Sobre a economia política dos salvamentos na eurozona
A curiosa transacção dos neoliberais hayekianos da
Grécia
por Yannis Varoufakis
[*]
A seguir ao Crash de 1929 principiou uma batalha memorável entre
liberais, os quais acreditavam em estabilizadores automáticos do
capitalismo, e John Maynard Keynes, que não acreditava. Hoje, no
Bailoutistão
[NT 1]
(a Grécia e os outros países fracassados da eurozona), este
debate assumiu um viés interessante e triste.
Hayek vs Keynes
Na sequência do Crash de 1929, Keynes criticou com ênfase a
sabedoria convencional do seu tempo (o chamado ponto de vista do Tesouro) o
qual sustentava que, dando tempo suficiente, a economia ajustar-se-ia a
qualquer recessão ao deixar caírem salários e taxas de
juro até que os "espíritos animais" dos empreendedores
fossem suficientemente pressionados para estimular tanto o emprego adicional
como o investimento necessário para acabar a recessão. A
objecção de Keynes era que, a seguir a uma crise financeira
maciça que consegue infectar a economia "real", é
altamente provável que a grande diminuição na
produção, investimento e rendimento conduza a um
equilíbrio "mau". Numa situação em que o
desemprego é persistentemente alto (e não responde a
reduções de salários que levam o trabalho a tornar-se
baratíssimo), o investimento é mais raro do que a neve no deserto
(mesmo depois de as taxas de juro terem caído para zero, a chamada
armadilha da liquidez) e, geralmente, uma economia imobilizada num novo
equilíbrio de desemprego não pode escapar disso mesmo que os
preços sejam livres para se ajustarem. Sob tais circunstâncias,
pensava Keynes, visar défices do orçamento governamental, por
meio de cortes nos gastos, é definitivamente errado. A sua proposta era
que, quando uma economia se descobre trancada num equilíbrio de
desemprego, qualquer tentativa para tentar "sair do declínio"
é equivalente a alguém cortar o seu próprio nariz porque
não gosta da sua cara. Não, para Keynes o truque era
"crescer para sair da depressão".
Naquele tempo, o Ponto de Vista do Tesouro (isto é, que estabilizadores
automáticos fariam o que fosse preciso) parecia cada vez mais uma
promessa vazia e vulnerável ao gracejo de Keynes de que "no longo
prazo estaremos todos mortos". Foi preciso uma intervenção
de alguém de fora para articular (a) a mais forte crítica a
Keynes e à sua advocacia da intervenção governamental
durante uma recessão e (b) a mais poderosa defesa da superioridade do
mercado como um mecanismo de distribuição de recursos em que a
intromissão do governo só pode tolher e prejudicar com
efeitos deletérios para todos a longo prazo. Esse "alguém de
fora" não foi outro senão
Friedrich von Hayek
.
Tal como Keynes, Hayek principiou por um diagnóstico do problema: um
tratado sobre o que provoca recessões em geral e a do Crash de 1929 em
particular. Hayek sugeriu que a causa principal de recessões era a
criação do crédito excessivo que as antecedia, levando a
investimentos que possivelmente não podiam demonstrar-se lucrativos no
longo prazo. A sequência de acontecimentos era, segundo Hayek, tão
previsível como catastrófica. Bons tempos geravam optimismo,
optimismo pedia investimentos, investimento mais alto levava a rendimentos mais
altos e consumo perdulário, a taxas de juro caíam quando
banqueiros competiam entre si para conceder empréstimos a
pessoas/firmas/estados às quais faltava a capacidade para reembolsar os
seus empréstimos no caso da mais ligeira situação de
baixa, etc. A queda era portanto um resultado necessário do boom. Era,
no essencial, a única cura para a exuberância irracional que a
causava. Num dos famosos ditos de Hayek, o boom é a ilusão ao
passo que a queda é o chamado da realidade. E o que deveria ser feito
quando atingidos pela queda? Simples: Deixar a recessão fazer o seu
trabalho, deixá-la liquidar as dívidas podres permitindo-lhes
serem canceladas, uma vez que nunca poderão ser reembolsadas. Se isto
significar sofrimento para a multidão, então será assim.
Tal como o bêbado deve sofrer estoicamente os sintomas da sua ressaca,
também a economia capitalista deve aguardar a saída da
recessão. Ela dói mas a sua função é divina
pois contrai a montanha de crédito sem valor anteriormente acumulada no
sistema. A bancarrota é, durante esta fase de
consolidação, desagradável mas altamente
necessária. Um pouco como o Inferno no seu relacionamento
simbiótico com o dogma cristão.
