privatizações e à perda de controlo público da
banca. Tinha e teve razão quando alertou para o impacto da
destruição do aparelho produtivo e as suas consequências no
endividamento externo, para o processo especulativo em torno da dívida
pública e para a defesa da sua renegociação por
contraponto ao Pacto de Agressão que PS, PSD e CDS impuseram
conjuntamente com a
troika
estrangeira. Tinha e teve razão quando se opôs ao processo
de integração capitalista europeu, da CEE à União
Europeia, de Maastricht ao Euro, de Nice ao Tratado de Lisboa.
Aqui chegados, é importante não apagar a memória, nem
permitir como alguns querem, que se distribuam responsabilidades por igual,
incluindo aos que se opuseram ao rumo de desastre que colocou o país
à beira de um precipício. Não! O PCP agiu de acordo com o
seu compromisso com os trabalhadores e o povo, não se submeteu ao rolo
compressor da União Europeia, nem aos interesses do capital. Alertou
para as consequências, lutou contra este rumo, apontou
soluções. E é isso que uma vez mais pretendemos fazer
agora.
O euro, longamente almejado pelos grandes grupos económicos e
financeiros europeus, incrustou-se com naturalidade na superestrutura
política da transnacionalização do grande capital europeu,
a CEE/União Europeia, e consistiu no desenvolvimento lógico e
previsível requerido pela sua natureza de classe, sempre por nós
denunciada.
Independentemente da sua configuração, independentemente das
políticas que lhe estão associadas, o Euro foi e é um
instrumento das classes dominantes e das grandes potenciais, construído
para facilitar a transferência da riqueza produzida para as grandes
potências, para lubrificar a apropriação e
concentração da mais-valia no capital
A sua introdução em Portugal constituiu, um violento salto
qualitativo, que acentuou gravosamente a opção neoliberal e
federalista do edifício comunitário. Para Portugal, em vez do
propalado progresso social, o euro representou aumento do desemprego e da
precariedade, contenção dos salários e aumento da
exploração, desigualdades sociais e pobreza,
emigração forçada e envelhecimento, desordenamento do
território e degradação das funções sociais
do Estado.
Em vez de investimento, expansão comercial e crescimento, representou
desinvestimento e degradação produtiva, perda de competitividade
e endividamento externo, estagnação e recessão. Em vez da
modernização, da racionalização, do novo modelo de
especialização da economia, representou
desindustrialização, privatização e
"desnacionalização" das empresas estratégicas,
enfraquecimento da intensidade tecnológica das exportações
e aprofundamento de um perfil produtivo debilitado, dependente e
periférico.
Em vez de contas públicas equilibradas, representou endividamento
público, descontrolo orçamental e agravamento do défice
como temos visto. Em vez de eliminar a especulação cambial,
substituiu-a pela especulação entre a moeda única e o
dólar e outras moedas, e pela especulação com as
dívidas soberanas.
Em vez da convergência europeia, tivemos divergência social,
económica e competitiva.
Tais foram os resultados do euro. Nada do que andaram a vender ao povo
português. Nada do que prometeram ao povo português. O euro e os
constrangimentos da UEM servem os interesses da grande banca privada e dos
grupos monopolistas, mas são contrários aos interesses dos
trabalhadores e do povo português, bem como aos interesses dos
trabalhadores e dos povos europeus.
A moeda única europeia ajusta-se tendencialmente aos níveis de
produtividade, ao perfil de especialização produtiva e à
capacidade exportadora sobretudo da Alemanha e aos requisitos do capital
financeiro europeu. Não tem em conta a realidade, as necessidades, os
interesses da produção e da economia portuguesa. Menos ainda as
suas potencialidades. Muito pelo contrário, é uma pressão
permanente para a debilitação da nossa indústria, da nossa
capacidade de produzir riqueza, da nossa liberdade de distribuir riqueza, do
nosso desenvolvimento, da nossa soberania.
Portugal precisa de se libertar do euro e dos constrangimentos da
integração monetária. Precisa de uma moeda adequada
à realidade e às potencialidades económicas do
país, aos seus salários, produtividade e perfil produtivo, que
concorra para os promover, ao invés de os desfavorecer.
Precisa de uma gestão monetária, financeira, cambial e
orçamental autónoma e soberana, ajustada à
situação nacional e que aproveite todas as margens de manobra
para fomentar a produção, o emprego e o crescimento. Precisa de
contar com um verdadeiro banco nacional que suporte o seu projeto de
desenvolvimento, nomeadamente como fonte de financiamento de último
recurso que o liberte seja da chantagem dos especuladores no mercado da
dívida, seja da chantagem do BCE, da União Europeia e do FMI no
financiamento da banca e do Estado.
Precisa de abandonar o pacto de estabilidade e crescimento e todos os seus
derivados, o tratado orçamental, a governação
económica, o semestre europeu, que impõem o agravamento da
exploração e do empobrecimento e constrangem violentamente o
investimento e a atividade produtiva.
Precisa de abandonar a união bancária, que privatiza, entrega e
concentra a atividade bancária nacional nas mãos dos grandes
bancos europeus. Precisa de se proteger das perdas de competitividade pelas
valorizações excessivas da moeda única. Precisa de mais
atrito na saída de capitais, de resistir melhor à
especulação financeira e conter o endividamento externo, animados
pela União económica e monetária.