Neste ponto é de grande interesse e significado por lado a lado o Ponto
de Vista do Tesouro (o qual Keynes desprezou) com o de Hayek. Aparentemente,
tanto os burocratas do Tesouro como Hayek convergiam na sua
oposição a Keynes estímulo fiscal inspirado e um
empenho na tarefa de reduzir a dívida do governo. Em resposta a Keynes,
tanto responsáveis do Tesouro como Hayek gracejavam que a sua proposta
para curar dívida por meio de mais dívida era ridícula.
Mas qual a diferença entre Hayek e o Tesouro? Havia alguma?
Sim, havia. E além disso importante: Enquanto o Tesouro argumentava que
a queda do salário e da taxa de juro restaurariam a economia para o
ponto em que estava antes da queda, Hayek não fazia tais promessas.
Quanto aos prognósticos keynesianos de que a liquidação de
dívidas podres, e a contracção geral que se seguiria,
nunca poderia levar a economia ao estado anterior ao Crash, Hayek encolhia os
ombros e dizia:
C'est la vie.
Uma vez que o boom era de qualquer forma "não natural", seria
tolo (e talvez não ético) esperar que a queda nos levasse de
volta para onde estávamos antes de tudo ir à bancarrota. Para
onde nos levará? A resposta de Hayek era: Malditos sejamos se soubermos!
Mas seja para onde for que nos leve, será melhor do que o lugar onde
aterraremos a seguir a um estímulo fiscal do governo e mais
dívida. Deixe o sistema ser varrido de toda dívida podre, via
bancarrotas maciças, e então deixe o sistema de mercado fazer o
que ele faz melhor: produzir o melhor de todos os futuros disponíveis.
Neste artigo, desistirei de contrapor ainda mais Hayek e Keynes. Nem insistirei
mais nos prós e contras do pensamento de Hayek. Pois o meu objectivo
aqui é focar os efeitos peculiares que os salvamentos da eurozona (com a
Grécia como um dos meus principais casos de estudo) tiveram na
mentalidade de neoliberais cuja inspiração tradicional tem sido
Friederich von Hayek.
Hayek e a Grécia
Fosse von Hayek enviar-nos uma missiva do éter quanto ao salvamento
grego, o que é que nos diria? Ele certamente não pensaria duas
vezes antes de apontar as duas principais causas da tragédia que nos
últimos tempos estão a transformar a Grécia num deserto.
A primeira causa da situação grega
A primeira causa que Hayek destacaria seriam, naturalmente, as bolhas que
estiveram a aumentar gradualmente através do crédito
bancário excessivo (tanto para o sector privado grego como para o
público) nos reinos das bolsas, do mercado imobiliário, do
governo e, naturalmente, do mercado de trabalho. Os rios de crédito que
fluíram para dentro da Grécia fizeram com que todos os
"preços", em cada um destes reinos, se tornasse inchado
maciçamente causando portanto um boom o qual, assim como a noite se
segue ao dia, tinha de estourar. E uma vez que o boom era exorbitante, em
relação à capacidade produtiva real do país, o
estouro foi terrivelmente catastrófico.
Assim, os gregos devem aceitar (posso ouvir Hayek a pontificar) que não
há alternativa a liquidar acções insustentáveis
(isto é, aprender a viver com preços de acções
muito baixos na bolsa de valores de Atenas), liquidar a agricultura cujos
produtos realmente nunca tiveram um mercado (pelo menos nenhum que não
confiasse na bondade do contribuinte europeu), liquidar preços
imobiliários (notando o absurdo anterior a 2009 de apartamentos em
Kolonaki
[NT 2]
custarem preços de Nova York), liquidar o governo (isto é,
encerrar a maior parte dos seus departamentos) e, naturalmente, liquidar o
trabalho (isto é, livrar-se de empregos que não produzem um valor
equivalente ao seu custo para o patrão).
A segunda causa da situação grega
Deixe-me agora ir à segunda causa da actual situação da
Grécia que, na minha opinião, Hayek destacaria: A calamitosa
intenção dos salvamentos de impedir um incumprimento grego no
interior da eurozona. Uma vez que todas as dívidas podres devem ser
liquidadas, segundo Hayek, a dívida pública grega
(discutivelmente a pior das dívidas podres) devia ser a primeira a ser
cancelada. Será isto uma observação não
aplicável dentro da eurozona? Antes de responder, é útil
olhar previamente para a relação ambivalente de Hayek com a ideia
de uma união monetária europeia a ser administrada por um Banco
Central Europeu. Conhecido como céptico acerca de bancos centrais (na
verdade, num
famoso documento de 1974
Hayek havia proposto a privatização do dinheiro, isto é,
permitir a bancos privados que emitissem as suas próprias divisas, as
quais competiriam então pela confiança do público), em
1978 ele tinha isto a dizer acerca de um futuro euro:
Embora eu simpatize fortemente com o desejo de completar a
unificação económica da Europa Ocidental pela
libertação completa do fluxo de dinheiro entre países,
tenho sérias dúvidas quanto a fazer isso através da
criação de uma nova divisa europeia administrada por alguma
espécie de autoridade supra-nacional. Além da extrema
improbabilidade de que os países membros concordassem sobre a
política prática a ser seguida por uma autoridade
monetária comum (e a inevitabilidade prática de alguns
países ficarem com uma divisa pior do que a que têm agora), parece
altamente improvável que [a nova divisa] fosse melhor administrada do
que as actuais divisas nacionais".
No entanto, Hayek aceitou de modo relutante uma divisa como o euro se bem que a
advertir que
"partidos políticos incontrolados e moeda estável são
inerentemente incompatíveis"
(itálicos no original).
[1]
Seja o que for que Hayek tivesse pensado da tentativa da sra. Merkel, do sr.
Sarkozy e do sr. Draghi de "salvar" o euro de uma maneira
absolutamente subserviente aos
"partidos políticos descontrolados"
da Alemanha, França e Itália, há uma coisa que não
se discute: Friedrich von Hayek teria reprovado a tentativa da Europa de criar
novas formas de dívida tóxica (ver os títulos
EFSF
que estão a financiar os salvamentos) a fim de assegurar que velhas
dívidas totalmente insustentáveis (como as da República
Helénica), criadas pelo boom, fossem preservadas por tanto tempo quanto
possível e a qualquer custo humano e económico.
Em suma, se bem que não seja de todo claro se Hayek teria recomendado a
preservação, dissolução ou dissolução
parcial da eurozona, está para além de dúvida que ele
teria feito campanha vigorosa pela liquidação das dívidas
(podres) da Grécia. O incumprimento pleno teria sido, aos olhos de
Hayek, a única rota de acção não em conflito com a
sua visão do que está em causa na eurozona de hoje. Um ponto de
vista que o levaria a chocar-se com a
raison d'être
de todos os salvamentos na Europa (sem mencionar a LTRO do sr. Draghi que lhe
provocaria uma cólera interminável).
O caso curioso dos neoliberais da Grécia
Desde a irrupção da crise tenho-me encontrado frente a
representantes da pequena mas altamente influente comunidade grega de
neoliberais inspirados por Hayek. Levou pouco tempo para perceber uma grande
dicotomia peculiar que os tipificava, a qual penso ser instrutiva acerca dos
danos que os salvamentos estão a fazer para vida intelectual da Europa
tanto dentro como fora das fronteiras da Grécia. Trata-se disto:
Enquanto neoliberais gregos mantêm a cólera de Hayek quanto
à causa primeira da actual situação da Grécia, eles
estão em profunda (e não intelectual) negação
quanto à causa segunda.
Por outro lado, eles são entusiásticos na difusão da
mensagem de Hayek de que, dentro do Bailoutistão (com a Grécia
sendo a mais proeminente província desta nova
"nação"), não há alternativa a liquidar
acções, valores da agricultura, preços do
imobiliário, a maior parte dos departamentos governamentais e grande
parte do trabalho ainda empregado. Contudo, em contraste agudo, a única
coisa que não querem ver liquidada é a dívida
pública da Grécia para com os bancos a qual, segundo o
próprio Hayek, criou o problema em primeiro lugar! Por que a dispensa da
dívida pública grega da lista de dívidas/activos podres a
serem liquidados? E por que a falta de explicação do motivo
porque esta dispensa é recomendada? (2). Duas possíveis respostas
explicam a esquizofrenia dos neoliberais gregos.