Portugal precisa, em suma, de se libertar do euro. E a libertação
do euro teria todas essas vantagens. Alguns pretendem, numa defesa
implícita da integração monetária, que o "o
problema não é do euro, mas da política do euro".
É não perceber que o genoma da chamada austeridade e do
empobrecimento já está todo contido no euro. Não deixa de
ser risível manter estes equívocos, quando ao longo dos anos, na
edificação da arquitetura do euro, se foram sempre apertando os
constrangimentos e reforçando os mecanismos que empurram os estados e os
povos para a eternização e aprofundamento da pobreza e da
dependência.
É não perceber que o euro, moeda única, seria sempre
simultaneamente a moeda da periferia e do centro, dos países atrasados e
das grandes potenciais, de Portugal e da Alemanha. Mas não se pode
servir a dois amos, ou o euro se ajusta à condição,
às necessidades e aos interesses da Alemanha, ou se ajusta aos de
Portugal.
Como é sabido, o euro é uma moeda fiduciária,
indissociável da política monetária, da
definição das taxas de juro, de câmbio, dos objectivos da
inflação, do fornecimento da liquidez bancária, das regras
orçamentais, para o cada vez mais heterogéneo e socialmente
fracturado espaço da zona euro. Não se pode, por exemplo, separar
o euro da taxa de câmbio do euro ou das taxas de juro do BCE, comuns aos
vários países.
A bem dizer, o euro é isso mesmo, a política do euro, a moeda da
política do euro. Ora Portugal precisa de uma moeda diferente da
Alemanha. E os trabalhadores portugueses e os povos da Europa precisam de
políticas monetárias diferentes da dos monopólios e do
grande capital financeiro.
A libertação da submissão ao euro é uma necessidade
estrutural do país, um imperativo do desenvolvimento nacional, para
vencer definitivamente a crescente exploração e o empobrecimento,
para poder investir, para defender o aparelho produtivo, para escapar da
estagnação, para voltar a crescer sustentadamente. E o
país tem que ser preparado para isso.
Entenda-se que o reforço da integração capitalista nem
sequer exclui, como se ameaçou no ano passado, a possibilidade de
expulsão de países da zona euro. Como quem perante uma
maçã já está demasiado podre, da qual já
não se lhe consegue tirar nada, a manda borda fora para não
correr o risco de apodrecer as outras maçãs que ainda
estão dentro do cesto.
A União Europeia, e muito especialmente a zona euro, não
estão feitas para ajudar os países ou os povos. Ficar ou
não ficar, deixar ou não deixar um país no euro é,
para o grande capital, que determina a política europeia, uma
decisão resultante do permanente reequacionar dos seus ganhos e dos seus
benefícios. Ou seja, este ou aquele país, estará bem na
moeda única se, e quando, o grande capital retire daí proveitos.
Também os povos têm o direito de reequacionar as suas vantagens e
desvantagens. Nenhum povo está condenado a ficar aprisionado no euro e
os pseudo-argumentos legalistas ruíram quando a possibilidade foi
aventada pelo próprio Eurogrupo em relação à
Grécia. Há sempre a possibilidade do país, por vontade do
seu povo, decidir a sua própria libertação.
Os beneficiários do euro e os seus prosélitos falam muito dos
custos da saída do euro, mas falam pouco dos custos da entrada e menos
ainda dos custos cada vez mais insuportáveis da permanência.
Não ignoramos, não negligenciamos, não menorizamos os
riscos, os problemas e as dificuldades do deste caminho, depois deste tempo
todo, quando já estão prestes a chegar à maioridade os
primeiros cidadãos que nasceram depois da integração
monetária.
Mas a libertação do Euro que propomos, é para o
país crescer em vez de estagnar e definhar, é para investir em
vez de regredir, é para criar emprego em vez da emigração
forçada, é para distribuir a riqueza de uma forma mais justa em
vez das crescentes desigualdades, é para viver melhor em vez de um
paraíso prometido que se parece cada vez mais com um inferno, é
para aprofundar a democracia, em vez da tornar prisioneira do directório
das grandes potências.
A discussão que o PCP tem vindo a promover na sociedade portuguesa sobre
o estudo e preparação para a libertação do
país da submissão ao Euro tem sido acompanhada de uma crescente
consciência em vários sectores da sociedade da justeza desta
proposta. Portugal precisa de remover os constrangimentos e condicionamentos
externos que impedem o seu desenvolvimento.
O atual quadro político do país, decorrente da luta e da
alteração da correlação de forças na
Assembleia da República alcançada nas últimas
eleições legislativas, em vez de esbater, evidencia ainda mais
que só rompendo com as imposições da UE e do capital
monopolista, será possível assegurar uma política que
aproveite todas as potencialidades de desenvolvimento do país.
A evidência de um país que, desde a adesão ao euro,
praticamente não cresceu e multiplicou o desemprego, na verdade dos que
menos cresceu no mundo, mas que simultaneamente adquiriu das maiores
dívidas pública e externa do mundo, abre mais os olhos à
população, do que todas as fundamentadas denúncias que se
poderiam aqui fazer.
Para grandes males, grandes remédios. A libertação da
submissão euro, a recuperação da soberania
monetária é uma necessidade estrutural do país. Mais gente
o compreende, mais gente o compreenderá.
[*]
Da Comissão Política do PCP, intervenção na
sessão "A libertação do país da
submissão ao euro, condição para o desenvolvimento e
soberania nacional"
O original encontra-se em
www.pcp.pt/...
Esta intervenção encontra-se em
http://resistir.info/
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