Primeiro, talvez entendam mal o que os seus gurus libertários
pretendiam, possivelmente devido a um poder analítico limitado. Ou, em
segundo lugar, o caso grego é especial e exige que Hayek seja ouvido em
tudo excepto quando se trata da liquidação da dívida do
sector público. Contudo, não acredito que os neoliberais da
Grécia simplesmente não tenham conseguido entender a mensagem de
Hayek. Sou, ao invés, da opinião de que são as
circunstâncias especiais da Grécia que os levam a excluir a
dívida pública da lista de activos que devem ser liquidados. Se
lhes pedíssemos para explicar o que são estas
"circunstâncias especiais", penso que, após uma longa
discussão, desconfiaríamos de que são levados a isentar a
dívida pública dos activos a serem liquidados por uma
razão simples e deprimente: perderam a fé na capacidade das
elites nacionais gregas para levar a cabo o processo de
liquidação. Perderam a fé na capacidade das autoridades
gregas, dos empresários gregos, mesmo em si próprios, para
pilotarem a Grécia, através da liquidação
hayekiana, no caminho de um estado libertário dos negócios. E
como não pensam que as elites gregas possam fazer isto, depositam todas
as suas esperanças em que as elites do Norte da Europa (talvez com a
assistência do FMI) farão isso por eles. E para assegurar que isto
venha a acontecer, ficam felizes em sacrificar um princípio
básico hayekiano a fim de não antagonizar os parceiros europeus
do Norte os quais, por suas próprias razões, estão
ansiosos por continuar a acumular novos empréstimos
insustentáveis em cima do estado grego (ao invés de liquidar os
existentes).
Epílogo
Uma transacção faustiana parece ter sido selada entre os
neoliberais hayekianos do bailoutistão (com a variedade da Grécia
sendo o mais notável exemplo) e a abordagem estatista de salvamento do
BCE-UE-FMI. Isto explica parcialmente o que designarei como Anomalia Liberal da
Periferia Europeia: neoliberais que estão felizes com a ideia de enormes
empréstimos financiados pelo contribuinte a entidades estatais
insolventes. Contudo, esta explicação é apenas parcial
pois deixa de explicar uma importante observação. Recordando a
inferência de Sherlock Holmes do abominável "cão que
não latiu", levanta-se a questão (respeitante aos hayekianos
gregos e também aos irlandeses): Por que nada disseram acerca da
necessidade de liquidar os banqueiros da nação? (Ou melhor, os
accionistas de bancos irlandeses?)
Minha tese é que, mesmo aceitando a hipótese acima da
transacção faustiana (nomeadamente de que as elites locais
perderam a fé em si próprias e querem a troika para supervisionar
a sua própria e estranha
"Estrada para a Servidão"
[NT 3]
), não há nada no manual neoliberal que possa explicar o seu
silêncio total sobre os bancos nacionais (ex.: gregos ou irlandeses) que
desempenharam um enorme papel, muitíssimo negativo, no provocar do boom
que levou à queda. Apesar de que Hayek recomendaria que estes banqueiros
fossem liquidados de imediato (a fim de ensinar a todos uma lição
acerca das consequências da excessiva criação de
crédito), os neoliberais da Grécia e da Irlanda são
absolutamente silenciosos sobre isto. Por que é assim? No caso da
Grécia, a resposta é evidente: Por causa do relacionamento
extremamente aconchegante entre os ditos neoliberais e os banqueiros. Ponto.
Em conclusão, os salvamentos da eurozona assumiram uma outra portagem
oculta: eles estriparam a honestidade intelectual da própria escola de
pensamento à qual recorre para inspiração grande parte das
elites da Europa.
Notas
[1] Friedrich von Hayek, Market Standards for Money, Economic
Affairs, April-May 1986.
[2] O melhor que eles podem fazer é argumentar que se a Grécia
incumprir não será capaz de retornar aos mercados
monetários; um argumento quase absurdo uma vez que (A) a Grécia
não retornará, de qualquer forma, aos mercados e (B) o argumento
de Hayek seria que isto é uma coisa esplêndida (pois
forçaria o estado grego a viver dentro dos seus meios e restaurar
a sua reputação através da frugalidade e da
prudência).
NT
[NT 1] Bailoutistão: Palavra derivada de
bail-out
(salvamento).
[NT 2) Kolonaki: Bairro rico de Atenas.
[NT 3]
Estrada para a servidão (
Road to Serfdom
):
Título de um livro de Hayek.
O original encontra-se em
yanisvaroufakis.eu/2012/02/28/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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